Podemos dividir o conceito de Estado em Karl Marx (1818-1883) em duas perspectivas diferentes: a primeira, sobre as origens do Estado como organização social; a segunda questão, sobre a função que o Estado exerce em relação ao sistema capitalista. Partimos do debate sobre a origem do Estado. Marx e Engels (1992; 1997) apontam suas divergências em relação aos princípios do estado de natureza defendido pelos autores chamados de contratualistas: Thomas Hobbes (1588-1679), Jean-Jacques Rousseau (1712- 1778) e John Locke (1632-1704).
Os chamados „contratualistas‟, embora tivessem divergências teóricas entre eles, consideravam, de modo geral, que a transição do estado selvagem, „o estado de natureza‟, para o Estado social, seria baseado na ideia de que os sujeitos se submetem ao Estado para
superar a condição de anomia, guerra e violência. Esses motivos impulsionavam os sujeitos para a necessidade de criação de normas e leis que proporcionassem uma vida em sociedade mais harmônica. Na visão dos „contratualistas‟, a escolha racional deve ser compreendida como uma análise sobre o que seria melhor para defender as suas vidas. Isto é, seguir um „soberano‟ proporcionaria uma coesão social que seria firmada a partir de um „contrato social‟, um acordo coletivo que os sujeitos firmavam entre si.
Embora os „contratualistas‟ tivessem um lugar de destaque nas explicações sobre o surgimento do Estado, Marx e Engels (1992) demonstraram novas possibilidades para a gênese do Estado. Para os pensadores, essa visão „contratualista‟ não era baseada em evidências concretas, mas fruto de uma explicação idealista, que privilegiava os interesses da classe dominante. A história da sociedade era baseada na luta entre dominadores e dominados, na luta entre classes sociais antagônicas. Ao longo do tempo, diferentes classes sociais exerceram poder sobre as demais classes; os sistemas econômicos poderiam ser superados, mas os antagonismos de classe não.
O objeto de pesquisa de Karl Marx (2013) na obra „O Capital‟ foi o sistema capitalista. Em muitos momentos, essa análise tinha as contribuições de Engels (1992, 1993). Diferentemente do idealismo presente na época, Marx e Engels tentavam explicar a sociedade considerando que as condições econômicas são determinadas socialmente e definem as condições de vida objetiva dos sujeitos em sociedade. A conciliação entre os interesses de classes distintas seria impossível e a única tendência seria uma luta entre forças antagônicas pelo poder econômico e, automaticamente, pelo poder político do Estado.
Segundo Marx e Engels (1996, p. 67), o sistema capitalista tornou explícitas as divisões sociais em classes. Com seu avanço, “a sociedade foi se dividindo cada vez mais em dois grandes campos inimigos […] burguesia e proletariado”, existindo, também o pequeno burguês, os pequenos proprietários e os „lumpemproletariados‟. Mas para Marx e Engels (1996), as duas esferas de lutas sociais estavam dispostas em uma luta histórica entre os trabalhadores fabris, priletários, e os proprietários dos meios de produção, os burgueses. A busca pelo controle do Estado se estabelece para perpetuar-se a manutenção das leis e da reprodução da lógica de produção capitalista no seio da sociedade. Segundo Emir Sader (2014), a compreensão de Marx sobre as reais transformações da sociedade o leva a pensar que o Estado não seria a representação dos diversos interesses entre as classes, mas o detentor de condições de poder para favorecer os interesses de uma classe que conseguiu o poder político do Estado,
A política e o Estado veem redefinirem-se seus lugares na estrutura social [...] ele marca a passagem da determinação da vida social pela contradição entre os interesses burgueses contra os feudais para sua determinação pelas contradições de classes inerentes ao capitalismo, que opõem burgueses e proletários. (SADER, 2014, p. 28)
No movimento da classe burguesa a partir da Revolução Francesa (1789-1799), seria possível perceber a mudança de posição política ocupada pela burguesia. Primeiramente, busca assumir o controle político do Estado e, posteriormente, busca a consolidação da estrutura social do capitalismo industrial. Não bastava apenas que o sistema capitalista vigorasse; seria necessário que se criasse uma adesão à ideia de „autoreprodução‟ do sistema capitalista na malha social a partir do Estado. O sistema político da democracia representativa incutia nos sujeitos a ideia de que na democracia burguesa, na qual os interesses dos diversos grupos e classes seriam respeitados. Na concepção de Marx e Engels (1993) o poder político na república, isto é, o poder representativo, dissemina a ideia de que representa o povo, a sociedade civil, quando na verdade, esses assumem a condição subordinada aos interesses da classe burguesa.
Nesses termos, o Estado assume a condição de defensor das condições objetivas para a consolidação e reprodução do sistema capitalista. Usando o exemplo do Estado bonapartista, Marx e Engels (1997) desenvolveu sua tese: de que o Estado nada mais seria que o sindicato da classe dominante, pois o mesmo seria utilizado para se perpetuarem as condições de produção e reprodução do sistema capitalista na sua essência.
Para compreender a filosofia política de Marx e Engels, Sader (2014, p. 29-33) argumenta:
As condições de existência da política são assim determinadas no cruzamento das condições de instalação de um modo de produção e pelas formas de reprodução que essas condições possibilitaram [...] a burguesia não tem rei; a verdadeira forma de seu domínio é a república, isto é, um tipo de governo anônimo em termos da posse do Estado, que não precisa, obrigatoriamente, estar nas mãos da classe hegemônica. O Estado precisa corresponder às necessidades de reprodução das relações de produção.
A aparência de um sistema democrático sustenta a condição de dominação, que se constrói com a ideia de um governo de anônimos, demonstrando certa neutralidade, mas isto disfarçando a visão de dominação de uma classe sobre a outra. Mesmo que a dominação não fosse visível no plano político, as formas de dominação estavam apresentadas como um interesse geral, mas, na prática, estavam alinhadas a um plano político bem específico. Nesse sentido, as ideias apresentadas pelos burgueses seriam ideias de dominação através da ideologia, quando as ideias da classe dominantes se transformam em ideias dominantes.
As ideias da classe dominante são, em cada época, as ideias dominantes, isto é, a classe que é a força material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, a sua força espiritual dominante. A classe que tem à sua disposição os meios de produção material dispõe também dos meios de produção espiritual, de modo que a ela estão submetidos aproximadamente ao mesmo tempo os pensamentos daqueles aos quais faltam os meios de produção espiritual. As ideias dominantes nada mais são que a expressão ideal das relações materiais dominantes, são as relações materiais dominantes apreendidas como ideias. (MARX, ENGELS, 1993, p. 135)
Os dominados não conseguem compreender o fenômeno, mas apenas a aparência do fenômeno, isto é, mesmo que sejam contra seus próprios interesses, os dominados trabalhadores, proletários defendem a vigor das instituições de Estado, que reforçam o poder de uma classe hegemônica. Nesse sentido, o Estado não seria a força motriz da organização social, mas as relações sociais em classes que seriam determinantes para compreender a estrutura do Estado. As contradições dos interesses entre proprietários e não proprietários foram mascaradas pelas relações jurídicas, pois estas incorporaram ao imaginário a concepção de que, em uma república, os sujeitos estariam livres e iguais perante o Estado.
Para Norberto Bobbio (1999, p. 46), seria possível compreender o Estado a partir da visão marxista a partir de três elementos fundamentais:
1) o Estado como aparelho coercitivo, ou, como dissemos, violência concentrada e organizada da sociedade; ou seja, uma concepção instrumental do Estado, que é o oposto da concepção finalista ou ética; 2) o Estado como instrumento de dominação de classe, pelo que o poder político do Estado moderno não é mais do que um comitê, que administra os negócios comuns de toda a burguesia; ou seja, uma concepção particularista do Estado, oposta à concepção universalista que é própria de todas as teorias do direito natural, inclusive Hegel; 3) o Estado como momento secundário ou subordinado com relação à sociedade civil, pelo que não é o Estado que condiciona e regula o Estado.
Embora os três elementos fundamentais apresentados pelo autor estejam presentes nesas características, em relação à ação de Estado em Marx, existem elementos que legitimam a concepção de Estado antes mesmo de sua plena existência, legitimação sem a qual o plano político estaria em colapso. Nesse sentido, a sociedade passa a reproduzir as ideias da classe dominante como se fossem dela, e a assumir como se fosse dela a gênese das ideias burguesas e sua reprodução social.
Para Marx e Engels (1961), na medida em que o desenvolvimento da produção cresce, ampliam-se os antagonismos entre as classes sociais. As funções do Estado, a partir dos interesses da classe dominante, estariam reguladas pelo sistema jurídico, pelas forças militares e pela ideologia de manutenção do status quo, o Estado desempenharia uma função de caráter repressivo, capaz de manter o status quo vigente. O uso da força repressiva pelo Estado torna-se mais explícito na medida em que as lutas sociais confrontam as contradições
essenciais sobre as desigualdades entre as classes. Isto é, o uso da violência de Estado se torna uma ferramenta para manutenção do domínio de uma classe sobre a outra.