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Ele Busca e Salva o Perdido

No documento O Evangelho Segundo Jesus (páginas 100-109)

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__________ 7 Ele Busca e Salva o Perdido

Não há palavras mais gloriosas na Bíblia do que estas, de Lucas 19.10: ―O Filho do homem veio buscar e salvar o perdido‖. Este versículo sumariza a obra de Cristo em termos claramente aplicáveis a todas as pessoas. Do ponto de vista humano, pode tratar-se da verdade mais importante jamais registrada nas Escrituras. Infelizmente, o dispensacionalismo tradicional tende a não observar esse aspecto tão simples. Alguns dispensacionalistas têm visto o ―evangelho do reino‖

proclamado por Jesus (Mt 4.23) como algo distinto do ―evangelho da graça de Deus‖.1 A essência desse ―evangelho do reino‖, diz uma fonte bem conhecida, está em que ―Deus almeja estabelecer o reino de Cristo na Terra... em cumprimento à aliança feita com Davi‖.2 Lewis Sperry Chafer escreveu que o evangelho do reino era somente para a nação de Israel, ―e jamais deve ser confundido com o evangelho da graça salvadora‖.3 Outro autor dispensacionalista antigo declarou que o evangelho pregado por Jesus nada tinha a ver com salvação, mas era a simples proclamação de que havia chegado o tempo de o reino de Cristo ser estabelecido na Terra.4 Tudo isso pode encaixar-se perfeitamente num determinado esquema dispensacionalista, porém as Escrituras não lhe dão sustentação. Não podemos esquecer de que Jesus veio para buscar e salvar o perdido, e, não, meramente anunciar um reino terreno.

Quando Jesus proclamou o seu reino, Ele estava pregando a salvação. Sua conversa com o jovem rico, em Mateus 19, ajuda--nos a compreender a terminologia que Ele usava. O jovem perguntou a Jesus o que deveria fazer para obter a vida eterna. Depois dele ter ido embora sem salvação, Jesus disse aos discípulos: ―Em verdade vos digo que um rico dificilmente entrará no reino dos céus‖ (v. 23). Portanto, entrar no reino dos céus é sinônimo de obter-se a vida eterna. No versículo seguinte, Jesus diz que ―é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus‘ ‘ (v. 24). Obviamente ―reino de Deus‖ e ―vida eterna‖ são todas expressões que se referem à salvação. Os discípulos entenderam isso claramente, pois perguntaram, em seguida: ―Sendo assim, quem pode ser salvo?‖ (v. 25).

Não importa os termos usados — receber vida eterna, entrar no reino ou ser salvo — a essência da mensagem de Jesus era sempre o evangelho da salvação. Assim Ele se referiu à sua tarefa: ―Não vim chamar justos, e, sim, pecadores ao arrependimento‖ (Lc 5.32). O apóstolo Paulo disse, em 1 Timóteo 1.15: ―Fiel é a palavra e digna de toda aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal‖.

Busca e Resgate

É da natureza de Deus buscar e salvar pecadores. Já nas páginas iniciais da história humana, foi Deus quem procurou o casal decaído no jardim. Em Ezequiel 34.16, Deus diz: ―A perdida buscarei, a desgarrada

tornarei a trazer, a quebrada ligarei e a enferma fortalecerei‖. Por todo o Velho Testamento o Todo-Poderoso é apresentado como Salvador (SI 106.21; Is 43.11; Os 13.4). Portanto, convinha que, quando Cristo viesse ao mundo dos homens como Deus encarnado, Ele fosse conhecido, antes de tudo, como Salvador.

Até mesmo o seu nome foi divinamente escolhido para ser o nome de um Salvador. Um anjo falou a José em sonho: ―E lhe porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos pecados deles‖ (Mt 1.21). O âmago do ensino da redenção é que Jesus veio a este mundo numa missão de busca e salvamento de pecadores. É essa verdade o que caracteriza o evangelho como boas novas.

Mas o evangelho é boa nova somente para aqueles que vêem-se a si mesmos como pecadores. O inquestionável ensino de Jesus é que os que não reconhecem o seu pecado, e dele não se arrependem, não podem ser alcançados pela graça salvadora. Todos são pecadores, mas nem todos querem admitir a sua depravação pessoal. Se o fazem, Jesus torna-se amigo deles (cf. Mt 11.19). Os que não o fazem, só poderão conhecê-Lo como Juiz (cf. Mt 7.22).

A parábola de Jesus, em Lucas 18.10-13, salienta esta verdade. Ele dirigiu aquelas palavras ―a alguns que confiavam em si mesmos por se considerarem justos, e desprezavam os outros‖ (v. 9). ―Dois homens subiram ao templo com o propósito de orar: um fariseu e o outro publicano. O fariseu, posto em pé, orava de si para si mesmo, desta forma: Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros, nem ainda como este publicano; jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho. O publicano, estando em pé, longe, não ousava nem ainda levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, sê propício a mim, pecador‖ (vv. 10-13). A maneira como o Senhor avaliou esses dois homens deve ter aturdido e enfurecido a platéia de fariseus cheios de auto-justiça: ―Digo-vos que este [o publicano] desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque todo o que se exalta, será humilhado; mas o que se humilha, será exaltado‖ (v. 14).

O arrependimento humilde é a única resposta aceitável que se pode dar ao evangelho segundo Jesus. Os que não confessam o seu pecado — como o jovem rico — são repelidos por Ele. Mas Ele alcança em graça

aqueles que, como Mateus e a mulher samaritana, reconhecem o seu pecado e buscam libertação. Quanto pior o pecador, mais maravilhosamente a sua graça e glória são reveladas através de sua redenção.

Multidões de pecadores arrependidos manisfestaram-se durante o ministério terreno de Jesus. Ele ministrava continuamente a publicanos e outros proscritos. Lucas 15.1 indica que uma corrente constante de tais pessoas aproximava-se dEle. Na verdade, a pior acusação que os fariseus puderam fazer contra o seu ministério foi: ―Este recebe pecadores e come com eles‖ (Lc 15.2). Eles comparavam-se a Cristo, e eram condenados por sua própria comparação. Eles nada sentiam pelos proscritos, não amavam o pecador, não tinham compaixão pelos perdidos. Pior: nem sentiam a sua própria pecaminosidade. Jesus nada podia fazer por eles.

O Cenário Para Um Milagre

À semelhança de Mateus, Zaqueu era um publicano cujo coração fora divinamente preparado para receber e seguir Jesus. O seu encontro com Jesus deu-se em Jericó, estando o Senhor a caminho de Jerusalém, onde iria morrer. Jesus estivera pregando na Galiléia por algum tempo. Lá ficava a sua cidade, Nazaré. Agora, ia para Jerusalém para a última Páscoa — aquela em que Ele mesmo se faria o Cordeiro Pascal, ao dar a sua vida numa cruz pelos pecados do mundo. E, como que para mostrar exatamente porque Ele tinha de morrer, fez uma pausa em Jericó para alcançar um infeliz publicano.

Durante a viagem o Senhor havia atraído um grupo de peregrinos que iam celebrar a Páscoa em Jerusalém. A sua fama se espalhara por toda a Palestina. Há não muito tempo, Ele ressuscitara Lázaro. Isso ocorreu em Betânia, não muito longe de Jericó. A notícia se espalhou, e as pessoas estavam curiosas. Cada habitante de Jericó capaz de locomover-se saiu à rua, preparando-se para ver Jesus passar. A cidade estava alvoroçada. Seria Ele o Messias? Teria vindo para dominar? Estaria chegando para derrotar os romanos e estabelecer o seu reino?

Jericó ficava a nordeste de Jerusalém, num entroncamento internacional, onde se encontravam as principais estradas vindas do norte, sul, leste e oeste. Sua alfândega, onde se coletavam os impostos, era

movimentada. E Zaqueu era o publicano responsável pela alfândega de Jericó.

Buscando o Salvador

Zaqueu era desprezado por toda a comunidade. Lucas 19.7 diz que todos o chamavam de pecador. Ele não só era publicano e traidor da nação, mas é provável que também o seu caráter fosse corrupto. Esse era o caso da maioria dos publicanos.

O Senhor Jesus demonstrou um amor especial pelos publicanos. Lucas focaliza especialmente as várias vêzes em que Jesus os encontrou. O tema desse evangelho é o amor do Salvador pelos perdidos; ele várias vezes apresenta Jesus alcançando a escória da sociedade. Sempre que Lucas fala de um publicano (3.12; 5.27; 7.29; 15.1; 18.10; 19.2) é num sentido positivo. Eles eram os proscritos de uma sociedade cheia de religiosidade

— pecadores flagrantemente notórios — o tipo exato de gente que Jesus veio salvar.

Pode parecer que era Zaqueu quem estava procurando Jesus, mas a verdade é que, se Jesus não o tivesse buscado primeiro, ele nunca teria vindo ao Salvador. Não há quem, por si, busque a Deus (Rm 3.11). Em nosso estado natural, decaído, estamos mortos em delitos e pecados (Ef 2.1), alheios à vida de Deus (Ef 4.18) e, portanto, totalmente incapazes e sem o desejo de buscar a Deus. Somente quando somos tocados pelo soberano poder persuasivo de Deus é que nos podemos mover em sua direção. Assim, só quando Deus começa a buscar uma alma é que esta pode corresponder, procurando-O. Um autor anônimo escreveu o seguinte hino:

Busquei ao Senhor, e só depois descobri

Que Ele, ao buscar-me, moveu minha alma até Si; Não foi que eu Te haja encontrado, ó real Salvador, Mas, eu fui achado por Ti!

Quando alguém busca a Deus, podemos estar certos de que essa busca é uma resposta ao estímulo do Deus que nos procura. Não poderíamos amá-Lo se Ele não nos houvesse amado primeiro (cf. 1 Jo 4.19).

Apesar disso, Deus conclama os pecadores a que O busquem. Isaías 55.6 diz: ―Buscai o SENHOR enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto‖. Jeremias 29.13 afirma: ―Buscar-me-eis, e me achareis, quando me buscardes de todo o vosso coração‖. Deus diz, em Amós 5.4: ―Buscai- me, e vivei‖. Disse Jesus: ―buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça‖ (Mt 6.33); ―buscai, e achareis‖ (Mt 7.7). Sendo buscado por Deus, Zaqueu estava buscando.

Zaqueu tinha ouvido falar de Jesus, mas aparentemente nunca O tinha visto. Lucas 19.3 diz que ele ―procurava ver quem era Jesus‖. O tempo verbal indica que ele estava se esforçando constantemente para ver Jesus. Por quê? Curiosidade? Provavelmente. Consciência? Com certeza. Um desejo de libertar--se da culpa? Bem pode ser. Mas, acima de tudo, o fato de ter sido salvo demonstra que a razão principal que o atraiu a Jesus foi o poder irresistível de persuasão do Espírito Santo. Está claro que o Espírito de Deus havia dado início, no coração de Zaqueu, ao processo de atraí-lo a Jesus. Zaqueu não buscou a Deus por iniciativa própria. Foi o Espírito de Deus que moveu o seu coração; e, movido por Deus, ele fez um esforço para ver Jesus.

Eis um homem proscrito, odiado, cujas mãos estavam cheias do dinheiro que havia extorquido dos pobres. Um homem tremendamente culpado. Mesmo assim, em vez de correr e esconder-se, ele queria desesperadamente ver a Jesus. Para fazê-lo, ele transpôs muitos obstáculos. Um deles era a multidão, pois os habitantes de Jericó abarrotavam as ruas. Acrescente-se a isso a sua baixa estatura. Zaqueu, é provável que sensatamente evitasse aglomerações. Um homem de pouca estatura teria problemas numa multidão, mas um baixinho que era chefe dos cobradores de impostos arriscava-se a tomar uma cotovelada intencional no queixo, ou um bom pisão no dedão do pé, ou até uma facada pelas costas.

Nesse dia, Zaqueu não se deixou levar por tais temores. Não estava nem mesmo preocupado com sua dignidade. Ele estava tão determinado a ver Jesus que correu à frente da multidão e subiu num sicômoro para esperar o Salvador (Lc 19.4). O sicômoro é uma árvore não muito alta, mas é grossa e tem muitos galhos. Uma pessoa de pequena estatura podia subir rapidamente pelo tronco, assentar-se num galho e ficar sobre a rua. E foi isso o que fez Zaqueu. A árvore oferecia-lhe uma arquibancada perfeita

para ver a parada. Não era um lugar digno para um homem estar, mas isso não era importante para ele a essa altura. Zaqueu só queria ver Jesus.

O Salvador Que Busca

O que aconteceu em seguida deve ter abalado Zaqueu. Embora Jesus nunca o tivesse encontrado antes, parou no meio da multidão, olhou para cima e disse: ―Zaqueu, desce depressa, pois me convém ficar hoje em tua casa‖ (v. 5). Esta, sim, foi uma abordagem evangelística direta! Não há nada de sutil nesta investida de Jesus!

Não sabemos como Jesus sabia o nome de Zaqueu. Talvez pessoas da multidão tivessem apontado para ele. Talvez o soubesse por sua onisciência. O certo é, todavia, que Ele tinha um encontro divinamente marcado com aquele homem, pois quando disse ―me convém ficar hoje em tua casa‖, não estava fazendo um pedido mas dando uma ordem. Não estava fazendo uma pergunta, mas afirmando — ―irei‖; ―eu tenho de ir‖. O coração de Zaqueu fora preparado de acordo com o cronograma divino.

Zaqueu queria ver Jesus, mas não fazia a menor idéia de que Jesus queria vê-lo. ―Ele desceu a toda pressa e o recebeu com alegria‘ ‘ (v. 6). Poderíamos pensar que um pecador tão desprezível sentir-se-ia aborrecido por ouvir o Filho de Deus perfeito e sem pecado, dizer-lhe: ―Irei à tua casa‖. Mas ele alegrou-se. Seu coração estava preparado.

A reação da multidão era previsível. Tanto a elite religiosa quanto o povo comum desprezavam Zaqueu. ―Todos os que viram isto murmuravam, dizendo que ele se hospedara com homem pecador‖ (v. 7). Eles criam, como já vimos, que entrar na casa de um proscrito significava tornar-se impuro. Comer com alguém como Zaqueu era a pior contaminação possível. Eles não davam valor algum à alma de Zaqueu, e não se preocupavam com o seu bem-estar espiritual. Seus olhos cheios de auto-justiça viam unicamente o pecado dele. Não podiam compreender, e, em seu orgulho cego, não podiam ver que Jesus viera buscar e salvar pecadores. Condenaram-no por isso. Ao fazê-lo, condenaram--se a si mesmos.

Não sabemos o que aconteceu na casa de Zaqueu. A Bíblia não diz o que ele serviu no jantar, nem quanto tempo Jesus ficou em sua casa, nem sobre o que conversaram. Também não sabemos o que Jesus falou a

Zaqueu para levá-lo à salvação. Como já vimos noutras histórias de Jesus evangelizando, a metodologia por Ele utilizada não é o importante. A conversão é um milagre divino, e não há fórmulas que a possam produzir ou explicar. Não há plano de salvação em quatro passos, nem qualquer oração pré-fabricada que possa garantir a salvação de uma alma. Contudo, podemos pressupor que Jesus confrontou o pecado dele. Sem dúvida, Zaqueu já sabia que era um grande pecador. Certamente Jesus revelou a Zaqueu quem Ele realmente era — Deus encarnado. O que quer que Jesus lhe tenha dito, o fato é que Ele encontrou em Zaqueu um coração aberto.

O Fruto da Salvação

A cortina parece levantar-se perto do final da conversa que tiveram, em Lucas 19.8 — ―Entrementes, Zaqueu se levantou e disse ao Senhor: Senhor, resolvo dar aos pobres a metade dos meus bens; e, se nalguma coisa tenho defraudado alguém, restituo quatro vezes mais. Então Jesus lhe disse: Hoje houve salvação nesta casa, pois que também este é filho de Abraão‖ (vv. 8,9).

Observe que Zaqueu chamou Jesus de Senhor. Esse título pode significar apenas ―senhor‖ ou ―mestre‖. Porém é certo que aqui ele significa mais do que isso. No versículo 9, Jesus disse que Zaqueu fora salvo. Assim sendo, Zaqueu deve ter reconhecido Jesus como Senhor no sentido de sua deidade, confessando-O como seu Senhor pessoal. Essa é uma afirmação que ele não poderia ter feito antes que Jesus operasse em sua vida, e que também nunca mais poderia negar (1 Co 12.3).

Eis um homem radicalmente transformado. A decisão de dar a metade do que possuía aos pobres constituiu-se numa tremenda reviravolta e numa clara evidência de que o seu coração fora transformado. O tomador tomou-se doador. O extorsionário tomou-se filântropo. Pagaria aqueles de quem roubara, dando-lhes quatro vezes mais. Sua mente fora mudada, seu coração fora mudado, e a sua intenção clara era de que o seu comportamento também o fosse. Não é tanto que o seu coração tenha mudado com relação às pessoas, ainda que isso tenha ocorrido com toda a certeza. O principal é que mudou em relação a Deus, pois agora ele queria obedecer a Deus, fazendo o que era justo e reto.

Não era preciso que pagasse quatro vezes mais. Números 5.7 exigia a multa de um quinto como restituição pelo erro. Mas a generosidade de

Zaqueu era a evidência de uma alma transformada, uma reação típica de um recém-convertido, o precioso fruto da redenção. Ele não disse: ―A salvação é linda, mas não me faça exigências‖. Há algo no coração de todo nascido de novo que o faz querer obedecer. É um coração de ávida e generosa obediência; uma mente transformada, um comportamento transformado. Toda a evidência indicava que Zaqueu era um crente genuíno. Jesus viu isso e reconheceu nele um coração cheio de fé. Leia novamente Lucas 19.9: ―Também este é filho de Abraão‖. Esta é uma afirmação da fé que ele tinha.

Zaqueu era filho de Abraão não porque fosse judeu, mas porque creu. Romanos 2.28 diz que ―não é judeu quem o é apenas exteriormente‖. Então, o que faz de alguém um verdadeiro judeu? Romanos 4.11 diz que Abraão é o pai de todos os que crêem. Gálatas 3.7 afirma que ―os da fé é que são filhos de Abraão‖. Todos os que confiam em Cristo são descendentes de Abraão. Portanto, ser um verdadeiro filho de Abraão equivale a ser um crente. A salvação não veio para Zaqueu porque ele repartiu o seu dinheiro, mas porque ele se tornou um verdadeiro filho de Abraão, ou seja, um crente. Ele foi salvo pela fé, não por obras. Mas as obras foram uma importante evidência de que a sua fé era real. A experiência de Zaqueu harmoniza-se perfeitamente com Efésios 2.8-10: ―Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie. Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas‖ (Tg 2.14-26).

Este é o propósito da salvação: transformar totalmente o indivíduo. A verdadeira fé salvadora transforma o comportamento da pessoa, transforma o seu modo de pensar, e lhe dá um novo coração. 2 Coríntios 5.17 diz que ―se alguém está em Cristo, é nova criatura: as cousas antigas já passaram; eis que se fizeram novas‖. A resposta de Zaqueu ao chamado de Jesus confirma a verdade desse versículo. Para ele, seria difícil compreender pessoas que, hoje em dia, dizem-se nascidas de novo, mas cujas vidas são um atentado a tudo o que Jesus sempre defendeu.

Em Lucas 3, João Batista censurou as multidões que foram a ele para serem batizadas: ―Produzi, pois, frutos dignos do arrependimento‖ (v. 8). Que cena formidável — um profeta de Deus repreendendo os que haviam

sido atraídos pelo seu ministério, chamando-os de raça de víboras! Ele estava, na verdade, tentando afastá-los.

Será bom que imitemos o seu exemplo! A cristandade contemporânea mui freqüentemente aceita um arrependimento superficial, infrutífero. A conversão de Zaqueu contesta qualquer atitude superficial. Sua transformação instantânea e dramática é o resultado que se espera de uma fé genuína. Foi com este propósito que Jesus veio ao mundo.

―O Filho do homem veio buscar e salvar o perdido‖ (Lc 19.10). Como vemos na conversão de Zaqueu, o resultado infalível da obra transformadora de Deus é uma vida transformada. Quando uma alma é redimida, Cristo lhe dá um novo coração (cf. Ez 36.26). Está implícita nessa transformação de coração um conjunto de novos desejos — o desejo de agradar a Deus, de obedecer, de refletir a sua retidão. Se não ocorre uma tal mudança, não há razão para pensar que tenha ocorrido salvação genuína. Se, como no caso de Zaqueu, existe evidência de uma fé que deseja obedecer, aí está a marca de um verdadeiro filho de Abraão.

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1. E. Schuyler English, et al., A Bíblia Scofield (São Paulo: Imprensa Batista Regular do Brasil, 1983).

2. Ibid.

3. Lewis Sperry Chafer, Grace (Grand Rapids: Zondervan, 1922), p. 132.

4. Clarence Larkin, Rightly Dividing the Word (Philadelphia: Larkin, 1918), p. 61.

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