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PARTE II: A AUTO-FORMAÇÃO DO HOMEM SEGUNDO FINS (IDEIAS)

CAPÍTULO 6: Educação e auto-formação moral ou Educação e natureza humana

6.1. Sobre a Pedagogia

6.1.4. Educação e natureza humana

Kant defende que qualquer ser racional pode discernir o que é certo ou errado do ponto de vista moral. Assim, por exemplo, na Fundamentação da Metafísica

dos Costumes ele afirma que “a razão humana no campo moral, mesmo no caso do mais

vulgar entendimento, pode ser facilmente levada a um alto grau de justeza e desenvolvimento” (GMS 4:391); no mesmo contexto, contrapondo o conhecimento teórico ao prático, ele afirma que “o conhecimento daquilo que cada homem deve fazer, e por conseguinte saber, é também pertença de cada homem, mesmo do mais vulgar” (4:404). Até mesmo “as crianças de mediana idade” conseguem distinguir o valor das ações e a partir de bons exemplos se sentirem inspiradas ao bem (4:411n).

Podemos, contudo, levantar a questão mencionada anteriormente: se o mais simples entendimento pode chegar a um alto nível de discernimento moral qual a necessidade de um cultivo e de uma educação no campo ético? Aqui há uma aparente tensão no pensamento kantiano,isto é, haveria por um lado a tese de que mesmo a mais vulgar razão pode ser altamente aguçada do ponto de vista moral, e por outro haveria a tese de que o desenvolvimento moral necessitaria de ilustração, de cultivo.

Sullivan65 interpreta que essa tensão tem sua origem, por um lado, (que valoriza a razão vulgar) no background fornecido pela ética pietista ao pensamento de Kant, e por outro (que exige um certo nível de civilização para a moralidade) pelo forte compromisso de Kant com o Aufklärung (1989, p.191).

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De todo modo, Sullivan não toma uma posição na tentativa de superar a questão, mostrando qual seria a alternativa mais coerente, mas antes tenta justificar ambas as posições: primeiro, argumenta apoiando-se basicamente no § 83 da Crítica da

Faculdade do Juízo para sustentar que “Em uma palavra, quanto mais educados somos,

maior é nossa capacidade para autonomia” e que “a habilidade de colocar e perseguir fins pode ser um pré-requisito essencial para ser um agente racional, capaz de agir por propósitos morais” (1989, p. 192). Em contrapartida, também defende, com base na

Antropologia de um ponto de vista pragmático e Metafísica dos Costumes, que colocar

a cultura como condição da moralidade tende a perverter antes do que promover a mesma, pois ela não pode ser fundada “num natural, não-moral desenvolvimento dos poderes humanos”, e ademais, como Kant observa diversas vezes, a civilização pode nos conduzir a um estado de males e destruição.

Penso que o ponto chave para se perceber que não há nenhuma incoerência na posição de Kant é perceber a relação entre educação e natureza humana. Embora, mesmo a razão vulgar, pode saber o que deve ou não fazer, dada sua natureza sensível isso não significa que ele fará. Todo homem sabe o que deve fazer, que portanto pode fazê-lo, mas isso não significa que ele fará. A pedagogia moral kantiana teria a função principal de permite que o homem pudesse domar ou controlar melhor seus desejos, inclinações, afetos e paixões, sempre levando em conta aqueles traços que podem obstruir ou ajudar o homem a agir moralmente.

Neste sentido, a Doutrina do método da Doutrina da Virtude é clara ao mostrar que didática ou ensino ético não tem como objetivo ensinar simplesmente o

conceito de virtude, mas também colocá-la em prática:

Mas visto que não se conquista o poder de pôr na prática as regras da virtude simplesmente se ensinando como se deve comportar, a fim de conformar-se ao conceito de virtude, os estóicos se limitaram a entender que a virtude não pode ser ensinada meramente por conceitos de dever ou mediante exortações (por paraenese), necessitando, ao contrário, ser exercitada e cultivada mediante esforços, com o fito de combater o inimigo interior dentro do ser humano (ascese), pois não se pode incontenti fazer tudo que se quer fazer sem primeiramente ter experimentado e exercitado os próprios poderes. (TL 6:477)

É interessante notar que novamente aqui Kant cita os estóicos. O seu ponto, de todo modo, é mostrar que a educação, a ilustração ou o desenvolvimento moral do

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homem não consiste apenas em ensinar o que é o dever, o que diz a lei moral, mas como o homem pode levando em conta sua natureza, efetivamente executá-la. A simples clareza da lei moral ao entendimento do homem, não o torna moral; ninguém se torna virtuoso, por saber o que é a virtude. É necessária uma história moral, progressos que permitam o homem continuamente conformar sua vontade à lei, numa “batalha” (ainda que num sentido fraco como vimos anteriormente) contra sua natureza finita.

Quanto à tese fundamental em Kant de que a lei moral é sempre um móbil da ação, a ideia de que no processo de formação moral do homem faz-se necessário uma didática e uma ascese moral, em nada depõe contra isso. Apesar de ter a lei moral e de saber o que ele diz, o homem ainda assim segue seus desejos, o amor próprio em detrimento da lei. O que se quer aqui mostrar é que a educação moral seria um processo, para treinar o homem, fortalecendo seu caráter e purificando sua vontade daqueles obstáculos, isto é, dos móbiles contrários à intenção virtuosa.

Na própria Fundamentação da Metafísica dos Costumes, onde Kant ainda não abre espaço para a antropologia e pedagogia, ele mostra que do fato de razão vulgar ter um certo discernimento quanto à lei moral, isso por si só não garante nada quanto ao seu cumprimento:

A inocência é uma coisa admirável; mas é por outro lado muito triste que ela se possa preservar tão mal e se deixe facilmente seduzir. E é por isso que a própria sageza – que de resto consiste mais em fazer ou não fazer do que em saber – precisa também da ciência, não para aprender dela, mas para assegurar às suas prescrições entrada nas almas e para lhes dar estabilidade. (GMS 4:404-405)

Kant evidentemente não está falando aqui da necessidade de uma didática ou ascese ética (seu ponto é mostrar a necessidade da passagem do conhecimento moral da razão vulgar para um conhecimento filosófico), mas a citação ilustra bem o fato de que o conhecimento que a razão vulgar nos dá é insuficiente. A lei moral brilha intensamente no coração do homem, mas para que ela de fato seja soberana em sua vontade, é necessária uma limpeza interior, um trabalho que impeça que ela seja ofuscada por motivos espúrios.

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