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Litispendência para Carnelutti (identidade de lide)

No documento Andre de Freitas Iglesias (páginas 74-77)

Capítulo II – Coisa julgada: limites objetivos e eficácia preclusiva

33. Litispendência para Carnelutti (identidade de lide)

Mantendo-se fiel à premissa de todo o seu pensamento, Carnelutti baseia o tratamento da litispendência no seu conceito de lide, o que traz curiosas conseqüências.

203 Derecho y proceso, p. 312-313. 204 Lezioni..., n. 278. p. 19-20.

Para ele, “a identidade da lide resulta naturalmente da identidade de seus três elementos: sujeitos, objeto e pretensão”205.

A pretensão, por sua vez, “é exigência de subordinação de um interesse alheio ao interesse próprio”.206

Tal pretensão pode ser fundada ou não, ter razão ou não:

“A exigência de subordinação a um interesse próprio de um interesse alheio pode estar por si, independentemente de sua conformidade com a ordem jurídica. A pretensão sem fundamento é sempre uma pretensão; além do mais, se no campo da força pode ser afortunada, no direito é uma pretensão inútil e sem vida. A arma com que a pretensão atua no campo do direito é a razão. A razão da pretensão é seu fundamento conforme o direito; em outras palavras, a coincidência entre a

pretensão e uma relação jurídica ativa. Portanto uma pretensão tem razão quando uma norma ou um preceito jurídico estabelece a prevalência do interesse que é conteúdo da pretensão. (...) Já que a tutela jurídica se resolve na atribuição a determinados fatos de determinados efeitos, a razão por sua vez se resolve na existência de um efeito em que consiste a tutela, e de um fato, do qual provém a tutela. Daí a distinção da razão em dois elementos: motivos e conclusões: os primeiros se referem aos fatos jurídicos que sustentam a pretensão, os

segundos, aos efeitos correspondentes a eles”207

Para ele, a razão é, em regra, irrelevante para a identidade da pretensão208. Uma

razão duvidosa gera uma questão209. Uma lide pode significar a existência de diversas

questões210.

205 Instituições..., n. 14, p. 88. 206 Instituições..., n. 5, p. 78. 207 Instituições..., n. 8, p. 81-83.

208 “Quanto à identidade causal da lide, observe que é relevante, não só a natureza do interesse que se faz valer, como

também a medida em que se o faz valer; por exemplo, a pretensão ao desfrute perpétuo ou a pretensão ao desfrute temporal da mesma coisa são diferentes, assim como a pretensão ao desfrute exclusivo ou em comum. Isso explica que a razão passe a constituir um elemento de identificação da pretensão. Assim ocorre quando ela determina ou concorre a determinar a medida em que se manifesta a exigência da prevalência do interesse, o que verifica se e por

Como já mencionado, o seu conceito de lide e de questão leva à noção de “processo integral” e “processo parcial”. Como para ele a lide é externa e pré-existente em relação ao processo, podendo conter várias questões, pode acontecer que seja trazida para o interior do processo apenas parte da lide, quando se busca na demanda a solução de

apenas algumas de suas questões. Embora ele afirme que isto não é o ideal211, é forçado a

admitir que isto pode ocorrer212.

Assim esclarece o próprio Carnelutti:

“Da distinção entre lide e questão (supra, no 13) deriva que uma

lide pode ser deduzida no processo de cognição por todas ou por algumas de suas questões: por exemplo, quem pretende uma herança por vocação dupla, testamental e legítima, pode pedir perante quem a discuta a declaração de certeza de seu direito fundado sobre uma e sobre a outra ou, então, a declaração de certeza de só uma delas: tanto no primeiro como no segundo dos casos, a lide é sempre uma e sempre a mesma já que são idênticos os seus elementos (sujeitos, objeto e pretensão); com efeito, a vocação testamental ou legítima não é a pretensão mas

uma razão desta (supra, no 10); mas, supondo que a

controvérsia se estenda a ambos os títulos, no segundo caso, diferente do primeiro, o processo não serve para compor toda a

lide, já que não resolve as questões relativas a uma das

vocações. Assim, distingue-se em relação ao processo de

cognição o processo integral do processo parcial”213

que a enunciação da razão implica tal determinação; nos dois exemplos recentes faz-se valer o direito de propriedade ou de usufruto, o de propriedade exclusiva ou o de co-propriedade. Além desses limites, a razão é irrelevante em relação à identidade da pretensão: quando se pretende a propriedade, a pretensão é sempre a mesma, quer a propriedade derive de herança, de doação ou de venda” (Instituições..., n. 14, p. 89).

209 “Quando a razão, da pretensão ou da contestação, seja duvidosa, surge uma questão, a qual, portanto, é a dúvida

sobre uma razão. Já que a decisão da lide se obtém resolvendo as questões, as questões resolvidas são logo razões da decisão: as razões (da pretensão ou da contestação) passam a ser questões (do processo), e estas se resolvem em razões (da decisão)” (Instituições..., n. 13, p. 86).

210 “Deve-se considerar a distinção entre questão e lide no sentido de que, não só uma lide pode implicar várias

questões, como também de que uma questão pode ser de interesse de várias lides” (Instituições..., n. 13, p. 87-88).

211 O mestre italiano defende o “princípio da unidade do processo em relação à lide”, segundo o qual “em princípio,

não se admite que exista mais de um processo para a composição de uma lide”, o que se deve à busca da “economia dos meios” e de “bons resultados” (Instituições..., n. 272, p. 460).

212 “O princípio da unidade do processo em relação à lide sofre algumas exceções, que devem ser estudadas”

(Instituições..., n. 272, p. 461).

Uma vez ocorrendo a pluralidade de processo para uma única lide, contudo, Carnelutti não admite que eles existam concomitantemente, mas apenas sucessivamente:

“Se o processo não é integral pode dar-se a pluralidade de processos de uma única lide; porém tal pluralidade é admitida no sentido da sucessão de um processo a outro, e não no sentido da acumulação, como se verá a seguir. (...) Pressuposto da

litispendência é a identidade da lide, não das questões; portanto o art. 39 aplica-se ainda quando perante dois juízes se proponha a lide para a solução de questões diversas; por isso, o processo parcial pode determinar uma pluralidade sucessiva não uma pluralidade contemporânea de processo, em relação à mesma lide; dois processos parciais pela mesma lide não podem coexistir nem perante o mesmo juiz nem perante juízes diferentes”.214

Para o mestre italiano, portanto, a lide, que é extraprocessual (conceito sociológico, como se costuma afirmar), serve de critério para a caracterização da litispendência. Assim, independente da razão apontada pelo autor, dois processos com mesmos sujeitos, objeto e pretensão não podem coexistir.

No documento Andre de Freitas Iglesias (páginas 74-77)