Cap.VI – Álvaro de Campos: Discípulo Engenheiro Naval 1 Despersonalização, personificação e sensacionismo em Álvaro de Campos
3. Transcendentalismo panteísta e universal simbólico
Na “Ode Marítima”, a transposição do tempo psicológico para o tempo histórico é fruto da associação entre o que é próprio à dinâmica de despersonalização heteronímica, à autorreflexão da forma poética como fluxo das sensações e a personificação da não- identidade sob a figura de um “tipo universal” para o heterônimo. O “tipo universal” representa não apenas a habilidade para personificar sensações com um “eu penso”, um “eu sinto” e um “eu sou”, como figura da não-identidade que exprime a leitura virtual da obra pelos demais heterônimos, mas também uma universalidade simbólica para a marcha dos acontecimentos históricos, concertando-se ambas num conjunto orgânico que contribui para individuar sua atitude psicológica sob a forma do fluxo autorreflexivo das sensações. Assim, Álvaro de Campos aparece à beira do cais, em Lisboa, à espreita de um navio imaginário que despersonaliza sua identidade e o transporta pelo mar de sensações vividas em outros momentos históricos. A despersonalização da identidade e a personificação da não-identidade constela-se em torno à oposição entre a figura dos navegadores que colonizaram o mundo e a figura dos povos nativos que se deixaram por eles colonizar. Atente-se agora para estes versos de “Passagem das Horas”, onde essa dinâmica de despersonalização e personificação do “tipo universal” aparece de maneira mais particularmente desenvolvida:
Eu quero ser sempre aquilo com quem simpatizo, Eu torno-me sempre, mais tarde ou mais cedo,
Aquilo com quem simpatizo, seja uma pedra ou uma ânsia, Seja uma flor ou uma ideia abstrata,
Seja uma multidão ou um modo de compreender Deus. E eu simpatizo com tudo, vivo de tudo em tudo.
São-me simpáticos os homens superiores porque são superiores, e são-me Simpáticos os homens inferiores porque são superiores também,
Porque ser inferior é diferente de ser superior,
E por isso é uma superioridade a certos momentos de visão. Simpatizo com alguns homens pelas suas qualidades de caráter, E simpatizo com outros pela sua falta de qualidades,
E com outros ainda simpatizo por simpatizar com eles,
E há momentos absolutamente orgânicos em que esses são todos os homens. Sim, como sou senhor absoluto na minha simpatia
Basta que ela exista para que tenha razão de ser.162
142 Observa-se nesses versos um equivalente poético de dois temas exemplares da história da filosofia, personificadas como elementos universais na atitude psicológica de Álvaro de Campos. A simpatia aparece como equivalente da dinâmica de despersonalização e personificação sensacionista para o reconhecimento de si no outro, figura da relação intersubjetiva entre senhor e escravo na Fenomenologia do Espírito. Como na dialética, a identidade heteronímica de Álvaro de Campos coloca-se na dependência da não-identidade da consciência como condição de acesso ao objeto universal do desejo, instaurando uma forma de intercâmbio autorreflexivo entre identidade e não-identidade nas figuras do homem superior e do homem inferior. Primeiro, o heterônimo reflete seu desejo de reconhecimento na figura do homem superior que, invertendo o sentido da reflexão, também reflete sua não-identidade na figura do eu heterônimo. Mas, apesar do deslocamento reflexivo, ambos representam a mesma identidade, que se coloca agora na dependência do homem inferior como condição de acesso ao objeto universal do desejo. Assim, ao ser reconhecido como figura da não- identidade, o escravo obtém sua alforria, ao refleti-la na figura do homem superior, elevando a atitude psicológica de Álvaro de Campos ao registro do cogito à terceira potência, como “senhor absoluto na sua simpatia”. O reconhecimento de si no outro representa, portanto, a possibilidade de plenitude subjetiva pela incorporação da não- identidade ao “tipo universal” da personalidade heteronímica, o que não seria possível se o heterônimo persistisse na alienação de sua identidade egoísta ou na identificação narcísica com o homem superior.
Uma dinâmica intersubjetiva semelhante aparece no poema “Cruzou por mim...”, em que Álvaro de Campos reflete seu desejo de universalidade na figura de um pedinte. Mas, neste poema, o deslocamento de reflexivo não será recíproco, como em “Passagem das Horas”, porque centrada na identificação narcísica que obriga o heterônimo a reincidir o desejo sobre sua identidade egoísta, fazendo-o sentir-se mais digno de pena que a figura do vadio e pedinte:
Sinto uma simpatia por essa gente toda, Sobretudo quando não merece simpatia. Sim, eu sou também vadio e pedinte, E sou-o também por minha culpa.
Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte: E' estar ao lado da escala social,
143 Às normas reais ou sentimentais da vida -
Não ser Juiz do Supremo, empregado certo, prostituta, Não ser pobre a valer, operário explorado,
Não ser doente de uma doença incurável,
Não ser sedento de justiça, ou capitão de cavalaria, Não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas
Que se fartam de letras porque tem razão para chorar lágrimas, E se revoltam contra a vida social porque tem razão para isso supor. Não: tudo menos ter razão!
Tudo menos importar-me com a humanidade! Tudo menos ceder ao humanitarismo!
De que serve uma sensação se há uma razão exterior a ela?163
Por outro lado, como o título do poema sugere, “Passagem das Horas” traça um horizonte histórico-subjetivo para as sensações em torno a um plano espaço-temporal linear, geométrico e progressivo. Compreendido à luz do lema sensacionista, “Sentir tudo de todas as maneiras”, o verso “Basta que ela exista para que tenha razão de ser” dramatiza o sentido essencial da primeira definição da Ética de Espinosa, “Deus é causa de si”, pelo equivalente poético da simpatia. Para efeito de comparação, pode-se traduzir esta definição para uma linguagem menos teológica do tipo “tudo o que existe, existe
porque existe”, em que o advérbio porque explica o nexo causal que permite tanto ao
filósofo como ao poeta colocar-se no mesmo plano de imanência das formas sensíveis, como um corpo metafísico capaz de traçar, por força intelectual, o horizonte geométrico de sua ação e sua sensação, harmonizando-se com a simetria das forças que estruturam a realidade através dos modos e atributos de Deus. Assim, tanto uma flor como uma multidão, uma ideia abstrata ou um modo de compreender Deus aparecem como vértices de um poliedro, interligados por versos que exprimem com precisão geométrica a multiplicidade das sensações, segundo um percurso linear de composição que atravessa a página em branco —horizontal, vertical e obliquamente—, colocando o homem superior lado a lado à concretude das formas sensíveis e das formas humanas de ser, sentir, pensar e agir.
De um lado, um equivalente poético para o princípio fundamental de Espinosa, de outro, a figura-chave da ontologia social de Hegel. Encontram-se inúmeros exemplos análogos de despersonalização e personificação do “tipo universal” de Álvaro de Campos
144 nos poemas sensacionistas, nos quais se observa a articulação de elementos emprestados à história, à religião e à filosofia, combinando esses elementos universais com os ideais estéticos do heterônimo e constituindo um sistema de oposições que, antes mesmo de dar início à escrita heteronímica, Fernando Pessoa já reconhecia, em seu ensaio publicado em 1912, na revista Águia, como característica do transcendentalismo panteísta da nova poesia portuguesa.164
Era preciso ser Deus, o Deus dum culto ao contrário.
Um Deus monstruoso e satânico, um Deus dum panteísmo de sangue, Para poder encher toda a medida da minha fúria imaginativa,
Para poder nunca esgotar os meus desejos de identidade
Com o cada, e o tudo, e o mais-que-tudo das vossas vitórias! 165
Mais uma vez o “tipo universal” de Álvaro de Campos é precisamente representado, agora pela inversão panteísta do transcendentalismo cristão. Assim, a criação de um sistema de oposições entre imagens, ideias e valores pela autorreflexão sensacionista permite a Fernando Personne fazer da escrita heteronímica de Álvaro de Campos um inestimável compêndio da história subjetiva do ocidente.