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Elementos Exógenos para o Upgrading Funcional Generalizado

3. MAPEAMENTO DOS PADRÕES DE ATUAÇÃO DOS PAÍSES NAS CGV POR

4.3 ELEMENTOS EXÓGENOS E ENDÓGENOS QUE POTENCIALIZAM AS

4.3.2 Elementos que Potencializam os Ganhos de Longo Prazo Decorrente da

4.3.2.1 Elementos Exógenos para o Upgrading Funcional Generalizado

Após os anos 1950, vários países em desenvolvimento iniciaram um conjunto de medidas com o objetivo de induzir e alavancar o processo de industrialização e com isso, obter os benefícios em termos de crescimento. A formação de estados desenvolvimentistas associado ao forte planejamento e coordenação dos investimentos moldaram o desenvolvimento industrial desses países, em um cenário geopolítico extremamente favorável a evolução obtida.

O mundo bipolar no contexto da Guerra Fria estimulou as duas grandes potências econômicas – Estados Unidos e União Soviética – a fornecer uma série de incentivos de forma a atrair e manter seguidores político-ideológicos. Assim, no termo consagrado de “crescimento a convite” (KUPFER e DWECK, 2013, p.698), no lado capitalista, os EUA além do elevado financiamento externo a esses estados desenvolvimentistas, foram altamente permissivos em termos de medidas antiliberais no comércio, nas finanças, nos investimentos e na propriedade intelectual. Sob essa circunstância, os Tigres Asiáticos evoluíram em suas trajetórias de desenvolvimento, deixando de ser meros compradores de tecnologia para se tornar desenvolvedores das mesmas.

O processo de endogenização tecnológica ocorrida nestes países ocorreu inicialmente através de processos imitativos com base na engenharia reversa e em acordos de licenciamento e de joint ventures, em um contexto favorável para tais procedimentos. Essas medidas associadas aos investimentos em P&D permitiram a evolução dos Tigres Asiáticos

para o desenvolvimento de tecnologias próprias, que com o tempo, envolveram também as mais sofisticadas, como automóveis, semicondutores, telecomunicações.

Mais recentemente, a China e a Índia seguem o grupo de desenvolvedores de tecnologia, no entanto, em um contexto totalmente diferente em relação à regulação do comércio e de assuntos correlacionados, dentre eles, os direitos de propriedade referentes a marcas e patentes e os investimentos estrangeiro.

Com a criação da OMC, foi assinado o acordo sobre os direitos de propriedade intelectual, “Trade-Related Aspects of Intellectual Property Rights” (TRIPS) que refletiu diretamente sobre os mecanismos de transferência tecnológica dos países, destacadamente, os mais atrasados. Segundo Pinto et al (2015, p. 27):

“... a política de proteção de propriedade intelectual era considerada prerrogativa de cada país, dispondo cada um de elevados graus de liberdade, especialmente para definir quais setores industriais não teriam seus produtos e seus processos produtivos protegidos por patentes. Esta situação mudou com o TRIPS, que estabeleceu padrões mínimos de proteção de propriedade intelectual para todos os países que participem da OMC”.

Ainda segundo Pinto et al (2015), o TRIPS estabelece entre os países signatários padrões mínimos de proteção, assegurando a exclusividade de patentes e marcas comerciais, sem qualquer tratamento diferenciado em relação aos diferentes graus de desenvolvimento dos países66. Dentre as regras, ressaltam-se a duração mínima das patentes em 20 anos, sem possibilidade de isentar setores específicos de tais regras (com flexibilidade apenas para uma variedade de plantas) e também de discriminação entre produtores nacionais e estrangeiros67. Todas essas garantias asseguradas pelo TRIPS acabam impactando diretamente sobre o desenvolvimento de capacitações locais dos países mais atrasados, que para o seu desenvolvimento tecnológico dependem de acesso a tecnologias mais complexas e inovadoras. Assim, ao uniformizar a proteção de direitos de propriedade intelectual, o TRIPS fornece direitos de exclusividade e de monopólio aos desenvolvedores de tecnologia, que no geral, situa-se nos países desenvolvidos, cristalizando a posição dos países em desenvolvimento em atividades de baixo valor adicionado nas cadeias globais de valor.

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O único tratamento preferencial existente refere-se ao período de transição para adoção do acordo nos países menos desenvolvidos, que, entretanto, já se esgotou.

67Pinto et al (2015), ressaltam que ao proibir esse tratamento discriminatório, o acordo exclui a possibilidade

de aplicação da exigência de “working requirement”, que refere-se a exigência de empresas estrangeiras produzirem no país para não perderem suas patentes, cujo instrumento foi amplamente utilizado no passado como mecanismo de difusão tecnológica.

Em paralelo, a regulação do comércio internacional também abrange regras quanto ao investimento estrangeiro, estabelecido pelo acordo de investimento “Trade Related Investiment Meausures – TRIMS”. Neste, proibiu-se qualquer imposição ao IDE relacionado à utilização de produtos nacionais (através regras de conteúdo local) ou exigência de padrões de desempenho interno ou exportador, cujos instrumentos foram amplamente utilizados pelos países desenvolvidos em seus processos de industrialização. Acrescenta-se ainda o acordo de serviços, “General Arrangement Trade in Service – GATS” que em função da maior flexibilidade de suas regras, não vem restringindo a autonomia nacional dos países em conduzir suas políticas (THORSTENSEN et al, 2013; CELLI JR, 2007; AMSDEN, 2009; UNCTAD, 2013).

A China foi um país que não seguiu leis próprias de direitos de propriedade intelectual, e quando estas se tornaram padronizadas internacionalmente, o seu cumprimento tem sido meio flexível. O país além de aproveitar o bom timing para a entrada para a OMC,o tamanho do mercado doméstico associado a uma infraestrutura e incentivos produtivos que garantem a alta lucratividade do investimento estrangeiro, faz com que estes participem de acordos de cooperação tecnológica com empresas locais, apesar da possibilidade da imitação. O risco incorrido pelas multinacionais baseia-se na possibilidade da inovação inerentes a estas tecnologias copiadas ocorrerem mais rapidamente que os próprios processos imitativos. No entanto, ressalta-se que a maior capacitação tecnológica chinesa tem acelerado esses processos, o que poderá levar a uma mudança de postura quanto ao comportamento do país frente às regras de propriedade intelectual68(DAHLMAN, 2009).

A respeito do impacto desse novo regime regulatório sobre o avanço da Índia nos setores intensivos em conhecimento e tecnologia, ressaltam-se dois segmentos. Na indústria farmacêutica, as regras do TRIPS quando entraram em vigor posteriormente ao período de transição ao qual fez uso, o setor já se encontrava estabelecido internamente decorrente dos investimentos realizados desde os anos 80, sem afetar a sua evolução para a esfera global. E quanto às atividades de TI, a regulação internacional dos serviços (GATS) é mais flexível, em função das divergências de interesse entre os membros da OMC, que dificulta o estabelecimento de regras mais gerais, o que com isso, também não afetou a evolução do país no segmento.

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Embora o país já venha sendo acionado recorrentemente pela OMC por práticas consideradas pela organização como “desleais de comércio”, como por exemplo, práticas de dumping.

Com base nesses elementos exógenos, observa-se que um conjunto de países aproveitando-se do ambiente favorável em termos de regulação internacional e de financiamento externo durante a guerra fria, colocou em prática medidas que aceleraram o crescimento dos mesmos. Hoje, embora o ambiente regulatório seja desfavorável, a China aproveitando-se do tamanho de seu mercado doméstico (outro elemento exógeno), ou a Índia se beneficiando da flexibilidade da regulação internacional dos serviços, também adotam um conjunto de medidas voltadas à sustentabilidade de seu crescimento. Neste sentido, apesar dos elementos exógenos contribuírem positivamente para o resultado desses países, os elementos endógenos decorrentes de políticas produtivas são fundamentais na obtenção dos ganhos de longo prazo.