Cap III – Alberto Caeiro, Mestre da Página em Branco
5. Empirismo, idealismo e nominalismo em Alberto Caeiro
Há, portanto, em Alberto Caeiro, uma escrita poética que procura colocar em evidência a dificuldade, aparentemente intransponível, da linguagem para satisfazer o desejo de designação total do objeto. Veja-se o caso, por exemplo, de uma palavra como “rosa”. Em primeiro lugar, esta palavra é composta por duas sílabas e quatro fonemas, quando falada, e por quatro letras, quando escrita. Nota-se, porém, sem grande esforço especulativo, que não há indício algum, nestes elementos isolados que a compõem, de uma relação entre a palavra “rosa” quando falada e a palavra “rosa” quando escrita. O que dizer então da relação entre ambos os modos de uso da palavra quando se busca compreender essa relação através da palavra “sílaba” e da palavra “fonema”, por exemplo?
Para além do simples jogo de linguagem, pode-se dizer que saímos da relação entre duas variantes concretas do nome, ou seja, como palavra escrita e palavra falada, para duas relações abstratas entre as “quatro letras”, as “duas sílabas” e os “quatro fonemas”. Mas o que responderia Caeiro se fizéssemos a ele a pergunta acima? Certamente: “Mas isso são só números”, e olhando-nos “com uma formidável infância“, desafiar-nos-ia a argumentar: “Mas o que é o 34 na realidade?”.89 Diante de tal atitude cética, observa-se que a palavra “rosa”, quando falada, talvez pudesse adquirir uma objetividade perfeitamente distinta da palavra “rosa” quando escrita. Mas então o que diria Caeiro se perguntássemos sobre essas duas objetividades distintas com relação à “rosa” real?
Uma questão parecida move a crítica de Berkeley ao conceito empirista de ideia abstrata. Para Locke, assim como para a maior parte dos empiristas de sua época, as impressões sensíveis são todas compostas e se apresentam ao espírito como ideias, isto é, como cópias de uma realidade externa inapreensível aos sentidos. Segundo sua filosofia,
88 PESSOA, F. Obra Poética, p.221. 89 PESSOA, F. Obra em Prosa, p.109.
71 a palavra “rosa” é um nome que designa um composto sensível, a ideia, dada à sensibilidade como cópia de um objeto que existe fora do poder de percepção e análise do espírito. Uma consequência imediata desta concepção é que os elementos que compõem a rosa, isto é, as cores, as pétalas, os espinhos..., são ideias ou nomes simples cujo sentido é abstraído da ideia composta de rosa, mais próxima da rosa real.
A crítica de Berkeley90 à teoria de Locke orienta-se pela hipótese de não haver nenhuma realidade objetiva anterior ao sujeito que percebe. Em primeiro lugar, a ideia “rosa” não poderia existir como cópia de um objeto externo, inapreensível ao espírito, porque as ideias sensíveis não são compostas. Ao contrário, são simples e já existem em potência no espírito que as percebe. O que se observa ao ver, cheirar ou tocar uma rosa não são ideias abstraídas da ideia composta de rosa, mas a percepção imediata de ideias simples a que denominamos vermelho, pétala ou perfume. O que Locke entende por ideia composta não seria, portanto, a percepção sensível de um composto material, mas um nome através do qual o espírito sintetiza as ideias simples que nele já existem como percepções imediatas da sensibilidade interna ao espírito.
Assim como na crítica de Berkeley, Caeiro afirma não haver percepção de uma ideia a que corresponda um nome composto. Toda a percepção autêntica apresenta o objeto em sua simplicidade imediata. Mas diferente de Berkeley, a percepção sensível não se refere exclusivamente ao espírito. Afirmar que o ser do objeto equivale ao ato de percebê-lo é incluir um elemento idealista que induz o filósofo a negar a forma exterior do objeto e afirmar a transcendência de um espírito divino, capaz de perceber a totalidade dos objetos particulares que escapam à nossa percepção imediata.91 Caeiro aproveita o embalo da crítica ao empirismo materialista de Locke e ao empirismo idealista de Berkeley, condensados no poema V, para ironizar, a partir daí, as sinestesias fantasiosas dos poetas místicos:
XXVIII
É preciso não saber o que são flores e pedras e rios Para falar dos sentimentos deles.
Falar da alma das pedras, das flores, dos rios,
90 Ver os parágrafos 3, 5, 7e 9 do Tratado sobre os Princípios do Conhecimento Humano de Berkeley, nas
pp. 19, 20 da Coleção “Os Pensadores”.
91 Para dar uma noção exata do comportamento anti-idealista da linguagem em Caeiro, basta dizer que, para
ele, o próprio “eu” não se enuncia nunca como sujeito, mas como objeto. Por isso, dizer “eu percebo”, para ele, equivale a dizer apenas que um objeto sensível percebe outro objeto, também sensível e diferente de si.
72 É falar de si próprio e dos seus falsos pensamentos.
Graças a Deus que as pedras são só pedras, E que os rios não são senão rios,
E que as flores são apenas flores.92
Mas voltemos ao problema específico da linguagem. A diferença entre ambos os modos, escrito e falado, parece antes confirmar a tese de que o nome não é a coisa. A palavra “deus”, por si só, não é capaz de designar o Deus real e, do mesmo modo, a palavra “homem” não é o homem, nem a palavra “rosa”, a rosa real. Deus, homem e rosa só existem quando aparecem individuados no campo de visão como algo distinto da linguagem. Apenas quando a linguagem deixa de existir enquanto construto que se autojustifica artificialmente como independente das coisas, que deus, o homem e a árvore passam a existir com toda sua clareza. Em outras palavras, apenas quando o significante abandona o regime de definições por diferença relativa, próprio à linguagem, e passa para o campo ontológico da diferença sensível, imanente ao ato de ver e ouvir, que o nome adquire o poder de aproximar a significação ao objeto significado. Mas isto apenas de um modo inadequado, porque a palavra nunca poderá substituir a proximidade natural que há entre o objeto e o ato de ver e ouvir. Em suma, os objetos não dependem da linguagem para existir e, por esse motivo, a função desta se limita a deferir negativamente essa autonomia.