• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO 3 - AS IDEIAS DE MORIN

3.10 OUTROS OLHARES PARA A COMPLEXIDADE

Ardoino (1998) destaca a abordagem multirreferencial como estratégia para a complexidade através da reunião de diversos elementos distintos e heterogêneos. Ardoino também vai destacar a importância da pluralidade dos pontos de vistas sobre um determinado fenômeno, superando a questão disciplinar, acatando a subjetividade do sujeito na construção do conhecimento através de múltiplos olhares, plurais e, em certas vezes, antagônicos, para romper o pensamento científico simplificador que separa o sujeito do objeto. Para este autor, o entrecruzamento das múltiplas perspectivas do saber (em volta de um domínio contextualizado, histórico e social, preservando a unidade e a diversidade dos elementos que compõem) com a incerteza, irá permitir a construção de um saber complexo.

Almeida e Petraglia (2004) apontam o pensamento complexo como um tipo de pensamento que pressupõe atitude e método complexo, considerando a transdisciplinaridade como o caminho necessário a uma reforma do pensamento, pois este pensamento é dotado da capacidade de ligar, contextualizar e globalizar. Nesse sentido, o método seria “[...] uma sucessão articulada de procedimentos, ferramentas e técnicas, utilizadas para a pesquisa e para a resolução de problemas” (ALMEIDA; PETRAGLIA, 2004, p.25).

Rosnay (1998) nos traz a importância de uma abordagem sistêmica quanto ao conhecimento, pois ela proporciona uma forma de compreensão tanto pela

análise quanto pela síntese. A abordagem analítica, causa o esfacelamento do saber, focando sobre os elementos de um sistema através do estudo de suas características a partir de aparelhos tecnológicos (destaque para o microscópio e o telescópio); e a síntese como a possibilidade de reconstituir esses saberes através do estudo entre as interações dos elementos de um sistema. O autor defende as duas abordagens no processo de construção do conhecimento sistêmico, ou seja, a abordagem analítica tende a mostrar as características de um objeto ou fenômeno e a síntese vai proporcionar a visão global em uma abordagem sistêmica, ou seja, o todo e as partes.

Dessa forma, a cada nova descoberta pela abordagem analítica, uma nova síntese poderia ser feita através da simulação em todos os elementos que compõem o sistema a ser estudado, mostrando que a complexidade pode emergir em uma estratégia como essa, na qual não descarta e sim, complementa a atual forma científica de como obtemos o conhecimento.

Em Rosnay (1998, p.494-495) temos como características comuns aos sistemas complexos:

1) Sistemas complexos são abertos ao meio ambiente, pois interagem com o ecossistema na qual se encontram;

2) Possuem variedade de elementos que o constituem, sendo que estes estão em interação permanente;

3) Possuem níveis hierárquicos de complexidade, a questão da organização;

4) Possuem redes de comunicação, pois trocam informações entre os elementos e o meio de alguma forma;

5) Interdependência dos elementos, na qual vão gerar as propriedades emergentes;

6) Circuitos, quanto à comunicação interna e externa com ambiente, refletindo em sua organização de modo positivo (amplificando) ou negativo (regulando) quanto ao funcionamento;

7) Comportamento dos sistemas complexos não são nem lineares nem extrapoláveis no tempo, dependem das interações, sendo sua evolução com o tempo não lineares nem previsíveis.

A reflexão apresentada por Rosnay nos remete à discussão sobre a produção do saber, apontando para a complexidade dos sistemas naturais, sendo estes os mais complexos que podemos encontrar e conhecer, uma vez que fazem parte da nossa natureza.

Porém, se levarmos em conta que, para Morin (2005), o conhecimento deve ter em sua origem disciplinas como física, biologia e a antropossociologia, esperamos que toda e qualquer abordagem sistêmica apresente algumas dessas características, além um olhar a partir da cibernética, que poderá nos conceder a visão de qualquer sistema como máquinas, podendo estas máquinas ter, de alguma forma, inspiração nas máquinas naturais em busca de características que as levem a uma maior similaridade com as naturais, a complexidade.

Em seu texto “Sete Ideias Norteadoras da Relação Educação e Complexidade”, Petraglia (2006) destaca a importância de refletirmos sobre um processo de educação que tenha a complexidade como epistemologia e supere a fragmentação e o parcelamento dos conhecimentos, destacando:

1) Noção de sujeito: o educador deve ter em mente que o sujeito possui características distintas e é complexo devido ao caráter formativo multidimensional que o torna único: espécie, social e individual. Antagonismos e bipolaridades estão presentes enquanto sujeito,

complexus, e isso reflete que todos são diferentes e devem ser acolhidos

e respeitados em suas individualidades;

2) Utilização de diversas linguagens: aqui a autora destaca a questão de trabalhar outras linguagens no ensino como meio de facilitar o aprendizado. As artes podem ser usadas para proporcionarem uma educação mais criativa, reflexiva e crítica, despertando a sensibilidade e afetividade no educando. Como exemplo, temos a poesia, a música, o cinema e as artes com possibilidades de trabalhar o conteúdo objetivo (curricular) e o conteúdo subjetivo (sensações do ser);

3) Dialogia presente na educação: compreender presença da dialogia no universo educacional, onde os contrários são ao mesmo tempo antagônicos e complementares. Isso resulta em conformismo e em compreensão, respeitos às ideias diferentes;

4) Transdisciplinaridade: pressupõem a religação dos saberes dispersos nas disciplinas que proporcionam a superação dos limites à aprendizagem e visão de mundo com a busca de contextos mais amplos, sem que isto signifique desprezar as especializações;

5) Convivência com a incerteza: o pensamento complexo é desprovido de certezas absolutas e busca diversos aspectos para o real. O conhecimento é considerado como uma busca no incerto e o pensamento crítico deve estar ao lado da autocrítica, e a reflexão ao lado da autorreflexão, mantendo-se sempre questionador sobre o conhecimento; 6) Desenvolvimento e aprendizagem da autoética: ter autoética é ter uma

visão individual das atitudes para com si mesmo e com os semelhantes, uma ética de comunidade, uma ética global com todos os seres humanos através de um exercício constante de auto-observação, autoanálise e autocrítica, da forma de como agimos com nossos semelhantes diante de nossas crenças, valores e expectativas;

7) Reforma do pensamento: superar a forma de ensino tradicional com os currículos padronizados e fragmentados rumo à outra forma de ensinar para vida, para a criatividade e para o enfrentamento das adversidades da vida, para enfrentar os novos desafios. O pensamento complexo como paradigma permite uma nova forma de organizar o conhecimento e lhe conferir sentido.