• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO II: ENQUADRAMENTO TEÓRICO

2.4. Do universo dos textos informativos ao estudo das enciclopédias para a infância

2.4.3. Elementos específicos e estrutura dos objetos

Admitindo que pertencem a uma “classe especial de textos”, Cuadrado (1996:138) estabelece um conjunto de caraterísticas textuais das enciclopédias, ao mesmo tempo que explora os elementos que as distinguem dos dicionários. Naturalmente, neste momento, não nos interessa perceber quais as fronteiras entre estes dois textos informativos, mas sim os aspetos textuais que os destacam (p. 139) e que podem ajudar a compreender melhor as especificidades dos artigos presentes na generalidade das enciclopédias. São eles:

a) Discurso: organiza-se alfabeticamente; é fragmentado em entradas (ou conjuntos discursivos) que podem conter uma ideia completa e/ou dar acesso a outras informações (subdiscursos). Normalmente, estas apresentam-se em forma de referências. Na prática, o sentido de leitura não invalida a compreensão;

b) Informação não verbal: é comum conter gráficos, esquemas, fotos, ilustrações, entre outras;

c) Definição: trata-se de uma descrição ou conjunto de descrições da realidade existente ou imaginada;

d) Recurso a nomes próprios: podem surgir sistematicamente no discurso;

e) Tradução: a linguagem é um simples instrumento ou mediador, pelo que é possível a sua tradução direta;

f) Exemplos: normalmente, dispensa exemplos linguísticos;

g) Usos metalinguísticos ou reflexivos: não é tanto uma caraterística das enciclopédias. Apenas o campo científico ou especialidade em que um termo é usado faz sentido.

Figura 5. Volumes de A Enciclopédia do Conhecimento, Texto Editores

25

Partindo das considerações do autor relativamente ao discurso que carateriza as enciclopédias, percebemos que estes livros possuem uma configuração textual distinta de outros textos, o que convida o leitor a uma experiência menos comum. As entradas, ou verbetes, colocam a informação dispersa nas páginas do livro, sendo que, no seu conjunto, estes formam aquilo que designamos por artigo enciclopédico. Este organiza-se segundo uma lógica descritiva específica, possuindo “partes que constituem a introdução, desenvolvimento e conclusão, e faz uso dos mecanismos que lhe garantem coerência e coesão interna” (Correia, 2009: 27). Ou seja, embora fragmentadas, as várias entradas encontram-se interrelacionadas e desencadeiam uma série de outras informações relevantes, apresentadas em unidades textuais complementares. As mesmas procuram responder a questões ou curiosidades sobre uma determinada temática, às quais o leitor-usuário pode aceder de diversas formas ou sentidos. Isto é, se, por exemplo, o tema destacado for as plantas, provavelmente, encontraremos uma entrada a introduzir o tema – pode surgir na forma de questão ou não, localizada em qualquer parte da página –, seguida de outras, referindo as diferentes partes e constituintes de uma planta, as suas funções, os tipos de planta que podemos encontrar nos diferentes lugares, entre outras informações.

Em alguns casos, um artigo pode concentrar todas as informações numa dupla página. Esta é uma caraterística muito presente naquilo a que Garralón (2013) apelidou de “fenómeno Dorling Kindersey” (p. 155). Os livros que apresentam esta estrutura são descritos pela autora como objetos fascinantes, por permitirem ao leitor abri-los por onde quiser — “estilo zapping televisivo” —, e complexos para ler, uma vez que “el deseño y las imágenes atrapan más que el próprio texto” (p. 39).

Antes mesmo de procedermos à análise de um reduzido corpus de enciclopédias, utilizado durante a componente empírica deste estudo, vejamos o exemplo da Primeira Enciclopédia da Ciência (2009), exemplar onde é possível verificar a forma como se organiza internamente, bem como se apresenta em termos de composição visual e gráfica.

26

A edição portuguesa deste livro Dorling Kindersey, traduzida do inglês por Luís Gonçalves, divide-se em cinco capítulos dedicados à ciência. Com a chancela da, já extinta, editora portuense Civilização, resulta do trabalho conjunto de uma vasta equipa. Uma breve consulta da ficha técnica permite-nos constatar isso mesmo. Os intervenientes na sua composição vão desde editores, designers, revisores, até responsáveis de pesquisa de imagens, consultores, passando por editores de categoria, editores de produção, entre muitos outros. Pode, inclusivamente, verificar-se a presença de um designer e de um editor de capa, distintos daqueles que estiveram envolvidos no design do corpus da enciclopédia. Esta é, efetivamente, uma caraterística comum nestes livros informativos. Ao contrário dos textos literários e de alguns não literários, incluindo informativos, as enciclopédias apresentam temas variados, por vezes afetos a diferentes áreas científicas, o que prevê que possam ser escritas por vários autores. Tal como refere Correia (2009), “os autores de verbetes de enciclopédia são especialistas das áreas sobre as quais redigem e aqueles que lhes competem; os diversos artigos, redigidos por diferentes autores, são reunidos e organizados para produzir a enciclopédia” (p. 26). As palavras da autora permitem perceber que, quanto mais diversificado for o leque de áreas sobre as quais se debruçam os artigos — como acontece no caso das enciclopédias gerais e universais —, menos restrito é o grupo de autores. Pelas suas caraterísticas verbo-icónicas, as enciclopédias destinadas a pré-leitores ou leitores iniciais podem apresentar um número de autores mais reduzido, porém, contam, geralmente, com o trabalho de outros profissionais, designadamente, ilustradores.

27

Como foi referido, inicialmente, esta enciclopédia é uma obra traduzida. Trata-se de uma ou de um exemplo, no leque de muitas a que, atualmente, todos podemos aceder. Admitir traduções é, inclusive, uma das caraterísticas que Cuadrado (1996) destaca nas enciclopédias, sublinhando, também, a ausência de exemplos lexicais na sua composição (p. 144). Embora este seja um aspeto comum a muitas outras tipologias e géneros textuais, a tradução não é possível em toda a classe de textos informativos. O dicionário léxico, por exemplo, não admite traduções, mas, por seu turno, recorre frequentemente a exemplos lexicais para aumentar os níveis de compreensão das definições que apresenta. As enciclopédias, por não estarem tão limitadas em termos de extensão textual, não necessitam de incluir exemplos lexicais nas diversas entradas, algo que facilmente podemos constatar na leitura do livro em análise. Relativamente ao seu formato, esta enciclopédia apresenta-se com uma capa dura, de grandes dimensões e papel de alta gramagem, aspetos paratextuais que denuncia o leitor a quem se dirige. A informação acerca do destinatário está patente na capa do livro, onde é possível ler-se: “A primeira obra de consulta para crianças em idade escolar”. Isto não invalida, no entanto, que crianças em idade pré-escolar as consultem ou as utilizem nas suas pesquisas.

Ilustrados de forma cuidada e rica, estes livros oferecem uma leitura altamente visual à criança, elevando a imagem a um patamar superior. Tal como afirma Garralón (2013, p. 157) “la tradicional relación texto-imagem se invierte”, uma vez que, segundo a autora, neste tipo de livros “es lo visual lo que determina el texto y no, como acurre tradicionalmente, las imágenes ‘ilustran’ un texto escrito previamente” (p. 161). Mas, ao folhearmos o livro, saltam à vista outros aspetos que não apenas a clareza e o realismo das imagens ou a dupla paginação, onde o artigo concentra toda a informação possível acerca de um tema. A forma como toda a composição verbo-icónica deste livro se apresenta ao leitor, mostra-se muito estimulante e didática. Para além das referências textuais que acompanham as imagens — hierarquizadas de acordo com a relevância das informações —, a criança pode encontrar curiosidades, desafios, factos estranhos, bem como propostas de atividade ou novas questões sobre o mesmo assunto, ainda que, para obtê-las, o leitor se veja obrigado a girar o livro, como acontece neste livro.

Uma breve referência, agora, à Enciclopédia Infantil Ilustrada, livro editado pela extinta editora Civilização, no ano de 1998, que utilizámos, aliás, durante a implementação do nosso projeto. Projeto editorial da responsabilidade de Carey Combe, traduzida do inglês por Sofia Gomes, contou com a colaboração de vários autores na elaboração dos diversos artigos, que abordam temáticas relacionadas com várias áreas. Esta é uma enciclopédia geral Dorling

28

Kindersley, destinada a leitores jovens, e está dividida em dezasseis capítulos, apresentando-se organizada alfabeticamente. Apesar de exibir uma configuração verbo-icónica semelhante à do livro analisado anteriormente, esta enciclopédia distingue-se, desde logo, pela componente pictórica, com imagens tendencialmente mais pequenas e destacadas em fundos brancos. Conserva, no entanto, a estrutura base de uma enciclopédia deste tipo, constituído por sumário, guia de utilização, índice remissivo e agradecimentos. Ao contrário do volume anterior, este não inclui o glossário.

Com capa dura e um formato de grandes dimensões, este livro apresenta-se com uma configuração mais próxima da definição que Garralón (2013) avança dos livros Dorling Kindersley. Referindo que o texto e a imagem, bem como as diferentes páginas, competem entre si pelo leitor, a autora destaca a forma parcial e fragmentada como é apresentada a informação ao leitor (p. 164). Esta parece ser, no entanto, uma opção dos autores, visto que a informação da contracapa nos diz que foi “especialmente realizada para atrair os jovens leitores” (texto contracapa). Ou seja, há uma intenção de aguçar a curiosidade dos leitores. Estes são levados a pesquisar informação adicional e a procurar respostas para as questões que possam encontrar ou que possam advir da sua consulta. A estratégia pergunta-resposta, frequente em muitas enciclopédias, não é tão presente neste caso.

A propósito das perguntas que surgem na generalidade dos livros informativos, Garralón (2013) chama a atenção para a função que desempenham. A autora lembra que, em muitos casos, estas estimulam a criança a parar para pensar no que lê e, em outros casos, permitem

29

que o leitor faça uso do que já sabe para contestar, contrapor e, consequentemente, expandir esses conhecimentos prévios (p. 104). Recentemente, têm surgido no mercado editorial português bons exemplos de enciclopédias deste tipo, algumas recomendadas pelo Plano Nacional de Leitura. É o caso da Enciclopédia Saber Quem Sou, da autoria das pedopsiquiatras infantis Emma Waddington e Christopher McCurry, com ilustrações de Louis Thomas, que analisaremos de seguida. Os quatro volumes cartonados desta coleção, lançada pela BookSmile Editora, em 2018, respondem a um conjunto de doze questões consideradas complexas pela maioria dos adultos: Porque é que já não vivemos todos juntos?, Porque é que as pessoas são de cores diferentes?, Porque é que tenho de dizer «por favor» e «obrigado»?, e Porque é que tenho de comer os legumes?. As personagens são diferentes de livro para livro, mas, em todos os casos, representam crianças que buscam entender mudanças e/ou situações — cada vez mais recorrentes, atualmente —, que ocorrem no seu quotidiano. Na contracapa dos vários volumes da coleção, podemos encontrar a seguinte nota paratextual, dirigida a pais e educadores:

“Educar uma criança pode ser uma experiência avassaladora. Todos queremos que as nossas crianças cresçam felizes e sejam cidadãos conscientes. Saber conversar com a criança e responder às suas inquietações é fundamental nesse processo. Com esta coleção, nunca mais vai ser apanhado desprevenido por uma pergunta inesperada!” (Texto de contracapa).

Figura 8. Capa e páginas de Enciclopédia Saber Quem Sou. Volume Porque é que as pessoas são de cores diferentes?, BookSmile

30

A informação é apresentada da mesma forma em praticamente todo o livro, englobando, no entanto, possibilidades compositivas menos comuns das enciclopédias. Falamos de ilustrações de grandes dimensões numa única página, onde é colocada uma questão, seguida de um breve texto ficcional — aspetos mais caraterísticos do álbum-narrativo —, que inclui diálogos e interações entre personagens; e dicas de como introduzir estes temas, acompanhadas de conselhos para pais e educadores. Destaque, também, para a presença de questões complementares, que propõem ao leitor uma reflexão sobre as inquietações da própria personagem. Estas incitam a que pense sobre o que esta poderá estar a sentir, a que identifique casos semelhantes no seu ambiente próximo, ou a que reflita se, porventura, já experienciou esses sentimentos. As situações são expostas ao leitor de modo a que este se identifique com as personagens, a quem são atribuídos histórias e nomes próprios. Esta é, inclusive, uma estratégia utilizada em muitas enciclopédias, tal como foi frisado por Cuadrado (1996, p. 142). No entanto, a forma como cada enciclopédia faz uso desta varia muito em função do destinatário leitor. Os nomes próprios podem surgir nos contornos desta coleção ou, por exemplo, para informar o leitor acerca de alguém que se destacou numa determinada época da nossa história. Correia (2009, p. 27), esclarece que nem só os nomes próprios têm lugar nas enciclopédias, mas sim as demais palavras com capacidade referencial ou significado lexical, como são grande parte dos adjetivos e dos verbos, presença que também identificámos nestas e em outras enciclopédias infanto-juvenis. Em termos temáticos, a enciclopédia analisada sugere uma intencionalidade educativa que perspetiva a formação pessoal e social do leitor, partindo da abordagem a questões cada vez mais atuais e, por vezes, de difícil exploração por parte do adulto. No caso concreto deste volume, os diferentes tons da cor da pele. A natureza das informações presentes nos diferentes artigos enciclopédicos, dependem, como é claro, da(s) área(s) do conhecimento a que se dedicam, mas a forma como estão organizadas difere de enciclopédia para enciclopédia. Geralmente, quando dirigidas ao público infanto-juvenil, estas dedicam algum espaço do livro à explicitação das suas caraterísticas estruturais, para que crianças e adultos possam utilizá-las com mais facilidade. A informação acerca da área, do tema ou do capítulo encontra-se, normalmente, destacada no início de qualquer artigo enciclopédico, e funciona como uma espécie de separador, muitas vezes acompanhado de um código de cores que facilita a pesquisa. O que quer dizer que nem todas as enciclopédias se organizam alfabeticamente, sendo este um aspeto caraterístico das enciclopédias alfabéticas e de algumas enciclopédias Larousse. Se estas forem destinadas a pré-leitores, a sua organização também pode seguir este padrão, dado que as crianças em idade pré-escolar já reconhecem

31

algumas letras do alfabeto. Contudo, é recorrente encontrarmos livros ou coleções que utilizem a ilustração para situar os pequenos leitores, ou para permitir que estes acedam, mais rapidamente, à informação que procuram. É o caso da Enciclopédia Larousse Diz-me! (2017), uma coleção

composta por nove volumes: Como é feito?, Ciências e invenções, Quanto?, O que é?, Onde é?, Animais, O corpo humano, Esta agora!, e Terra e Céu. Com a chancela da EdiCare Editora e com vários autores envolvidos na sua edição, estes livros apresentam uma organização semelhante entre eles, procurando responder a mais de duzentas perguntas, repartidas por separadores temáticos, que integram ilustrações em formato autocolante. Para além de auxiliarem a consulta por parte do pequeno leitor, estes separadores conferem uma ludicidade maior ao objeto-livro, convidando a uma interação física e, portanto, a uma proximidade sensorial que poderá favorecer a receção e a apreensão dos conteúdos veiculados.

De capa dura e papel cartonado, com argolas e uma aba lateral desdobrável, este livro apresenta-se com uma configuração verbo-icónica singular e bastante atrativa. Por entre as cores vibrantes, destacam-se, à partida, as informações dadas ao leitor na própria capa, uma vez que a aba lateral funciona como índice de temáticas. Para fixá-la, a criança pode recorrer a um elástico de segurança, sendo que este também pode servir de marcador de página. No caso do volume Onde é?, este divide-se em cinco partes ou temáticas: curiosidades naturais, monumentos, a vida dos homens, a fauna e a flora, e tudo à volta do mundo, sendo que todos tratam os aspetos caraterísticos dos diferentes países e continentes. No seu interior, as perguntas surgem destacadas a negrito, fazendo-se acompanhar de um pequeno texto explicativo ou descritivo. A ilustração serve uma dupla função: por um lado, contorna e destaca as diferentes perguntas; por outro lado, complementa a informação presente no próprio texto. Sublinhamos, ainda, o recurso

32

ao humor, inscrito em muitas das ilustrações do livro, que tornam a leitura mais divertida e estimulante para o leitor.

Às referidas caraterísticas do discurso, encontradas nesta e na maioria das restantes enciclopédias, é possível acrescentar-se outras, com especial incidência nas enciclopédias infanto- juvenis. É o caso da utilização frequente de determinantes e pronomes pessoais, como tu e nós, ou possessivos, como teu/tua, teus/tuas, nosso/nossa e nossos/nossas. Esta estratégia discursiva, verificável em todas as enciclopédias que foram alvo de exploração neste documento, sugere uma aproximação entre o livro e quem o lê. Simultaneamente, pode servir para fazer referência a algo que é comum ou da responsabilidade de todos, podendo, também, dar origem a uma leitura mais empática. Da mesma forma, tal como acontece nos textos literários, pode existir nas enciclopédias uma intenção, mais ou menos explícita, de persuadir o leitor a adotar determinado posicionamento ou atitude face à realidade apresentada. É comum, sobretudo em enciclopédias dirigidas a pré-leitores e leitores iniciais, a presença de um discurso moralista e voltado para a definição de fronteiras entre o que pode ser considerado um comportamento certo ou errado. É, por isso, possível a presença de frases do tipo imperativo, como “não podes…”, “deves fazer…”, “temos de…”, entre outras, com um propósito claro e explícito de aconselhar ou alertar o leitor quanto à forma como se deve proceder perante determinadas questões. Esta intenção nem sempre é tão evidente, podendo surgir implícita nos textos, por exemplo, em casos onde seja explicada a importância de se adotar um posicionamento, socialmente entendido como positivo, face a questões mais amplas, como as alterações climáticas, a biodiversidade, a diferença, entre tantos outros. Nestes casos, o discurso é diferente e visa sensibilizar o leitor, apresentando uma série de razões que o levem a uma tomada de consciência e, consequentemente, a uma alteração de comportamentos. Podemos observar a presença abundante destas estratégias discursivas na Enciclopédia por Imagens A classe infantil (2003), da Editora Fleurus.

33

Esta é uma enciclopédia geral, traduzida do Francês por Inês Vasconcelos, com conceção de Jacques Delaroche, texto de Émilie Beaumont e ilustração de vários autores. Integra uma coleção com vários volumes, dirigida a pré-leitores e leitores iniciais. Essa indicação pode ser lida na capa, onde é indicado que se destina a leitores com idades entre os 4 e os 7 anos. Existe, também, uma edição para crianças em idade escolar, intitulada A classe Júnior. Em papel cartonado e uma componente pictórica abundante e colorida, este objeto apresenta-se num formato de grandes dimensões e organiza-se segundo um sistema de cores, estabelecido no índice, onde a cada tema faz corresponder uma imagem, que servirá de marcador ou separador dos vários capítulos. Neste tipo de enciclopédias, a imagem desempenha um papel preponderante, pois, para além de permitir que o leitor as utilize autonomamente, apresenta-se como o principal meio de interpretação. Podemos verificar isso mesmo nas páginas destacadas na figura 10 onde, através de uma sequência de imagens, se ilustram os principais momentos da rotina diária de uma criança, acompanhadas de uma pequena legenda. Ainda que estas referências textuais não estejam ali por acaso, é perfeitamente possível que, sem elas, a criança seja capaz de descrever o que vê e de associar essas imagens ao seu próprio quotidiano. A informação surge com a mesma configuração em praticamente todo o livro, permitindo ao potencial leitor compreendê-la e construir pequenas narrativas visuais a partir das ilustrações.

A análise deste livro permite-nos destacar outros aspetos importantes do discurso utilizado nas enciclopédias infanto-juvenis. Em determinados segmentos do livro – por exemplo, relacionados com a temática da alimentação (p. 18) –, podemos encontrar textos e ilustrações

34

que ajudam a criança a estabelecer uma relação entre dois eventos, sendo o segundo uma consequência do primeiro (relações causa-efeito). Ou seja, são mostradas as consequências que advêm de uma alimentação saudável e de uma alimentação não saudável, traduzidas num corpo magro ou menos magro. Sem ter de virar a página, observa-se a presença de outra estratégia muito comum nestes objetos: o uso de comparações. Estas surgem, por vezes, para simplificar ideias mais complexas e aumentar o entendimento dessa informação, mas, neste caso, ocorre para dar uma nova dimensão e importância ao que se pretende retratar. Isto é, partindo do

Documentos relacionados