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Andre de Freitas Iglesias

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ANDRÉ DE FREITAS IGLESIAS

DA SENTENÇA QUE “RECONHECE A EXISTÊNCIA DE OBRIGAÇÃO” COMO TÍTULO EXECUTIVO (CPC, ART. 475-N, I)

MESTRADO EM DIREITO PROCESSUAL CIVIL

Dissertação apresentada à Banca Examinadora

da Pontifícia Universidade Católica de São

Paulo, como exigência parcial para obtenção do

título de MESTRE em Direito Processual Civil,

sob a orientação do Prof. Doutor Donaldo

Armelin.

(2)

__________________________

__________________________

(3)

DA SENTENÇA QUE “RECONHECE A EXISTÊNCIA DE OBRIGAÇÃO” COMO

TÍTULO EXECUTIVO (CPC, ART. 475-N, I)

RESUMO

O presente estudo destina-se a analisar o significado do novo conteúdo do inciso I

do artigo 475-N do Código de Processo Civil. Em razão dos termos genéricos que foram

utilizados, o artigo tem causado insegurança, pois parece não haver mais critérios claros

para identificar uma sentença que enseja execução. O objetivo é, portanto, esclarecer a

natureza da sentença mencionada no referido artigo.

Em primeiro lugar é feita uma análise dos conceitos de sentença condenatória e

sentença declaratória com base em seus conteúdos. Depois analisa-se a

constitucionalidade da alteração legislativa, os inconvenientes que surgiriam da adoção da

sentença declaratória como título executivo e o significado de uma sentença de

improcedência de demanda declaratória negativa.

Conclui-se, enfim, que a sentença que permite execução continua sendo a sentença

(4)

DA SENTENÇA QUE “RECONHECE A EXISTÊNCIA DE OBRIGAÇÃO” COMO

TÍTULO EXECUTIVO (CPC, ART. 475-N, I)

ABSTRACT

The present study is destined to analyze the meaning of the new content of

interpolated proposition I of the article 475-N of the Civil Procedure Code. Due to the

generic terms that have been used, the article has caused unreliability, because it seems

there is no longer clear criteria to identify a sentence that allows enforcement. The

objective is, therefore, to clarify the nature of the sentence mentioned in the related

article.

Firstly it is made an analysis of the concepts of conviction and declaratory

judgements based on their contents. Later it is analyzed the constitutionality of the

legislative alteration, the inconveniences that would be caused by the adoption of the

declaratory judgement as enforceable judgement and the meaning of a sentence that

denies a negative declaratory claim.

In conclusion, the sentence that allows enforcement continues to be the conviction

(5)

Introdução... 08

Capítulo I – Sentença declaratória e sentença condenatória... 09

1. A reação da doutrina diante do inciso I do art. 475-N... 09

2. Possibilidade de sentença declaratória como título executivo: origem da discussão... 12

3. Premissa metodológica... 16

4. As classificações das sentenças... 16

5. As duas principais correntes sobre a classificação das sentenças e seus critérios... 17

6. Críticas a algumas teorias da condenação... 19

7. A declaração da exigibilidade é característica da sentença condenatória... 23

8. A fonte do efeito típico da sentença condenatória... 24

9. A declaração da exigibilidade ultrapassa os limites da sentença meramente declaratória: a devida interpretação do parágrafo único do art. 4o do CPC... 25

10. A tese da sentença declaratória como título executivo... 29

11. A posição ora defendida posta à prova das críticas feitas às outras teorias da condenação... 34

12. Origem da alteração legislativa: a jurisprudência do STJ em matéria tributária... 37

13. Em particular, o inciso I do art. 475-N... 44

14. Inconstitucionalidade formal da alteração... 45

15. Interpretações viáveis (constitucionais) da alteração legislativa... 49

16. Adaptação do inciso à execução do capítulo condenatório das sentenças declaratórias e constitutivas... 51

17. Adaptação do inciso à idéia das sentenças mandamentais e executivas lato sensu... 52

18. Razões sistemáticas para se afastar a idéia de que o inciso I do art. 475-N contempla a sentença declaratória... 53

19. Problemas que adviriam de semelhante alteração legislativa... 55

20. Fim da verdadeira sentença meramente declaratória sobre obrigação... 55

21. A imprescritibilidade da ação declaratória... 56

22. Aplicar-se-ia a multa do art. 475-J?... 57

23. Falta de oportunidade para discutir eventuais razões de inexigibilidade anteriores à sentença... 57

24. Reconhecimento da obrigação na motivação da sentença... 59

25. A tese da sentença de improcedência da demanda declaratória negativa como título executivo... 60

(6)

29. Questão, lide e demanda... 69

30. Processo integral e processo parcial... 69

31. A lide no Código de Processo Civil... 70

32. Decisão “total” ou “parcial” da lide... 72

33. Litispendência para Carnelutti (identidade de lide)... 74

34. Litispendência para o CPC de 1973 (identidade de demanda)... 77

35. Alcance da coisa julgada em Carnelutti... 78

36. Alcance da coisa julgada no CPC de 1973... 79

37. Garantia da coisa julgada: efeito positivo e negativo... 80

38. Ainda a garantia da coisa julgada: eficácia preclusiva... 82

39. Origem... 83

40. Objeto excluído da incidência da norma... 85

41. Último momento útil... 86

42. Ampliação dos limites objetivos da coisa julgada ou irrelevância das alegações?... 87

43. Eficácia preclusiva e regra da eventualidade... 88

44. A eficácia preclusiva no direito alemão... 91

45. Regra “geral”... 91

46. Casos excepcionais... 93

47. A doutrina de Schwab... 93

48. Corrente ampliativa... 97

49. Posição de Araken de Assis... 98

50. Crítica à posição de Araken de Assis... 100

51. Conseqüências negativas de eventual adoção da corrente ampliativa... 101

52. Corrente restritiva... 102

53. Terceira corrente ou critérios para identificar uma nova causa de pedir?... 104

54. Substanciação versus individuação... 106

55. O ponto pacífico: da mihi factum dabo tibi jus e iura novit cúria... 107

56. Dificuldades daí decorrentes... 108

57. Início de solução: conjugação dos fatos com o fundamento jurídico em sentido material... 109

58. Necessidade de adequação do critério de identificação ao problema do art. 474... 111

59. O critério proposto: a mínima categoria típica... 112

Capítulo III – O significado de uma sentença de improcedência... 116

60. A improcedência da demanda declaratória negativa... 116

61. Conteúdo da sentença de improcedência: apenas nega o direito do autor... 121

Conclusão... 125

(7)

Introdução

As mudanças operadas pela Lei 11.232/05 na forma de cumprimento das decisões

judiciais contêm inúmeros aspectos polêmicos. Tratar-se-á aqui de apenas um deles: a

alteração do inciso I do rol de títulos executivos judiciais (que antes constava do art. 584 e

passou a constar do art. 475-N).

O inciso I do referido rol sempre trouxe como o título executivo por excelência “a

sentença condenatória proferida no processo civil”, mas, com a Lei 11.232/05, sua

redação foi alterada para “a sentença proferida no processo civil que reconheça a

existência de obrigação de fazer, não fazer, entregar coisa ou pagar quantia”.

Muitos autores têm enxergado nesta mudança a possibilidade de se executar uma

sentença meramente declaratória. A polêmica questão reacendeu as discussões sobre a

diferença entre condenação e execução.

Além desta questão principal, diversas outras relevantes discussões surgiram, como

a do significado de uma sentença de improcedência proferida em demanda declaratória

negativa sobre obrigação, à qual alguns têm atribuído caráter de título executivo.

Para a compreensão dos temas emergentes da recente reforma legislativa, haverá

que se revisitar velhos conceitos e conferir se eles ainda se sustentam. Nesta linha, serão

analisados temas como identificação da causa de pedir, eventualidade, eficácia preclusiva

(8)

CAPÍTULO I

SENTENÇA DECLARATÓRIA E SENTENÇA CONDENATÓRIA

1. A reação da doutrina diante do inciso I do art. 475-N

Como mencionado supra, alguns processualistas de escol enxergaram, na nova

redação do inciso I do rol de títulos executivos judiciais a possibilidade de execução (ou

cumprimento) da sentença declaratória.

Este é o entendimento dos seguintes doutrinadores: Humberto Theodoro Júnior1-2; Athos Gusmão Carneiro3; Ernane Fidélis dos Santos4-5; Teresa Arruda Alvim Wambier6; Luiz Fux7; Luiz Rodrigues Wambier8-9; José Miguel Garcia Medina10-11; Carlos Alberto Carmona12; Vicente Greco Filho13; Petrônio Calmon14; Fredie Didier Jr.15; José Maria

1As novas reformas do Código de Processo Civil, Rio de Janeiro, Forense, 2006, p. 158 e segs. 2Curso de direito processual civil, v. II, 39. ed., Rio de Janeiro, Forense, 2006, p. 70 e segs.

3Do “cumprimento da sentença”, conforme a lei no 11.232/2005. Parcial retorno ao medievalismo? Por que não?,

in Revista do Advogado 85 (mai. 2006), p. 28-29. Cumprimento da sentença civil,Rio de Janeiro, Forense, 2007, p. 86-89.

4As reformas de 2005 do Código de Processo Civil: execução dos títulos judiciais e agravo de instrumento, São

Paulo, Saraiva, 2006, p. 28 e segs.

5Manual de direito processual civil. v. 1, 11. ed., São Paulo, Saraiva, 2006, p. 267-268 e segs.

6 Em conjunto com Luiz Rodrigues Wambier e José Miguel Garcia Medina, Breves comentários à nova sistemática

processual civil 2, São Paulo, Revista dos Tribunais, 2006, p. 165 e segs.

7A reforma do processo civil: comentários e análise crítica da reforma infraconstitucional do Poder Judiciário e da

reforma do CPC, Niterói, Impetus, 2006, p. 119.

8Sentença civil: liquidação e cumprimento, 3. ed., São Paulo, Revista dos Tribunais, 2006, p. 42 e segs.

9 Em conjunto com Teresa Arruda Alvim Wambier e José Miguel Garcia Medina, Breves comentários à nova

sistemática processual civil 2, p. 165 e segs.

10 A sentença declaratória como título executivo – considerações sobre o art. 475-N, inc. I, do CPC, in Paulo

Hoffmann e Leonardo Ferres da Silva Ribeiro (coords.), Processo de execução civil – modificações da lei 11.232/05, São Paulo, Quartier Latin, 2006, p. 97 e segs.

11 Em conjunto com Luiz Rodrigues Wambier e Teresa Arruda Alvim Wambier, Breves comentários à nova

sistemática processual civil 2, p. 165 e segs.

12 Novidades sobre a execução civil: observações sobre a lei 11.232/2005, in RENAULT, Sérgio, BOTTTINI,

Pierpaolo (coords.), A nova execução de títulos judiciais, São Paulo, Saraiva, 2006, p. 72 e segs.

(9)

Rocha Tesheiner16; Marcelo Abelha Rodrigues17; Marcos Destefenni18; Evaristo Aragão Santos19; Luis Guilherme Aidar Bondioli20; Elpídio Donizetti21 e Sérgio Luís Wetzel de Mattos22, entre outros. Há, inclusive, aqueles que já sustentavam esta possibilidade antes da alteração legislativa, como Fernando Tourinho Neto23, Teori Albino Zavascki24-25-26-27, Paulo Henrique dos Santos Lucon28, Fredie Didier Jr.29 e Luiz Fux30.

Todavia, não faltaram nomes de peso para defender a posição contrária, no sentido

de que, seja em razão da inconstitucionalidade formal de tal dispositivo ou em razão de

14Sentença e títulos executivos judiciais, in RENAULT, Sérgio, BOTTTINI, Pierpaolo (coords.), A nova execução

de títulos judiciais, São Paulo, Saraiva, 2006, p. 99 e segs.

15 Curso de direito processual civil, 6. ed., Salvador, JusPODIVM, 2006, p. 192 e segs; A sentença meramente

declaratória como título executivo – aspecto importante da reforma processual civil brasileira de 2005, p. 245-251.

16 Em conjunto com o Grupo de Pesquisa “Novas Técnicas” da PUC/RS, Nova sistemática processual civil, 2. ed.,

Caxias do Sul, Plenum, 2006, p. 140-141.

17 Do cumprimento da sentença, in JORGE, Flávio Cheim, DIDIER JÚNIOR, Fredie e RODRIGUES, Marcelo

Abelha, A terceira etapa da reforma processual civil: comentários às Leis n. 11.187/2005, 11.232/2005, 11.276/2006, 11.277/2006 e 11.280/2006, São Paulo, Saraiva, 2006, p. 172 e segs. Manual de execução civil, Rio de Janeiro, Forense universitária, 2006, p. 123-125.

18Curso de processo civil. v. 1, São Paulo, Saraiva, 2006, p. 530-531.

19Breves notas sobre o “novo” regime de cumprimento de sentença, in Luiz Fux, Nelson Nery Júnior e Teresa

Arruda Alvim Wambier, Processo e constituição: estudos em homenagem ao professor José Carlos Barbosa Moreira, São Paulo, Revista dos Tribunais, 2006, p. 328-329. Texto também publicado em HOFFMANN, Paulo, RIBEIRO, Leonardo Ferres da Silva (coords.). Processo de execução civil – modificações da lei 11.232/05. São Paulo: Quartier Latin, 2006, p. 17-42.

20O novo CPC: a terceira etapa da reforma, São Paulo, Saraiva, 2006, p. 142-144.

21Curso didático de direito processual civil, 8a ed., Rio de Janeiro, Lumen Juris, 2007, p. 389-390.

22Comentário ao art. 475-N, in Carlos Alberto Alvaro de Oliveira (coord.), A nova execução: comentários à lei no

11.232, de 22 de dezembro de 2005, Rio de Janeiro, Forense, 2006, p. 168 e segs.

23A eficácia executiva da sentença declaratória, in Revista de informação legislativa 115 (jul.-set. 1992), p. 557 e

segs.

24Título executivo e liquidação, 2. ed., São Paulo, Revista dos tribunais, 2001, p. 101 e segs.

25Sentenças declaratórias, sentenças condenatórias e eficácia executiva dos julgados, in Revista de Processo 109

(jan.-mar. 2003), p. 52 e segs.

26Comentários ao Código de Processo Civil, v. 8, 2. ed., São Paulo, Revista dos tribunais, 2003, p. 194 e segs. 27Processo de execução – parte geral, 3. ed., São Paulo, Revista dos tribunais, 2004, p. 307 e segs.

28 Coisa julgada, efeitos da sentença, “coisa julgada inconstitucional” e embargos à execução do artigo 741,

parágrafo único, in Revista do Advogado 84 (dez. 2005), p. 152 e segs.

29Curso de direito processual civil, p. 192 e segs.

30 “No que pertine à sentença declaratória impõe-se considerar, também, o seu objeto mediato. Assim é que, se a

(10)

questões sistemáticas, o referido inciso não contempla a sentença declaratória. Assim

entendem, entre outros: Ada Pellegrini Grinover31; Nelson Nery Júnior e Rosa Maria de Andrade Nery32; Araken de Assis33; José Eduardo Carreira Alvim34-35; Antônio Cláudio da Costa Machado36; Leonardo Greco37; Carlos Alberto Alvaro de Oliveira38; Flávio Luiz Yarshell e Marcelo José Magalhães Bonício39; Cassio Scarpinella Bueno40; Eduardo Talamini41-42; Flávio Renato Correia de Almeida43; Alexandre Freitas Câmara44; Misael Montenegro Filho45; Vicente de Paula Ataide Júnior46; Glauco Gumerato Ramos47;

31Cumprimento da sentença, in RENAULT, Sérgio, BOTTTINI, Pierpaolo (coords.), A nova execução de títulos

judiciais, São Paulo, Saraiva, 2006, p. 123 e segs.

32Código de processo civil comentado e legislação extravagante, 9. ed., São Paulo, Revista dos Tribunais, 2006, p.

654.

33Cumprimento da sentença, Rio de Janeiro, Forense, 2006, p. 202 e segs.

34Alterações do Código de Processo Civil, 2. ed., Rio de Janeiro, Impetus, 2006, p. 193 e segs.

35 Em conjunto com Luciana Gontijo Carreira Alvim Cabral, Cumprimento da sentença, Curitiba, Juruá, 2006, p.

99-100.

36Código de Processo Civil Interpretado: artigo por artigo, parágrafo por parágrafo, 5. ed., Barueri, Manole, 2006,

p. 743 e segs.

37 Leonardo Greco, Primeiros comentários sobre a reforma da execução oriunda da Lei 11.232/05. In Revista

Dialética de Direito Processual 36 (mar. 2006), p. 82.

38Tutela declaratória executiva?, in Revista do Advogado 85 (mai. 2006), p. 36 e segs. 39Execução civil: novos perfis, São Paulo, RCS, 2006, p. 83 e segs.

40A nova etapa da reforma do Código de Processo Civil, vol. 1, São Paulo, Saraiva, 2006, p. 132 e segs.

41 “Sentença que reconhece obrigação” como título executivo (CPC, art. 475-N, I – acrescido pela Lei

11.232/2005). In Revista Jurídica 344 (jun. 2006), p. 23 e segs.

42 Em conjunto com Flávio Renato Correia de Almeida e Luiz Rodrigues Wambier, Curso avançado de processo

civil, v. 2, 8. ed., São Paulo, Revista dos Tribunais, 2006, p. 55 e segs. Destaque-se que Luiz Rodrigues Wambier deixou claro posicionamento diverso em obra individual (Luiz Rodrigues Wambier, Sentença civil: liquidação e cumprimento, p. 165 e segs.), razão pela qual é citado entre os que são favoráveis à sentença declaratória como titulo executivo judicial. Note-se, ainda, que na apresentação da obra coletiva ora citada os autores deixam claro que, por razões didáticas, expressam apenas o posicionamento da maioria, o que permite afirmar que Talamini e Almeida discordam de Wambier.

43 Em conjunto com Eduardo Talamini e Luiz Rodrigues Wambier, Curso avançado de processo civil, v. 2, 8. ed.,

São Paulo, Revista dos Tribunais, 2006, p. 55 e segs. (ver nota 40).

44A nova execução de sentença, Rio de Janeiro, Lumen Juris, 2006, p. 92 e segs.

45Cumprimento da sentença e outras reformas processuais, São Paulo, Atlas, 2006, p. 102 e segs. 46As novas reformas do processo civil, Curitiba, Juruá, 2006, p. 39-40.

47Título executivo judicial, in Daniel Amorim Assumpção Neves, Glauco Gumerato Ramos, Rodrigo da Cunha Lima

(11)

Leonardo Ferres da Silva Ribeiro48; Celso Anicet Lisboa49; Hélio Estellita Herkenhoff Filho50; Jaqueline Mielke Silva e José Tadeu Neves Xavier51; e Luciana Gontijo Carreira Alvim Cabral52.

2. Possibilidade de sentença declaratória como título executivo: origem da discussão

Na vigência do CPC de 1939 (que, inclusive, vedava expressamente a execução de

sentença declaratória53), havia grande polêmica acerca da possibilidade de se propor demanda meramente declaratória quando já ocorrida a violação do direito.54 Alguns entendiam que neste caso somente seria possível demanda condenatória, pois a

declaratória não resolveria o conflito e, em razão de seu caráter publicista, o processo não

poderia se prestar a uma solução parcial. Outros entendiam que a solução do conflito de

forma integral ou parcial ficava a critério da parte, a qual não estava obrigada a pleitear

tutela condenatória.

48Breves considerações acerca do impacto da Lei 11.232/05 no tema da eficácia das sentenças. In HOFFMANN,

Paulo, RIBEIRO, Leonardo Ferres da Silva (coords.). Processo de execução civil – modificações da lei 11.232/05. São Paulo: Quartier Latin, 2006, p. 135 e segs.

49A reforma do Código de Processo Civil: comentários às Leis nos 11.187, de 19 de outubro de 2005 (agravo), e

11.232, de 22 de dezembro de 2005( fases de cumprimento da sentença), Rio de Janeiro, Forense, 2006, p. 78-80.

50Reformas no Código de Processo Civil e implicações no processo trabalhista, Rio de Janeiro, Lumen Juris, 2007,

p. 175-178.

51Reforma do processo civil, Porto Alegre, Verbo jurídico, 2006, p. 132-133.

52 Em conjunto com José Eduardo Carreira Alvim, Cumprimento da sentença, p. 99-100.

53 Art. 290: “Na ação declaratória, a sentença que passar em julgado valerá como preceito, mas a execução do que

houver sido declarado somente poderá promover-se em virtude de sentença condenatória”.

54 Sobre esta polêmica, ver: Celso Agrícola Barbi, Ação declaratória principal e incidente, 6. ed., Rio de Janeiro,

(12)

O CPC de 1973 veio a pôr fim a esta polêmica ao trazer, no parágrafo único de seu

artigo 4o, expressa tomada de posição: “é admissível a ação declaratória, ainda que tenha ocorrido a violação do direito”.

Como não poderia deixar de ser, a inovação legislativa foi origem de outra

polêmica. Na época prevalecia a idéia, ainda bastante prestigiada, de que o elemento que

diferencia uma sentença declaratória de uma sentença condenatória é a aplicação da

sanção executiva (Liebman55). Sendo assim, o parágrafo único do art. 4o do CPC foi interpretado como se a sentença condenatória e a sentença declaratória proferida em

demanda proposta após a violação do direito tivessem o mesmo conteúdo, com exceção da

sanção. Em última análise, isso equivaleria a dizer que a diferença de conteúdo destas

sentenças, em termos práticos, era o emprego do verbo condeno ou do verbo declaro56.

A idéia de condenação como sanção, contudo, passou a ser muito questionada pela

doutrina, especialmente a partir de clássico estudo de Barbosa Moreira57. Dispensando-se a idéia de sanção, desapareceu (para seus defensores) o único traço que diferenciava o

conteúdo da sentença condenatória e o da sentença declaratória do parágrafo único do art.

4o do CPC e, entendendo não haver diferença de conteúdo, alguns passaram a defender

55Manual de direito processual civil, p. 236 e segs.; Embargos do executado, p. 93 e segs.; Processo de execução, p.

14 e segs.

56 “Que se pretende, com efeito, quando se afirma que, ao condenar este ou aquele litigante, lhe aplica o juiz uma

(13)

que os seus efeitos deveriam ser os mesmos. O objeto da polêmica, então, não é mais a

possibilidade de propor demanda declaratória após a violação do direito, mas a

possibilidade de dar ou não à sentença declaratória proferida em tais circunstâncias a

mesma eficácia executiva da condenatória.

A primeira manifestação neste sentido de que se tem notícia no processo civil

pátrio58 foi a da Comissão Revisora do Código de Processo Civil, de 1985. Naquele ano, o Governo Federal nomeou, por intermédio do então Ministro da Justiça Fernando Lyra,

comissão revisora composta pelos seguintes processualistas: Luís Antonio de Andrade

(presidente), Calmon de Passos, Kazuo Watanabe, Joaquim Correia de Carvalho Júnior e

Sérgio Bermudes. A comissão elaborou primoroso Anteprojeto de Modificação do Código

de Processo Civil59, o qual, todavia, não chegou a entrar em fase de processo legislativo. O referido anteprojeto serviu, contudo, de valiosa fonte inspiradora das reformas depois

ocorridas (note-se que já trazia, por exemplo, tutela específica, ação monitória,

antecipação de tutela etc.).

No anteprojeto de 1985 acrescentava-se um inciso VI ao rol de títulos executivos

judiciais do artigo 584 (que até então tinha apenas cinco incisos) com a seguinte redação:

“a sentença declaratória transitada em julgado, quando tenha ocorrido a violação do

direito (art. 4º, parágrafo único)”60.

57Reflexões críticas sobre uma teoria da condenação civil.

58 Ver, na doutrina estrangeira: Carlo Furno, Condanna e titolo esecutivo, in Riv. it. per le scienze giuridiche, 1937,

n. 9, nota 2, p. 122, apud Cândido Rangel Dinamarco, Execução civil, 8. ed., São Paulo, Malheiros, 2004, n. 337, nota 95, p. 523.

59 Publicado junto com sua exposição de motivos no suplemento ao nº 246, do Diário Oficial da União, de

24.12.1985 (Seção I).

60 Em sua exposição de motivos, a comissão assim justificou sua opção: “Quanto à execução, deu-se a natureza de

(14)

Embora diversas propostas do anteprojeto de 1985 tenham sido retomadas nas

reformas do CPC, a de atribuir eficácia executiva às sentenças declaratórias do art. 4o, parágrafo único, não foi uma delas.

Em 1992 Fernando Tourinho Neto sustentou esta linha de pensamento em artigo

intitulado “A eficácia executiva da sentença declaratória”61. A tese, embora defendida com maestria, não encontrou muita repercussão na doutrina e na jurisprudência. Alguns

anos depois, Teori Zavascki, que já havia elogiado os argumentos de Tourinho Neto62, retomou esta idéia63 e obteve importantes adeptos em doutrina64, além de dar início a uma série de decisões neste sentido no Superior Tribunal de Justiça65.

A premissa deste entendimento segundo o qual a sentença declaratória do

parágrafo único do artigo 4o pode ter conteúdo idêntico ao de uma condenatória não parece estar correta e é isto o que se pretende demonstrar daqui em diante. Primeiramente,

contudo, é necessária uma pequena digressão.

condenação (art. 4º, parágrafo único). Em verdade, a ação condenatória que se exigisse seria apenas para apurar o quantum debeatur, matéria típica do processo de liquidação. Assim, com a sentença declaratória, se ajuizará ação de liquidação e não condenatória, como desnecessária e inadequadamente se tem exigido”.

61 Revista de Informação Legislativa 115 (jul.-set. 1992), p. 557-570.

62 Em 1996 Zavascki publicou artigo em que, ao mencionar que a doutrina majoritária é no sentido de que não se

executa sentença declaratória, ressaltou que Tourinho Neto “defende com bons argumentos orientação em outro sentido” (Medidas cautelares e medidas antecipatórias: técnicas diferentes, função constitucional semelhante, in Revista Trimestral de Direito Público 14 (1996), nota 40.

63 Título executivo e liquidação (p. 101 e segs) e Sentenças declaratórias, sentenças condenatórias e eficácia

executiva dos julgados (p. 52 e segs).

64 Paulo Henrique dos Santos Lucon (Coisa julgada, efeitos da sentença, “coisa julgada inconstitucional” e

embargos à execução do artigo 741, parágrafo único, p. 152 e segs); Fredie Didier Jr. (Curso de direito processual civil, p. 192 e segs); e Luiz Fux(Curso de direito processual civil, p. 1267).

(15)

3. Premissa metodológica

Os elementos essenciais que permitem a definição de um ato jurídico encontram-se

no seu conteúdo. Não é adequada a conceituação de um ato jurídico pelos seus efeitos,

pois eles estão fora do ato e, portanto, não o integram.66

É com isto em mente que o tema será aqui abordado. Assim, buscar-se-á no

conteúdo da sentença condenatória o elemento que a diferencia da sentença meramente

declaratória. Tratar-se-á, sim, dos seus efeitos, mas não para conceituá-la.

4. As classificações das sentenças

O conceito de condenação tem desafiado os estudiosos do processo desde os

primórdios da ciência processual. A tentativa de diferenciação entre as espécies de

sentenças67 não levou, até os dias atuais, a uma solução pacífica. Digladiam-se os defensores da classificação ternária (declaratória, constitutiva e condenatória) e da

66 Assim ensina José Carlos Barbosa Moreira: “Todo ato jurídico tem um conteúdo, onde se podem discernir notas

essenciais, pelas quais ele se distingue dos outros atos jurídicos, e por isso mesmo fornecem elementos para sua definição. (...) Por outro lado, todo ato jurídico é, em tese, suscetível de produzir efeitos no mundo do direito – característica pela qual, justamente, se distinguem os atos jurídicos dos que não o são. (...) O efeito é algo que está necessariamente, por definição, fora daquilo que o produz, quer se trate de fato natural, quer de ato jurídico. (...) Conteúdo e efeito são verdadeiramente entidades inconfundíveis. Aquilo que integra o ato não resulta dele; aquilo que dele resulta não o integra” (Conteúdo e efeitos da sentença: variações sobre o tema, p. 175-177).

67 Alguns preferem falar em espécies de ações ou de tutelas. Optou-se aqui pela classificação das sentenças, por não

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quinária (em que são acrescentadas a mandamental e a executiva “lato sensu”68), não faltando os que tenham outras propostas de classificação.

Uma separação conceitual entre duas espécies de sentença é particularmente

importante para o tema do presente estudo: trata-se da separação entre sentença

condenatória e sentença declaratória. As controvérsias aí existentes são inúmeras,

especialmente no tocante aos dois casos em que elas mais se aproximam, ou seja, na

declaração após a violação do direito (art. 4o, parágrafo único, CPC) e na condenação para o futuro (arts. 572, 287 e 290).

Far-se-á aqui uma tentativa de sistematização destas distinções sem a pretensão de

estabelecer, de forma definitiva, os conceitos, mas com o fim de estabelecer premissas

que possibilitem o estudo do tema.

5. As duas principais correntes sobre a classificação das sentenças e seus critérios

Em primeiro lugar, cumpre alertar que não cabem neste trabalho considerações

profundas sobre todas as espécies de sentenças. Far-se-á apenas um exame perfunctório

das principais correntes, para estabelecer um ponto de partida.

A primeira corrente a surgir na doutrina processual (e que até os dias de hoje tem

mais adeptos) é a que divide as sentenças69 em declaratórias, constitutivas e condenatórias. Não há consenso, contudo, acerca do critério eleito para se chegar a tal

68 Expressão bastante criticada por Barbosa Moreira (Sentença executiva?. In Revista de Processo 114 (mar.-abr.

2004), p. 147-162).

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resultado. Há, por exemplo, os que digam que elas assim se classificam por seus efeitos

processuais70 e os que entendam que o critério é o dos efeitos substanciais71.

Talvez seja preferível afirmar que tal classificação tem fundamento na situação

substancial carente de tutela jurisdicional72 (que, de certa forma, se relaciona com o conteúdo da sentença): se há necessidade de eliminar a incerteza sobre a existência ou

inexistência de relação jurídica ou sobre a autenticidade ou falsidade de documento,

buscar-se-á sentença declaratória; se há necessidade de criação, modificação, ou extinção

de determinada relação de direito material, pelo exercício de direito potestativo, a

sentença almejada será a constitutiva; por fim, se há necessidade de afastar o

inadimplemento de uma obrigação, buscando uma prestação, a sentença perseguida será a

condenatória.

Todavia, vem ganhando adeptos, na doutrina pátria, a classificação quinária. Seus

defensores acrescentam mais duas categorias às supramencionadas: a mandamental e a

executiva lato sensu. Embora haja divergências, os critérios empregados para distinguir as

duas categorias adicionais referem-se, basicamente, à forma de efetivação prática (efeitos

processuais) da tutela cognitiva. Ocorre aqui uma mistura de critérios: as três primeiras

são diferenciadas pela situação de crise no plano material, enquanto as duas últimas,

embora se destinem a uma crise de inadimplemento, são diferenciadas por características

ligadas ao procedimento, ao modo como se dá a sua realização no plano concreto.

70 José Manoel de Arruda Alvim, Manual de direito processual, v. 2, n. 289, p. 538. 71 Cândido Rangel Dinamarco, Instituições de direito processual civil, v. III, n. 889, p. 199.

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Adota-se neste trabalho a classificação ternária por uma simples questão lógica,

consistente na necessidade de adoção de critério uniforme para se elaborar uma

classificação73. As chamadas sentenças mandamentais ou executivas lato sensu não passam de condenatórias, o que ficou ainda mais evidente com a generalização do

cumprimento de sentença, pois a satisfação do direito no mesmo processo em que se

realizou a cognição virou regra. Cumpre, agora, buscar a identificação clara do conteúdo

propriamente dito das sentenças declaratórias e condenatórias.

6. Críticas a algumas teorias da condenação

Os conceitos de sentença condenatória dados pela doutrina são muitos. Alguns tem

por base seus efeitos, outros seu conteúdo.

Em primeiro lugar, cumpre descartar a conceituação, já criticada supra, que se

baseia no critério do efeito típico que se atribui à sentença condenatória: ensejar execução.

Como visto, o critério deve ser de conteúdo. Ademais, não se encaixam aí os casos de

condenação sem execução, como o da sentença que impõe ao réu a perda de sinal pago.

Afirma-se, ainda, que tal teoria não explica a sentença que impõe a prestação de alimentos

73 Neste sentido a lição de Barbosa Moreira: “Toda classificação é, antes de mais nada, uma operação lógica. Ora, em

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integralmente descontada em folha de pagamento (art. 734 do CPC) nem a que substitui

declaração de vontade, que, para alguns74, é condenatória.

Em relação ao conteúdo, por outro lado, já se sustentou que o elemento

caracterizador da condenação reside: a) numa ordem, ora ao litigante vencido, ora ao

órgão da execução, ora a ambos75; b) na declaração de ato ilícito ou da responsabilidade76; c) na aplicação de uma sanção77.

Afirma-se que condenação como ordem ao vencido não se sustenta, pois, se assim

fosse, a omissão em cumprir espontaneamente uma sentença que condena ao pagamento

de quantia configuraria crime de desobediência, o que não se concebe78. Por outro lado, como ordem ao órgão da execução, a teoria também não escapa de críticas, já que não se

poderia falar em uma “ordem” dirigida ao mesmo órgão que a emite (quando a

condenação é imposta pelo próprio juiz ao qual compete a execução). Ademais, em

ambos os casos opõe-se também a crítica de que a ordem está na lei, não na sentença79.

74 Para alguns, o direito exercido nestes casos é potestativo e a sentença, portanto, é constitutiva. Para outros, o que

pretende o autor é obter uma prestação (crise de adimplemento) e a sentença é, em conseqüência, condenatória. Neste último sentido é a posição de Bedaque: “A ‘atividade dos órgãos judiciários para satisfazer coativamente o direito do credor’, destinada a realizar a regra sancionadora, nem sempre é necessária. Há casos em que o inadimplemento da obrigação é solucionado automaticamente, tendo em vista dados específicos da situação concreta

− como ocorre na sentença substitutiva de declaração de vontade e na que prevê a perda do sinal pelo contratante inadimplente. Não é por isso que ela perde a natureza de condenatória, pois o conteúdo é idêntico ao daquelas em que essa atividade é imprescindível. A especificidade não está na substância do fenômeno, mas na capacidade de a sentença produzir, ou não, eficácia imediata no plano material − o que decorre de peculiaridades circunstanciais do direito, não da sentença” (Efetividade do processo e técnica processual, p. 550).

75 Rosemberg, Schwab e Gottwald, Zivilprozessrecht, 15. ed., Munique, 1993, p. 510, apud Barbosa Moreira,

Questões velhas e novas em matéria de classificação das sentenças, p. 133.

76 Carnelutti, Lezioni di diritto processuale civile, 1a parte, v. II, Pádua, 1926, p. 30 e segs. (declaração de ato ilícito)

e Sistema di diritto processuale civile, v. I, Pádua, 1936, p. 138 e segs. (declaração da responsabilidade fundada no ilícito), apud Barbosa Moreira, Questões velhas e novas em matéria de classificação das sentenças, p. 133.

77 Enrico Tullio Liebman, Manual de direito processual civil, p. 236 e segs.; Embargos do executado, p. 93 e segs.;

Processo de execução, p. 14 e segs.

78 Observe-se que quem faz esta crítica emprega conceito estrito de ordem.

79 “Contra semelhante opinião, porém, observou-se, com justeza, que a ordem endereçada ao devedor para satisfazer

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No que diz respeito à condenação como declaração do ato ilícito ou da

responsabilidade dele decorrente, opõe-se a crítica de que a teoria não explica o capítulo

da sentença que impõe ao vencido a condenação ao pagamento de custas e honorários,

pois a sucumbência não constitui ato ilícito.

Por fim, afirma-se que a teoria da condenação como aplicação da sanção merece

esta mesma crítica (não constituindo a sucumbência ato ilícito, não haveria que se falar

em sanção), bem como que a sanção não seria exclusividade sua, mas também poderia

ocorrer nas sentenças constitutiva e declaratória80. Afirma-se, ainda, que tal teoria não se ajusta à condenação para o futuro, expressamente prevista no CPC (art. 572), pois não se

poderia falar na aplicação de uma sanção antes de um descumprimento da obrigação que

nem sequer se tem a certeza de que vai se configurar. Além disto, a teoria da sanção acaba

remetendo indiretamente ao critério do efeito (ensejar execução) e não explica a

condenação sem execução, melhor analisada adiante.

Não se adotando as teorias supramencionadas, cabe indagar: “Em que consiste,

afinal, a declaração capaz de proporcionar à parte vencedora título hábil para a execução

forçada?”.

É com essa pergunta não respondida que termina aquele que é, talvez, o mais

citado estudo brasileiro a respeito da sentença condenatória: Reflexões críticas sobre uma

80 Esta última crítica não perece ser procedente. Liebman não fala de uma sanção qualquer, mas da sanção executiva,

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teoria da condenação civil, de Barbosa Moreira. Em resposta a esta pergunta o eminente

processualista limitou-se, naquela oportunidade, a reafirmar a crítica à teoria da sanção81. Pouco conhecida é, por outro lado, a resposta dada por Barbosa Moreira em estudo

realizado mais de duas décadas após aquele. Neste artigo, ao tratar da repulsa de certa

parte da doutrina à idéia de sentença condenatória para o futuro, Barbosa Moreira afirma:

“Nenhuma dificuldade exsurge para quem, como nós, põe de lado a tese da aplicação de sanção e outras mais, para identificar a diferença essencial entre as duas classes de sentenças – a das meramente declaratórias e a das condenatórias – no objeto formal da declaração: enquanto, na primeira classe (pressupondo-se a procedência do pedido de declaração positiva), o juiz declara existente o crédito, na segunda ele o declara, além de existente, exigível, atual ou potencialmente. À declaração de exigibilidade potencial

corresponde precisamente a condenação para o futuro. É claro que, assim, estamos admitindo um fundo comum (declaração) a ambas as classes – no que, de resto, nada se descobre de original”.82

É este o ponto de partida da teoria ora defendida: (a) a sentença declaratória

relativa a obrigação, ainda que proferida em demanda ajuizada após a violação do direito,

tem por objetivo solucionar crise de certeza e por conteúdo a declaração da existência do

crédito; (b) a sentença condenatória tem por objetivo solucionar crise de adimplemento e

81 “A resposta de Liebman, vazada em fórmula mais aderente à realidade soaria: na declaração da aplicabilidade da

sanção. Ora, justamente nisso é que não se pode convir sem fazer tábua rasa das hipóteses em que o juiz condena e se executa, sem que se trate em absoluto de sanção; e também daquelas outras, não tão raras, em que a sanção se efetiva na própria sentença, sem necessidade – nem, aliás, possibilidade – de repor-se em movimento, para atuá-la, o mecanismo judicial” (p. 80).

82Execução sujeita a condição ou a termo no processo civil brasileiro, in Revista da Ajuris 78 (jun. 2000), p.

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por conteúdo a declaração da existência do crédito e da sua exigibilidade83 atual ou futura.

7. A declaração da exigibilidade é característica da sentença condenatória

Como visto anteriormente, é objeto de consenso a idéia de que a sentença

condenatória visa à solução de uma crise de adimplemento (satisfação). A sentença,

contudo, não é, em regra, o bastante para tutelar o direito do autor. Na maioria das vezes

são necessários atos materiais para efetivar o que foi decidido.

Quem pede a condenação tem em vista a obtenção da satisfação da obrigação e,

portanto, espera a execução da sentença. Para se viabilizar a execução, contudo, o

crédito84 refletido no título executivo deve ser líquido, certo e exigível (art. 586). Por ter a finalidade de obter a satisfação, a demanda condenatória tem na sua causa de pedir o

inadimplemento. A sentença condenatória, por sua vez, sendo um estágio na obtenção da

83 Expressão mais abrangente que o inadimplemento. Neste sentido, a lição de Dinamarco: “Não se pode cogitar de

inadimplemento, ou insatisfação capaz de legitimar a execução, enquanto o dever de satisfazer a obrigação expressa no título executivo estiver ainda na dependência de uma condição, termo ou contraprestação do credor – ou seja, enquanto o direito ainda não for exigível, segundo os preceitos de direito material. Exigibilidade é a ausência de impedimentos jurídicos para que o devedor satisfaça a pretensão do credor (Carnelutti)” (Instituições de direito processual civil. São Paulo: Malheiros, 2004, n. 1.422, p. 171).

84 “Andou mal a lei do processo, ao falar em título líquido, certo e exigível (ar. 586). As qualidades de liquidez,

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prestação a ser efetivada mediante execução, deve conter a declaração da exigibilidade do

crédito85.

A necessidade de exigibilidade do crédito para se proceder à execução pode ser

verificada no direito positivo, não somente no referido art. 586, mas também no inciso II

(“inexigibilidade do título” – rectius: crédito) do art. 475-L (que lista a matéria alegável

na impugnação ao cumprimento de sentença). Já a obrigatoriedade de que a exigibilidade

seja objeto de declaração prévia, na fase de conhecimento, pode ser verificada no inciso

VI do referido artigo, pois neste se afirma que só se pode alegar “qualquer causa

impeditiva, modificativa ou extintiva da obrigação, como pagamento, novação,

compensação, transação ou prescrição, desde que superveniente à sentença”. Conclui-se,

portanto, que eventuais alegações de causas impeditivas, modificativas ou extintivas da

obrigação anteriores à sentença foram (ou deveriam ter sido) nela apreciadas.

8. A fonte do efeito típico da sentença condenatória

Os que advogam a conceituação de sentença condenatória por seu efeito típico, o

de ensejar a execução, muitas vezes não explicam qual é o elemento de seu conteúdo que

faz com que se produza tal efeito. Outros se utilizam das teorias criticadas acima.

Nenhuma dessas soluções é satisfatória.

85 Neste sentido a lição de Carlos Alberto Alvaro de Oliveira, ao se referir ao novo inciso I do art. 475-N: “ora, para

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Considerando-se as premissas aqui defendidas, o efeito executivo da sentença

condenatória advém da declaração judicial da exigibilidade do crédito86 (que pressupõe, evidentemente, a declaração da sua existência). Se o crédito é exigível, mas a parte vem a

juízo pleitear apenas uma declaração sobre a certeza da existência (atual ou pretérita,

como se verá a seguir), ela se satisfará com a segurança jurídica conferida pela sentença.

Se, por outro lado, ela pede também a declaração da exigibilidade, terá em vista a

satisfação da obrigação, não mera certeza jurídica. A sentença terá o conteúdo

caracterizador da condenação.

Note-se que tal sentença refletiria crédito certo e exigível que, ainda que não fosse

líquido, poderia ser liquidado. Este é o conteúdo de uma condenação (declaração da

existência e da exigibilidade do crédito). Caso se entendesse que este conteúdo pudesse

estar presente em uma sentença meramente declaratória, haveria de se indagar: qual seria

o objeto de uma demanda condenatória posterior? E a seguinte resposta seria inevitável:

não haveria o que se discutir87. A coisa julgada da ação anterior abrangeria tudo sobre o

objeto de título executivo judicial, sem que o juízo opere intelectivamente a respeito da existência da obrigação e da transgressão” (Tutela declaratória executiva?, in Revista do Advogado 85 (mai. 2006), p. 39).

86 Veja-se, por exemplo, o art. 580 do CPC: “verificado o inadimplemento do devedor, cabe ao credor promover a

execução”. É interessante observar, também, dispositivo expresso que constava do Anteprojeto de Código de Processo Civil elaborado pelo Professor Alfredo Buzaid acerca das espécies de sentenças: “A sentença, que julga procedente a ação, é: I – condenatória, se impõe ao réu uma prestação, cujo inadimplemento autoriza a execução forçada; II – constitutiva, se cria, modifica ou extingue relação ou situação jurídica; III – meramente declaratória, se se limita a afirmar a vontade da lei” (Anteprojeto de Código de Processo Civil. Rio de Janeiro, 1964, p. 98). Note-se que tal artigo foi excluído do Código durante o processo legislativo, em atenção ao conselho das fontes romanas: omnis definitio injure civile periculosa est (D. 50.17.202).

87 Nem se afirme, como faz Humberto Theodoro Júnior, que “ao propor o credor uma ação de condenação, após o

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que se poderia controverter na demanda posterior. Não se pode justificar uma ação

subseqüente apenas para mudar o verbo de declaro para condeno, como são obrigados a

fazer os que adotam a teoria da condenação como sanção88. Importa a essência, não a forma89.

ao cumprimento de sentença (como eram também dos antigos embargos à execução fundada em título judicial), conforme o inciso VI do art. 475-L. Conseqüentemente, esta ação condenatória posterior à declaratória seria inútil.

88 Assim fez o ilustre Arruda Alvim, por adotar a teoria da sanção: “Certamente tal sentença declaratória

projetar-se-á na ulterior sentença condenatória, com sua força de coisa julgada material, no que tange à declaração do direito; por outras palavras, o resultado da sentença condenatória já está prefixado (‘prejulgado’) na anterior sentença declaratória. Apenas, não tendo tido a ação declaratória o fim de obter a sanção – e nem mesmo isto seria viável em seu âmbito –, a sentença respectiva não terá podido, por essa razão, acrescentar à anterior declaração positiva, sobre a qual já pesa a autoridade da coisa julgada, a respectiva sanção, nada mais. Assim, sempre se orientara corretamente a jurisprudência, no sentido de que, havendo necessidade de execução do direito declarado na sentença declaratória, há que se recorrer à ação adequada a tanto, que é a condenatória” (Arruda Alvim, Manual de direito processual, vol. 2, 9. ed., São Paulo, Revista dos tribunais, 2005, p. 539).

89 Criticando a posição de Pontes de Miranda, para quem a condenação distingue-se da pura declaração por “colocar

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Se não há como condenar em ação subseqüente em razão do fato de que a

sentença anterior tem todos os elementos que a sentença desta teria, é porque aquela já

era uma condenação.

Observe-se que não seria correto afirmar que, em caso de sentença com este

conteúdo, se discutiria na segunda demanda sobre eventual adimplemento posterior à

primeira sentença90, pois não haveria interesse de agir para esta providência, já que o inciso VI do art. 475-L deixa claro que o autor não precisa obter declaração negativa das

causas extintivas, modificativas ou impeditivas da obrigação que sejam posteriores à

sentença, pois cabe ao réu sua alegação em impugnação ao cumprimento de sentença.

9. A declaração da exigibilidade ultrapassa os limites da sentença meramente

declaratória: a devida interpretação do parágrafo único do art. 4o do CPC

O objetivo da ação declaratória é a solução de uma crise de certeza. Para a

consecução de tal objetivo, não há que se perquirir acerca da exigibilidade da obrigação,

relevante apenas para a solução da crise de satisfação. É, inclusive, o que se depreende da

redação do artigo 4o do CPC: “O interesse do autor pode limitar-se à declaração: I – da

existência ou da inexistência de relação jurídica”.

Esta noção é elementar no que diz respeito à demanda declaratória ajuizada

anteriormente à exigibilidade da obrigação. A questão se torna complexa no caso do

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parágrafo único do referido artigo: “É admissível a ação declaratória, ainda que tenha

ocorrido a violação do direito”.

A maioria da doutrina extrai desta disposição legal, com base na inadequada idéia

de condenação como sanção, a possibilidade de se ter uma sentença de conteúdo idêntico

ao de uma declaratória, que dela se diferencie apenas pela imposição da sanção.

Não é isto, todavia, que parece ser o mais correto. No que se refere às obrigações, a

ação declaratória trata apenas da existência ou inexistência (ou modo de ser, acrescentam

alguns) de relação jurídica, com vistas à solução de uma crise de certeza. É esta mesma

ação que é admissível após a violação do direito, ou seja, uma ação em que não se

indaga acerca da exigibilidade da obrigação, mas apenas de sua existência, atual ou até

mesmo pretérita. Explica-se: como se trata de solução de crise de certeza, o autor pode ter

interesse em declarar a existência de obrigação já extinta, desde que comprove interesse

de agir (por exemplo: comprove que há controvérsia entre ele e o credor, que ameaça

demandar a repetição do indébito). Ainda assim, não se discute inadimplemento, que é

causa de pedir de ação condenatória.91

Pense-se no caso de um devedor que questione a existência de sua dívida. Pode o

credor trazer ao judiciário apenas a crise de certeza, pedindo a declaração da existência da

obrigação92. Pode ainda, o credor, trazer para apreciação a crise de adimplemento,

90 Como faz Dinamarco, por adotar a teoria da sanção de Liebman (Coisa julgada nas sentenças meramente

declaratórias, p. 218).

91 “É certo que o sistema brasileiro permite manejo da demanda declaratória mesmo que já tenha ocorrido a lesão do

direito (art. 4º, parágrafo, único), mas ainda nessa hipótese excepcional o autor não coloca no tablado das discussões o inadimplemento da obrigação” (Carlos Alberto Alvaro de Oliveira, Tutela declaratória executiva?, p. 40).

92 Por exemplo, para que possa negociar com o devedor em uma posição mais favorável, ou porque crê que o

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pedindo a condenação do réu. Não há que se falar em mera declaração de que o crédito

existe e é exigível, pois, como visto, isso equivaleria a uma condenação.

Não é possível trazer para a demanda declaratória, portanto, crise de

adimplemento, mas apenas crise de certeza, ainda quando proposta após a violação do

direito. A tutela a ser prestada dependerá do que o autor efetivamente alegar na demanda,

independentemente da denominação que ele venha a dar à “ação”93.

10. A tese da sentença declaratória como título executivo

Em primeiro lugar cumpre esclarecer que o principal resultado prático tanto da tese

aqui defendida quanto da que propugna pela execução da sentença declaratória que

contenha “definição integral da norma jurídica individualizada” é o mesmo: a

possibilidade de execução. Discorda-se da corrente liderada por Teori Zavascki apenas no

tocante à natureza desta sentença, mas não se põe em dúvida que ela seja título executivo.

93 “Habita, aí, a meu ver, o grande benefício que se poderá extrair da nova redação, pois permite ao juiz atribuir à

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Eis as principais idéias defendidas por Zavascki:

“Se há ‘identificação completa’ da norma individualizada é porque a fase cognitiva está integralmente atendida, de modo que a tutela jurisdicional autorizada para a situação é executiva. (...) Ora, se tal sentença traz definição de certeza a respeito, não apenas da existência da relação jurídica, mas também da exigibilidade da prestação devida, não há como negar-lhe eficácia executiva. Conforme assinalado anteriormente, ao legislador ordinário não é dado negar executividade a norma jurídica concreta, certificada por sentença, se nela estiverem presentes todos os elementos identificadores da obrigação (sujeitos, prestação, liquidez, exigibilidade), pois isso representaria atentado ao direito constitucional à tutela executiva, que é inerente e complemento necessário do direito de ação. Tutela jurisdicional que se limitasse à cognição, sem as medidas complementares necessárias para ajustar os fatos ao direito declarado na sentença, seria tutela incompleta. E, se a norma jurídica individualizada está definida, de modo completo, por sentença, não há razão alguma, lógica ou jurídica, para submetê-la, antes da execução, a um segundo juízo de certificação, até porque a nova sentença não poderia chegar a resultado diferente do da anterior, sob pena de comprometimento da garantia da coisa julgada, assegurada constitucionalmente. Instaurar a cognição sem oferecer às partes e principalmente ao juiz outra alternativa de resultado que não

um já prefixado, representaria atividade meramente burocrática e desnecessária, que poderia receber qualquer outro qualificativo, menos o de jurisdicional. Portanto, repetimos: não há como negar executividade à sentença que contenha definição completa de norma jurídica individualizada, com as características acima assinaladas”94.

Tudo isto está em perfeita consonância com a tese defendida neste estudo. A

divergência reside no fato de Zavascki entender que “tais virtudes e características não

inadimplemento” (José Roberto dos Santos Bedaque, Efetividade do processo e técnica processual, São Paulo, Malheiros, 2006, p. 373-374).

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são exclusivas da sentença condenatória, podendo ser encontradas em outros provimentos

jurisdicionais, inclusive em certas sentenças declaratórias”95.

A premissa do eminente processualista é de que a sentença do parágrafo único do

art. 4º pode ter conteúdo idêntico ao de uma condenação e ainda ser meramente

declaratória96. Adota, portanto, a teoria da sanção como critério diferenciador, a qual aqui se combate.

É mister observar que o próprio Zavascki admite que “sentença de tal conteúdo

representa, sem duvida, um comprometimento do padrão clássico de tutela puramente

declaratória (como tutela tipicamente preventiva), circunstância que não pode ser

desconsiderada pelo intérprete”97. Ora, a estranheza é causada precisamente pelo fato de que se trata do conteúdo característico de uma sentença condenatória.

A adoção do conceito de sanção leva ainda a uma outra conseqüência. Zavascki

entende que a condenação para o futuro (art. 572) não passa de mera declaração, pois

seria “inimaginável supor que a sentença que decide relação jurídica sujeita a condição

suspensiva possa conter sanção: não houve violação nem é certo que irá haver, até porque

a obrigação nem mesmo existe e sequer é possível saber se ela algum dia existirá. A

sentença que assim dispusesse seria condicional e, portanto, nula”.98

95Sentenças declaratórias, sentenças condenatórias e eficácia executiva dos julgados, p. 51.

96 “Ocorre que o Código de 1973, no par. ún. do art. 4o, trouxe dispositivo inovador: ‘é admissível a ação declaratória

ainda que tenha ocorrido violação do direito’. Ao assim estabelecer, dá ensejo a que a sentença, agora, possa fazer juízo, não apenas sobre o preceito da endonorma (mandato primário não transgredido), mas também sobre o da perinorma (mandato sancionatório), permitindo, nesse último caso, juízo de definição inclusive a respeito da exigibilidade da prestação devida” (Sentenças declaratórias, sentenças condenatórias e eficácia executiva dos julgados, p. 51-52).

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De fato, partindo-se da idéia de condenação como sanção, a condenação para o

futuro99 gera perplexidade, podendo-se até mesmo confundi-la com sentença condicional. Todavia, como já mencionado, nenhum problema surge para quem enxerga a condenação

como declaração da existência e da exigibilidade atual ou potencial do crédito100, pois, para se declarar, não é preciso que se tenha verificado a condição ou o termo. A sentença

poderá ser proferida desde logo. O fato de não ter ocorrido o inadimplemento não atinge a

formação do ato de tutela jurisdicional (composto de duas declarações), como ocorreria

caso se identificasse este ato com a sanção. O seu efeito executivo (que, como efeito, não

é de sua essência) é que restará diferido.

99 É importante ter em mente algumas idéias acerca da condenação para o futuro: Em primeiro lugar, deve-se

observar que, para respeitável doutrina, a condição suspensiva opera no plano da eficácia, não da existência. “Uma obrigação a termo ou sob condição resolutiva ou suspensiva existe, mas só se tornará exigível se e quando o termo ocorrer ou a condição vier a ser implementada” (Dinamarco, Instituições, v. IV, n. 1.435, p. 186). “O ‘se ocorrer...’ que está implícito, ou explícito, no ato jurídico condicionado, opera como dilema ao futuro efeito: ou será, se ocorre o fato; ou não no será, se não ocorre. Não se trata de plano da existência do ato jurídico, e sim plano de eficácia, isto é, do plano em que se produzem, ou não, os efeitos” (Pontes de Miranda, Comentários ao Código de Processo Civil, t. IX, 2. ed, Rio de Janeiro: Forense, 2002, p. 101). Ademais, a sentença condicional não se confunde com a sentença que decide relação jurídica condicional. Aquela é vedada pelo ordenamento (parágrafo único do art. 460), esta é expressamente admitida (arts. 287, 290 e 572). “No estudo da sentença condicional impõe-se o estabelecimento de uma distinção dogmática, de alcance fundamental para o deslinde da questão, e da qual os nossos praxistas não tiveram a mais remota idéia. Trata-se de distinguir, como disse Vassalli, condições do direito reconhecido na sentença e condições do reconhecimento do direito [Filippo Vassalli, La sentenza condizionale, Roma, 1918, p. 64]. Estas, porque atingem diretamente a formação do ato de tutela jurisdicional, são as condições da sentença, em sentido estrito. As outras são condições do direito que é objeto da sentença, que a sentença reconhece e proclama. (...) Como já se apurou, em boa doutrina não se considera condicional a sentença que decide uma relação jurídica sob condição, porque deve-se distinguir condição do direito e condição da sentença” (Moacir Lôbo da Costa, Sentença condicional, p. 96-97 e 102). “A sentença condicional é nula, pois sujeita seus próprios efeitos a um evento futuro e incerto. Portanto, não há falar em título executivo. Todavia, admite-se a sentença que ‘decida relação jurídica condicional’. Na sentença que decide relação jurídica condicional, há título executivo, pois a condenação se projeta para o futuro, ficando com a sua eficácia diferida” (Sérgio Shimura, Título executivo, p. 303-304). “Em princípio, a condenação pressupõe a mora do devedor, escreve José Alberto dos Reis (apreciando o art. 276, hoje art. 472, do Código de Processo Civil português), isto é, uma lesão, já consumada, do direito do credor. Mas admite-se, a título excepcional, que o devedor seja condenado a cumprir obrigações ainda não vencidas. Justifica-se a exceção, em primeiro lugar, pela conveniência de evitar a repetição de litígios idênticos (vantagem de economia processual e de uniformidade de julgamentos) e, em segundo lugar, pelo interesse que pode ter o credor em possuir já um título executivo no momento do vencimento da obrigação (formação antecipada do título executivo). A lei considera digno de proteção esse interesse do credor” (José Joaquim Calmon de Passos, Comentários ao Código de Processo Civil, v. III, p. 220-221).

100 Barbosa Moreira, Execução sujeita a condição ou a termo no processo civil brasileiro, p. 151-152. É a posição

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Ademais, há de se atentar para a crise de direito material que ela visa a solucionar e

para a causa de pedir da respectiva ação. A condenação para o futuro procura afastar o

inadimplemento potencial e se funda no justificado receio de que o devedor se furte a

prestar no tempo devido, o que deve ser evidenciado por seu comportamento. Assim,

trata-se de sentença condenatória101. A sentença somente poderia ser declaratória caso se objetivasse solucionar crise de certeza.

Finalmente, cumpre analisar os exemplos de sentenças que são apontadas como

desprovidas de “características de sentença de condenação”102. Zavascki afirma que a sentença que julga a denunciação da lide (art. 76), a que julga ação consignatória

considerando insuficiente o depósito (§ 2º do art. 899), bem como a que julga ação de

prestação de contas quando há saldo credor (918) não seriam condenatórias, salientando

que empregam os verbos declarar e determinar.

Não é porque o texto legal não emprega o verbo condenar, que deixa de haver

condenação em tais casos. Afinal, se em tais sentenças se reconhece a existência do

crédito e a sua exigibilidade atual ou potencial, elas são condenatórias103.

101 Neste sentido já decidiu o STJ: “Consórcio de automóveis. Desistência. Devolução de prestações pagas. Correção

monetária. Não é lícita a cláusula que, em tal caso, exclui a correção monetária. ‘Incide correção monetária sobre as prestações pagas, quando de sua restituição, em virtude da retirada ou exclusão do participante de plano de consórcio’ Súmula 35/STJ. 2. É viável sentença condenatória a termo. Inteligência do art. 572 do Cód. de Pr. Civil. 3. Recurso especial conhecido e provido” (REsp 53.193/SC, Rel. Min. Nilson Naves, j. 27.09.1994).

102 Teori Albino Zavascki, Sentenças declaratórias, sentenças condenatórias e eficácia executiva dos julgados, p. 55. 103 Assim entendem doutrinadores de primeira linha, como se vê nas passagens a seguir. “Num só ato judicial, duas

(33)

Zavascki menciona ainda, entre os provimentos executáveis não condenatórios, as

sentenças que tem como efeito anexo a obrigação de ressarcir danos em caso de

responsabilidade objetiva por execução provisória (art. 588, I) e por medida cautelar

(811), bem como o caso da sentença que julga procedente ação de resilição de contrato de

promessa de compra e venda, que é título para execução de entrega de coisa, segundo

jurisprudência do STF e do STJ. Nestes casos, contudo, a eficácia executiva decorre

diretamente da lei, independentemente do conteúdo e, conseqüentemente, da natureza de

tais sentenças. Deste modo, tais hipóteses não servem de argumento para a defesa da tese

da possibilidade de execução de sentença declaratória, fugindo do tema ora analisado.

11. A posição ora defendida posta à prova das críticas feitas às outras teorias da

condenação

A tese aqui defendida pretende não apresentar os mesmos vícios que foram

apontados com relação às outras teorias da condenação. Desta forma, analisam-se abaixo

aquelas críticas à luz dos conceitos ora expostos.

ao reconhecer a obrigação, declara a existência do vínculo e condena ao cumprimento da prestação exigível. Hipótese semelhante é a do art. 918, na ação de prestação de contas: ‘O saldo credor declarado na sentença poderá ser cobrado em execução forçada’ (o grifo é nosso)” (Vicente Greco Filho, Direito processual civil brasileiro, v. 3, p. 27). “O caráter condenatório deve provir da natureza da decisão, e não de suas palavras. Por exemplo: malgrado o art. 76, CPC, diga que a sentença declarará o direito do evicto ou a responsabilidade por perdas e danos, valendo como título executivo, não se trata de sentença meramente declaratória, mas sim condenatória. O mesmo se diga quanto ao art. 918, CPC, que preceitua que o saldo credor declarado na sentença pode ser cobrado em execução forçada”. (Sérgio Shimura, Título executivo, p. 243). “Reconhecendo o juiz a insuficiência do depósito, adotará uma das providências a seguir examinadas: (a) se o réu não efetuou o levantamento do depósito, facultado (mas não imposto!) pelo § 1o do art. 899, será rejeitado o pedido consignatório, arcando o autor, com exclusividade, com as

(34)

A sentença que impõe ao réu a perda de sinal pago é condenatória por ter a

declaração da existência e da exigibilidade do crédito e só não produz o seu efeito típico

de ensejar a execução porque contém uma declaração a mais, relativa ao meio de

satisfação (perda do sinal, que já se encontrava em poder do credor). É evidente que ela

soluciona uma crise de adimplemento, não de certeza.104

É interessante acrescentar que Wach, em 1888, ao tratar da diferenciação entre

sentença condenatória e declaratória já sustentava a “inexactitud de la difundida opinión,

que trata de encontrar la diferencia entre ambas las acciones em la naturaleza distinta de

los efectos de la sentencia”105 e acrescentava:

“Hay que tener en cuenta que la condena no es siempre un título ejecutivo, si el actor recibe ya por la sentencia el cumplimiento de lo que ha pretendido sin necesidad de un acto de ejecución. Si se entiende por ejecutabilidad o título ejecutivo, el derecho de ejecución realizable sin más tal derecho falta con harta frecuencia en la condena, por ejemplo, cuando no obstante una acción indudablemente de condena, se condena a una prestación contra una contraprestación, o contra la entrega ya sea de un

mesmas indicadas acima” (Antonio Carlos Marcato, Código de Processo Civil interpretado, São Paulo, Atlas, 2004, p. 2369).

104 Não se pode concordar com a posição de Liebman no sentido de que uma condenação sempre leva à execução:

“Como, em matéria civil, a sanção última e final é sempre a execução, a condenação pode definir-se como a determinação da sanção, ou – o que dá na mesma – a sujeição do devedor à execução” (Execução e ação executiva, in Estudos sobre o processo civil brasileiro, Araraquara, Bestbook, 2004, p. 31). O desacerto desta generalização é aqui apontado por Bedaque: “Embora a sentença condenatória normalmente seja insuficiente para solucionar a crise de adimplemento, constituindo mero elo de ligação ente o processo cognitivo e os atos executivos, às vezes, em razão de circunstâncias do direito material, o resultado prático desejado pelo autor independe de atividade subseqüente, visto que já obtido por outra forma. [Nota de rodapé 53: Aproveitando o exemplo de Barbosa Moreira, parece não assistir razão a Liebman ao afirmar que a sujeição do devedor à execução é sempre a sanção última e final (Liebman, ‘Execução e ação executiva’, in Estudos..., p. 40). Na hipótese imaginada, a condenação simplesmente legitima a não-devolução do sinal. Não deixa de ser sanção imposta ao devedor; diversa, todavia, da sanção executiva]. Nem por isso, todavia, ela deixa de ser condenatória, pois o efeito substancial continua sendo a eliminação da crise de adimplemento, não de mera certeza. Apenas não será necessária atividade material ulterior, destinada a concretizar a condenação, em razão de especificidades da situação” (Efetividade do processo e técnica processual, p. 534).

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