A DANÇA COMO LINGUAGEM
2.5. Elencando Elementos da Dança como Linguagem
É no momento da apresentação que a dança se desenvolve como linguagem completamente. Nessa hora, todas as relações necessárias com a obra de arte são estabelecidas para a concreta transmissão de seus conteúdos. Ao se revelar, a dança, como linguagem, articula elementos de ordem sensível, mas também lógica, estrutural, funcional, e formal, e são esses elementos que
determinam as possibilidades de efetividade comunicativa dessa linguagem. Tendo inicialmente apontado as semelhanças da dança com as linguagens verbais no que diz respeito aos elementos funcionais da comunicação, o caminho que aqui se seguiu foi o de proceder a investigação acerca de outros elementos que puderam ser apontados como particularidades da linguagem da dança.
Comunicação e linguagem não são entendidas como exatamente a mesma coisa. Ainda que existam amplas fontes de pesquisa em ambos os assuntos, a aparente equivalência que aqui se demonstra só vai até a noção de que a possibilidade comunicativa se apresenta como a função principal da linguagem. Outra característica importante, que é capaz de distinguir a linguagem de outras formas comunicativas é a sua organização sistemática. Assim, para discutir a dança enquanto linguagem, é possível direcionar o olhar para a sua possibilidade comunicativa e a sua organização em sistema. A dança é uma forma de expressão de conhecimento, organizada intencionalmente através do movimento (como LANGER, 1980, propõe, numa distinção entre a dança enquanto conhecimento, como oposta a um entendimento — errado — da dança como sintoma do bailarino ou do coreógrafo), validando seu entendimento aqui como forma sistemática de comunicação, e, portanto, de linguagem.
Neste capítulo, quando foram apresentados inicialmente os treze elementos de Hockett, uma primeira divisão deles foi mencionada, separando aqueles que se percebem como gerais a múltiplas formas de linguagens, e aqueles que são particulares a cada forma. Na sequência, desenvolveu-se o principal propósito deste texto, com a discussão, dentro de uma estrutura semiótica, dos elementos que puderam ser observados como particulares à dança enquanto linguagem.
Tentando avançar as futuras abordagens possíveis a esse tópico, aqui se retomam esses elementos, numa apresentação mais pontual, que os indica como (A) o Ruído como Mensagem, (B) Corpo-Território, (C) Entendimento Dual, (D) Não- Exaustividade, (E) Hiper-Interpretação / Ressemantização, (F) Representação Indicial, (G) Repetição Funcional, (H) Construção Mútua do Código, e (I) Múltipla Estruturação do Fundamento.
Assim como os elementos apresentados por Hockett foram colocados em um parágrafo de resumo, elucidando a sua apresentação e o modo como eles
organizam a comunicação que estudam, o mesmo procedimento aqui se adota em relação aos elementos da dança como linguagem que foram apresentados:
A comunicação da dança como linguagem é uma forma de (F) Representação Indicial, que funciona porque os corpos do público se relacionam diretamente aos (B) Corpos-Territórios dos bailarinos, que são especialistas na transmissão da comunicação da dança, mas que afetam essa comunicação através de suas individualidades, interferindo nelas e associando (A) o Ruído como parte fundamental da Mensagem que transmitem; A mensagem em questão pode ser articulada em diversas unidades, tanto como um passo, como enquanto uma frase coreográfica (qualquer que seja sua extensão), e mesmo o todo da obra pode ser recebido como representativo, em uma (I) Múltipla Estruturação do Fundamento, na qual cada estrutura permite formas de (G) Repetição Funcional, já que as suas possibilidades de produção de sentidos (D) Não se Esgotam em uma única apresentação da obra, funcionando em um (C) Entendimento Dual, no qual o indivíduo no público tenta entender a obra apresentada em um esforço entre as muitas possibilidades de suas referências, informações colaterais, e as limitações que a obra em si de fato apresenta; Esse esforço, tanto da parte do público na interpretação, como da parte dos artistas na elaboração da comunicação, responde por uma (H) Construção Mútua do Código que alimenta ambas as partes, mas que é frequentemente extrapolado pelas possibilidades da (E) Hiper-Interpretação / Ressemantização, quando o público entende como comunicativo algo que não foi originalmente intencionado para comunicar.
Ainda que a lista de treze elementos de Hockett seja aqui reproduzida, reconhece-se que esses treze representam muitos outros que foram indicados, especulados, elaborados, debatidos e reconsiderados ao longo da história e da pesquisa na área. Nesse estágio da pesquisa em teoria de dança, e da dança como linguagem, em que cada nova proposição começa com longas justificativas — como as apresentadas nas primeiras seções deste texto — nenhum item ou elemento deve ser automaticamente excluído de uma lista, assim como nenhum item deve ser listado meramente pelo alongamento da lista. O objetivo aqui é o de investigação da dança enquanto linguagem e o de encontrar suas características que poderiam ser apontadas, apresentadas, explicadas e verificadas. Desse processo resulta essa pequena lista de elementos que servem como ponto inicial para o estudo dessa
linguagem e sua estrutura que permite a comunicação. Muitos outros elementos poderiam e deveriam ser indicados, tanto quanto os elementos aqui apresentados poderiam e deveriam ser questionados e repensados. Apenas através de trabalho árduo e dedicado, bem como do interesse dos pesquisadores envolvidos, o campo da teoria de dança pode alcançar esse objetivo de apresentar as estruturas da dança enquanto linguagem em um nível satisfatório.
O exercício da investigação, mais que o exercício da lista, atua na demonstração da hipótese de que a consideração da dança enquanto linguagem pode, sim, partir das considerações construídas inicialmente acerca das linguagens verbais, mas que precisa, conforme apontado, se debruçar nas características específicas à forma de comunicação estruturada pela dança. Concluída essa empreitada, o resultado aqui mais relevante é o de que a dança é uma forma de linguagem, tal qual a linguagem verbal é uma forma de linguagem, mas que as estruturas que organizam a comunicação — elemento fundamental das linguagens — de ambas não são idênticas.
A crítica, enquanto exercício de escrita sobre a dança, se alimenta a um passo das estruturas das linguagens verbais, posto que se configura em texto, e a outro passo das estruturas da linguagem da dança, posto que são esses os elementos que ela discute. Assim, a crítica usa de um sistema de representação e comunicação (a escrita) para discutir um outro sistema de representação e comunicação (a dança). Se o código que organiza a comunicação da dança é um código em construção, o código que organiza a escrita da crítica já é um código formatado — ainda que, como em toda linguagem, tenha em si uma característica viva, que permite a sua atualização por seus usuários.
Dessa forma, a crítica tem a capacidade de agir sobre uma comunicação cujo código não está estabelecido, tratando dela em um código comum a seu leitor. Abre-se, ai, uma possibilidade de contato, mediado através da crítica entre a obra e seu público em geral. Esse aspecto de mediação é uma das características fundadoras da crítica moderna, e será discutido mais a fundo no capítulo dedicado às definições da crítica de dança. Mas, antes dele, é necessário situar a atividade crítica dentro de uma compreensão global da recepção na dança, situando-a dentro de um panorama de conhecimentos que se articulem. Esse propósito será trabalhado no próximo capítulo, que mantém a abordagem aqui baseada na
semiótica, mas discutindo, ao invés dos processos de estruturas de representação dos signos usados para elencar os elementos da dança como linguagem, algo ainda mais íntimo a essa ciência: a teoria das categorias.