Na última década, foi possível observar, em diferentes partes do mundo ocidental e oriental, um número significativo de protestos, manifestações e ocupações. Muitos desses movimentos não foram restritos aos jovens, mas a participação juvenil é observada em diversos deles. Para Gohn (2013) e Butler (2018), analisar essas manifestações da juventude
significa compreender qual foi o papel desses movimentos nas manifestações socias que aconteceram. Nesse sentido, para as duas autoras, foram necessários a pesquisa e análise sobre movimentos como a „Primavera „Árabe, os „Indignados na Europa‟ (especialmente na Espanha), o „Occupy Wall Street‟e, no caso de Gohn (2013), os movimentos contemporâneos brasileiros.
Para Gohn (2013), é possível reconhecer nesses movimentos contornos que colocam as manifestações recentes como „Novos Movimentos Sociais‟, sendo necessário, para tanto, reconhecer as diversidades nas quais esses movimentos sociais se encontram para, assim, podermos compreender como as ações coletivas podem ser entendidas e relacionadas entre si. Segundo a autora, essa observação é importante para podermos compreender os sentidos e significados presentes em cada aspecto das organizações, sem, de modo artificial, irromper em uma generalização indevida.
O que é analisado pela socióloga, são os movimentos sociais, as ações em coletividade, as redes, as relações entre grupos, grupos de contestação, rompimentos e alianças na composição dos membros sociopolíticos. Para isto, a autora coloca a juventude no seu percurso de análise, ao demostrar que os jovens cumprem um papel importante nas últimas manifestações em massa. As mobilizações coletivas promovidas principalmente por jovens demonstram, segundo a autora, um novo modelo de sociativismo no momento atual. (GOHN, 2013, p. 11)
A autora desenvolve um balanço histórico dos movimentos sociais, que apresentam diferentes características e pautas de acordo com cada período. Para Gohn (2013), nos anos de 1990, a perspectiva dos movimentos sociais estava pautada sob o contexto econômico do neoliberalismo, principalmente a partir dos processos de globalização do sistema capitalista. Os discursos estavam voltados aos problemas que as medidas neoliberais poderiam impactar nas condições sociais de diversas sociedades.
De acordo com Gohn (2013), entre os anos 1990 e 2000, com o avanço tecnológico e computacional, a internet cresceu em número de acessos e desenvolve-se a partir de uma linguagem diferente, pois alterou as condições do exercício da linguagem. Mas o que mais marcou esse período foi a busca pelo reconhecimento e participação dos movimentos sociais nas esferas estatais e institucionais. Mas, a partir dos anos 2000, principalmente depois dos atentados terroristas contra os EUA, os movimentos transnacionais ganham espaço.
As novas ações e táticas dos movimentos sociais não seriam mais guiados pelo chamado dos partidos políticos tradicionais e sindicatos trabalhistas. “De fato, as novas
mobilizações não são convocadas por partidos ou sindicatos, ainda que muitos deles peguem carona com o desenrolar das ações” (GOHN, 2013, p. 20). Surgem de grupos que vinham desenvolvendo suas integrações pela internet, pelas redes sociais e que exploravam questões culturais. Os problemas do cotidiano passaram a ter reconhecimento, assim como diversos debates morais e éticos passaram a figurar como possibilidades de se fazer política e mudar comportamentos..
Embora os diversos instrumentos como marchas, manifestações de rua e ocupações continuem a ser utilizados pelos grupos, incorporam-se à realidade das manifestações novas ferramentas, com o uso das redes sociais. Passa-se a oferecer ao público determinada imagem que, antes, era representada a partir do monopólio midiático, mas, com as redes sociais, as mídias tradicionais perdem a hegemonia de transmissão de suas narrativas, isto é, as narrativas deixam de ser únicas e passam a figurar no que Butler (2018) compreende como ações performáticas corporais
Ao alterar as formas de linguagem e incorporar diversas abordagens em uma manifestação, os jovens conseguem manter-se no cenário como um fato social, e suas pautas passam a disputar com outras pautas mais gerais, levando-os a conseguir, de modo instantâneo, obter notoriedade social e atenção da sociedade civil.
Para Gohn (2013), é possível perceber nos movimentos sociais contemporâneos, similaridades na sua atuação em diferentes partes do mundo, como por exemplo a ocupação de espaços públicos e as convocações realizadas pelas redes sociais, a difusão de fatos e da narrativa da manifestação, a maior descentralização dos poderes de partidos e sindicatos, maior relação das manifestações com o pensamento anarquista e autogestionários, e ainda uma predominância na participação da juventude.
Segundo a autora, no Brasil, a partir de uma maior democratização de acesso e participação da sociedade civil a espaços de participação, tornou possível uma ação política massiva no contexto político de participação juvenil. “Ampliou-se o leque de atores sociais, assim como o campo da sociedade civil. Isso resultou um descentramento dos sujeitos históricos em ação, antes focado nas classes sociais e nos movimentos populares”. (GOHN, 2013, p. 61)
Para a socióloga, as marchas tiveram uma mudança temporal, pois podem ser arregimentadas a qualquer momento; tiveram uma mudança nas suas demandas, por passar a agir a partir de uma visão mais ligada à cidadania, a valores sociais como ética na política e muitos temas ligados a questões culturais e identitárias. Embora seja necessário um tempo
significativo para se compreender os sentidos da história, principalmente da história recente, a autora destaca que essa observação dos novos movimentos sociais não se esgota no tempo presente e que é necessário acompanhar novas transformações sociais que esses movimentos possam representar.
Podemos destacar na abordagem de Gohn (2013) que a juventude, a partir de movimentos organizados por meio de instrumentos virtuais, foi capaze, nos últimos anos, de obter vantagens políticas a partir das oportunidades de mobilização disponíveis, isto é, ocuparam um espaço que estava vago. Nesse sentido, os jovens, em movimentos sociais, foram capazes de desenvolver um repertório político de impacto que tornou possível sua visibilidade como ação política e a sua representação nos discursos e narrativas públicas.