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Eduardo Aires White Studio

No documento In vino veritas (páginas 112-115)

merece conhecimento, sabedoria e também paixão pelo vinho, acho

Capítulo 5. Investigação Activa

1. Entrevistas Exploratórias

1.1. Eduardo Aires White Studio

Eduardo Aires é professor e um conceituado designer no mercado Portu- guês, actuando em diferentes vertentes da cultura visual que nos envolve.

Nome respeitado no desenvolvimento da imagem vinícola portuguesa, foi um dos primeiros designers que decidiu enveredar pelo desenvolvi- mento de rótulos, e possui actualmente no seu portfólio a Herdade de Esporão, uma das mais relevantes produtoras vinícolas nacionais.

Eduardo Aires iniciou o seu percurso em 1987. Na altura leccionava na área do design e, em simultâneo, abriu o seu próprio atelier com António Modesto, um amigo de longa data. Como o designer refere, este atelier não foi desenvolvido com grande base metodológica. Este auto publici- tava-se como uma empresa multidisciplinar e, assim, foi obtendo um crescimento que o designer considera como expectável. Aos quarenta anos, Eduardo Aires iniciava-se na produção de rótulos de vinho, como uma evolução que considera natural, uma vez que já tinha no seu curri- culum a criação de objectos de detalhe, como selos (que, aliás, não dei- xou de criar). O designer descreve esta ligação como normal, por se tratar apenas de uma mudança de formato, dado que ambos os tipos de trabalho se caracterizam por uma grande especificidade, e procuram na microestrutura uma ligação a tudo aquilo que os envolve. No caso do vinho, todos os aspetos devem ser considerados, desde qual a relação que o rótulo terá com a garrafa, até qual a mensagem que pretendemos transmitir com o mesmo.

Eduardo Aires, acredita que tanto o vinho como a sua imagem devem possuir uma voz própria, devem ser capazes de transmitir ao público aquilo que representam, o que simbolizam. O autor utiliza a criação de um conceito como início da sua concepção que geralmente o remete para um aspecto relevante – o local do produto. Segundo o designer, nada é mais importante do que a origem do vinho. A localização da pro- dução revela muito sobre o mesmo. É necessário perceber a história, os costumes e os hábitos da região para conseguir direccionar o projecto. Afirma ainda que, sempre que possível, procura juntar uma equipa mul- tidisciplinar, com elementos ligados a disciplinas como a geografia, a geologia ou até mesmo a antropologia. Conclui que são também elemen- fig. 50 | Fotografia de Eduardo

Aires no White Studio

Fonte: Carta&Carta, 2019., s.p. Disponível em http://www. cartaecarta.com/blog/2017/5/9 /40-white-studio-eduardo-aires Consultado em 20 Junho 2019

tos fundamentais os produtores e os moradores de onde provém o vinho. A riqueza da equipa de trabalho permite a criação de um argumento forte à volta do conceito, “mais agarrada fica a solução visual ao próprio lugar e, ao mesmo tempo, torna-o diferente dos outros’’.

O designer tem como objectivo alcançar a diferenciação em cada um dos seus projectos, porque acredita que esta potencia a criação de valor – uma das principais funções do design.

Quando questionado sobre a relação do texto com a imagem, Eduardo Aires afirmou que existe uma certa redundância. Muitos vinhos utilizam a tipografia como imagem, uma tipografia escolhida minuciosamente que procura representar o tipo de vinho, assim como o seu produtor. Novamente, o autor atribui relevância ao estudo do local como meio de encontrar elementos e/ou imagens que remetam automaticamente para uma cultura ou uma região. O texto e a imagem relacionam-se como microelementos que devem funcionar como um todo, não só entre si, mas também com o formato de garrafa escolhido.

A relação com o cliente é explicada pelo designer, com uma compara- ção da arte com o design: “A grande diferença entre a arte e o design é que a arte sou eu que resolvo para os outros, é a unidade, é a pessoa. No design somos nós e o cliente”. Eduardo Aires não acredita no conceito de projecto final. Defende que este é um caminho que se percorre em con- junto com o cliente na procura da melhor solução. É, assim, uma parceria de vontades, de decisões, quase como que um trabalho de grupo.

Com as parcerias, surgem novas ideias, novos conceitos, mas são também inúmeras as vezes que as ideias do autor se perdem, apesar de o mesmo acreditar que estas seriam uma excelente solução. O designer apresenta, assim, o importante conceito da falha, e reforça como este remete para a evolução, pois permite encontrar novos caminhos. Tenta- tiva e erro ajudam a alcançar a solução para o projecto.

Questionado sobre se um projecto é apenas o rótulo, o autor responde que até já mantas foram utilizadas como elemento visual para o vinho Monte Velho, reforçando que um rótulo nunca é só um rótulo, é uma identidade visual, é um universo, é toda uma proposta coesa que procura ser inserida de um modo estratégico no mercado. Por vezes, há herda- des que já possuem uma identidade, um lugar no mercado e, nestes casos, existem regras a serem respeitadas, costumes a serem seguidos. “Se eu viesse para aqui de calções de banho estranhavas, não é?”. A roupa que o vinho veste há inúmeras gerações tem de ser respeitada, o que não significa que não possa existir espaço para melhorias, ou inovação.

veste, Eduardo Aires foi questionado acerca de qual o melhor material para executar as diversas “vestimentas”, e de como se desenvolve o pro- cesso de escolha das mesmas. O designer afirma que é o próprio pro- jecto que escolhe o seu caminho, é um desenrolar de conceitos que remetem para determinada técnica de impressão ou de fabrico. O artista explicita que o mais relevante num designer é possuir a consciência de tudo aquilo que pode ser executado. Tem que ter conhecimentos das limitações industriais, de modo a conceber um projecto que seja execu- tável. O levar ao limite as técnicas, os materiais, assim como, uma junção de dois tipos de impressão nunca antes conjugados, cria inovação, e acima de tudo cria diferenciação, sendo este o principal objectivo do designer. “Quem executa tecnicamente também se apaixona, também sente que realmente o trabalho é válido, é diferente e é novo.” A VOX é a gráfica a que geralmente recorre, reconhecendo-a como a maior da Península Ibérica.

O design de rótulos em Portugal está a nascer, afirma Eduardo Aires. Uma combinação de factores evolutivos da sociedade remete cada vez mais para uma vaidade relativa a tudo aquilo que existe. O mercado dos vinhos não foge a esta notória evolução. Procura, assim, nos dias de hoje, uma imagem nova, devido à mudança observada na concorrência, ou por sentido de necessidade própria. O design de rótulos tem agora lugar em notórios ateliers de design, tendo deixado de ser produzido de uma forma caseira e pouco profissional.

fig. 51 | Conjunto de rótulos desenvolvidos por Eduardo Aires

Fonte: Investigadora, 2019. Adaptado de Eduardo Aires, 2019 Disponível em http://www. eduardoaires.com/studio/ portfolio/quinta-do-quetzal/, http://www.eduardoaires.com/ studio/portfolio/coelheiros/ Consultado em 22 Junho 2019

No documento In vino veritas (páginas 112-115)