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CAPÍTULO 3 - AS IDEIAS DE MORIN

3.1 EMBASAMENTO TEÓRICO DA COMPLEXIDADE

Em sua obra “O Método" Morin (2005) inicia sua viagem buscando compreender a complexidade partindo do começo de tudo, a gênese. Tomando por base os conhecimentos científicos da física, na qual considera como a ciência mãe, alicerça sua epistemologia. Partindo da teoria do Big Bang, a grande explosão que deu origem a tudo, criando o cosmos e toda a matéria formadora, a matéria se organiza e forma os primeiros astros e composições, sucessivamente, em uma evolução baseada no acaso da junção da matéria, organização e dispersão desta, num processo cíclico de criação e recriação que marca a evolução do cosmos.

Figura 1 - Jogo das interações da cosmogênese

Fonte: Baseado em Morin (2005, p.76)

A Figura 1 aponta para o início, onde havia uma ordem, uma singularidade que, a partir do que estabelece a teoria do Big Bang, se desordena e explode, jogando toda a massa de forma desordenada para o cosmos. A desordem é o estado que traz consigo a possiblidade das interações, gerando corpos organizados, tendendo à certa ordem, sofrendo com as interações com o meio e resistindo até certo ponto para depois romper novamente, gerando nova desordem. A cada ciclo, são geradas novas organizações, cada vez mais elaboradas e mais complexas, em um jogo de interações cosmogênicas evolutiva do universo.

Figura 2 - Circuito conceitual do jogo das interações da cosmogênese

Fonte: Baseado em Morin (2005, p.109)

A Figura 2 nos remete a um ciclo gerador de tudo no universo, da matéria inicial à vida nos tempos atuais. A ordem é definida por Morin (2008) como um conceito-mala, que pode ter diversos significados. Apesar de aparentemente ser simples e evidente seu significado, este esconde várias significações em níveis: em um primeiro nível, ordem como um fenômeno de natureza física, biológica e social. A ordem pode significar determinação, coação, causalidade e seguir as leis que o governam; em um segundo nível, a natureza da ordem, ou seja, a ordem significa coerência lógica: a possibilidade de deduzir ou induzir e possibilidade de previsão; e no terceiro nível, a ordem pode ser concebida como racionalidade, como a harmonia entre a ordem e a mente e a ordem do mundo.

Da mesma forma, a desordem também comporta diversos níveis: em primeiro nível, como fenômeno, pode significar irregularidade, inconsistências, instabilidade, agitação, dispersão, colisões, acidentes; em segundo nível, aparece como um ingrediente comum à desordem, como a eventualidade e o acaso, ou seja, tudo que não pode ser previsto; e no terceiro nível, a desordem priva a lei de se conceber um fenômeno, irracionalidade, incoerência, demência, portadora da destruição e da morte (MORIN, 2008).

A desordem representa um estado caótico de agitação enquanto a ordem está ligada com o ideal da interação que tende a diminuir a desordem e, eventualmente, resulta na organização. Para Morin (2008) a organização não é a ordem, pois ela comporta a ordem e as interações, comportando também a desordem, sendo assim, maior que a ordem.

Um universo estritamente determinista, que fosse apenas ordem, seria um universo sem devir, sem inovação, sem criação; um universo que fosse apenas desordem, entretanto, não conseguiria constituir a organização, sendo, portanto, incapaz de conservar a novidade e, por conseguinte, a evolução e o desenvolvimento (MORIN, 2008, p.202).

Esse é o início do pensamento de Morin, a origem do universo baseado na física da matéria, a cosmogênese, da qual descende tudo que conhecemos. Partindo desse circuito lógico entre ordem, desordem, organização emerge a complexidade inicial. A ordem e a desordem, dois conceitos antagônicos, são reunidos no pensamento de Morin de forma circular, complementar, na qual sem essas duas grandezas, não haveria a evolução.

Ao relacionar a ordem e a desordem com a ciência, temos que destacar o papel da ordem e sua importância neste contexto, pois esse conceito foi a chave para eliminar a teologia de um Deus criador de tudo e assim embasar a ideia de uma ordem criadora de tudo. Esse conceito de ordem, estabelecido na ciência a partir de La Place (1749-1827) é a origem do determinismo da ciência, da ideia de um universo perfeito, ordenado e previsível. Já a desordem aparece de forma marginal na ciência, como uma preocupação que surge no século XIX a partir da segunda lei da termodinâmica e posteriormente no século XX com a física quântica, que subjuga a ideia de ordem, instalando-se no seio da ciência e apresentando uma versão do universo caótico, desordenado, não previsível, abalando a crença do determinismo científico (MORIN, 2008).

Morin (2005, p.122) considera a organização como “a maravilha do mundo físico”, pois “a organização de um sistema é a organização da diferença. Ela estabelece relações complementares entre as partes diferentes e diversas, assim como entre as partes e o todo” (MORIN, 2005, p.149). O todo é o resultado da organização das várias partes que o constitui.

Dessa forma, tudo que conhecemos são organizações a partir dos mesmos elementos físico-químicos existentes na natureza e dispersos no cosmos. A grande questão estaria então na organização, na forma de como os elementos se organizam e promovem a vida. A vida é uma organização complexa e nós “somos a física e a química” (MORIN, 2005, p.56).

A ciência já tinha desenvolvido a Teoria dos Sistemas57 sendo absorvida por Morin e logo incorporada como uma das bases da Teoria da Complexidade, uma vez que o autor corrobora com a ideia de representação de objetos e fenômenos como um sistema e não como uma unidade. Como sistema, terá em sua composição

várias partes em comum, organização e cooperação e que vão desenvolver características não presentes nas partes isoladas, emergentes.

Ora, este sistema, o átomo, constituindo a verdadeira textura do que é universo físico, gás, líquidos, sólidos, moléculas, astros, seres vivos, mostra que o universo é fundamentado não em uma unidade indivisível, mas em um sistema complexo (MORIN, 2005, p.127).

Se a partícula elementar da física (o átomo) foi considerada um sistema, logo tudo é sistema. Assim, “o sistema é o conceito complexo de base porque ele não é redutível a unidades elementares, a conceitos simples, a leis gerais” (MORIN, 2005, p.187). Isso nos traz uma nova visão da unidade, a visão da complexidade na unidade, pois “os objetos dão lugar aos sistemas. Em vez de essências e de substâncias, a organização; em vez das unidades simples e elementares, as unidades complexas; em vez dos agregados formando corpos, os sistemas” (MORIN, 2005, p.156).

O uso da Teoria dos Sistemas por Morin é questionada e adaptada à sua epistemologia, questionando o reducionismo das ciências, a unidade, sua teoria começou a se assemelhar com a visão sistêmica holística, o todo. Morin destaca que ambas as visões estão equivocadas e se assemelham ao reduzirem o objeto ou fenômeno à unidade e por isso, não se aplicam à sua visão sobre a complexidade, visto que:

[...] reducionista ou holística (globalista), a explicação num e noutro caso, procura simplificar o problema da unidade complexa. Uma reduz a explicação do todo, as propriedades das partes concebidas em isolamento. Outra reduz as propriedades do todo, concebido igualmente em isolamento. Essas duas explicações que se rejeitam mutuamente dependem de um mesmo paradigma (MORIN, 2005, p.158).

A visão sistêmica de Morin (2005) se distancia da visão holística por considerar que o todo é maior e menor que a soma das partes, em uma alusão ao fato de que as partes podem ter características suprimidas e o todo pode ter características emergentes da organização.

Ao aprofundar a noção de sistemas, Morin (2005) percebe que toda organização é ativa, pois gera ações e/ou são gerados por ações, trazendo em si a

eminência de uma espécie de trabalho, de transformação e de produção. Dessa forma, a organização pode ser relacionada ao conceito de máquina.

As transformações darão origem a novas formas de organização [...]. A transformação aparece como fabricação (termo que dá prioridade ao trabalho organizado e à multiplicação do mesmo) ou criação (termo que dá prioridade à generatividade do sistema e à novidade do produto). [...] toda produção não é necessariamente criação, mas toda a criação é necessariamente produção (MORIN, 2005, p.201).

A reflexão acima é baseada em sua concepção de cosmogênese. Agora, com a visão de máquinas, o universo é transformado pelo trabalho dessas organizações/máquinas naturais, considerando como máquinas naturais as estruturas criadas pela natureza. Desse modo, a sociedade também é visualizada por Morin (2005, p.211) como uma máquina, uma “megamáquina antropossocial”, sendo esta a responsável por produzir as máquinas artificiais, podendo ser caracterizada como “a última das máquinas terrestres” (MORIN, 2005, p.212).

Muito embora as máquinas artificiais possam possuir qualidades na qual as máquinas vivas podem não dispor, como velocidade, capacidade de cálculos, dentre outras, as máquinas artificiais não passam de esboços grosseiros com relação às máquinas vivas, uma vez que estas não são capazes de se regenerar, de se concertar, de se reproduzir, de se auto-organizar, qualidades elementares que dispõe a menor das bactérias (MORIN, 2005, p.213).

Essa reflexão das organizações como máquinas provêm da incorporação da Teoria da Cibernética na formação da Teoria da Complexidade, enriquecendo ainda mais esta última, se compondo em outra base dessa teoria.

A cibernética é a primeira ciência que, depois do progresso da ciência ocidental no século XVII, fundou seu método, efetuou seu sucesso operacional e se fez reconhecer pelas outras ciências visando a um sistema físico, a máquina, não em função dos seus elementos constitutivos, mas em função de suas características organizacionais (MORIN, 2005, p.305).

A cibernética trabalha com a noção do autômato, uma máquina produzida pelo homem à sua semelhança.

Os computadores comandam máquinas a partir de suas competências informacionais e a integração de um computador em uma máquina comportando motor constitui um autômato, um ser máquina, um automotivo e, aparentemente, um autocomandado, governado, controlado (MORIN, 2005, p.290).

Esse incremento teórico traz consigo a noção de que a organização precisa de uma finalidade, sendo essa finalidade o seu estado de organização. A noção do termo finalidade daria um sentido para a organização, pois cada peça da máquina deveria ser construída para servir a um fim específico em uma finalidade objetiva maior, o todo, fechado como uma organização com normas e objetivos. Assim, as máquinas reagiriam tendo uma finalidade, mesmo que recebessem ordens, que poderia colocar em risco sua organização, pois “a finalidade é uma casualidade interior que se destaca de maneira cada vez mais precisa, ativa, dominante ali onde há informação/programa para comandar as performances e as produções” (MORIN, 2005, p.317). Porém, as máquinas naturais existem sem um propósito planejado; elas simplesmente existem e fazem o seu trabalho. Já “as máquinas artificiais são finalizadas antes de existirem“ (MORIN, 2005, p.319), ou seja, são planejadas quanto à finalidade que terão suas atividades58.

Na cibernética, as máquinas são caracterizadas como tendo a necessidade de fazer trocas com o meio, se comportando como sistemas parcialmente aberto e fechado quanto a interação com o meio. Os seres vivos dependem das trocas com o meio ambiente, em uma espécie de retroalimentação, que podem ser positivas ou negativas. Essa retroalimentação de uma máquina como positiva tende a gerar o desequilíbrio, a aceleração e, consequentemente, a desorganização da organização. A retroalimentação negativa opera no nível de regulação e da correção do sistema, mantendo a organização. A retroalimentação positiva então conduz à reprodução da organização e a negativa, à manutenção da organização, sendo que ambas estão presentes e são essenciais também nas máquinas vivas. A vida é então “uma surpreendente combinação, em todos os níveis, de retroações positivas e negativas” (MORIN, 2005, p.273).

Isso quer dizer que tudo que é vivo opera por meio de informações e processa as informações transformando-as em ações, reagindo às informações de

58 Vimos que, embora as máquinas sejam projetadas para um determinado fim, esta finalidade inicial pode ser alterada e readequada no convívio social.

acordo com um propósito, um programa, uma vez que “a organização viva é informacional/comunicacional” (MORIN, 1980, p.116).

Complementando a Teoria da Cibernética, temos a Teoria da Informação, que vai trabalhar os aspectos da comunicação entre um emissor, receptor e os meios para as trocas de sinais, aspectos necessários às máquinas.

A informação emergiu com Hartley e, sobretudo, com Shannon e Weiner, sob um aspecto, de um lado comunicacional (tratava-se da transmissão de mensagens, e ela foi integrada a uma teoria da comunicação); de outro lado, sob aspecto estatístico (relativo a uma probabilidade, ou melhor, a improbabilidade do surgimento de tal unidade elementar portadora de informação, ou binary digit, bit). Seu primeiro campo de aplicação foi seu campo de emergência: a telecomunicação (MORIN, 2011, p.25).

Essa teoria permitiu uma compreensão melhor sobre como as máquinas poderiam enfrentar a desordem, o acaso, o inesperado de forma que pudessem extrair a informação do ambiente e adaptar-se, organizando-se a partir dessa interação. Isso também reflete o conceito de programação e reprogramação, que seria o tratamento da informação retirada do meio e a mudança de ação possível, de acordo com a informação extraída do ambiente, estratégica, colocando a informação como parte da forma organizadora.

Shannon (1916-2001) apresenta uma noção matemática do que é informação descrevendo um modelo matemático para a informação que ajudasse na transmissão de informações em meados do século XX. Já Weiner (1894-1964) trabalhou a importância da informação na cibernética, descrevendo a necessidade da informação ir além da matemática, pois esta deveria ser portadora de um sentido e poderia significar instrução. A palavra informação pode ser interpretada, em seu sentido inicial, como uma maneira de formar ou moldar a mente e também como uma comunicação do conhecimento (LOGAN, 2012).

A cibernética trata a informação como uma forma de organização e permite associações interessantes entre os seres vivos e as máquinas. Morin vai se apropriar da Teoria da Informação, em especial do conceito de neguentropia, que é um conceito de sentido oposto ao conceito de entropia da física, tida também como responsável pela organização dos sistemas naturais. Assim, a neguentropia seria então a responsável pela organização, desorganização, reorganização e

regeneração nas máquinas, tendo a informação como variável causadora desse processo organizacional (MORIN, 2005).

A importância da cibernética para os sistemas está no entendimento de que o meio fornece à organização a sua autonomia. Ou seja, não existe organização que não esteja em contato com o meio, retirando deste, elementos para a manutenção de sua autonomia.

Acontece que a informação pode ser de tipos diferentes, como, por exemplo: a informação genética, presente no nosso DNA; a informação perceptual, que detectamos através de nossos sentidos; e a informação conceitual, que processamos através de nossas mentes (LOGAN, 2012).

A cibernética trouxe um sentido organizacional à informação, onde um programa de computador não só contém informações, mas também lhe ordena como reagir. Isso remeteu às reflexões sobre a possibilidade do DNA ser um programa natural, base, que deve ser seguido para se constituir a organização da vida. Dessa forma, “a célula pode ser cibernetizada e o elemento-chave dessa explicação cibernética se encontra na informação” (MORIN, 2011, p.25) e assim, “[...] se por um lado, a noção de informação podia se integrar na noção de organização biológica, por outro ela podia se ligar de modo espantoso à termodinâmica, isto é, à física e à biologia” (MORIN, 2011, p.25).

A Teoria dos Sistemas, a Teoria da Cibernética e a Teoria da Informação se constituem como as bases da Teoria da Complexidade, muito embora existam outras teorias necessárias como elo entre elas. A Epistemologia da Complexidade, de Morin, traz consigo a evolução dos conhecimentos científicos dos últimos dois séculos, em especial, da física e da biologia, interligadas como fios que tecem um tecido e um tecido que forma o pano, o qual seria o verdadeiro conhecimento, e na visão de Morin, o conhecimento complexo.