A socióloga Marialice Foracchi (1972), ao analisar a rebelião juvenil na sociedade moderna, considera que esse fenômeno pode, muitas vezes, ser interpretado como ação do movimento estudantil, isto é, uma ação de jovens agregados à universidade. Segundo ela, a contestação juvenil pode ser descrita como uma problemática de gerações que são consideradas privilegiadas, isto é, são definidas por setores da sociedade que têm acesso à formação universitária e que contestam as condições reais e concretas da precariedade da formação universitária que recebem. Ou seja, o agravamento do radicalismo é apontado como resultado da afirmação social e da crise em que a educação está submetida historicamente.
Na observação sobre a contestação social juvenil, Foracchi observa que os jovens assumem um repertório, isto é, as ações são embasadas pelos relacionamentos que são desenvolvidos pelas relações sociais que estão principalmente no vínculo educacional. As manifestações contestatórias podem ser consideradas as reinvindicações de integração ao sistema. Ao perceberem as diversas rejeições inerentes ao desenvolvimento social, o jovem radicaliza seu comportamento. Duas questões são bem determinadas nessa fase: primeiro, a contestação sobre a condição de adulto, principalmente sobre o modelo de adulto que é oferecido; a segunda questão se refere à dificuldade de aceitação do jovem sobre as condições de vida real no qual estaria submetido na condição de adulto.
Toda sociedade elabora uma noção ideal de adulto, na qual estão sintetizadas as suas aspirações mas ambiciosas_ seus valores mais raros, suas normas mais características numa palavra, a essência do seu ethos [...] plenitude do status, a amplitude de participação, a identificação completa com os ideais que a sustentam são condições que definem o adulto perante a sociedade em que vive. (FORACCHI,1972, p. 19).
Para a autora, as definições sobre a vida adulta remetem a uma série de privilégios sociais incorporados a essa categoria. Mesmo assim, para a juventude, ser adulto dentro de um limite pré-estabelecido não corresponde aos interesses de sua geração. Isto é, a geração juvenil compartilha suas vivências, identidades e experiências em consonância com o seu próprio tempo.
Uma geração pode ser definida como tal, na medida em que possui um estilo de ação peculiar que se distingue do estilo de ação preexistente, desenvolvido por uma geração anterior [...] as gerações corroboram entre si de um espaço de congregação de suas “experiências, situações de vida e oportunidades”. (Idem, p. 19/20)
Poderíamos compreender que as fases anteriores à fase adulta refletem sobre os fundamentos pelos quais a geração anterior se alicerçou e os questionam, ou seja, fazem uma análise sobre os sentidos que foram atribuídos, questionam sua existência e suas referências. Nesse caso, poderíamos chamar essa atitude de questionamento de crise de gerações. Na sociedade moderna, a transição não é fácil e, ao se passar da condição de jovem para a de adulto, percebe-se uma quantidade limitada de possibilidades e oportunidades sociais.
A geração com formação universitária é percebida como uma „mediatização‟ de uma geração, embora essa parcela de jovens que está dentro das universidades seja pequena e represente um extrato social privilegiado. “Compreende apenas a juventude das camadas altas e favorecidas” (FORACCHI, 1972, p. 22), isto é, apenas os grupos sociais que poderiam ser compreendidos por essa natureza questionadora e que rompem com os sentidos e fundamentos da geração anterior.
Para a sociedade, existe um desafio de compreender os jovens, pois a incorporação de normas e ordem é um condicionante social que define valores e tradições que serão reproduzidas para as próximas gerações. A reprodução do pensamento da geração anterior representa o “recurso básico de preservação da ordem cultural e moral, característica de cada sociedade, e de que ao longo dela é que se estabelece o diálogo entre o jovem e a sociedade”. (Idem, p. 23). A missão de reproduzir uma visão social nas próximas gerações sempre foi considerado primordial para a sociedade moderna.
Segundo a autora, a tentativa de integração dos jovens ao mundo social, ou seja, à condição de mundo adulto, depende dos ritos sociais institucionalizados (cerimônias, rituais, formação intelectual e emocional). Mas, quando observamos que na passagem da fase adolescente para a fase adulta essa preparação não existe, ou é pouco representativo, os jovens de modo independente se apropriam do pensamento de seu grupo, de sua geração.
O conflito de gerações ou, mesmo, a solução para o conflito de gerações podem ser apreendidos pelo sistema global, isto é, baseados em um sistema moral social principiado das normas familiares; a transferência da identidade familiar e social é constituída a partir dos valores básicos que deveriam ser preservados. Uma geração cobra da outra a perpetuação dos valores que lhe foram ensinados e cobra da juventude que esses valores sejam seguidos e adequados.
Por outros termos, é indispensável que a sociedade proporcione, ao jovem, recursos para preservar os fundamentos básicos da sua atitude diante da sociedade, tais como foram estruturados na constelação das relações familiares. Ao mesmo tempo, é preciso que tais fundamentos se constituam nos vínculos essenciais do
relacionamento do indivíduo com outros membros da sociedade o que, por sua vez, pressupõe estarem eles identificados com alvos coletivos (Idem, p. 26).
De acordo com a autora, duas coisas são importantes. A primeira questão se refere à lógica de desenvolvimento da adolescência para a juventude. Esse fato social é produzido em todos os tempos e é comum a crise da juventude em termos dessa transformação. Outra questão se relaciona ao modo como o jovem se espelha no adulto para se tornar adulto, mas quando percebe que se tornar adulto não equivale apenas a deixar de ser adolescente, mas também a assumir um uma vida dentro de um número limitado de opções, ele rejeita não apenas a embalagem, mas também o conteúdo de ser adulto.
O processo de integração do jovem à sociedade pode resumir-se a o jovem “aceitar o sistema, usufruindo as oportunidades de vida com que ele acena ou rejeitar o sistema, tentando reconstruí-lo total ou parcialmente, e realizando-se pessoalmente nesse esforço de reconstrução” (FORACCHI, 1972, p. 31). Embora o sistema social possa agir de modo similar no sentido de segregação de categorias, entre elas a juventude, a integração do jovem ao sistema pode implicar sua aceitação dos valores e sentidos elaborados pela família ou grupo social.
É com os adultos que o jovem aprende a ser adulto; não é outro o significado da socialização se não o de promover a internalização dos modos de comportamento e a assimilação dos valores que governam o sistema de relações do mundo adulto. Quando esse processo se desenvolve de modo contínuo, os jovens não diferem, essencialmente, nas suas atitudes e comportamentos, do estilo de vida adulto, tanto nas atividades que dizem respeito à política, como nas que dizem respeito aos mores sexuais, utilização de drogas, expressão artística etc (idem. p. 28).
As crises de juventude significam, para a autora, na verdade, crises de socialização. Embora afete todos no sistema global, a juventude se sente mais propensa ao incômodo, pois não há, em essência, nas condições de vida, qualquer compromisso com a realidade social concreta, pois o jovem ainda está no processo de reconhecimento dos valores que podem representar, ou não, seus valores de vida.
Mesmo que a sociedade defina caminhos pobres, muitas vezes incertos e sem sentido real para o jovem, o peso da escolha poderia ser determinado pela decisão do jovem sobre o sistema social no qual percebe contradições. Enquanto para alguns jovens haveria uma integração, para outros jovens alienados, essa decisão seria postergada e, para outros, assumir-se-ia uma ruptura sistêmica com os modelos de sociedade que lhe foram apresentados.
O que não podemos deixar de notar é que as escolhas são normalmente percebidas para jovens que estão em condições de vida privilegiada, ou seja, que passam pelo processo
de radicalização e conseguem reconhecer um valor nessa distinção existencial para o destino de suas vidas. “Nesta etapa de reconhecimento do sistema através das suas dimensões antagônicas, a definição crítica e o apelo da contestação política caminham juntos, desembocando no ativismo. Esse encadeamento não é, contudo, terminado e irreversível” (FORACCHI, 1972, p. 36). Nessa lógica, podemos considerar que a contestação política e a radicalização sobre determinados contextos sociais podem ser provisórias, tendo em vista que esse processo repercute no momento de formação do jovem em processos políticos.
Qual seria o perfil do jovem que se caracteriza a partir da radicalização política?
São jovens de formação universitária, provenientes das camadas favorecidas, para os quais se abrem potencialmente todas as possibilidades de enriquecimento material e intelectual que a sociedade pode proporcionar. São essas condições básicas que lastreiam o comportamento radical, seja ele elaborado, no plano da ação efetiva, sob a forma de alienação ou sob a forma da participação ativa. (FORACCHI,1972, p. 37).
Assim, os jovens que têm oportunidades de escolha sobre os caminhos de vida que desejam percorrer são jovens com privilégios sociais pertencentes à classes econômicas abastadas e que detêm. enquanto herança, formação educacional e intelectual, normalmente sujeitos provenientes do ensino superior. Uma pequena parcela da sociedade pode passar pelo processo de desenvolvimento da fase juvenil para a fase adulta reconhecendo as contradições que os cercam em um sistema social desigual e excludente.
O processo de radicalização consiste, basicamente, em três ordens de transformação pessoal: a) modificação da percepção da realidade social, mediatizada pela confrontação pessoal com a “miséria” social; b) no processo de engajamento que se ativa em decorrência de tal percepção; c) pelas determinações da condição de privilégio que garantem, socialmente, para o jovem, a viabilidade da opção radical.
Idem, p. 40).
A continuação da radicalização seria definida pelo reforço social das atividades políticas, culturais e sociais, mas também a partir da interação com agrupamentos sociais que exploram o mesmo sentido de visão social. Para o jovem radical, a uma visão de que “as suas vidas, nos moldes em que estavam sendo encaminhadas, eram inadequadas”, isto é, baseada em uma contradição sistêmica, ao observar que a sociedade produz os “excluídos”, o jovem declina em garantir legitimidade ao sistema excludente. (Idem, p. 38)
Diferentemente dos jovens de classes superiores, os jovens pobres de periferia tendem a reconhecer nas oportunidades educacionais as chances para ampliar as possibilidades de ascensão social. Nesse sentido, “jovens das classes inferiores raramente percorrem, de modo contínuo, todas as etapas do processo de radicalização”. (Idem, p. 41). Além de buscar a
integração social da qual é excluído, o jovem pobre, não consegue os atributos culturais e escolares para incorrer sobre a tese do jovem radcial.
Como se observa, o comportamento radical do jovem não encontra, nas situações sociais de vida, características das classes menos favorecidas, recursos favoráveis para concretizar-se ou, pelo menos, para ultrapassar o plano das atitudes críticas [...] uma larga parcela dos jovens das classes trabalhadoras é geralmente menos bem informada e menos interessada no processo político e, mais positivamente e menos criticamente, orientada para a estrutura de autoridade existente”. (Idem, p. 42)
Segundo a socióloga, além de terem menor espaço de formação intelectual e social, os jovens pobres tendem a aceitar as normas impostas pelo mundo adulto para se desenvolverem nos processos de integração social. Nesse caso, esses jovens não se comportam nem de modo radical, nem de modo alienado, mas no sentido de incorporação às exigências do sistema. Podemos observar que as heranças culturais dos pais não contam com a formação universitária, nem mesmo com a formação cultural mais elevada.
Alienação e ativismo podem ser considerados, abstratamente, como manifestações de radicalismo que, na verdade mais do que distintas entre si, são diametralmente opostas em termos de situação de vida social, participação social, efeitos sobre a sociedade e manifestações de uma situação global de crise. (FORACCHI, 1972, p. 50)
Para essa autora, a condição do jovem pobre difere da condição do jovem alienado e do jovem radical, pois sua socialização aquém a formação intelectual o impede de chegar até o fim desses processos de engajamento político. Quando esses jovens de camadas menos favorecidas conseguem ingressar no desigual ensino superior, têm de realizar essa socialização forçada no sentido de acompanhar os estudantes que tiveram essa socialização naturalizada pelo seu meio social.
A universidade constitui um campo significativo para a atuação política dos jovens; embora a universidade tente demonstrar uma abertura e acesso, existe um tipo de mascaramento das desigualdades produzidas pela universidade que privilegia sempre os mais abastados. Para os jovens, esse reconhecimento da universidade em formação com um discurso de Estado produz uma contestação dos jovens sobre a universidade. O estudante ativista é fruto de uma decisão pessoal; a universidade reforça sua visão crítica e contestadora, mas, com certeza, não é a universidade que produz as condições para o jovem radical.
Podemos pensa que se a universidade não é responsável diretamente pelo pensamento radical, em que aspectos isto poderia acontecer. Para a autora, a atividade educacional passa por uma burocratização que impede que a socialização dos estudantes seja realizada pela universidade. A universidade “não tem condições para criar nesses jovens um sentido
profundo de identificação com a instituição. Esta identificação é procurada e encontrada na integração à comunidade estudantil”. (FORACCHI, 1972, p. 50) A socialização política do jovem é baseada nas influências que recebe dos estudantes e especificamente do movimento estudantil.
A crise da juventude, nesse caso, pode ser entendida como uma crise de geração, que pode ser interacionada com a crise de socialização da universidade, isto é, a condição de legitimidade das universidades como instituição independente e política. Logo, a crise da universidade é, na verdade, uma crise global do sistema. Nesse caso, a crise da juventude está relacionada à crise global, isto é, está nas mesmas circunstâncias de crise, enquanto as universidades tentam se proteger do sistema global, os estudantes tentam atacar diretamente este ponto.
Sem uma perspectiva de vida que possam considerar como alicerces, os jovens que percebem o contexto de crise baseada na lógica sistêmica constroem por si as alternativas que lhes parecem moralmente coerentes. Para isso, transbordam para a sociedade sua contestação. O seu grito sobre as condições conflitantes da sociedade se estabelece para proporcionar uma nova condição de ordem social e cultural.
A voz do estudante radical sobre as condições de desigualdade da sociedade no sistema capitalista global é amenizada pela condição socioeconômica dos estudantes, ou seja, o mesmo agente que trata das desigualdades sociais é, por ele mesmo, um exemplo do privilegiado social. Nesse caso, a identificação com os excluídos, não é baseada nas condições materiais, mas na visão crítica radical sobre as condições sociais privilegiadas do Estado.
Para a pensadora, “o movimento estudantil, enquanto movimento político, radical e ideológico é, em contraste, um movimento adulto que contesta em termos adultos, as alternativas propostas pela sociedade.” (FORACCHI, 1972, p. 92). Isto é, as referências políticas que são inspiradas nas percepções de um mundo político adulto, onde as representações são construídas no sentido da legalidade e legitimidade dos espaços tradicionais.
Para que possamos compreender o poder político estudantil, precisamos reconhecer que o poder estudantil é desconhecido. A disponibilidade do movimento estudantil em compor alianças é observada. Mas o que parece uma maturidade política pode ser entendido como uma reprodução do mundo adulto no cenário político do movimento estudantil.