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SUMÁRIO DEDICATÓRIA

III CAPÍTULO EDUCAÇÃO POPULAR COMO TEORIA E PRÁTICA DA EDUCAÇÃO DO CAMPO

3.1 Educação Popular: mudanças e continuidades

A Educação é entendida como prática social que tem o objetivo de contribuir, direta e intencionalmente, no processo de construção histórica das pessoas, na formação da humanidade do ser humano que nasce em mundo humano. Para sobreviver, há de adaptar-se a esse mundo. Essa adaptação só é possível porque outros seres humanos (os seus pais, os adultos) cuidam dela e lhe mostram ou ensinam o que possibilita sobreviver nesse mundo. A socialização do ser humano se dá através da linguagem e da ação do seu grupo social.

O processo de educar-se pode ser compreendido, tal como afirma Bernard Charlot   VRE WUrV SHUVSHFWLYDV D GH ³WRUQDU-VH KRPHP´ D GH ³WRUQDU-se membro de uma FRPXQLGDGH´FRPSDUWLOKDQGRRVVHXVYDORUHVHLQVHULQGR-VHQHODHDGH³FRQVWLWXLU-se como um VHUVLQJXODU´3RULVVRPHVPRQDVFHUVLJQLILFDver-se submetido à obrigação de aprender, pois, para esse autor,

Nascer é penetrar nessa condição humana. Entrar em uma história, a história singular de um sujeito, inscrita na história maior da espécie humana. Entrar em conjunto de relações e interações com outros homens. Entrar em um mundo onde ocupa um lugar (inclusive social) e onde será necessário exercer uma atividade. (p. 53)

O processo de inacabamento e inconclusão do ser humano faz com que as experiências ao longo vida os tornem humanos ou desumanos. Essa visão de Paulo Freire (1978) sobre a aprendizagem da humanidade como um fazer permanente é fundamental. A educação pode ajudar a transformar o homem e a mulher em sujeitos da História. Não qualquer tipo de educação, mas uma educação crítica e dirigida à tomada de decisões e à intervenção social e política, assim manifesta uma concepção de Educação na qual:

Os homens são vistos como seres históricos e, portanto, inacabados: na verdade, diferentemente dos outros animais, que são apenas inacabados, mas não são históricos, os homens se sabem inacabados. Têm a consciência de sua inconclusão. Aí se encontram as raízes da educação mesma, como manifestação exclusivamente humana. Isto é, na inconclusão dos homens e na consciência que dela têm. Daí que seja a educação um que fazer permanente. (p.73)

A inconclusão do ser humano suscita que a prática educativa busque cotidianamente sua própria mudança, considerando a diversidade dos processos de socialização do ser humano, a partir da interação com a cultura, pela formas de organização do trabalho, pelas interações que FRQIRUPDPVXDVXEMHWLYLGDGHHVXDOLQJXDJHP$VVLP³HVWDWUDQVIRUPDomRVyWHPVHQWLGRQD medida em que contribuir para a humanização do homem. Na medida em que se inscrever na direção GHVXDOLEHUWDomR´ )5(,5(S

Para João Francisco de Souza (2000), o processo de humanização requer uma

ressocialização dos seres humanos, implicando transformações de nossas formas de pensar, de

fazer, de sentir. Essa ressocialização se dá por dois processos. Primeiro, dá-se pela recognição, que são as mudanças nas nossas formas de pensar, de compreender a nós mesmos, aos outros, a natureza, a cultura, as instituições sociais, enfim, de ressignificar o mundo, possibilitando a desconstrução de ideias anteriores e a construção de outra compreensão dos assuntos e problemas. O outro processo pelo qual se dá a ressocialização é a reinvenção, ou seja, as mudanças nas emoções, nas formas de agir, no gosto de viver e conviver.

Sendo assim, a aprendizagem acontece a partir do confronto entre as diferentes formas de pensar, emocionar-se e agir, no diálogo, na escuta, na comparação entre as ideias, saberes e valores, construindo novos saberes e sentires, que busquem contribuir para a humanidade do ser humano.

Uma educação para a humanização, portanto, supõe a promoção de um processo educativo que possibilita ao sujeito se constituir enquanto ser social responsável, autônomo e

criativo; capaz de refletir sobre sua atividade e seu mundo. Consequentemente, demanda uma ação cultural, de construções pessoais, interativas e sociais de modo de ser, de viver, de pensar, sentir e agir dentro dos limites e possibilidades da sociedade em que se encontra.Assim,

A educação, neste caso, passa a ser compreendida como atividades culturais para o desenvolvimento da cultura, promovendo suas positividades e ajudando a superar suas negatividades na direção da construção da humanidade de todos os seres humanos em todos os quadrantes da Terra. (SOUZA, 2009, p. 121).

As pessoas se educam e se humanizam construindo processos identitários, pelo reconhecimento e pelas interações entre suas diferenças. Cada pessoa se constitui, propriamente, como ser humano na medida em que aprende as culturas que constituem e atravessam o contexto social em que vivem, ou seja, um processo humanizador e histórico que faz o entrecruzamento do conhecimento da vida com o conhecimento sistematizado, como salienta Paulo Freire (1978, p. 78):

A educação libertadora, problematizadora, já não pode ser o ato de depositar e QDUUDU RX GH WUDQVPLWLU ³FRQKHFLPHQWRV´ H YDORUHV DRV HGXFDQGRV PHURV SDFLHQWHVjPDQHLUDGDHGXFDomR³EDQFiULD´PDVXPDWRµFRJQRVFHQWH´   Educação problematizadora consiste de caráter autenticamente reflexivo, implica num constate ato de desvelamento da realidade.

Nesse sentido, a educação é um processo que permite ao ser humano a produção de si mesmo, na medida em que está presente a mediação e a ajuda do outro, possibilitando a construção da pessoa humana enquanto ser social e singular. Para Alder Júlio Calado (2000), deve associar e articular a realidade social para além das leituras científicas do mundo, dialogando com o que forma o ser humano, suas subjetividades, seus desejos e inteligências, numa relação entre µVDEHUVDERUVDEHGRULD¶Para isso, conhecimentos e saberes são utilizados

como elementos construtores da humanidade, ao mesmo tempo em que são construídos por ela, a partir de diferentes instituições, processos culturais, sociais e educativos escolares e não escolares 63.

Assim, a EP se efetiva a partir das dimensões do processo educativo, como uma opção que

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A terminologia formal/não formal/informal, de origem anglo-saxônica, foi introduzida a partir dos anos de 1960, é popularizada, a partir da Conferência sobre a Crise Mundial da Educação (1967), organizada pela UNESCO sob a direção de P. H. Coombs. Esta partição do universo educativo, bem como a sua delimitação terminológica, assim configurada desde a referida Conferência, prolonga-se até aos dias de hoje ± não de forma exclusiva ou consensual, mas ainda assim abundantemente referenciada quer no âmbito acadêmico, quer nos domínios político ou especificamente educativo.

surge da conjunção dialética de vários fatores sociais (econômicos- ideologicos) e pedagógicos inserida na práxis cotidiana de sujeitos coletivos e da escolarização popular. A Educação Popular se compreende como dinamizadora do aspecto organizativo pelo potenciamento da dimensão educativa própria não só das ações sociais, mas também do processo didático escolar. (SOUZA, 2004, p.169)

A necessidade de uma coexistência entre essas dimensões da Educação é enfatizada no VHQWLGR GH TXH D H[SDQVmR GR FDPSR GD HGXFDomR QmR HVFRODU TXH DEDUFD D HGXFDomR ³QmR IRUPDOHLQIRUPDO´HTXHKLVWRULFDPHQWHFRH[LVWHFRPDHGXFDomRHVFRODU³UHTXHUXPDPDLRU integração e complementaridade das práticas educativas destas diversas áreas, considerando o GHVDILRGRDFHVVRjSURGXomRGHFRQKHFLPHQWRVQDVRFLHGDGHDWXDO´

Embora historicamente, o termo educação não formal esteja sendo utilizado, para nomear práticas fora do âmbito das escolas, essa nomeação pode constituir um importante limitador para a análise das inúmeras iniciativas de educação do campo e sua relação com o complexo contexto atual, visto que muitas dessas práticas ocorrem como complementares a educação escolar. Portanto, neste trabalho utilizaremos os termos escolar e não escolar para nos referirmos aos processos educativos desenvolvidos pela escola, e os que são realizados por outras instituições.

Essa concepção ampla de Educação foi se constituindo na América Latina e no Brasil, no final do século XIX, e se firmou no século XX, conjuntamente com a adjetivação de popular. Ocorreu principalmente a partir dos anos de 1960 e se expandiu a partir dos anos de 1980, delimitando sua singularidade de história e princípios:

A conotação popular converge na direção que identifica a opção filosófica,

política, econômica, cultural de estar em sociedade como opção conscientemente crítica. Emerge como educação popular pelo principio de emancipação e propaga-se como projeto social em defesa da libertação humana (ROSAS, 2008, p. 102).

Essa denominação de popular se constitui como resultante dos processos socioculturais e políticos das lutas das organizações populares, como expressão da resistência às estruturas de dominação e, principalmente, das diferentes práticas educativas desenvolvidas em diferentes OXJDUHV ³VXDV FDUDFWHUtVWLFDV GH UHVLVWrQFLD H FRQIURQWR DGYrP GD YLGD FRWLGLDQD GR WUDEDOKR campesino e posteriormente urbano, da experiência com produção artesanal à industrial. Nasce QDRUDOLGDGHHJDQKDPDWXULGDGHQDHVFULWDHHPSUHJRGHQRYDVWHFQRORJLDV´ 526$6S 103).

Na constituição desse conceito nos deparamos segundo Alder Júlio Calado (2000, p.14), FRP³XPDWHQVmRGLDOpWLFDHQWUHDVIRUoDVKHJHP{QLFDVHVXDVHstratégias de dominação de um lado, e, do outro, as diferentes manifestações de protagonismo dos Movimentos Sociais 3RSXODUHV´  ,VVR OHYD D UHIOHWLU VREUH R TXH YHP VHQGR HQWHQGLGR FRPR 3RSXODU (PERUD R conceito tenha apresentado diferentes significados, a partir do projeto de modernidade, o popular vem sempre vinculado ao termo povo, muitas vezes entendido genericamente como cidadãos ou população. Contudo, dentro do debate do campo popular, esse conceito assume outra compreensão.

Segundo Oscar Jara (2009), o termo Povo é compreendido dentro de duas perspectivas: GHµSRYRVRFLDO¶ como os que sofrem na sociedade as assimetrias de qualquer tipo: opressão, GLVFULPLQDomRH[FOXVmRLQFOXVmRSHUYHUVDH[SORUDomRHDGH³povo político´QDGLPHQVmRGH classe popular, no momento que se articulam, se organizam e se põem em movimento contra a interdição, a opressão e a segregação, porque sabem ser segregados ± e possuem, como diz Paulo Freire (1978), potencial de (re)fundação social.

A discussão sobre o popular e sua vinculação com a educação leva também a uma reflexão sobre as classes populares64, os movimentos sociais e a constituição do Campo Popular, que, para Conceição Paludo (2009), são forças políticas e culturais contra- hegemônicas que se articulam, conformando campos sociais, que guardam relação com a esfera GDHFRQRPLDSRVVXHPµYLV}HVVRFLDLVGHPXQGR¶HRULHQWDPVXDWHRUL]DomRVREUHDUHDOLGDGHH suas ações numa perspectiva de transformação social.

João Francisco de Souza (1999, p. 75) vincula o popular aos movimentos sociais, que expressam correntes de opiniões capazes de firmar interesses contrários aos dominantes. O autor conceitua os movimentos sociais como

grupos de pessoas com posicionamentos políticos e cognitivos similares, que se sentem parte de um conjunto, além de se perceberem como força social capaz de formar interesses frente a posicionamentos contrários de outros grupos. Pessoas que agem, afirmam posições e se sentem vinculadas. Expressam-se como correntes de opiniões sobre diversos campos da existência individual e coletiva, sobretudo dos segmentos sociais explorados, oprimidos e subordinados que passam a competir no mercado das idéias e no sentimento de pertenças (...) são força social atuante que se manifesta através de organizações e grupos de diversas e divergentes naturezas, amplitude e vigor.

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Na conceituação de Wanderley (1987), classes populares no plural, compreende o operariado industrial, os trabalhadores em geral, os desempregados, os indígenas, o campesinato, os funcionários públicos.

Portanto, os movimentos sociais começam a ser entendidos também como práticas sociopolíticas e culturais da sociedade civil que visam à realização de seus projetos por uma vida melhor (SCHERRER-WARREN, 1998), por conseguinte, sujeitos coletivos que se articulam a partir de identidades pessoais e coletivas, na luta pelo reconhecimento de seus direitos e pela afirmação de sua cidadania.

Nessa perspectiva, Povo, nesse contexto, longe de significar uma homogeneização social, significa a diversidade dos explorados e interditados dentro de uma formação social. Na GLPHQVmRVRFLDOHSROtWLFD XWLOL]DUHPRVRWHUPR ³3RYRVGR&DPSR´, para nos referirmos aos que produzem e reproduzem sua vida numa relação direta com a terra, a floresta e as águas, e sofrem algum tipo de assimetria no campo brasileiro.

Para Oscar Jara (2009), o popular faz referência a um processo que busca superar as UHODo}HVGHGRPtQLRGHRSUHVVmRGHGLVFULPLQDomR³TXHEXVFDFRQstruir relações eqüitativas, justas, respeitosas da diversidade e da igualdade de direitos na busca do desenvolvimento pleno GHWRGDVDVFDSDFLGDGHVKXPDQDV´ S 

Dessa forma, a construção da Educação Popular no Brasil, inclusive conceitualmente, será marcada pelas contradições dos processos sociais e históricos e, principalmente pela ressiginificação que ocorre no denominado Campo Popular, no que se refere ao papel dos movimentos sociais populares dentro da sociedade, na sua relação com o Estado e nas finalidades da Educação para o fortalecimento do protagonismo das classes populares dentro de cada contexto histórico.

(VVD UHODomR FRORFD D QHFHVVLGDGH GH TXH D (GXFDomR DVVXPD ³DV FRQGLo}HV GH QRVVD realidade. Realmente instrumental, porque integrada ao nosso tempo e ao nosso espaço e OHYDQGR R KRPHP D UHIOHWLU VREUH VXD RQWROyJLFD YRFDomR GH VHU VXMHLWR´ )5(,5(  S 106). Assumindo, uma concepção epistemológica que compreende o ser humano como sujeito epistêmico, interativo, singular, constituído e constitutivo das relações sociais e culturais.