CAPÍTULO 3 - AS IDEIAS DE MORIN
3.6 O CONHECIMENTO SEGUNDO MORIN
Para Morin (2008) o conhecimento é inerente à vida, à organização, e está presente em todos os organismos vivos, nas células, bactérias, vírus e nos órgãos que compõe os seres vivos. Para ele, a computação, como resultado do tratamento da informação, é realizada em todos os níveis da vida, pois a função da computação da vida é viver, sobreviver à morte. Dessa forma, os processos computacionais vitais são descentralizados em diversos níveis do ser e organizados segundo a necessidade de viver, onde “a vida só pode auto-organizar-se com o conhecimento” (MORIN, 2008, p.58). A origem do conhecimento e da possibilidade de conhecer tem como origem o próprio DNA que constitui a organização viva, pois este traz consigo
a informação genética sobre a forma de como computar para a sobrevivência e/ou interação com o meio na qual a vida se insere.
O conhecimento será o resultado de várias operações computacionais60 do cérebro em processos de: a tradução de signos e símbolos que representarão as ideias, teorias, noções; na construção ou na tradução construtora a partir de um princípio ou regras que vão permitir a construção do sistema cognitivo através da articulação entre as informações, signos e símbolos; na solução de problemas, uma tradução da realidade que se tenta conhecer. Dessa forma, o conhecimento estaria limitado a refletir o real, reconstruindo-o a partir da realidade no cérebro, onde “o conhecimento não é o acúmulo de dados ou de informação e sim sua organização” (MORIN et al., 2003, p.37).
Embora o conhecimento esteja em todo ser humano, é no cérebro que temos a maior parte de nossas operações cognitivas. O cérebro humano é um gigantesco centro de computação que trata o conhecimento que coordena as ações e as interações entre o conhecimento e a ação.
A existência animal depende não somente do meio, mas também do conhecimento do meio. Todo o progresso do conhecimento beneficia a ação; todo o progresso da ação beneficia o conhecimento. Mais profundamente, toda estratégia de ação comporta computações, isto é, uma dimensão cognitiva, e todo o conhecimento comporta uma atividade estratégica (MORIN, 2008, p.63).
Quanto ao processo de aprendizagem, Morin (2008) acredita que dispomos de dois tipos de memória: a memória hereditária e a memória adquirida; de sensoriais precisos, que nos fornece as informações do meio, traduzindo informações do ambiente para nosso cérebro; de princípios e regras para organizar o conhecimento e esquemas perceptivos. Todo esse sistema torna o cérebro um cômputo, que se autocomputa, computando os estímulos vindos do exterior internamente em suas estruturas virtuais, tornando o conhecimento do indivíduo seu conhecimento, pois armazena o resultado deste processamento, caso tenha
60 Morin (2008) considera o ser humano e seus processos cognitivos semelhante a um computador artificial e seus processos de computação. A diferença está no fato de que a máquina computador é organizada e planejada pelo homem, com uma função determinada por ele, enquanto que a máquina computacional humana será descentralizada, com computação em vários níveis (do celular ao cognitivo cerebral) regida por um objetivo maior que é a vida, a sobrevivência e a perpetuação da espécie. A computação viva se confunde com a auto-organização viva.
importância. Isso possibilita que a organização do pensamento seja por operações com as informações, pois o conhecimento opera a partir da seleção e rejeição das informações obtidas do meio, absorvendo apenas o que faz sentido, separando a informação (distingue entre informação e ruído do sinal), associa (a conhecimentos pré-existentes), classifica (segundo a hierarquia do saber) e centraliza (em função de um núcleo de noções-chaves)61.
Na Teoria da Informação, quando temos uma informação na qual não sabemos como situá-la no seu contexto, não a reconhecemos, pois esta tende a ser uma informação que não desperta o nosso interesse, um ruído em meio a um sinal, pois para que possamos entender uma informação “somos obrigados a contextualizar o tempo todo” (MORIN, 2005, p.60).
As ideias são formas de explicação do real, descritas através dos símbolos proveniente da linguagem. Normalmente elas estão dispostas de forma associada à outras ideias, formando os sistemas de ideias, na qual estas estarão associadas ao conhecimento. São as ideias habitantes da mente humana, que fornecem a visão de mundo e explicações sobre o real (MORIN, 2008).
Morin (2005b) aborda a questão da racionalidade e da racionalização, ambas perversas ao conhecimento humano, pois trazem consigo a busca da coerência. Porém, a racionalidade é um sistema de ideias que atua na mente de um indivíduo na qual mantém a sua lógica aberta para o real, dialoga com o real, podendo ser modificada e até mesmo substituída por outras ideias; já a racionalização acontece quando um sistema de ideias toma posse do real na mente de um indivíduo e elimina a possibilidade de diálogo com qualquer realidade contrária a esse sistema de ideia, captando apenas o que corrobora e fortalece, como uma crença em um mito ou doutrina. Deste modo, as nossas ideias podem determinar nossa forma de conhecer, de discernir na informação o que deve ser absorvido ou não, nossas mudanças de concepções e até mesmo atitudes que terão por base nossa forma de compreensão do mundo.
Sobre a problemática da verdade, Morin (2008, p.32) destaca que seria necessária uma metaepistemologia capaz de incluir a epistemologia clássica e ir além, onde “a problemática da verdade deve levar em consideração todo
61 Partindo dessa noção, podemos perceber a concepção de aprendizagem construtivista de Morin, em especial, a questão da seleção de conceitos com base nas estruturas mentais, uma aproximação com a Teoria dos Conceitos de Ausubel, a qual trabalharemos no próximo capítulo.
conhecimento que se crê verdadeiro, toda pretensão de conhecimento, todo pseudoconhecimento, isto é, também, o erro, a ilusão, o desconhecimento [...]”, dessa forma mantêm aberto a problemática da verdade, uma vez que essa é uma discussão sobre o conhecimento, sobre o real.
Assim, Morin vai considerar a verdade de um conhecimento quando este for “um conhecimento liberto de suas condições históricas-sócio-culturais de formação”, que deve “reconhecer as suas dependências em relação a essas condições” (MORIN, 2008, p.260).
As ideias podem ser controladas na mente do indivíduo e ser regidas por um sistema de seleção, por um paradigma. Morin (2005b) vai tratar a questão do paradigma como estando situado no núcleo de uma teoria que vai controlar a lógica na mente de uma pessoa. Para ele, a palavra paradigma vai significar modelo ou regra geral, um conjunto das representações, crenças e ideias. Assim, o autor usa o termo paradigma para descrever o que “os indivíduos conhecem, pensam e age conforme os paradigmas neles inscritos culturalmente” (MORIN, 2005b, p.261). Em outras palavras, um paradigma dá inteligibilidade e sentido ao conhecimento, seleciona o conhecimento e organiza as ideias na mente do indivíduo. Dessa forma, uma mudança de paradigma estaria relacionada a mudar a forma de como o indivíduo pensa, acredita e se constitui como sujeito, sendo tal mudança superior às ideias e de âmbito do conhecimento científico.
Sobre a questão da aprendizagem, Morin vai considerar que o aprender não é apenas adquirir o saber, mas é também uma forma de saber como adquirir o saber. O saber é inato ao ser humano, adquirido ao longo de suas experiências e construído ao longo da vida, onde o cérebro seria o construtor que dispõe da capacidade de aprender (MORIN, 2008). Assim, além da capacidade de aprender ser natural do cérebro, de adquirir conhecimentos, o aprendizado vai depender da aquisição de conhecimentos externos, como a cultura ou o ambiente.
Por sua vez, a inteligência pode ser reconhecida a partir da estratégia do conhecimento e na ação, pois “a inteligência é a aptidão para aventurar-se estrategicamente no incerto, no ambíguo, no aleatório, procurando e utilizando o máximo de certezas, de precisões e de informações” (MORIN, 2008, p.73).
O programa é constituído por uma sequência preestabelecida de ações encadeadas acionadas por um símbolo ou sinal. A estratégia produz-se durante a ação, modificando, conforme o surgimento ou a recepção das informações, a conduta da ação desejada (MORIN, 2008, p.70).
Essa visão do ser humano como uma máquina artificial, que deriva da Teoria da Cibernética e da Teoria da Informação, é trabalhada por Morin de modo a nos proporcionar uma compreensão que a nossa estrutura de pensamento já nasce apta à evolução e adaptação com o meio, embora esse pensamento seja evolutivo, biológico e se forme com a cultura, é possível usá-lo em outros objetivos de forma que sempre manterá essa característica biológica, de buscar a melhor forma de sobreviver e se adaptar ao meio, de melhorar o desempenho. Assim, o conhecimento e a estratégia podem ser aplicados a diversos fins e terá como resultado a busca pela melhor adaptação ao meio, ou seja, a busca pelo melhor resultado possível, sendo limitado apenas pela estrutura mental organizacional de quem a compele, isto é, o sujeito.
Isso também nos leva a compreender que quanto melhor conhecermos o ambiente e estivermos atentos às informações, melhor nossas chances de sucesso ao desempenhar um objetivo. Nessa perspectiva, podemos afirmar que o conhecimento é inerente a vida e o mecanismo da computação cerebral é a estratégia, a princípio, de sobrevivência. A informação básica, mínima, já nasce com o indivíduo e o conhecimento se dá em um processo de tradução da realidade, sendo dependente do que já conhecemos. E, quanto mais conhecemos, mais podemos reconhecer a informação em meio ao ruído. Reconhecer a informação é associá-la a nossa forma de representar o mundo, em nossa estrutura mental. Ter uma boa representação de mundo em nossa cabeça nos permite fazer projeções, programar e reprogramar através da estratégia a ser usada quando nos convier.
Podemos extrair algumas conclusões sobre a concepção da aprendizagem proposta por Morin:
1. Quanto melhor for a mente e mais estruturas mentais ela tiver, maior será a capacidade de reconhecer a informação no meio, tendo uma maior capacidade de enfrentamento da incerteza;
2. Devemos estar sempre atentos ao meio para retirar dele informações pertinentes;
3. Uma boa estratégia pode ser concebida como o resultado de programas executados anteriormente e que tiveram sucessos em ocasiões semelhantes. Assim, a experiência pode ser útil em traçar novas estratégias;
4. Um maior número de certezas pode ser útil no enfrentamento da incerteza;
5. Ter atenção e estar com mente aberta à todas as informações possíveis, racionalidade, mesmo que as informações pareçam contraditórias. Com isso, construiremos um conhecimento mais próximo da realidade;
6. Tentar sempre que possível dialogar com o conhecimento, refletindo e atualizando o conhecimento em nossa mente sempre que possível.
Embora possamos perceber que algumas dessas conclusões soam como natural à nossa percepção, podemos usá-las como uma estratégia para enfrentamento da incerteza do conhecimento. Se fizermos disso um pensamento constante, um algoritmo a ser seguido, transformando tais passos um programa cerebral e executando-o muitas às vezes sem perceber ou refletir, estaremos abertos a trabalhar o conhecimento em uma perspectiva complexa da realidade. Estes passos podem auxiliar a implementar o pensamento complexo sem uma discussão profunda dos conceitos.