Leandro S. Oliota-Ribeiro
1*, José Onaldo R. Macêdo
1, Rômulo M. Macêdo
1, Alana S.
Bezerra
1, Luis Gonzada H. Neto
1, Marcos A. Nascimento
1ARTIGOORIGINAL | ORIGINALARTICLE
RESUMO
O objetivo do presente estudo foi analisar o efeito crônico do treinamento de futsal sobre o desempenho e consumo máximo de oxigênio em crianças. Trata-se de uma pesquisa descritiva longitudinal, com investigação da capacidade cardiorrespiratória em dois momentos, antes e após 12 semanas de treinamento. A amostra foi composta por 12 crianças não atletas de 8 a 10 anos de idade. Para mensuração da capacidade cardiorrespiratória das crianças foi utilizado como instrumento de coleta de dados o teste Yo-Yo de Recuperação Intermitente para crianças. O treinamento de futsal foi aplicado com frequência de duas vezes por semana. A análise inferencial foi realizada através de teste t pareado com nível de significância de 95% (p< 0,05). Os resultados apresentaram melhoria significativa do condicionamento cardiorrespiratório (p<0,001) quando comparando os momentos pré e pós-treinamento. Nesta perspectiva, conclui-se que o treinamento do futsal se faz eficiente para a melhora do condicionamento físico dos alunos/atletas com faixa etária entre 8 a 10 anos no período de 12 semanas.
Palavras-chave: criança, desempenho atlético, educação física, treinamento.
ABSTRACT
The objective of the present study was to analyze the chronic effect of futsal training on performance and maximum oxygen consumption in children. This is a descriptive longitudinal study, with investigation of cardiorespiratory capacity in two moments, before and after 12 weeks of training. The sample consisted of 12 non-athlete children aged 8 to 10 years. To measure the children's cardiorespiratory capacity, the Yo-Yo test of Intermittent Recovery for children was used as a data collection instrument. Futsal training was applied twice a week. Inferential analysis was performed through paired t-test with significance level of 95% (p <0.05). The results showed a significant improvement in cardiorespiratory fitness (p <0.001) when comparing pre and post-training moments. In this perspective, it is concluded that futsal training is efficient for the improvement of the physical conditioning of students / athletes aged 8 to 10 years in the 12-week period.
Keywords: child, athletic performance, physical education, training.
INTRODUÇÃO
As manifestações de atividades físicas, dentre elas os desportos individuais e coletivos, desempenham um importante papel na formação do ser humano, principalmente das crianças. Estas proporcionam melhorias das habilidades motoras fundamentais (Da Silva Sousa, Bandeira, Valentini, Ramalho, & Carvalhal, 2016), desenvolvimento da força, agilidade e velocidade (Araújo, 2017; Araujo et al., 2014; Gonçalves & Navarro, 2016), motivados pela busca de um aperfeiçoamento técnico, condicionamento físico
e saúde (da Cunha Voser, Moreira, Voser, & Hernandez, 2016).
Dentre esses desenvolvimentos ocasionados pelo desporto, como o Futsal, está a melhora da capacidade cardiorrespiratória, principalmente em praticantes competitivos (Bilhalva & Coswig, 2016). De acordo com Medeiros, Saldanha, e Alves (2010), esta representa a capacidade de resistir à exaustão em esforços moderados e a longa duração, sendo totalmente condicionada por uma melhoria da funcionalidade do sistema respiratório e vascular devido à redistribuição do
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LS Oliota-Ribeiro, JOR Macêdo, RM Macêdo, AS Bezerra, LGH Neto, MA Nascimentooxigênio (O2) durante os exercícios.
Adicionalmente Silva (2014), registrou que crianças praticantes de futsal se encontravam dentro dos padrões saudáveis de aptidão física, com valores de VO²máx 51,93 ± 4,98 ml/kg/min. Assim justificasse a utilização da modalidade como ferramenta de desenvolvimento da capacidade cardiorrespiratório, adicionalmente Gonçalves et al. (2015) , afirmam que o futsal apresenta uma forte motivação a prática voltada ao prazer e à competitividade pelas crianças.
Sendo assim o treinamento do Futsal pode ser uma alternativa para melhorar a capacidade cardiorrespiratória em crianças. Diante do exposto, o objetivo do presente estudo foi analisar o efeito crônico do treinamento de futsal sobre o desempenho e consumo máximo de oxigênio em crianças de 8 a 10 anos de idade.
MÉTODO Participantes
A população foi constituída por crianças não atletas de 8 a 10 anos de idade, selecionadas de forma intencional por conveniência (Thomas, Nelson, & Silverman, 2012), sendo selecionadas 16 crianças, das quais continuaram 12 até o final do investigação. Os pais das crianças alegaram estar cientes dos objetivos da pesquisa e autorizaram as mesmas a participar da pesquisa, mediante assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido, de acordo com o que rege a resolução nº 466/12 do Conselho Nacional de Saúde, que trata das Diretrizes e Normas Regulamentadoras de Pesquisa com Seres Humanos.
Para inclusão das crianças foram utilizados os seguintes critérios: terem de 8 a 10 anos de idade; matriculadas regularmente na escola de futsal; ser do sexo masculino; e aceitaram participar voluntariamente no estudo. Foram excluídas quatro crianças de acordo com os seguintes critérios: i) frequência inferior a 75% do treinamento; ii) não realização da bateria de testes; iii) apresentação de impossibilidades de realização do treinamento ou desistência de participação no estudo.
A amostra final foi de 12 crianças com idade média de 9,3 ± 0,9 anos, estatura média de 1,3 ± 0,1 metros e massa corporal média de 30,9 ± 3,6
quilogramas como apresenta a Tabela 1. A amostra utilizada no presente estudo, para determinação do VO2max, pode ser relativamente baixa, contudo foi realizado uma análise estatística a posteriori (post hoc), segundo as recomendações de Beck (2013), através do programa G*Power, versão 3.1.9.2, com α = 0,05, obtendo um poder estatístico 90,7% (β = 0,907), considerado alto e suficiente para explicar e confirmar a representatividade e força dos resultados.
Instrumentos e Procedimentos
Trata-se de uma pesquisa descritiva longitudinal pré / pós-teste. A resistência cardiorrespiratória foi verificada pelo teste de campo The Yo-Yo Intermittent Recovery Level1
Children’s Test (YYIR1c), antes e após o
treinamento de futsal (Ahler, Bendiksen, Krustrup, & Wedderkopp, 2012). Para tanto foram utilizados cones, cronômetros, aparelho de som e superfície plana.
O teste consistiu em correr entre duas linhas paralelas marcadas no piso a uma distância de 16 metros em regime de ida e volta, com ritmo progressivo, aumentado à medida de sinais sonoros, reproduzidos por um aparelho de som. Duas marcas foram colocadas a uma distância de 16m entre elas e uma área de descanso medindo 4m é colocada no lado inicial. As crianças se deslocaram de uma marca à outra numa velocidade determinada pelo ritmo do áudio, a velocidade é regularmente aumentada a cada estágio, devendo o executante alcançar a marca antes do sinal sonoro.
O teste ocorreu até o atleta sentir-se incapacitado (fadiga) ou se o mesmo não alcançasse duas marcas seguidas. O objetivo do teste consistia na realização do maior número possível de deslocamentos dentro do tempo e ritmo, estímulo sonoro. O resultado foi determinado pela distância percorrida pelo atleta durante o teste e, posteriormente, transformado através de cálculo, VO2max (ml / kg . min) = distância (m) x 0,0084 + 36,4, de volume de oxigênio consumido (VO2) (Bangsbo, Iaia, & Krustrup, 2008).
O treinamento não foi realizado ou sofreu interferência dos pesquisadores, sendo as
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crianças avaliadas antes de iniciarem suas práticas nas aulas de futsal, oferecida pela escola e ministrado por um profissional bacharel em educação física. Estas sessões de treinos eram aplicadas em horário distinto ao horário de educação física, também denominado como escolinha de futsal e com frequência de duas vezes por semana. As crianças foram re-avaliadas após o período de 12 semanas de prática.
Análise estatística
Os dados foram analisados com o programa
Statistical Package for the Social Science (SPSS)
versão 20.0, com nível de significância de p<0,05. Inicialmente foi utilizado o teste de Shapiro-Wilk para verificar a distribuição e normalidade dos dados, esses atendendo aos pressupostos de normalidade, foi utilizado o teste t de dependente, para amostras pareadas. Os dados da pesquisa foram analisados e apresentados em forma de tabelas e gráficos, apresentando por análise descritiva de média e desvio padrão.
RESULTADOS
A Tabela 1 apresenta a distância alcançada no teste YYIRC1 e o condicionamento cardiorrespiratório predito, nos momentos pré e pós-treinamento. Adicionalmente, há diferença entre esses momentos, que apresentaram uma diferença significativa para a distância alcançada (p<0,001) e consequentemente essa diferença foi refletida na predição do condicionamento cardiorrespiratório (p<0,001). Foi calculado o poder estatístico, post hoc, da diferença através do G*Power 3.1.9.2, que apresentou um β = 0,907.
A Figura 1 apresenta a classificação do condicionamento cardiorrespiratório categorizado de forma ordinal no momento pré e pós-treinamento, respectivamente, com frequência e percentual, percentual válido e percentual acumulado da amostra, bem como a diferença entre os mesmos.
Tabela 1
Análise comparativa da distância e condicionamento cardiorrespiratório nos momentos pré e pós-treinamento
Média Desvio Padrão IC 95% Effect Size p Distância pré 953,3 375,9 733,4-1156,6 1,73 <0,001 Distância pós 1360,0 488,7 1100,0-1626,5 VO2MÁX pré 44,4 3,2 42,6-46,1 1,73 <0,001 VO2MÁX pós 47,8 4,1 45,6-50,1
Figura 1. Classificação do condicionamento cardiorrespiratório nos momentos pré e pós-treinamento DISCUSSÃO
O presente estudo teve como objetivo analisar os efeitos do treinamento de futsal sobre o condicionamento cardiorrespiratório de crianças de 8 a 10 anos. E contou como hipótese primaria
a melhoria da capacidade cardiorrespiratória após a aplicação do treinamento de futsal no período de 12 semanas. A hipótese primária foi comprovada, uma vez que mais que aproximadamente 100% (p<0,001) da amostra
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LS Oliota-Ribeiro, JOR Macêdo, RM Macêdo, AS Bezerra, LGH Neto, MA Nascimentoapresentou aumento da distância alcançada no teste YYIR1c.
Um grande número de protocolos para mensurar a capacidade aeróbia, VO2max, são apresentados na literatura, os mesmo devem ser elegidos com orientação à especificidade da população testada e acesso de matérias para realização dos testes (Marins & Giannichi, 2003; Negrão & Barretto, 2005). O resultado de uma análise de capacidade aeróbia se dá em l.min-¹ e ml.kg-¹.min-¹, referentes a capacidade aeróbica bruta e capacidade relativa respectivamente através de métodos diretos e indiretos (Negrão & Barretto, 2005).
Os diretos de maior rigor e controle na medida, porém mais caros e de menor aplicabilidade. Entre os métodos indiretos e específicos para o Futebol e Futsal Da Silva, Dittrinch e Guglielmo (2011), destacam o shuttlerun 20m, Yo-Yo Endurance, Yo-Yo
Intermittent Endurance e o Yo-Yo Intermittent Recovery, o último mais difundido e específico
para a modalidade. Contudo para a população do presente estudo se faz uso da adaptação do Yo-Yo
Intermittent Recovery, proposta por Ahler et al.
(2012), denominada YYIRC1, que encontrou resultados em crianças de 6 a 9 anos de 693 ± 418 e 670 ± 328 metros de distância alcançada ao final dos testes.
Rodrigues, Perez, Carletti, Bissoli, e Abreu (2006), com objetivo de identificar o consumo de oxigênio em adolescentes, bem como propor uma classificação para população com faixa etária entre 10 a 14 anos, de Vitória (ES), não atletas, apresentam em seus resultados, para crianças de 10 anos (n=71) um VO²máx médio de 43,53 ± 6,65, estatura média de 1,41 ± 0,06 e massa corporal média de 34,05 ± 6,27. Valores de VO²máx que se aproximam aos entrados neste estudo no momento pré-treinamento. Corroborando o condicionamento físico comum para crianças dessa faixa etária.
Teixeira et al. (2014), destaca que a frequência de treinamento é fator determinante para a melhora do condicionamento cardiorrespiratório, apresentando em seu estudo, que uma diferença de três semanas em atletas de futsal, grupo 1 com duas vezes semanas de treinamento e grupo 2 cinco vezes semanas de treinamento, apresentou
diferença significativa (p<0,01), VO²máx médio de 41,80 ± 0,99 e 44,52 ± 2,53. Situação semelhante ao apresentado neste estudo, no qual as crianças partiram de uma condição de nenhum treinamento por semana de futsal a uma condição de dois treinamentos semanais. Adicionalmente Teixeira et al. (2014), destacam também que houve diferença para a potência dos membros inferiores, entretanto não encontra diferença significativa em outras variáveis analisadas em seu estudo, tais como: composição corporal, percentual de massa gorda e massa magra.
Outra evidência é encontrada no estudo de Tozetto, Milistetd, Hoffmann, e Ignachewski (2010), que conclui em sua pesquisa a diferença entra a capacidade cardiorrespiratória entre atletas experientes de futsal, comparado com atletas de futsal inexperientes, menor frequência de treino. O que confirma os achados do presente estudo.
Para a classificação do condicionamento cardiorrespiratório da amostra foi utilizado a proposta de Rodrigues et al. (2006), com variação entre: excelente, com VO2max ≥ 52,3; boa, com
valor entre 48,0 e 52,2; regular com valor entre 43,4 e 47,9; fraca, com valor entre 38,7 e 43,3; e muito fraca, com valores menor que 38,7 ml/kg.min. Sendo esta classificação a mais próxima da faixa etária estudada. Esta necessidade se faz de acordo com a afirmação de Villar e Denadai (2001), destacam uma superioridade crescente da capacidade aeróbia na faixa etária de 8 a 18 anos de idade. Segundo Krahenbuhl, Morgan, e Pangrazi (1989), o
desempenho do condicionamento
cardiorrespiratório parece aumentar da infância a fase adulta independente do treinamento.
Silva (2014), em seu estudo com crianças de 13 a 16 anos, com objetivo de analisar e classificar os adolescentes praticantes de futsal do modulo II em Virginópolis, apresenta valores de VO2max
de 51,93 ± 4,98 ml/kg/min. Valores superiores ao presente estudo nos momentos pré e pós- treinamento, que corrobora com a afirmação acima de Villar e Denadai (2001) e Krahenbuhl et al. (1989).
Uma das limitações do presente estudo foi a não prescrição do treinamento, inviabilizando maiores inferências com relação à alteração da
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variável estudada, adicionalmente outra limitação foi o fato de não existir grupo controle que não tenha realizado atividade. Diante do exposto se faz a necessidade de estudos que busquem propor um ou diversos métodos de treinamento para analisar as alterações cardiorrespiratória de acordo com a prescrição e que proponha uma classificação para crianças com idade inferior a 10 anos, bem como experimento com grupo controle que não tenha realizado a atividade.
CONCLUSÕES
Com base nos achados do presente estudo, conclui-se que o treinamento de Futsal no período de 12 semanas é suficiente para melhorar de forma significativa o condicionamento cardiorrespiratório de crianças com faixa etária entre oito e dez anos. Este aumento da distância alcançada após o treinamento confirma a sensibilidade do YYIR1c, na mensuração do VO2max predito para crianças. Adicionalmente o
treinamento aumento o volume máximo de oxigênio de forma a promover alterações na
classificação de condicionamento
cardiorrespiratório das crianças.
Agradecimentos: Nada a declarar Conflito de Interesses: Nada a declarar. Financiamento: Nada a declarar REFERÊNCIAS
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1 Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia-IFCE, Fortaleza, Brasil 2 Universidade Estadual do Ceará, Fortaleza, Brasil
3 Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Vila Real, Portugal
* Autor correspondente: Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia-IFCE, Fortaleza, Ceará-Brasil. E-mail: [email protected]