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5. Tipos de acabamento

5.4 Elementos pré-moldados

Os elementos pré-moldados são peças decorativas com uma enorme variedade de expressões e motivos, executadas unicamente em gesso, a que estão associados um moroso processo de desenvolvimento, acompanhado de várias etapas bastante singulares que eram unicamente transmitidas de geração em geração. Como o próprio nome indica, todas as peças tinham de ser antecipadamente moldadas. Começava-se pela produção de um elemento em bruto, a matriz, ou modelo, esculpido com recurso a diversas ferramentas. Era geralmente em madeira, de argila, ou em gesso. Esta fase era executada por um indivíduo dotado de elevada destreza e habilidade, que poderia ser chamado de escultor/artista; em muitos casos, era o próprio mestre estucador que possuía aptidão para tal.

Quando a matriz estivesse criada, iniciava-se a produção de moldes para reprodução de peças decorativas. Actualmente, este trabalho de concepção de novas peças quase desapareceu, facto completamente compreensível devido à simplificação das linhas arquitectónicas dos edifícios. Existe, no entanto, a necessidade de reprodução de elementos existentes em obras de conservação e restauro. Nesses casos, é preciso que subsista pelo menos um elemento que servirá de matriz, ou modelo base, para posterior reprodutibilidade segundo procedimentos baseados em técnicas antigas, apenas com algumas diferenças ao nível do uso de certos materiais.

Assim, de acordo com Segurado, (s.d.), “Para fazer um ornato qualquer torna-se portanto preciso ter o modelo que permita a sua reprodução em gesso e, (…) facilmente se reconhece a necessidade dum processo, pelo qual se obtenha o mesmo ornato tantas vezes quantas forem necessárias, (…)”. De seguida, ir-se-ão abordar os materiais e os processos utilizados actualmente para este fim.

O processo de moldagem e reprodução de peças novas com base em existentes está hoje muito facilitado com a utilização da designada borracha líquida, ou mesmo projectada, enquanto antigamente eram utilizados métodos mais morosos e com recurso a materiais provenientes da natureza, mais difíceis de trabalhar. Assim, como material modelador dos elementos originais eram usados a cera de abelha no estado virgem, pasta de argila (ou de barro) e a massa de pão (essencialmente de trigo). Por outro lado, segundo Füller (s.d.) e Segurado (s.d.), o material mais utilizado com esta finalidade era a gelatina, vinda de diversas substâncias animais, mais precisamente a obtida dos peixes, correntemente designada como cola, ou goma, de peixe. Embora referida por estes autores, a gelatina não consta dos materiais de moldagem usados pelos estucadores entrevistados, razão explicada por Füller (s.d.) que refere “A gelatina é um material de preço elevado (…) ”, e esta tinha que ser obrigatoriamente comprada nas drogarias. Subentende-se que, na época laboral dos entrevistados, os materiais empregados deveriam ser oriundos dos locais mais próximos, por forma a não encarecer os serviços prestados. Em suma, os estucadores trabalhavam com os materiais que tinham à mão, e claramente com aqueles que fossem menos dispendiosos.

Seguidamente ir-se-á proceder a uma descrição minuciosa de todas as fases de execução do processo de reprodução das peças decorativas que permitiam enobrecer os revestimentos interiores do edificado nacional. Este processo era o mais utilizado pelos mestres contactados e continua a sê-lo actualmente pelo mestre Bruno Fernandes, ainda no activo. Foi precisamente com base no trabalho deste mestre que foi possível acompanhar e recolher as imagens que ilustram a referida descrição:

1. Começava-se pela colocação da “peça mãe” num suporte de madeira, previamente limpo, humedecido e barrado de massa de gesso e água, para que o gesso penetrasse e a peça principal ficasse fixa à madeira (Figura 5.10 - (a)). Como material para moldar e, a partir daí, reproduzir a peça original, usava-se a cera de abelha, que era adquirida junto dos apicultores, no estado virgem,

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i.e., tal qual como era recolhida das colmeias, e que era colocada em banho-maria (Figura 5.10 - (b)), para que ficasse no estado líquido e se conseguisse trabalhabilidade suficiente. Por sabedoria passada de geração em geração, os profissionais do estuque adicionavam pés de louro à cera, no acto da fundição, o que lhe conferia alguma maleabilidade depois da solidificação, para quando se procedesse ao desmolde da peça de gesso, a cera não fracturasse.

(a)

(b)

(c)

Figura 5.10 - Elementos pré-moldados: (a) Fixação da peça matriz ao suporte de madeira; (b) cera de abelha em banho-maria; (c) preenchimento de reentrâncias.

2. Em peças com reentrâncias mais profundas, como a presente na Figura 5.10 - (a), era necessário o seu preenchimento com massa de gesso puro (Figura 5.10 - (c)), para que, quando se retirasse o molde em cera de abelha, o mesmo conseguisse sair. Em peças com formatos menos elaborados, que não tivessem reentrâncias profundas, este trabalho não era considerado.

3. Em seguida executava-se um muro, em barro natural, em redor da peça (Figura 5.11 - (a) e (b)), para que a cera não penetrasse por entre a madeira e não solidificasse imediatamente. Depois do barro devidamente moldado e colocado, dava-se início à aplicação de um óleo desmoldante tradicional (Figura 5.11 - (c)), à base de petróleo e azeite. Após estas etapas e de a cera estar devidamente derretida, podia começar-se a executar o molde, aplicando-se a cera em estado líquido sobre a peça que se pretendia recriar (Figura 5.11 - (d)), ao mesmo tempo que todo o conjunto era sujeito a movimentos rotacionais (Figura 5.11 - (e)), para que a cera não tivesse tempo de solidificar.

4. Aguarda-se então um pouco para que a cera endureça, retirava-se o muro de barro e iniciava-se a construção do contramolde em gesso pardo (não era necessário gastar gesso de melhor qualidade, com tonalidade mais branca), fortalecido com sisal (Figura 5.11 - (f)). Quando o contramolde se encontrava devidamente solidificado (Figura 5.11 - (g)), retirava-se o molde de cera delicadamente por forma a não se danificar (Figura 5.11 - (h)). Por segurança, os estucadores costumam optar por fazer mais moldes de cera de abelha, para que, se no decorrer da produção de peças, algum molde se danificasse, terem sempre alguns de reserva.

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(a) (b) (c)

(d) (e) (f)

(g) (h)

Figura 5.11 - Elementos pré-moldados: (a) barro natural; (b) construção de um muro de barro; (c) aplicação de óleo desmoldante; (d) colocação de cera; (e) movimentos rotacionais; (f) execução de

contramolde com sisal; (g) secagem de contramolde; (h) molde de cera desmoldado.

5. Na produção de peças novas (Figura 5.12 - (d)) e para que o molde de cera aguentasse as sucessivas reutilizações, antes da produção de cada peça era lubrificado com o óleo desmoldante tradicional (Figura 5.12 - (a)). A partir desse momento, dava-se início à fabricação das peças. Estas eram compostas unicamente por gesso e fibras naturais de sisal, de forma a aumentar a sua resistência mecânica (Figura 5.12 - (c)). Como se podia constatar na Figura 5.12 - (b), os mestres riscavam o tardoz das peças, a fim de aumentar a rugosidade e melhorar a adesão da massa de colagem, quando da sua aplicação no sítio final.

6. Quando as peças possuíam reentrâncias profundas, tinham de ser esculpidas manualmente, por forma a ficarem idênticas à peça original (Figura 5.12 - (e) e (f)).

De acordo com este processo de reprodução, faziam-se tantas peças quanto as necessárias, todas praticamente iguais entre si (Figura 5.13).

O processo anteriormente descrito é eco sustentável pois os materiais utilizados, tanto o sisal como a cera de abelha e o barro, são directamente provenientes da natureza. No que concerne ao barro e à cera de abelha, são materiais reutilizáveis, pois a cera é utilizada e derretida várias vezes e o barro é sucessivamente seco e misturado com água.

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(a) (b)

(c) (d)

(e) (f)

Figura 5.12 - Elementos pré-moldados: (a) aplicação de óleo desmoldante; (b) aumento de rugosidade; (c) colocação de sisal nas peças novas; (d) desmoldagem de nova peça; (e) esculpimento de peça nova; (f)

comparação da peça mãe com a nova peça.

41 Tal como no caso dos elementos moldados em bancada, os elementos pré-moldados são colados ao suporte por intermédio de uma massa forte, praticamente só de gesso e alguma cal, para dar trabalhabilidade. O trabalho de humedecer ou imergir em água é igual ao descrito para os elementos moldados em bancada. Em ponto de conclusão, o trabalho de reprodução de peças decorativas em gesso segundo o processo tradicional, utilizando a cera de abelha como material de moldagem, ainda é correntemente utilizado para trabalhos de conservação e restauro realizados por pequenos profissionais deste sector. Para trabalhos de maior envergadura, os métodos utilizados já recaem sobre alternativas mais modernas, como a borracha líquida.

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