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PARTE I: SOBRE OS FINS DA RAZÃO HUMANA

CAPÍTULO 2: Santidade e Virtude

2.3. Perfeição moral na Doutrina da Virtude

2.3.2. Virtude e santidade na Doutrina da Virtude

Na ética kantiana temos apenas deveres para com os seres humanos27, isto é, o homem tem ou deveres para consigo mesmo ou para com os outros. Tal divisão se baseia em outra distinção, a saber, naquela que define os fins que são também deveres como sendo a felicidade alheia e a perfeição própria. Neste sentido, os deveres para consigo mesmo dizem unicamente respeito ao fomento da perfeição do homem, seja ela natural (pragmática) ou a perfeição moral propriamente dita.

Passemos a uma análise das divisões dos deveres para consigo mesmo. Segundo Kant é possível uma divisão dos deveres para consigo mesmo tanto objetiva quanto subjetiva. Na divisão objetiva (que se refere ao que é formal e material nos

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Em TL 6:447 em vez de colocar a questão de se há uma ou várias virtudes na diferença de consideração entre o aspecto formal ou material da virtude, Kant novamente apela para a distinção entre um aspecto objetivo (virtude como idéia e, portanto como perfeição) e um subjetivo (virtude no homem como ser imperfeito), e neste sentido aproxima-se da posição da Religião nos limites da simples razão: “[...] é verdadeiro que em sua ideia (objetivamente) há somente uma virtude (como força moral das máximas de cada um); mas de fato (subjetivamente) há uma multidão de virtudes, constituídas de numerosas qualidades distintas, e seria provavelmente impossível não encontrar nela alguma falta de virtude, se quiséssemos procurar por ela [...]”.

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deveres para consigo mesmo) podemos dividir os deveres em negativos (limitativos) e

positivos (ampliativos): os deveres negativos "proíbem um ser humano de agir

contrariamente ao fim de sua natureza e, assim, tem a ver meramente com sua auto-

preservação moral"; os deveres positivos que "ordenam a fazer de um certo objeto de

escolha o seu fim, concernem ao seu aperfeiçoamento de si mesmo". Ambos pertencendo à virtude, quer como deveres de omissão (sustine e abstine), quer como deveres de execução (viribus concessis utere). (TL 6:419).

Os negativos "dizem respeito à saúde moral (ad esse) de um ser humano como objeto tanto de seus sentidos exteriores quanto de seu sentido interior, para a preservação de sua natureza em sua perfeição (como receptividade)". Os positivos "dizem respeito à sua prosperidade moral (ad melius esse; opulentia moralis), que consiste na posse de uma capacidade suficiente para todos seus fins na medida em que isso possa ser adquirido; concernem ao seu cultivo (aperfeiçoamento ativo) de si mesmo".

O princípio dos deveres negativos para consigo mesmo se acha na máxima

"vive em conformidade com a sua natureza" (naturae convenienter vive), ou seja,

preserva a ti mesmo na perfeição da tua natureza; o princípio dos deveres positivos está no aforismo "faz a ti mesmo mais perfeito do que a simples natureza te fez" (perfice te

ut finem; perfice te ut medium).28

Além de colocar os deveres negativos como formais, limitativos, de

omissão, da saúde moral, da autopreservação moral, ele também os coloca como perfeitos (TL 6:421), isto é que não admitem exceção em favor das inclinações29; os

positivos, além de materiais, são ampliativos, de execução, de prosperidade moral, de aperfeiçoamento de si mesmo são colocados como imperfeitos (TL 6:444), admitindo

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Esta divisão é importantíssima e mostra como a concepção de virtude de Kant se baseia em elementos de filosofia da filosofia dos antigos.

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Os deveres perfeitos são aqueles que não dão, digamos “margem de manobra” alguma ao arbítrio no seu cumprimento e cuja realização não é meritória (mera obrigação) e o descumprimento é um demérito. Os deveres imperfeitos, pelo contrário, admitem a referida margem admitindo algumas exceções quanto à sua realização (sem demérito ao indivíduo), sendo o cumprimento mérito. Assim, preservar a própria vida é um dever para consigo mesmo perfeito; já cultivar os talentos é um dever para consigo mesmo imperfeito.

57 exceções em determinadas circunstâncias.

A segunda divisão (subjetiva) "é uma divisão do ponto de vista de se o sujeito do dever (o ser humano) vê a si mesmo tanto como um animal (natural) quanto um ser moral ou somente como um ser moral.

Assim, temos deveres da saúde moral a) onde o homem é considerado ao mesmo tempo como um ser animal e moral, e b) onde é considerado apenas como ser moral; e deveres de prosperidade moral a) onde o homem é considerado ao mesmo tempo como um ser animal e moral, e b) onde é considerado apenas como ser moral.

Kant trata do dever de buscar a perfeição própria segundo um propósito exclusivamente moral na Seção II do Livro II da Doutrina da Virtude. Ali ele distingue dois deveres relativos à busca da perfeição moral: o primeiro diz respeito à santidade, o segundo propriamente à perfeição moral:

Em primeiro lugar, esta perfeição consiste subjetivamente na pureza (puritas

moralis) de nossa disposição para o dever, especificamente na lei que é por si

mesma com exclusividade o estímulo, mesmo sem a mistura de objetivos provenientes da sensibilidade e em ações sendo realizadas não apenas em conformidade com o dever, como também a partir do dever. Aqui o comando é "sê santo". Em segundo lugar, na medida em que tem a ver com o inteiro fim moral de alguém, essa perfeição consiste objetivamente em cumprir todos os próprios deveres e em atingir plenamente o próprio fim moral no tocante a si mesmo. aqui o comando é "sê perfeito". Mas o esforço de um ser humano por esse fim permanece sempre somente como um progresso de uma perfeição para outra. "Se há qualquer virtude, e se há qualquer louvor, luta por ela." (TL 6:446)

Dois pontos chamam imediatamente a atenção na passagem acima: a) A santidade não é identificada aqui com a perfeição moral, mas é apenas parte dela (a parte subjetiva); e b) o termo perfeição moral é tomado em dois sentidos diferentes.

Penso que para podermos entender esses pontos precisamos levar em conta também a distinção entre virtude única e múltiplas virtudes, vale dizer, a distinção entre virtude como disposição moral e virtudes como fins que são deveres. Em tempo: interpreto que a perfeição do homem de um ponto de vista exclusivamente moral na

Doutrina da Virtude seja a virtude (entendida enquanto o inteiro fim moral, isto é como

ideia) e compreenda a busca, por um lado, da santidade (pureza da vontade), enquanto seu aspecto subjetivo, e por outro, da perfeição moral em sentido estrito, (posse das

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múltiplas virtudes, ou dos múltiplos fins que são deveres); assim, perfeição do homem enquanto ser moral, envolve dois deveres de virtude: “Sê santo” e “Sê perfeito” e suporiam por sua parte a virtude entendida enquanto disposição de ânimo forte (fortitudo moralis)30.

Essa interpretação é abonada na sequência do texto, justamente pelo fato de Kant novamente evocar a distinção que resolve o problema sobre se há uma ou várias virtudes: “Mas no que respeita à perfeição como um fim moral, em sua ideia (objetivamente) há somente uma virtude (como força moral das máximas de cada um); mas de fato (subjetivamente) há uma multidão de virtudes” (Ibidem).

Portanto, em 1797 há um conceito lato ou amplo e um mais estrito de perfeição moral: o amplo seria aquele composto de duas partes uma subjetiva e outra objetiva (a conjunção de santidade e perfeição moral em sentido estrito) e o estrito seria exatamente a parte objetiva desta perfeição em sentido amplo, isto é, a posse de todas as qualidades que configuram um homem como virtuoso.

Na Doutrina da Virtude, Kant não abandona o conceito de santidade; mas a sua relação com o conceito de virtude muda. Não é mais, como na Crítica da razão

prática, uma distinção segundo o grau (virtude e perfeição da virtude, como defende

Beck, passível assim de ser confundida com a santidade; não também como na Religião

nos limites da simples razão, onde mesmo com uma distinção qualitativa entre as duas

(pureza e firmeza) a virtude é colocada como meio para a santidade (ou melhor, é necessário proceder com firmeza moral ao se adotar a máxima de ser santo); no texto de 1797 a santidade está contida no conceito de virtude, na medida em que buscá-la é um dever de virtude; ou seja, ela enquanto fim permanece na ética de Kant, não é abolida. Todavia, ela é pensada num contexto que não permite atrelá-la àqueles conceitos transcendentes de Deus e imortalidade da alma. Ademais, o que é quimérico é a ideia de se alcançar a santidade, isto é, o que não é possível ao homem é ser santo (possuir uma

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Neste sentido, temos três sentidos de virtude na TL: 1) virtude como idéia da razão, ou seja, como uma totalidade incondicionada, representação do máximo estágio da moralidade para o homem, e neste sentido, como perfeição moral; 2) virtude como disposição de ânimo representativa do caráter ético, vale dizer, a fortitudo moralis, que supõe a autocracia e que é a um só tempo brava e alegre; e 3) virtude como dever de virtude (múltipla), representando as diversas qualidades morais que o homem pode ter (gratidão, benevolência, etc.).

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vontade pura); e o que se exige não é alcançar a santidade, mas lutar por ela; e luta moral, como vimos, é sinônimo de virtude. Ou seja, o mandato "Sê santo" na Doutrina

da Virtude significa que devemos dominar as inclinações para ter como móbil

unicamente o dever (§ 22). Em outras palavras, santidade é o aspecto subjetivo (pois, diz respeito aos móbiles) da perfeição moral (virtude), enquanto que perfeição (em sentido estrito, o mandato "sê perfeito") é o aspecto objetivo (pois diz respeito aos fins) da perfeição moral (agora em sentido amplo, ou seja, a virtude).

Santidade no Kant tardio é a santidade na medida do humano, isto é, santidade no contexto da virtude. O homem virtuoso é aquele que subjetivamente está sempre buscando a pureza, sempre buscando agir por dever, em detrimento das inclinações.

Na Religião nos limites da simples razão a virtude era definida como aspiração à santidade; na Doutrina da Virtude a santidade é definida como um aspecto subjetivo da virtude, um dever de virtude. Esta mudança de ênfase na relação de uma perfeição com a outra se deve ao processo de sensificação da filosofia kantiana. Ou seja, no pensamento maduro a maior importância é dada àquela perfeição humanamente exequível.

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