O desenvolvimento de uma pesquisa sobre juventude se aproxima das questões socioculturais dos jovens, principalmente, em aspectos relacionados à escola. As dinâmicas escolares, as relações sociais na escola, as características de ensino e aprendizagem contribuem para o desenvolvimento da pesquisa sobre juventude. Primeiro, porque é necessário levar em consideração que a escola faz parte da vida da maioria dos jovens; além disso, é possível identificar que os estudantes desenvolvem suas habilidades e autonomia no percurso da educação formal. Ademais, em se tratando de educaçao pública, a escola pode ser considerada a primeira instituição vinculada diretamente ao Estado com a qual os agentes mantêm contato e pela qual são formados.
A percepção que os jovens têm sobre as condições de sua educação na escola já foi objeto de pesquisa, havendo um reconhecimento sobre a crise da educação pública, em que as estruturas escolares são limitadas e não alteram a realidade social dos jovens. Embora os estudantes de escolas de periferia não consigam pontuar objetivamente em que a
32 Todos os nomes apresentados são fictícios para preservar a identidade dos participantes na pesquisa. 33
escola contribui para a realização de seus sonhos futuros, não há negação de sua importância e existência, “continuam na escola, pois concebem que a relação que estabelecem com a vida urbana será tanto mais promissora quanto mais se apropriarem de um conjunto de saberes que imaginam que a instituição irá lhes proporcionar” (DUARTE, 2014, p. 83).
A construção de um pensamento juvenil sobre educação passa pela compreensão dos movimentos sociais juvenis, e na comparação com a lógica dos movimentos sociais tradicionais, podemos considerar que essas formas de organizações relacionadas a estudantes secundaristas não são comuns. Mesmo que existam instituições e organizações estudantis mais antigas e com longa data de participação, o desenvolvimento de uma pauta organizada por estudantes secundaristas não apresenta muitos dados históricos semelhantes.
Nesse caso, tornam-se importante para nós, os sentidos que os jovens atribuem à educação e aos processos pedagógicos, à estrutura física e às hierarquias constituídas pela escola, às compreensões de oportunidades e exclusão que a escola proporciona, em alguns casos de modo explícito, de outros de modo sutil. Mas compreender a natureza simbólica da categoria educação pode ser uma experiência rica, pois é a partir dos elementos simbólicos no imaginário estudantil que podemos compreender os sentidos reais da participação nas ocupações de escolas.
Se existe uma construção muito bem amparada ideologicamente, esta construção é a ideologia do sucesso e do mérito pela educação na sociedade contemporânea. Seja para a concepção de estratégias de mercado de trabalho, ou para as estratégias culturais, a noção de que a educação é transformadora e libertadora é difundida desde os princípios de constituição do conceito específico de educação, até as características contemporâneas de capital cultural. (BOURDIEU, 2007)
O papel da escola, embora seja afirmado como premissa verdadeira e normalmente inquestionável para a sociedade, não apresenta todos os elementos de sua forma de estruturação, não apresenta seus objetivos de maneira clara. Isto é, embora os objetivos escolares possam parecer explícitos, na verdade não são.
O estudante Pedro, apresenta algumas evidências sobre este processo de ocultamento de determinada realidade social da educação. Para Pedro,
A escola era um lugar que eu sabia que eu precisava, mas havia coisas dentro da escola que eu não sabia porque eu precisava [...] muitas dessas coisas eu fui entender depois, coisas que apresentou, eu poderia ter corrido atrás naquela época não corri, por não saber justamente. (Entrevista: dia 22/11/2018)
No interior da escola, podemos identificar ações e incorporações ocultas, que podem ser descobertas pelos estudantes ao longo do processo educacional. Ao longo dos avanços para séries mais adiantadas, muitos estudantes vão incorporando os habitus escolares; outros, serão fadados aos sistemas de exclusão ou reclassificação.
Segundo Pedro (Entrevista: 22/11/2018), nem todos os estudantes compreendiam o sentido escolar, e ele declara que alguns estudantes, “não sabem o que vão fazer depois daqui, não almejam fazer uma faculdade, ou curso técnico [...] alguns sim, queriam fazer alguma coisa, outros sonhavam, mas, não sabiam nem por onde começar, nem por que começar”. Nesse caso, os estudantes que passam pela escola e não incorporam os sentidos hierarquizados da instituiçao percebem-se em um labirinto, primeiro porque não se identificam com a „escolástica‟ empregada nos discursos escolares e, segundo, porque a escola não oferece outra opção, induzindo os jovens a não se sentirem preparados para absolutamente nada (BOURDIEU, 2001).
Segundo Pedro (Entrevista: 22/11/2018), o
Objetivo da escola, que é o ensinar, entendeu, que é dar conhecimento pra jovens, pra que eles entrem na vida com maior quantidade de oportunidades possíveis [...] o fim é sempre o sucesso é sempre sucesso, só que aí você coloca esse sucesso num degrau que o aluno daqui não tá dentro da natureza dele, não tá dentro do contexto dele ele não, talvez não está pronto ou apto ou ninguém fez questão de que fizesse ele apto a alcançar esse degrau.
Pedro afirma que as dificuldades advindas do sistema escolar existem por responsabilidade do Estado, que não exerce uma “vontade explícita [...] de ensinar, e nós estamos falando daquilo que é toda organização normativa, valorativa, ética, moral de um país, nosso país”. Segundo nosso entrevistado, as formas de resolver esse problema estariam na incorporação de atividades de integração baseadas em cultura e arte.
Para Flávio, (Entrevista: 05/12/2018), “a convivência nesse ambiente político tenso da ocupação precisa de algumas atividades para distensionar para melhorar a nossa convivência”. Nesse sentido, as atividades realizadas no cotidiano, como oficinas, esporte e cultura contribuíam para que fosse possível melhor o humor e reduzir o medo dentro das ocupações. Além disso, essas atividades serviam para educar, ensinar e compartilhar os conhecimentos de cada jovem dentro daquele cotidiano.
De acordo com Pedro: (Entrevista: 22/11/2018):
Eu acho que quanto mais acesso o aluno tem à arte, seja ela qual for, música, pintura, a escultura ou a poesia, principalmente dessa prática na qual ele produz, eu acho que não é só bom como é necessário, é uma necessidade entendeu, tão grande quanto se estudar matemática ou português para escrever uma redação.
O estudante Pedro também questiona as condições reais dos jovens de realizarem uma análise política e social, isso porque para ele, os jovens não recebem da escola o conhecimento de filosofia e política necessários para essa compreensão. Para o entrevistado, “o país é multidiversificado, nós temos pessoas de contextos completamente diferentes, de origens completamente diferentes, então tudo aqui é diferente, então lidar com essa diversidade tem que ser sempre pensando o respeito”. (Pedro, Entrevista: 22/11/2018)
Segundo Pedro, o conhecimento que não foi adquirido pelos estudantes na escola - entre esses conhecimentos está Filosofia e Política - pode, a longo prazo, trazer problemas para o país. Nas palavras do nosso entrevistado, o problema se transmite dos jovens para os adultos, perpetuando-o.
Eu acho que isso ainda é muito confuso na cabeça dos jovens e não ter esse conhecimento, não ser dado esse conhecimento a eles, essa oportunidade interfere grandiosamente no futuro do país porque esses jovens da ocupação, todos que participavam, todos que eram do colégio daquela época serão os adultos daqui a dez, quinze anos. (Entrevista: 22/11/2018)
Para Alessandra, (Entrevista : 27/11/2018), a escola tem uma importância significativa na sua história como pessoa, “eu estudo na mesma escola faz doze anos, então eu aprendi a ler aqui, eu cresci até chegar no terceiro ano do ensino médio que é o ano que eu estou agora, então o CEPAE é muito importante na minha vida”. A estudante afirma que sua realidade social toda foi marcada pela sua passagem pela escola, criando laços de afeto pelo lugar onde estuda.
Para Paula (Entrevista : 30/11/2018), existe um reconhecimento da importância da educação, o que é percebido a partir da sua frase “a escola é a base de tudo, sem educação você não tem praticamente nada”, mas quando perguntada se a educação cumpriu a promessa de qualidade de vida, a mesma declara que não, mas que considera, ainda assim, que “a educação é a base do ser humano para ter uma vida melhor, uma vida mais, digamos, digna de poder conquistar aquelas coisas que eles querem”.
Para Flávio (Entrevista: 05/12/2018), a escola teve um papel importante na sua formação, e relaciona os professores como a referência que teve para se tornar um sujeito. Segundo o entrevistado, os professores eram muito bons e isso foi muito importante para a sua vida. De modo similar à visão de Flávio, a estudante Maria (Entrevista: 13/12/2018), declarou que os professores foram fundamentais para a sua formação e que conseguiram, a partir de uma visão crítica, ensinar os estudantes a compreender melhor a sociedade.
Um estudantes que diverge em relação às falas de outros estudantes entrevistados é Carlos (Entrevista: 18/12/2018). Para ele, a parte mais importante da escola foi a informal. Embora tenha passado por diversas escolas, segundo ele, “as experiências melhores que eu lembro assim de dentro do colégio era a relação com amigos, que eu tive vivências assim, de experiências com amigos com professores que me acolheram em momentos de dificuldades”.
Para Carlos,
A educação na essência ela já transforma, ela pega uma pessoa que não, que não sabe alguma coisa e faz ela começar a entender né, então da essência se for uma educação conservadora, a pessoa é transformada, mas para melhor eu acho que foi aos trancos e barrancos assim, e com muita, com muitos passos pra trás em alguns momentos em alguns colégios, com alguma algumas relações que eu tive também acho que foi assim. (Entrevista: 18/12/2018)
A partir da fala do Carlos sobre a importância da educação podemos perceber que ele apresenta uma versão um pouco maniqueísta desta, quando compreende que toda a transformação realizada pelo processo educativo pode conduzir os sujeitos para a determinação do que são ou para o que vão ser. Nesse caso, podemos compreender que a educação pode cumprir objetivos fundamentais de tornar seres humanos melhores ou piores de acordo com os interesses estatais. Mas compreendemos que essa visão de „tábula rasa‟ defendida por Thomas Hobbes não se apresenta como verdadeira, pois o processo de desenvolvimento da educação impõe mais complexidades e o „agente‟, na condição de humano, também tem seu espaço de decisão além dos campos sociais que podem também servir de determinações reais de existência.