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PARTE I: SOBRE OS FINS DA RAZÃO HUMANA

CAPÍTULO 1: Fim objetivo da razão e a ideia de virtude como perfeição moral

1.1. Ideias da razão e o conceito de fim objetivo

Kant define ideias como conceitos da razão aos quais não pode ser dado na experiência nenhum objeto que lhe seja congruente (KrV B 371, 383), ou seja, conceitos tais que não encontramos objetos que lhe correspondam na realidade empírica. Deixando de lado a discussão de “se” e “como” ideias podem ter um uso profícuo de um ponto de vista teórico e especulativo, Kant salienta que tais conceitos não podem ser tomados como simples quimeras, especialmente de um ponto de vista prático (B 371).

O uso, a utilidade que Kant atribuía às ideias da razão numa perspectiva prática, especialmente na Dialética transcendental, era o de servir analogamente a uma regra moral na medida em que propõe um arquétipo, um modelo para o agir humano. Neste sentido, na verdade uma ideia prática é pensada como um fim proposto pela razão, o qual o homem deve perseguir (B 375). A ideia da razão serve como uma espécie de guia e de padrão de medida para o julgamento. O principal exemplo disso, no que diz respeito à ética é o conceito de virtude:

Com efeito, todo o juízo sobre valor ou desvalor moral é, não obstante, possível somente através desta ideia; por conseguinte, ela encontra-se necessariamente a fundamento de toda aproximação da perfeição moral, por mais distantes que possam manter-nos desta perfeição os obstáculos presentes na natureza humana [...] (KrV B 372).

Kant procura clarificar a função das ideias opondo-as ao conceito de máxima: “A avaliação da moralidade segundo sua pureza e consequências é feita de acordo com ideias, a observância de suas leis ocorre segundo máximas.” (B 840). Assim, se por um lado, as ideias propõem fins para o homem, ao mesmo tempo, afirma Kant, mostram uma “verdadeira causalidade” e “tornam-se causas eficientes (das ações e dos seus objetos)” (B 374), e é claro que isto só acontece se se assume uma

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determinada ideia em sua máxima, isto é, caso o homem faça de um tal conceito um princípio subjetivo para o seu agir.

É questionável se tal posição apresentada na primeira Crítica é conciliável com a exposta a partir de 1785 na Fundamentação da Metafísica dos Costumes, segundo a qual o único móbil moral é a própria lei moral, expressa por Kant na fórmula do imperativo categórico, o qual prescinde de quaisquer fins e a partir do qual podemos fazer a referida “avaliação moral”. Gary Banham, por exemplo, defende que a concepção moral de Kant fundamentada nas ideias da razão corresponde ao que se pode chamar de seu período ético pré-crítico (BANHAM, 2003). É importante notar, todavia, que na Crítica da razão prática Kant chega a afirmar que a própria lei moral é uma “simples ideia” (B 840)

Não obstante, ao longo de todo o pensamento kantiano pós 1785 vemos as referidas ideias morais, como virtude, santidade e sumo bem, para citar as principais4, aparecerem com freqüência, de modo que não seria exagero afirmar, como o próprio Kant faz, que as ideias são de suma importância para a ética e de modo geral para o agir humano. Na segunda Crítica, por exemplo, ele afirma que as ideias morais servem “enquanto arquétipos da perfeição prática, de regra indispensável da conduta moral e, ao mesmo tempo, de medida de comparação” ( KpV 5:127n).

As ideias, portanto, tal como Kant as concebe propõem ou representam os fins morais que o homem deve buscar (e a partir dos quais pode avaliar sua condição moral). Podemos, entretanto, questionar por que o homem ou a razão humana precisa de ideias ou fins morais, ou seja: o processo de auto-representação de ideias/fins é algo necessário à moralidade? O imperativo categórico já não se impõe como suficiente para a constituição da moralidade, do agente moral? Qual o papel das ideias morais como as de virtude e sumo bem e qual sua relação com o imperativo categórico, isto é, tais ideias por acaso serviriam para preencher alguma lacuna deixada pela fórmula da lei moral considerada isoladamente? A questão pode ser formulada de outras formas. É necessária uma doutrina da virtude, uma exposição dos deveres de virtude para além do princípio

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Na Crítica da razão prática, por exemplo, Kant além da já consagrada ideia de virtude, menciona as ideias de simplicidade da natureza, prudência, sabedoria e santidade, que representariam, respectivamente, as ideias de perfeição moral dos Cínicos, Epicuristas, Estóicos e Cristãos (KpV 5:127n).

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supremo da moralidade (que já nos dá o “metro” adequado de avaliação e efetivação da vida moral)? É necessário assumirmos fins da moralidade, fins que a razão supostamente me dá? E qual seria, neste caso, a relação destes fins com o imperativo categórico?

O Imperativo categórico diz “Age de modo que a máxima da tua vontade

possa valer ao mesmo tempo como princípio de uma legislação universal”. Em

oposição aos imperativos hipotéticos, ele é um imperativo tal que representa uma ação como boa em si e não apenas como meio para outra. Mas, apesar de dizer respeito a ações, segundo Kant, ele “Não se relaciona com a matéria da ação e com o que dela deve resultar, mas com a forma e o princípio de que ela mesma deriva; e o essencialmente bom na ação reside na disposição (Gesinnung), seja qual for o resultado” (GMS 4:416).

A parte final da citação é ponto pacífico. Entretanto, o problema que quero levantar diz respeito à característica do imperativo categórico de não se relacionar com a matéria da ação, ou seja, o objeto de escolha. Digo problema, pois o próprio Kant na

Doutrina da Virtude, por exemplo, mas também na própria Fundamentação da Metafísica dos Costumes (como veremos) irá apresentar posição distinta ao tentar

justificar o conceito de fins que são deveres:

Um fim é um objeto de livre escolha, cuja representação o determina para uma ação (pela qual o objeto é instaurado). Toda ação, portanto, possui seu fim; e uma vez que alguém não pode ter um fim sem este próprio alguém transformar o objeto de escolha num fim, ter qualquer fim de ação, seja qual for, constitui um ato de liberdade da parte do sujeito agente e não um efeito de natureza. Mas porque este ato determinante de um fim é um princípio prático que prescreve o fim ele mesmo (e assim prescreve incondicionalmente), e não o meio (por conseguinte, não condicionalmente), trata-se de um imperativo categórico de pura razão prática e, portanto, um imperativo que liga um conceito de dever àquele de um fim em geral. [...] Ora, tem que haver um tal fim e um imperativo categórico a ele correspondente, pois uma vez que há ações livres é necessário haver também fins para os quais, como seus objetos essas ações são dirigidas. Mas entre esses fins é preciso haver alguns que sejam (isto é, por força do seu conceito) deveres, pois se não houvesse tais fins, todos os fins seriam válidos para a razão prática somente como meios para outros fins e, uma vez que não pode haver nenhuma ação sem um fim, um imperativo categórico seria impossível. (TL 6:384-385)

Kant estabelece na passagem acima a relação entre o imperativo categórico e os fins da razão. O argumento dele para tanto pode ser resumido nos seguintes passos:

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1) toda ação visa um fim, que enquanto tal é um objeto de livre escolha; 2) entre estes fins, contudo, alguns devem ser pensados como necessários em si mesmos (isto é, como deveres), e não apenas como meios, caso contrário nenhum princípio prático poderia ser pensado como um imperativo categórico.

Ou seja, segundo Kant alguns fins tem que ser pensados como necessários (bons em si e não como meio para outros); e, se há um imperativo categórico é porque existem fins que não são arbitrários.

Ora, o fim (ou fins) que Kant tem em mente aqui é o que ele chama na

Fundamentação da Metafísica dos Costumes de fim objetivo: “Ora aquilo que serve à

vontade de princípio objetivo da sua autodeterminação é o fim (Zweck), e este se é dado pela só razão tem de ser válido igualmente para todos os seres racionais.” (GMS 4:427). Assim, é nisto que repousa a diferença entre fins subjetivos e objetivos, a saber, os primeiros são relativos e dependem do desejo particular de cada um, já um fim objetivo é algo válido para todo ser racional e são propostos pela razão. Neste sentido, esclarece Kant, “Os princípios práticos são formais, quando fazem abstração de todos os fins subjetivos;” (Ibidem) e não de todos os fins em geral. O problema é neste sentido definir que tipo de coisa pode ser pensada como fim objetivo da vontade. Este é um ponto que parece preocupar Kant desde a 1785 até a Doutrina da Virtude de 1797.

Ora, a tese de que há (ou tem de haver) um fim objetivo dado pela razão que estaria intimamente ligado ao conceito de imperativo categórico, à fórmula da lei moral, está presente seja na Fundamentação da Metafísica dos Costumes, na Religião nos

limites da simples razão e também na Doutrina da Virtude. Contudo, a concepção de

qual seja efetivamente esse fim muda de um texto para outro.

Na medida em que é “o sujeito de todos os fins” e a fonte de todo o valor, em 1785 Kant coloca como fim objetivo da vontade, a humanidade, e de modo geral, todo ser racional:

Estes não são, portanto, meros fins subjetivos cuja existência tenha para nós um valor como efeito da nossa ação, mas sim fins objetivos, quer dizer coisas cuja existência é em si mesma um fim, e um fim tal que se não pode pôr nenhum outro no seu lugar em relação ao qual essas coisas servissem apenas como meios; porque de outro modo nada em parte alguma se encontraria que tivesse valor absoluto; mas se todo o valor fosse condicional, e por

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conseguinte contingente, em parte alguma se poderia encontrar um princípio prático supremo para a razão. (GMS 4:428).

Nota-se que o que Kant está a defender aqui é basicamente o mesmo que ele defende na passagem supracitada da Doutrina da Virtude (6:384-385), ou seja, enquanto no texto de 1797 ele diz “ou se assume fins que são deveres ou o imperativo categórico é impossível”, em 1785 a tese é “ou se assume fins objetivos da razão (natureza racional como fim em si) ou o imperativo categórico é impossível. O argumento para justificar tais fins é igual, mas seu conteúdo (do fim) é diferente, pois os fins que são deveres, como sabemos, são a perfeição própria e a felicidade alheia. Poderíamos, contudo, inferir que tais fins podem ser deduzidos do conceito de natureza racional como fim em si, isto é, poderíamos dizer que a perfeição própria e felicidade alheia são fins que são deveres, pois são desdobramentos daquele conceito: devo buscar tais fins à medida que tomo a natureza racional (seja na minha pessoa, seja na pessoa do outro) como fim em si, como possuindo dignidade, vale dizer, um valor intrínseco.

Acontece que entre a Fundamentação da Metafísica dos Costumes e a

Doutrina da Virtude, mais precisamente na Religião nos limites da simples razão de

1793, Kant irá fundamentar o imperativo categórico, colocando como fim objetivo da vontade um outro conceito, digamos, bem mais complicado de se “deduzir” da ideia de natureza racional como fim em si, a saber, o de sumo bem.

Na verdade, o ponto de Kant em 1793, assim como em 1797, será mostrar que precisamos assumir certos fins racionais porque sem nenhuma referência a fins, segundo ele, não pode haver nenhuma determinação da vontade. A questão é que o fim que ele propõe é aquele que representa a totalidade dos fins que o ser racional pode almejar:

Mas embora a Moral não precise em prol de si própria, de nenhuma representação de fim que tenha que preceder a determinação da vontade, pode ser que mesmo assim tenha uma referência necessária a um tal fim, a saber, não como um fundamento, mas como às necessárias conseqüências das máximas que são adotadas em conformidade com as leis. – É que sem qualquer relação de fim não pode ter lugar no homem nenhuma determinação da vontade, pois tal determinação não se pode dar sem algum efeito, cuja representação tem de se poder admitir, se não como fundamento de determinação do arbítrio e como fim prévio no propósito, decerto como conseqüência da determinação do arbítrio pela lei em ordem a um fim (finis

in consequentiam veniens); sem este, um arbítrio que não acrescente no

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subjetivamente (objeto que ele tem ou deveria ter), sabe porventura como, mas não para onde tem de agir, não pode bastar-se a si mesmo. (RGV 6:4)

Como disse acima, o ponto de Kant aqui permanece sendo propor um fim racional para o agir humano, ou melhor, mostrar que certos fins promanam necessariamente da própria razão, uma vez que não se pode determinar a vontade sem referência a fins. Desta vez ele não vincula isso explicitamente à ideia de que sem tal ou tais fins o imperativo moral seria vão, mas à tese de que a razão não pode ser indiferente às conseqüências do agir, que não basta saber como agir, mas também importa saber

para onde a ação humana se dirige, isto é, como ele próprio afirma na sequência da

passagem supracitada não pode a razão passar alheia à questão “que resultará deste nosso reto agir?”.

Como já antecipei acima tal fim seria a ideia de um objeto que abarca em si “a condição formal de todos os fins, como os devemos ter (o dever), e ao mesmo tempo todo o condicionado com ele concordante de todos os fins que temos (a felicidade adequada à observância do dever)” (RGV 6:5), ou seja, a ideia de sumo bem.

Kant na Religião nos limites da simples razão não atrela explicitamente a possibilidade da lei moral (ou da sua fórmula, o imperativo categórico) à realidade do mencionado fim (como faz na Fundamentação da Metafísica dos Costumes com o chamado fim objetivo, na Doutrina da Virtude com os fins que são deveres e no Canon

da razão pura da primeira Crítica e na Crítica da razão prática5 em relação ao próprio conceito de sumo bem), mas fala de uma “necessidade natural de pensar um fim último qualquer que possa ser justificado pela razão para todo o nosso fazer e deixar de fazer

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No Cânon Kant afirma que sem a pressuposição de Deus e de um mundo inteligível por meio dos quais pudéssemos conectar a nossa expectativa de felicidade proporcional à nossa virtude, uma vez que a união entre estes dois elementos (virtude e felicidade) é dada pela própria razão, deveríamos “considerar as leis morais como quimeras vazias, pois sem este pressuposto as consequências necessárias que a razão conecta com as leis morais estariam fadadas a não se realizarem.” (KrV B 839). Na Crítica da razão

prática, por sua vez, ele defende que “Ora, dado que o fomento do bem supremo, o qual encerra no seu

conceito esta conexão [virtude e felicidade], é um objeto (Objekt) a priori necessário da nossa vontade e está indissoluvelmente ligado à lei moral, a impossibilidade deste fomento deve demonstrar também a falsidade da lei. Se, pois, o soberano bem é impossível segundo as regras práticas, então a lei moral, que ordena promover o mesmo, deve também ser fantástica e votar-se a fins imaginários vazios, por conseguinte, ser falsa em si.” (KpV 5:114). Cf. o Capítulo 4 do presente trabalho, onde procuro fazer uma análise mais detalhada do suposto dever de promover sumo bem.

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tomado no seu todo, necessidade que seria aliás um obstáculo para a decisão moral.” (RGV: Ibidem).

Não fica muito claro, a meu ver, quais seriam as dificuldades para a “decisão moral” que surgiriam da inexistência de um fim que atenda esta necessidade natural humana, mas me parece que o que ele quer novamente dizer é que se toda e qualquer determinação da vontade supõe fins deve haver algum fim moral que sirva de escopo para o agir humano, caso contrário deveríamos admitir que todos os fins são subjetivos. Neste sentido, tendo a pensar que o que Kant quer dizer é, mais uma vez, que a não representação de um fim justificado pela razão, um fim último ou objetivo da mesma, acarretaria em problemas para justificar a própria lei moral, o que aproximaria a posição de Kant na Religião nos limites da simples razão ao que ele expõe sobre o tema em 1788 e de modo geral à discussão sobre a necessidade de se encontrar um fim moral (objetivo) para as ações.

Pois bem, resumamos o que encontramos até aqui: Kant em 1785 defende que o imperativo para se dizer categórico não pode se relacionar com fins (matéria da ação) e tampouco se ocupar com que resultados a ação terá, mas apenas “com a forma e o princípio de que ela mesma deriva”. Não obstante, na mesma obra ele procura mostrar que precisamos encontrar algum fim objetivo para ação humana, pois se não encontramos algo que em si tenha valor absoluto nada além de imperativos hipotéticos poderiam ser formulados. Tal fim, a que ele dá o nome de fim objetivo da vontade, é o homem enquanto ser racional.

Na Religião nos limites da simples razão, por outro lado, a questão da necessidade de um fim justificado pela razão (portanto, não meramente um fim subjetivo), haja vista que sem a proposição de fins não há a possibilidade de qualquer determinação da vontade, também é colocada. Mas o fim em questão passa a ser o conceito de sumo bem que reúne a totalidade dos fins para um ser racional, a virtude e felicidade, numa conexão tal que a fruição desta última seja dispensada de acordo com o grau de mérito atingido em relação à primeira.

Na Doutrina da Virtude, por sua vez, seguindo uma argumentação bem próxima à exposta na Fundamentação da Metafísica dos Costumes (quanto à

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necessidade adoção de um fim objetivo sem o qual o imperativo categórico não teria lugar), Kant, no entanto, mostra que os fins que podem servir como objetos necessários do agir moral são o que ele chama de fins que são deveres, ou mais especificamente a perfeição própria e a felicidade alheia.

Não há dúvidas de que nos três textos mencionados o ponto de Kant é firmar aquilo que ele define em 1785 como o fim objetivo da vontade (apesar das mudanças de posição no que se refere ao conteúdo de tal fim). É necessário então um exame mais acurado do que seja e do que realmente se quer com um tal conceito para entendermos as razões de tais modificações e para verificar se Kant efetivamente consegue ter êxito quanto ao que procura.

Na seção II da Fundamentação da Metafísica dos Costumes, o fim objetivo seria aquele fim que “deve constituir como lei a condição suprema que limita todos os fins subjetivos, e que por isso só pode derivar da razão pura”. (4:431). Ou seja, representa apenas uma condição limitativa para os princípios subjetivos, um princípio negativo6. Na Doutrina da Virtude, com o conceito de fins que são deveres, ele apresenta fins objetivos positivos para a vontade do homem, isto é, Kant propõe fins que são ao mesmo tempo princípios eficientes do agir moral, fins que devem ser buscados e não meramente que limitam os princípios subjetivos particulares. Assim, tais fins evidentemente se coadunam com o princípio exposto em 1785, vale dizer, não

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Ernst Tugendhat, em sua análise da segunda seção da Fundamentação da Metafísica dos Costumes, faz um exame do conceito de fim objetivo proposto por Kant. Seu foco principal, no entanto, não é no papel que tal conceito desempenha dentro da argumentação kantiana, mas antes de discutir o seu conteúdo, ou seja, a concepção de humanidade enquanto fim em si. Segundo ele, tal conceito é nulo, vazio, de modo que a segunda formulação do imperativo categórico, que tem tal conceito como base, não diz nada que já não esteja de uma forma ou de outra na primeira formulação (TUGEHDHAT, 1997, p. 155 e 156). Para ele o erro de Kant esteve em fundamentar tal conceito numa “pretensa qualidade, que conviria aos seres humanos já em si mesmos, e com isso o mandamento é falsamente ontologizado” (1997, p.155). Evidentemente, a análise de Tugendhat não se reduz a isso, e na verdade é extremamente interessante, entretanto, a partir do que venho discutindo no presente texto, posso dizer que ele ignora o ponto principal, a saber, o da função que exerce o conceito de fim objetivo dentro da argumentação kantiana, e em especial no referido texto de 1785. Vale dizer, Kant propõe tal conceito, pois, como já mencionei inúmeras vezes, ele acredita que sem ele o próprio conceito de imperativo categórico seria inconsistente.