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Eficácia preclusiva e regra da eventualidade

No documento Andre de Freitas Iglesias (páginas 88-91)

Capítulo II – Coisa julgada: limites objetivos e eficácia preclusiva

43. Eficácia preclusiva e regra da eventualidade

A regra da eventualidade se aplica tanto ao autor como ao réu, mas tem uma amplitude diferente em cada caso.

Ao autor cabe livremente delimitar a demanda (“Art. 282. A petição inicial indicará: III - o fato e os fundamentos jurídicos do pedido”). Por força do art. 264, ele não pode modificar o pedido ou a causa de pedir sem o consentimento do réu após a citação e, após o saneamento, nem mesmo com o referido consentimento.

235 “Contenta-se, o art. 474, CPC, a servir de instrumento de proteção da autoridade da coisa julgada, só tendo lugar

sua incidência e aplicação quando se busque agredir, transpor a película que envolve a declaração sentencial” (Mitidiero, Coisa julgada..., p. 223).

236 “Incidindo a coisa julgada substancial exclusivamente sobre o decisum, sem abranger qualquer dos fundamentos

da sentença ou acórdão (v. CPC, art. 469, incs. I-III), ficaria ala reduzida a muito pouca ou quase nenhuma autoridade se não fosse a sua eficácia preclusiva. Consiste esta na força de impedir nova discussão, relativamente ao objeto da demanda já definitivamente julgada, de qualquer ponto de interesse para esse julgamento. Não importa se foi um ponto que permaneceu pacífico durante todo o processo ou que foi erigido em questão por alguma das partes ou diretamente considerado pelo juiz na sentença: tanto a matéria deduzida como a dedutível e não deduzida (quer se trate de pontos atinentes ao mérito, ou de interesse para as condições da ação ou regularidade do processo), tudo fica a salvo de qualquer discussão futura destinada a infirmar o julgado. Em outras palavras: toda essa matéria pode livremente ser apreciada outra vez, com referência a outras demandas com objeto diferente do que já foi submetido a julgamento, porque eventual reapreciação traduzirá, na pior das hipóteses, mero conflito lógico de julgados (art. 469); ficam elas subtraídas a nova discussão e julgamento, todavia, desde que com isso se pretendesse destruir o que já ficou julgado com referência àquela mesma demanda e ao objeto posto em juízo através dela” (Dinamarco,

Litisconsórcio, p. 22, nota 37). “As alegações e defesas omitidas ‘reputar-se-ão deduzidas e repelidas’, não mais podendo ser aventadas em futuro processo sobre a mesma lide, nada obstando, entretanto, sejam discutíveis e sujeitas

Desrespeitados estes limites, o autor terá que formular nova demanda.

Já para o réu, a conseqüência da eventualidade traz conseqüências mais graves, como se nota nos seguintes dispositivos:

“Art. 300. Compete ao réu alegar, na contestação, toda a matéria de defesa, expondo as razões de fato e de direito, com que impugna o pedido do autor e especificando as provas que pretende produzir. Art. 302. Cabe também ao réu manifestar-se precisamente sobre os fatos narrados na petição inicial. Presumem-se verdadeiros os fatos não impugnados, salvo: I - se não for admissível, a seu respeito, a confissão; II - se a petição inicial não estiver acompanhada do instrumento público que a lei considerar da substância do ato; III - se estiverem em contradição com a defesa, considerada em seu conjunto. Parágrafo único. Esta regra, quanto ao ônus da impugnação especificada dos fatos, não se aplica ao advogado dativo, ao curador especial e ao órgão do Ministério Público. Art. 303. Depois da contestação, só é lícito deduzir novas alegações quando: I - relativas a direito superveniente; II - competir ao juiz conhecer delas de ofício; III - por expressa autorização legal, puderem ser formuladas em qualquer tempo e juízo”.

E nisto não se encontra qualquer violação da isonomia, pois, por um lado, se o réu quiser forçar o autor a discutir outras questões ele dispõe de meios como a reconvenção e da ação declaratória incidental e, por outro, em eventual nova demanda o réu poderá

alegar todas as defesas relativas àquela causa de pedir.237

a decisão em outro processo referente à lide diversa à daquela em que se operou a coisa julgada” (Moacyr Amaral Santos, Primeiras linhas..., v. 3, p. 58).

237 Não se pode concordar, portanto, com a crítica formulada por Adriana Burger, que, embora de lege lata filie-se à

corrente restritiva, de lege ferenda defende a posição contrária porque a atual configuração das norma violaria a igualdade: “Exposto, em linhas gerais, o que se entende por eficácia preclusiva da coisa julgada que, em resumo, determina estarem atingidas por tal eficácia todos os fundamentos que poderiam ter sido deduzidos em torno da causa de pedir exposta na petição inicial da demanda em que foi proferida a sentença, trânsita em julgado, mas não todas as causas de pedir que poderiam ter sido deduzidas e não o foram; estas, então, podem ser usadas em novas demandas, pois coisa julgada está intimamente ligada aos elementos identificadores da Ação: partes, causa de pedir e pedido (objeto) e, por via de conseqüência, alterada a causa de pedir não mais haveria a identidade de ações e portanto não mais poderia ser invocada a coisa julgada. Tal posicionamento, nos parece, fere o princípio da isonomia, pois ao demandado é imposto, pelo princípio da eventualidade exposto no art. 300 do CPC, deduzir na

A questão da eventualidade está intimamente ligada à problemática da eficácia preclusiva.238

Esta relação tem um aspecto polêmico e outro pacífico. É claro que diante da

norma expressa, ficam preclusas todas as defesas do réu, alegadas ou não.239 Todavia,

diante da ausência de norma expressa, há muita polêmica a respeito das tais alegações que o autor teria o ônus de trazer com a inicial, sob pena de ficarem abrangidas pela eficácia preclusiva da coisa julgada.240

contestação todas as causas impeditivas, modificativas ou extintivas ao direito do autor. Por outro lado, ao autor não há a obrigação de expor todas as possíveis causas de pedir, ou seja, o autor detém o poder de delimitar o aspecto de discussão da lide. Se há fatos ou circunstâncias omitidas – que poderiam significar mais uma causa de pedir – teoricamente, ao réu não cabe contestá-las, se tivesse conhecimento prévio. Como se vê, ao réu cabe referir-se a tudo relacionado sobre a lide, frise-se, nos limites propostos, sob pena de precluir seu direito de fazê-lo. Ao autor, teoricamente, não; ele pode optar por uma das causas de pedir e, em caso de improcedência do pedido, propor nova demanda. Quanto a este aspecto é que nos insurgimos incisivamente, na medida exata de que é evidente a quebra do princípio da isonomia processual” (Reflexões em torno da eficácia preclusiva da coisa julgada, p. 26).

238 Mitidiero, tratando da eventualidade afirma que “dentro das muitas facetas deste último princípio dentro do nosso

sistema, temos o mecanismo do art. 474 do CPC como corolário lógico do mesmo” (Coisa julgada..., p. 218). Moniz de Aragão, comentando o art. 474 do CPC, assim se manifesta: “Trata-se de reflexo do princípio da eventualidade, que entronca no da preclusão (v. o no 157). Com efeito, exige o Código, tanto do autor na petição inicial (art. 282, II

e IV), quanto do réu na contestação (arts. 300/303), que indiquem claramente não só o pedido e a defesa como os fatos e fundamentos jurídicos em que os assentam, que constituem suas recíprocas alegações, a fim de sobre eles versar a disputa, a seu respeito ser produzida a prova e sobre eles recair o julgamento. Proferido este, portanto, o litígio terá sido examinado sob todos os seus ângulos e por isso a sentença cobrirá não só o quanto foi alegado e disputado como também o que deveria tê-lo sido mas não foi. Daí ficarem ambas as partes impedidas de opor à sentença passada em julgado alegações e defesas que não chegaram a ser submetidas oportunamente ao julgador” (Sentença e coisa julgada, p. 325).

239 “Ao impedir o conhecimento de qualquer questão referente a processo já extinto, quer as que ali foram suscitadas

e discutidas, quer as que não o foram embora pudessem sê-lo (o deduzido e o dedutível), o art. 474 do Código de Processo Civil transmuda em autêntico ônus do réu o exercício das faculdades inerentes à eventualidade da defesa – porque, ou ele alega todas as defesas que tiver, ou não poderá alegá-las mais, depois que o mérito for julgado e a sentença ficar coberta pela coisa julgada” (Dinamarco, Instituições, v. III, n. 1.070, p. 469).

240 “A rejeição implícita de todas as alegações e defesas que poderiam ter sido sustentadas pelo réu é fácil de se

visualizar – até mesmo porquanto lhe caiba desincumbir-se do ônus da impugnação especificada, na forma do art. 302, caput, CPC, ressalvadas as hipóteses ali previstas. Mas a mesma facilidades não encontramos na apreensão de que tipo de alegação do autor poder-se-ia considerar tacitamente rechaçada com o trânsito em julgado da decisão da causa” (Didier Jr., Oliveira e Braga, Curso de direito processual civil, v. 2, p. 495). “Que se reputem rejeitadas as alegações e defesas oponíveis ao pedido se compreende. Se o réu se defendeu alegando apenas a prescrição, não pode, depois, encontrando recibo passado pelo autor, propor ação de repetição de indébito fundada no pagamento dúplice. Tem-se por rejeitada a alegação de pagamento, juntamente com a de prescrição. Poderia, sim, propor ação rescisória, fundada em documento novo (CPC, art. 485, VII), exatamente porque abrangido pela coisa julgada o fato extintivo do pagamento, embora não deduzido. Mais difícil é determinar que alegações poderiam ter sido feitas pelo autor, havidas como implicitamente rejeitadas. É necessário que se trate de alegações relativas à mesma causa de pedir, na verdade novos argumentos sobre os mesmos fundamentos? Ou haverá julgamento implícito de causa

A seguir examinar-se-á, portanto, a questão da eficácia preclusiva da coisa julgada para o autor.

No documento Andre de Freitas Iglesias (páginas 88-91)