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Personificação do estoicismo e do epicurismo

Cap III – Alberto Caeiro, Mestre da Página em Branco

3. Personificação do estoicismo e do epicurismo

Encontram-se nos poemas de Ricardo Reis duas características que o colocam em relação com a poesia de Horácio, um dos modelos formais de composição das Odes. Assim como no poeta latino, os valores morais do estoicismo e do epicurismo fornecem elementos decisivos para a composição da atitude pagã do heterônimo. Uma e outra doutrina ajudam a definir os elementos centrais de sua personalidade, que encontra no paganismo natural de Alberto Caeiro um forte aliado contra o decadentismo da civilização moderna.

Ao pagão moderno, exilado e casual no meio de uma civilização inimiga—só pode convir uma das duas formas últimas de especulação pagã—ou o estoicismo, ou o epicurismo. Alberto Caeiro não foi nem um nem outro, porque foi o Paganismo Absoluto, sem ramificação ou intenção segunda. Por mim, se em mim posso falar, quero ser ao mesmo tempo epicurista e estoico, certo que estou da inutilidade de toda a ação num mundo em que toda a ação está em erro, e de todo o pensamento, em um mundo onde o modo de pensar se esqueceu.114

112 Para um maior esclarecimento sobre os impulsos apolíneo e dionisíaco, leia-se NIETZSCHE, F.

Nascimento da Tragédia.

113 PESSOA, F. Obra Poética, p. 263. 114 PESSOA, F. Obra em Prosa, p.114.

91 De maneira geral, os estoicos não concebem nenhuma outra realidade senão a que aparece imediatamente aos sentidos. Para eles nada existe—nem mesmo os deuses, a alma ou a razão—que não seja corpóreo ou material. Essa premissa permite aos seus seguidores formular a hipótese de que a alma, assim como tudo o mais, é absolutamente determinada pela lei que rege a natureza. Todas as sensações que os objetos imprimem na consciência, assim como todas as ações e pensamentos individuais, seguem-se uns aos outros mecanicamente, de acordo com um encadeamento causal que os produz como efeitos necessários da lei natural. Uma consequência imediata disso é que o mundo não permite nenhuma liberdade de escolha para o indivíduo. Dizer que escolhemos fazer uma coisa significa apenas dizer que consentimos com o que fazemos e não que o escolhemos por livre vontade, pois não há nenhuma possibilidade de desobediência à lei natural. Um fatalismo que permite aos estoicos conceber o universo segundo as ideias sublimes de ordem, beleza, desígnio e harmonia.

Por estar sempre em concordância com a lei natural, a ação humana segue sempre um fim. A consciência desse fim faz de cada evento uma coisa boa, permitindo ao ser humano viver indiferente ao curso do destino, sem se deixar abalar com o modo como as coisas o afetam, ou com o fatalismo da lei. Dado esse contexto, o sábio estoico deve guiar-se pelo princípio ascético da virtude, que consiste na submissão consciente da vontade aos desígnios do destino. Paradoxalmente, somente através da submissão à lei natural é possível ao homem pôr em prática o desejo de determinar livremente seu ser, posto que tanto o prazer como a dor são eventos necessários que seguem indistintamente o curso natural do mundo:

Só esta liberdade nos concedem Os deuses: submetermo-nos Ao seu domínio por vontade nossa. Mais vale assim fazermos

Porque só na ilusão da liberdade A liberdade existe.

Nem outro jeito os deuses, sobre quem O eterno fado pesa,

Usam para seu calmo e possuído Convencimento antigo

De que é divina e livre a sua vida. Nós, imitando os deuses,

92 Como quem pela areia

Ergue castelos para encher os olhos, Ergamos nossa vida

E os deuses saberão agradecer-nos O sermos tão como eles.115

Epicuro, por outro lado, definia o supremo bem, denominado ataraxia, como emanação de um estado de alma capaz de ocupar o espaço vazio deixado pela ausência de dor. A ataraxia pode ser alcançada com a fruição comedida dos prazeres do corpo e da alma, o que implica na saúde propugnada pela máxima mens sana in corpore sano. Mas quando excedido certo limite, como na lascívia ou na luxúria, o prazer corpóreo reverte-se em insatisfação. Para reduzir esta possibilidade, a escolha pela saúde e pelo prazer deve orientar-se pela inteligência e não pelos impulsos imediatos do corpo, pois apenas ela é capaz de afastar o medo dos deuses, do destino e da morte, as principais intempéries do espírito. Nesse sentido. Epicuro recomenda que desejos supérfluos, artificiais ou excessivos sejam substituídos por pequenos prazeres, experimentados com prudência, como o prazer de uma conversa simples e desinteressada ou a fruição de breves momentos de contemplação. O homem que assim proceder poderá gozar a felicidade de alcançar a paz e a tranquilidade de espírito.

Atente-se para o reflexo de ambas as filosofias no poema já referido acima:

Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo, E ao beber nem recorda

Que já bebeu na vida, Para quem tudo é novo E imarcescível sempre.

Coroem-no pâmpanos, ou heras, ou rosas volúteis, Ele sabe que a vida

Passa por ele e tanto Corta à flor como a ele De Átropos a tesoura.

Mas ele sabe fazer que a cor do vinho esconda isto, Que o seu sabor orgíaco

Apague o gosto às horas, Como a uma voz chorando O passar das bacantes.

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E ele espera, contente quase e bebedor tranquilo, E apenas desejando

Num desejo mal tido Que a abominável onda O não molhe tão cedo.116

Forma de apresentação teórica da atitude psicológica de Ricardo Reis, o paganismo exprime uma ontologia pensada como junção entre o fatalismo moral estoico e a inclinação intelectual para o sensualismo epicúreo, junção na qual o destino figura sempre como algo inalcançável diante do poder reflexivo do cogito e a virtude como algo desejável apenas quando acompanhada de felicidade real. Essa dupla orientação filosófica permite ao poeta resgatar o senso de disciplina e a sensibilidade da cultura pagã. De um lado, a consciência de que o destino determina as ações para além das forças humanas de decisão leva-o a resignar-se e a agir com indiferença ante os eventos corriqueiros do mundo. De outro, a consciência de que o sentido da vida consiste na contemplação desinteressada da natureza desperta no heterônimo o desejo de supressão dos excessos do pensamento e das sensações para ceder lugar à paz e à tranquilidade de espírito.

Temos, pois, que o destino aparece não apenas como ponto fixo de referência no decorrer do processo de despersonalização, mas como a própria não-identidade da forma autorreflexiva de Ricardo Reis. Sua assunção como forma não-idêntica permite ao heterônimo operar o esvaziamento do “regime trágico” da subjetividade fáustica inaugurando um plano de composição autorreflexivo da sensação, no qual o desejo de superação do destino cede espaço ao livre jogo entre os impulsos apolíneo e dionisíaco. Desse modo, ao lançar sua atitude em direção a sensações comedidas e luminosas, Ricardo Reis personifica a forma autorreflexiva de Fernando Personne com a experiência trágica antiga, eximindo-se dos encargos de uma subjetividade trágica corrosiva como à de Fausto, para encontrar no equilíbrio entre objetivismo e subjetivismo a possibilidade de fruição de uma sensação única de liberdade.

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