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CAPÍTULO 2 - CONSTRUINDO ENTENDIMENTOS PERTINENTES

2.5 POLÍTICA

Após o golpe de 1964, o Brasil viveu mais de vinte anos sob o regime militar, uma época em que a participação do povo nas esferas do poder era limitada e desencorajada pelo autoritarismo do regime (CICONELLO, 2008). Na contramão desse regime existiam os sindicatos, entidades, como por exemplo: a Confederação dos Professores do Brasil (CPB), que se transformou posteriormente em Confederação Nacional dos Trabalhadores da Educação (CNTE); a Associação Nacional de Educação (ANDE); a Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (ANPED); a Associação Nacional dos Docentes de Ensino Superior (ANDES) e demais organizações que lutaram para serem ouvidas em suas reivindicações, em atos que clamavam pela volta da democracia, dentre várias outras que promoviam o debate público político na década de 1970 e 1980 e participaram de forma ativa no processo de redemocratização através das discussões de seus entendimentos, gestados em seus encontros e conferências, para as discussões na constituinte de 1988 (SAVIANI, 2013).

Ao final dos anos de 1980, o país se redemocratizava com uma nova constituição, a constituição democrática de 198842. Nossa política de sistema de ensino é criada e o papel da união é determinado como sendo o responsável pela organização dessa educação, onde, em seu artigo 205, deixa claro que:

A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho (BRASIL, 2019, p.160).

A constituição de 1988 é um arcabouço legal para a educação, a qual determina a organização de todo o sistema de ensino, a colaboração entre os entes federativos, a estrutura o poder e suas atuações, os princípios e garantias da educação em nosso país, o funcionamento e financiamento do sistema educativo dentre outros aspectos relevantes nos artigos 205 a 214. Em seu último artigo, que trata da educação, vimos que deve ser estabelecido um Plano Nacional de

42 Sem dúvida alguma, um dos maiores feitos de nosso povo. Uma constituição idealizada e trabalhada por todas as instâncias e representações sociais em um processo de deliberação coletivo e democrático. Sobre esse processo, consultar o trabalho de Ciconello (2008).

Educação (PNE) e que este plano deve estabelecer metas concretas para a educação, conforme artigo 214:

A lei estabelecerá o Plano Nacional de Educação, de duração plurianual, visando à articulação e ao desenvolvimento do ensino em seus diversos níveis e à integração das ações do poder público que conduzam à:

I - erradicação do analfabetismo;

II - universalização do atendimento escolar; III - melhoria da qualidade do ensino; IV - formação para o trabalho;

V - promoção humanística, científica e tecnológica do país (BRASIL, 2019, p.163).

A estabilidade econômica no Brasil nos anos de 1990 trouxe consigo a implantação dos ideais neoliberais através das diretrizes que direcionavam as privatizações, terceirizações e publicização pelo então governo do Fernando Henrique Cardoso (mandato 1995-2003) em uma clara redefinição do papel do estado frente às suas obrigações sociais. Após oito anos (1988-1996), temos a LDB por meio da Lei n. 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional (BRASIL, 1996) destacando as competências da educação e as responsabilidades:

Art 1º A educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais.

§1º Esta lei disciplina a educação escolar, que se desenvolve predominantemente, por meio do ensino, em instituições próprias.

§2º A educação escolar deverá vincular-se ao mundo do trabalho e a prática social (BRASIL, 1996, p.7).

A LDB vem para complementar a legislação de 1988 sobre a educação, definindo o que é a educação e sua finalidade. Reforça que a educação visa capacitar o cidadão para o exercício da cidadania e para mercado de trabalho. Embora tal afirmação já estivesse presente na Constituição de 1988, no artigo 205, esse reforço vai deixar clara a subserviência do governo sobre o papel da educação e sua relação com o mercado de trabalho, em uma clara ideologia capitalista de mercantilização do ser humano.

Quadro 10 - Estrutura da educação brasileira

Níveis Competências Órgãos Responsabilidades

União Autorizar, reconhecer, credenciar, supervisionar e avaliar os cursos de instituições de ensino superior e estabelecimentos de seu ensino. Ministério da Educação (MEC); Conselho Nacional de Educação (CNE)

Ensino Superior; Instituições de ensino mantidas pela união; Instituições de ensino superior privadas e órgãos federais de educação. Estados e Distrito Federal Organizar, manter e desenvolver estabelecimentos de ensino, assim como autorizar, reconhecer, credenciar, supervisionar e avaliar os cursos de instituições de educação básica e superior de ser estabelecimentos de seu ensino. Secretárias ou Departamentos de Educação; Conselhos Estaduais de Educação.

Ensino fundamental e médio; Instituições de ensino mantidas pelos estadaos; instituições de ensino superior mantidas pelo poder público municipal; instituições de ensino

fundamental e médio criadas e mantidas pela iniciativa privada; e órgãos de educação

estaduais.

Municípios

Organizar, manter e desenvolver órgãos e instituições de ensino, assim como criar normas

complementares, autorizar, reconhecer, credenciar, supervisionar e avaliar os cursos de instituições e seu ensino. Secretárias ou Departamentos Municipais de Educação; Conselhos Municipais de Educação.

Pioridade no ensino infantil e fundamental; Instituições de ensino fundamental e médio mantidos pelos poder municipal; instituições de educação infantil criadas e mantidas pela

iniciativa privada; e órgãos de educação municipais.

Fonte: Barbosa (2006)

O Quadro 10 demonstra que a educação é organizada em todos os níveis federativos, a partir da Constituição de 1998 e da LDB, em consonância com a forma de poder político em termos de divisão e organização por competências, mas não exclusiva, pois as competências podem replicar entre os níveis federativos, como o caso das instituições de ensino superior nos estados. Os órgãos cuidam da parte executiva e burocrática relacionadas a educação, criando leis e normativas para as modalidades para cada nível do ensino, mas também não de forma exclusiva.

No caso da União, ela é quem estabelece todas as leis e normativas para todas as outras instâncias, através de discussões que acontecem no Ministério da Educação43, que são avaliadas e podem se tornar lei ou determinação normativa a serem seguidas. Destacamos na LBD, o artigo 9º, inciso IV, na qual afirma que a União, em colaboração com estados e município, deve estabelecer competências e

43 Em especial, no Conselho Nacional de Educação, que é dividido em duas câmaras: da educação básica (ensinos: infantil, fundamental e médio) e educação superior. As câmaras são mantidas para garantirem discussões de caráter democrático com as entidades representativas sociais das questões que envolvem a educação. Não tem poder de criar leis, mas podem ajudar no processo propondo normatizações e pareceres que ajudarão nas decisões do Ministro da Educação. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/conselho-nacional-de-educacao/apresentacao. Acesso em: 8 fev. 2020.

diretrizes para a educação em seus níveis infantil, fundamental e médio através dos currículos e conteúdos mínimos, estabelecendo o currículo mínimo para as escolas. “Artigo 210. Serão fixados conteúdos mínimos para o ensino fundamental, de maneira a assegurar a formação básica comum e respeito aos valores culturais e artísticos, nacionais e regionais” (BRASIL, 2019, p.161).

A princípio, esse currículo mínimo seria apenas para a educação básica, ficando conhecida como DCN, sendo a educação discutida em cada nível da federação no sentido de complementar e garantir a autonomia às instituições de ensino para construir seus projetos pedagógicos a partir das diretrizes vigentes.

É interessante perceber que o papel da união vem sendo diminuído de responsável pela educação a gestora da educação e isso se acentua a partir da LDB, na qual a união estabelece as regras e o plano a ser seguido para toda a educação, passando a delegar a reponsabilidade com o ato de educar. Destaque ao reforço do artigo 209 da Constituição de 1988 no artigo 7º da LDB no papel da iniciativa privada na educação44 na qual o ensino, por parte da iniciativa privada, é livre, desde que atendam aos cumprimentos das normas gerais da educação nacional e do respectivo sistema de ensino, que recebam a autorização pelo poder competente e tenha capacidade de autofinanciamento.

Silva (1990) afirma que o conhecimento e o poder estão estreitamente entrelaçados, destacando o fato de termos um currículo proposto, um pressuposto de um poder em processo de “tradição seletiva” na qual há uma tensão entre os grupos dominantes que atuam para valorizar um determinado conhecimento em detrimento de outros, incluindo as tradições culturais de grupos e classes dominantes e excluindo as tradições culturais de classes e grupos subordinados.

A definição daquilo que é considerado como sendo o conhecimento, e particularmente, como sendo o conhecimento escolar, nunca é um ato desinteressado e imparcial. É sempre o resultado de lutas e conflitos entre definições alternativas, em que uma delas conseguiu se impor (SILVA, 1990, p.61).

44 As universidades particulares vão ganhando espaço na educação superior nos governos militares (1964-1985) após várias políticas que contiveram a expansão do ensino superior gratuito em detrimento do ensino superior pago, pois as universidades federais não conseguiam ampliar a oferta de vagas, abrindo a oportunidade de investimentos na criação de novas IES por parte do meio empresarial (MARTINS, 2009).

Assim, embora tenhamos um processo dito “democrático” de decisões estabelecidas em leis, tais decisões estão nas mãos de pequenos grupos ditos representativos da sociedade, no interior da estrutura do poder, tomando as decisões nas quais eles acham que são as certas para toda a população e as políticas de currículos vão estar sempre centralizadas no Estado e seus mecanismos de controle, tais como as DCNs, os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) e a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e terão de ser compridas de acordo com estas normas, uma vez que estarão sujeitas ao financiamento do estado. Como exemplo disso, no ensino superior, destacamos o REUNI.

Devemos associar uma boa política de currículo não só pela questão do seu financiamento, mas por um consenso sobre seus propósitos. Concordamos com Lopes (2004) quando este afirma que também deverá haver um discurso que legitime as ações a serem implementadas e, se necessário, criar mecanismos simbólicos que legitime o discurso em uma política norteadora de currículos para a educação.

2.5.1 Política da Educação Superior

Há muito que discutir sobre as leis que regem nosso processo educativo. Em uma breve análise, discutiremos aspectos destas leis que se relacionam diretamente com a Instituição de Ensino Superior (IES), que se refere ao nosso objeto de estudo. A LDB possui 92 artigos, complementado a educação à Constituição de 1988. No que se refere à educação superior45, destacamos os artigos 43º ao 57º da LDB descritos no Quadro 11.

Quadro 11 - Leis que regem o ensino nas IES

Lei Art. Descrição

Constituição de 1988 207

Determina que as universidades e instituições de pesquisa científicas e tecnológicas gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial, e obedecerão ao princípio de

indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão. São autônomas para contratar seus funcionários.

45 Regulamentação via Decreto n. 3.860/2001, posteriormente revogado pelo Decreto n. 5.773/2006, e revogado pelo Decreto n. 9.235/2017, que estabelece o exercício das funções de regulação, supervisão e avaliação das IES e dos cursos de graduação e pós-graduação do sistema federal de ensino (BRASIL, 2017).

LDB

43

Estabelece a finalidade do ensino superior como o de estimular a criação

cultural e o desenvolvimento do espírito científico e do pensamento reflexivo; formar diplomados nas diferentes áreas do conhecimento aptos

para inserção no mercado de trabalho e participação no

desenvolvimento da sociedade; incentivar o desenvolvimento da

pesquisa científica visando o crescimento científico e tecnológico assim

como difusão da cultura, desenvolvendo o conhecimento do homem e do meio em que vive; promover a divulgação de conhecimentos culturais, científicos e tecnológicos através de publicações e outras formas de

comunicação; estimular o conhecimento dos problemas do mundo presente, em particular os nacionais e regionais; e promover a extensão aberta a participação da comunidade visando a difusão das conquistas e benefícios da pesquisa científica e tecnológica geradas na instituição; e atuar em favor da educação básica46;

44 A educação superior abrangerá os seguintes cursos e programas: cursos sequenciais por campo de saber, de graduação a candidatos concluintes do ensino médio, pós-graduação e extensão;

45 Estabelece que a educação superior deve ser ministrados em IES públicas ou privadas em vários graus de abrangências e especialização;

46 Estipula o processo de credenciamento e avaliação dos cursos superiores e sua periodicidade; 47 Define normas para o ano letivo da graduação;

48 Versa sobre a emissão e validação dos diplomas de cursos superiores; 49 Define as regras de transferências dos alunos;

50 Oferta e disponibilidade de vagas a para alunos não regulares; 51 Estabelece as normas de seleção e admissão dos alunos;

52

Define as universidades como instituições pluridisciplinares de formação

dos quadros profissionais de nível superior, de pesquisa, de extensão e

de domínio do cultivo do saber humano na qual deve se caracterizar por uma

produção intelectual de temas e problemas relevantes

institucionalizada do ponto de vista científico, cultural de âmbito regional e nacional; estabelece também que uma universidade deve ter,

pelo menos, um terço do corpo docente com titulação de mestre ou doutor e com regime de trabalho de tempo integral;

53

Estabelece a universidade como autônoma podendo criar e extinguir

cursos e programas de educação; fixar os currículos de seus cursos, observando as diretrizes pertinentes; estabelecer planos e projetos de

pesquisa científica, produção artística e atividades de extensão; elaborar e reformar seus estatutos; autonomia para conferir graus e diplomas assim como firmar contratos e acordos; sendo atribuída a universidade

autonomia didático-científico para criação e extinção de cursos, definir

ampliação de vagas, elaborar programas de cursos gerenciamento da

carreira docente, dentre outras atividades.

54 Define a IES pública mantida pela união e a condição de formular sua estrutura e organização via estatuto jurídico especial;

55 A união deve assegurar os recursos suficientes para manutenção e desenvolvimento das IES mantidas por ela;

56 As IES públicas devem obedecer ao princípio de gestão democrática, assegurando a existência de órgãos colegiados deliberativos e a participação da comunidade acadêmica nas deliberações.

57 Determina nas IES públicas o regime mínimo de 8 horas semanais para o professor.

Fonte: Brasil (1996; 2019, grifo nosso)

A Constituição de 1988 não determina como as universidades públicas devem funcionar. Apenas artigos que determinam que estas devam ser autônomas e as caracterizam como instituições promotoras do ensino, pesquisa e extensão, sendo reforçada pelos artigos n. 43, 52 e 53 da LBD, conforme destacamos no Quadro 11. A LDB traz as características do ensino superior no artigo 43, definindo o formato dos cursos; no artigo 44, define a rede de ensino superior, novamente destacando a questão das IES privadas (também aparecerá nos artigos 16 e 20 que versam sobre a organização da educação nacional); entre os artigos 44 ao 47, normas para os cursos superiores; no artigo 48, a questão da certificação a ser emitida após concluído o curso superior; sobre o funcionamento das IES estarão definidos nos artigos 46, 47, 49, 50, 51, e 57; a caracterização das IES no artigo 52, sua forma de organização e trabalho nos artigos 54 e 56 e a questão do financiamento no artigo 55.

Sem dúvida, a LDB é um grande avanço para a universidade, pois a partir dela temos uma nova lei a ser seguida que descreve, caracteriza e rege a sua organização e funcionamento. Mas não foram só as universidades que gozaram de tal liberdade47, mas todo o sistema de ensino brasileiro, um marco. A LBD representou para o ensino a liberdade dada às escolas para que estas construíssem seus próprios projetos pedagógicos e sistemas de gestão, autonomia para a inovação, respeitando os PCNs, como o conjunto de referências pedagógicas e as DCNs como referenciais para a elaboração das propostas pedagógicas. Dessa forma, o papel do MEC pós-LDB passa a ser o de propositor de leis e programas, político e o CNE o papel de órgão deliberativo e normativo do ensino (BARBOSA, 2006).

47 É uma liberdade condicionada ao atendimento de outras leis vigentes, embora a universidade tenha autonomia de criar seus estatutos, estes deverão ser aprovados pelo CNE em conformidade com a Lei n. 4.024, de 20 de dezembro de 1961, e de acordo com a LDB, artigo 9º §2, conforme documento de orientação do MEC, que também vai trazer uma série de outras regras a ser atendidas para a criação do estatuto. Isso sem falar da questão para a criação e manutenção de um curso de graduação, da contratação de pessoal para a instituição e o principal: a questão orçamentária da IES públicas, onde é quase impossível pensar em ampliá-la sem uma política complementar. Isso nos leva a acreditar que não existe autonomia universitária como pregam as leis e sim uma liberdade condicionada. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/sesu/arquivos/pdf/eries.pdf. Acesso em: 9 fev. 2020.

Quanto as críticas à LDB, temos a questão das IES quanto ao papel da responsabilidade científica, ligada às questões do trabalho como um reforço a pedagogia tecnicista. Outra questão pode ser associada ao artigo 7º, no qual aponta que o ensino é livre à iniciativa privada desde que este respeite as normas vigentes, normas estas as mesmas para o ensino público, com texto semelhante, reforçando o artigo 209 da Constituição de 1988. Nada de novo até aqui, mas o inciso II do artigo 43 destaca que “formar diplomados nas diferentes áreas do conhecimento, aptos para a inserção em setores profissionais e para a participação no desenvolvimento da sociedade brasileira e colaborar sua formação contínua” deixou muito aberta a possibilidade de novos cursos para atender a novos mercados48 (BRASIL, 1996, p.20). Isso deu margens para a criação dos cursos superiores de curta duração, comumente chamados de tecnológicos, voltados a atender as demandas do mercado de trabalho. No Parecer n. 10849, de 7 de maio de 2003, do Conselho Nacional de Educação (BRASIL, 2003) temos um entendimento da regulamentação dos cursos superiores de curta duração (bacharelados), reconhecendo a fragilidade no aspecto formativo da excessiva carga de disciplinas obrigatórias e a necessidade de criatividade em novas propostas curriculares que diminuam essa carga, uma vez que já teríamos outros cursos com carga horária menor, como as licenciaturas e os tecnológicos. Essa mudança de entendimento sobre os cursos, como duração e currículo, fez surgir diversos cursos novos (em sua maioria oferecidos por IES privadas) o que nos leva ao questionamento sobre as propostas frente aos entendimentos da LDB, em especial, à caracterização do ensino descrito no artigo 43, frente a redução do tempo e das exigências necessários.

Chaves (2010, p.486), destaca que

[...] a LDB serviu como base para o processo de reforma da educação superior, em atendimento às orientações dos organismos multilaterais internacionais para a implantação do modelo de Estado neoliberal, em que a lógica mercantilista assume a centralidade.

48 O Decreto n. 5.773, de 9 de maio de 2006, discorre sobre a caracterização das IES quanto organização e prerrogativa acadêmica, criando as nomenclaturas de faculdades, centros universitários e Universidade, mantendo as prerrogativas da LDB quanto a universidade. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seed/arquivos/pdf/legislacao/decreton57731.pdf. Acesso em: 9 fev. 2020. 49 O parecer critica o fato de que o diploma emitido por uma IES não garante o egresso na carreira profissional, esbarrando a questão dos conteúdos que um currículo deve ter como exigências corporativas das entidades de classes, que ainda apreciam o currículo mínimo e comandam a arquitetura do ensino superior em nosso país.

Ou seja, uma política educacional que atenda às exigências e aos interesses dos organismos internacionais. Neves, Raizer e Fachinetto (2007) destacam a pressão das organizações transnacionais como a UNESCO, o Banco Mundial e a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) com relação a essa diversificação da educação superior como estratégia de ampliação do acesso. Estes organismos internacionais defendiam (e ainda defendem) a apropriação dos conteúdos mínimos a serem ensinados nas escolas e um ensino técnico destinado ao mercado de trabalho, que necessita desse perfil profissional, mão de obra técnica de baixo custo, demonstrando preocupações apenas com o ensino técnico em uma postura “antiuniversitária”, e conforme destaca Silva (2016)50, contribuindo para a disseminação do argumento de que a universidade pública brasileira seria destinada à elite e seria inacessível a maioria da população, estabelecendo a crença de que o ensino superior deveria ser investimento pessoal e não do estado.

Embora as IES privadas sejam importantes para o ensino superior, muitas críticas são as dirigidas a elas, em especial, a de que estas instituições primam pelo lucro e eficácia e tratam a educação como uma mercadoria, fornecendo aos seus alunos uma baixa qualidade de ensino, salvo algumas exceções (NEVES; RAIZER;