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Inconstitucionalidade formal da alteração

No documento Andre de Freitas Iglesias (páginas 44-48)

Capítulo I – Sentença declaratória e sentença condenatória

14. Inconstitucionalidade formal da alteração

Como mencionado supra, o inciso I do rol de títulos executivos judiciais sempre teve como conteúdo “a sentença condenatória proferida no processo civil”, redação que foi mantida pelo anteprojeto do Instituto Brasileiro de Direito Processual que deu origem

à Lei 11.232/05, e que foi aprovada pela Câmara dos Deputados121.

No Senado, contudo, houve emenda para alterar a redação de tal inciso para “a sentença proferida no processo civil que reconheça a existência de obrigação de fazer, não fazer, entregar coisa ou pagar quantia”. Esperava-se, portanto, que o projeto fosse devolvido à Câmara para apreciação da emenda, como determina a Constituição (art. 65122).

121 Sobre a tramitação do referido projeto de lei (no 3.253/04 na Câmara e no 52/04 no Senado), ver acompanhamento

feito pelo IBDP, disponível em: http://www.direitoprocessual.org.br.

122 “O projeto de lei aprovado por uma Casa será revisto pela outra, em um só turno de discussão e votação, e

enviado à sanção ou promulgação, se a Casa revisora o aprovar, ou arquivado, se o rejeitar. Parágrafo único. Sendo o

Não foi isto, todavia, o que aconteceu. A referida emenda foi considerada mera

emenda de redação e o projeto foi enviado à sanção. Sancionada, a Lei foi promulgada e publicada.123

Não se olvida que, embora a constituição não abra qualquer exceção ao determinar que, em caso de emenda, o projeto deve voltar para a Casa iniciadora, o Regimento

Comum do Congresso Nacional124 dispõe, em seu art. 135, que “a retificação de

incorreções de linguagem, feita pela Câmara revisora, desde que não altere o sentido da

proposição, não constitui emenda que exija sua volta à Câmara iniciadora”.

É certo que o referido Regimento deve respeito à Constituição125, todavia, o

Supremo Tribunal Federal já interpretou o parágrafo único do art. 65 da Constituição no sentido de que é desnecessário o retorno à Casa iniciadora, em caso de “emenda de

redação” que “não alterou a proposição jurídica” 126.

123 Esta emenda impôs a opinião de um ou de poucos sobre conclusão obtida após amplos debates realizados no

IBDP ao tempo da elaboração do projeto e na Câmara ao tempo da votação.

124 Disponível em: http://www.senado.gov.br/sf/legislacao/regsf/.

125 Neste sentido a lição de José Afonso da Silva, com apoio em Jorge Rodríguez-Zapata Pérez: “Nesse contexto,

surge a questão de saber se os regimentos internos das casas legislativas estão sujeitos ao controle de constitucionalidade ou se estão cobertos pelo dogma dos interna corporis acta. Aqui se confrontam dois valores: de um lado, a garantia da independência das Casas legislativas que é o mesmo fundamento que leva a Constituição a estabelecer uma reserva de regimento interno sobre assuntos de sua organização, funcionamento, polícia, criação e transformação ou extinção de cargos etc., matéria, enfim, especificada genericamente no inc. IV do art. 51 da CF, para a Câmara dos Deputados, e no inc. XIII do seu art. 52, para o Senado Federal. De outro lado, a supremacia das normas constitucionais que as põe no ápice do ordenamento jurídico. Não há dúvida de que há de prevalecer o valor da supremacia constitucional, até porque a norma regimental deixa de ser coberta pelo princípio da independência parlamentar que lhe dá fundamento, se excede do âmbito de reserva que lhe concede a Constituição” (Processo

constitucional de formação das leis, 2. ed., São Paulo, Malheiros, 2006, p. 343-344).

Assim, se a emenda é de redação, a falta de retorno à Casa iniciadora não gera inconstitucionalidade formal, a qual ocorre, contudo, se a emenda altera a proposição jurídica.127

O grande problema, porém, é determinar quais emendas são de redação e quais

não são128. O Regimento Interno da Câmara dos Deputados129 conceitua “emenda de

redação” no seu art. 118: “§ 5º Emenda modificativa é a que altera a proposição sem a

modificar substancialmente. (...) § 8º Denomina-se emenda de redação a modificativa que visa a sanar vício de linguagem, incorreção de técnica legislativa ou lapso manifesto”.

Ora, se emenda de redação é aquela que altera a proposição sem a modificar

substancialmente, visando a sanar vício de linguagem, incorreção de técnica legislativa ou lapso manifesto, nada pode ser lido no inciso I do art. 475-N além da “sentença condenatória proferida no processo civil”.

Duas opções tem, então, o interprete: (a) considerar que houve alteração da proposição e que, portanto, o inciso I do art. 475-N é inconstitucional (o que acarretaria ausência de menção ao principal título executivo judicial no respectivo rol, levando à

127 Assim ensina José Afonso da Silva: “Se, porém, na fase de revisão, o projeto sofrer alteração, volverá à Câmara

iniciadora para apreciação das alterações, que consistirá exclusivamente na aprovação ou rejeição do que foi alterado. Vale dizer: se não se proceder desse modo, comete-se inconstitucionalidade em face do disposto nos arts.

65 e 66 da CF” (Processo constitucional de formação das leis, p. 353). Mais adiante o mestre reforça a idéia: “Haverá inconstitucionalidade ‘in procedendo’ no referente à discussão e votação do projeto de lei, que afete a validade da lei? Não me ocorre uma tal possibilidade, a não ser no referente ao quorum de aprovação, questão que já foi examinada, ou no que tange às relações bicamerais, que também já foi objeto de consideração” (Idem, p. 359).

128 É digno de nota que o Regimento Interno do Senado Federal (disponível em:

http://www.senado.gov.br/sf/legislacao/regsf/) prevê que “quando houver dúvidas sobre se a emenda apresentada como de redação atinge a substância da proposição, ouvir-se-á a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania”. Isto ocorreu no caso concreto, mas a CCJ aprovou esta emenda como “de redação”.

necessidade de extrair a sua executividade do restante do sistema)130-131; ou (b) dar ao dispositivo uma interpretação conforme a constituição, lendo ali o que antes constava, ou seja, a sentença condenatória (“salvando” o inciso), solução que parece ser mais

conveniente132-133-134, já que o interprete deve procurar preservar a norma no sistema.

Por fim, cumpre salientar que não há “boa inconstitucionalidade”. Mesmo os que defendem a possibilidade da inclusão da sentença declaratória no rol de títulos executivos não podem compactuar com o total desrespeito às normas constitucionais, sob pena de se

130 “Há, rigorosamente, diferença entre uma previsão e outra? Ela é, apenas, redacional ou ela pode ser entendida

como uma alteração substancial, como uma alteração de conteúdo? As minhas respostas são positivas. A diferença é gritante quando comparadas as redações dos dois dispositivos, e ela não é, ao contrário do que poderia parecer – e, vou além, ao contrário do que se poderia querer – apenas redacional” (Cassio Scarpinella Bueno, A nova etapa da

reforma do Código de Processo Civil, p. 132).

131 “O dispositivo do art. 475-N, I, padece de inconstitucionalidade formal. Houve mudança substancial no conteúdo

do dispositivo no Senado, em relação àquele que havia sido aprovado na Câmara dos Deputados. Sendo assim, o Projeto de Lei precisava ter voltado para a câmara, a fim de que se apreciasse a inovação havida. Apenas as mudanças meramente redacionais dispensam o retorno do projeto de lei à outra casa legislativa. Nos demais casos, o retorno à outra casa legislativa é imprescindível, sob pena de ofensa ao sistema bicameral do processo legislativo brasileiro, consagrado na Constituição (CF, art. 65, par. ún.)” (Luiz Rodrigues Wambier [ver nota 40], Flávio Renato Correia de Almeida e Eduardo Talamini, Curso avançado de processo civil, p. 57-58).

132 “A se entender que houve mesmo, no Senado Federal, uma modificação substancial no sentido da regra (...) as

conseqüências daí resultantes são bem mais graves. É que, assim entendido o dispositivo tende a cair em flagrante inconstitucionalidade porque ele foi enviado à sanção (e efetivamente sancionado) sem o reenvio exigido pelo art. 65, parágrafo único, da Constituição Federal, à Câmara dos Deputados. Também por esta razão, destarte, é importante que prevaleça a solução interpretativa que passo a expor. (...) me parece, antes de tudo, necessário não ver na redação do inciso I do art. 475-N nenhuma ‘novidade substancial’” (Cassio Scarpinella Bueno, A nova etapa

da reforma do Código de Processo Civil, p. 133).

133 “Então, de duas uma. Caso se entenda que a mudança de redação havida no Senado alterou substancialmente o

sentido e alcance da regra, impõe-se reconhecer sua inconstitucionalidade formal e conseqüente inaplicabilidade. Caso se repute que se tratou de mera alteração redacional, que não modificou o sentido original da regra tal como aprovado na Câmara, o dispositivo é constitucional. Mas, nessa segunda hipótese, isso significa que, mesmo em face da redação ora dada ao dispositivo, permanecem sendo títulos executivos apenas as sentenças propriamente condenatórias (e não também aquelas que acolham pedidos meramente declaratórios de existência da obrigação). Em suma, em qualquer das hipóteses, fica descartado que a sentença meramente condenatória de existência do crédito constitua título executivo. Entre as sentenças judiciais civis, permanecem constituindo título executivo apenas aquelas que contenham em si mesmas a eficácia condenatória” (Luiz Rodrigues Wambier [ver nota 40], Flávio Renato Correia de Almeida e Eduardo Talamini, Curso avançado de processo civil, p. 58).

134 “Com a nova redação, cogitou-se que o inciso alterado acabou por abrigar uma nova espécie de tutela,

possibilitando que a sentença declaratória (que reconhece a existência de obrigação) ostentasse eficácia executiva (pois seria título executivo judicial). A toda evidência, não foi essa a intenção do legislador. Caso contrário, tal inciso seria flagrantemente inconstitucional por violar o devido processo legislativo, uma vez que a emenda de fundo (e não apenas de redação) não retornou à Câmara dos Deputados, como exige o art. 65, parágrafo único, da Constituição. Por essas razões, não parece que se tenha originado, com a reforma, uma nova sentença declaratória executiva. O inc. I do art. 475-N do CPC, prevê, apenas com outra redação, a mesma sentença condenatória proferida no processo

fomentar o triste quadro relatado na conhecidíssima lição de Ruy Barbosa: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto”.

Assim, caso se deseje efetivamente a alteração, ela deverá advir de novo projeto de lei que respeite o processo legislativo, afinal, vivemos em um Estado de Direito.

No documento Andre de Freitas Iglesias (páginas 44-48)