ENTRE A GRAÇA E A NATUREZA: REINTERPRETANDO A TRADIÇÃO
7. Enseñar es proprio de cristianos; forzar es proprio de tiranos
“¿Quién me constituió juez sobre vosotros?” Estas palavras são de Cristo (Lc 12, 14). Foram pronunciadas por ocasião de uma contenda sobre uma herança a ser devolvida. Cristo se nega a servir de juiz entre dois irmãos que litigavam. Trata-se de um dos textos utilizados por Las Casas em sua Apologia para reafirmar a liberdade dos pagãos, ou seja, dos índios, frente ao domínio de Cristo. Seu domínio, assim pensava ele, somente poderia ser exercido sobre os fiéis que, livremente, o aceitaram: “Como se dijera: “Yo no tengo por qué jusgar a aquellos que no creen en mis palabras” (Vol. 9, 157). No seu modo de entender, o comportamento de Cristo, frente aos pagãos, era vinculante, ou seja, era obrigatório para a igreja. A prática de Cristo, tolerante, deveria servir de modelo para os cristãos. Como Cristo não pretendeu impor-se aos que não pertenciam ao seu rebanho, da mesma forma, deveria comportar-se a igreja. O poder da igreja não poderia ser superior ao de Cristo. Ela, a igreja, não estava acima de Cristo e suas ações deveriam ter como limite as suas atitudes: “Así la Iglesia no tiene mayor poder que el que en
otro tiempo ejerció Cristo mientras estuvo en la tierra” (idem. Grifo nosso).
Cristo é o modelo do homem tolerante. Quando, em seu De unico, Las Casas afirma que o modo de expandir a fé é aquele determinado pela Providência Divina, isto é, doce e suave, sem distinção de “sectas, errores o costumbres depravadas” (Vol. 2, 17), na realidade, tem, em mente, o próprio Cristo. A questão tem uma explicação teológica: todas as operações ad extra devem ser, igualmente, atribuídas a cada uma das pessoas da Trindade. Deve-se dizer que tanto a criação, como a salvação ou a santificação dos homens são ações que pertencem igualmente a todas as pessoas da Trindade, embora, por apropriação, a cada uma seja designada uma atividade, em particular: ao Pai, a criação; ao Filho, a redenção e ao Espírito a santificação. O fato é que, quando se fala em Providência Divina, se está, com esta expressão, indicando uma atividade que pertence, igualmente, a Cristo. Ora, este modo de proceder de Cristo, que se recusa a julgar os
que não pertenciam ao seu rebanho, torna-se lei à qual toda a instituição eclesiástica deve se submeter.
“Así como la ley de Cristo es una y sola que no se cambia ni nunca se cambió ni se cambiará hasta el fin del mundo, y una y sola es la fe y la religión cristiana, así también
una y sola es la enseñaza de la fe, establecida por Cristo, promulgada por los Apóstoles, recibida y siempre predicada y observada por la Iglesia universal”
(idem., 21.Grifo nosso).
Estamos diante do que, anteriormente, designamos por tradição. O modo de anunciar a boa notícia do Reino de Deus, praticado por Cristo, é parte integrante desta tradição à qual, para se manter a ele fiel, a igreja deve se ater. A conduta de Cristo é aquela estipulada pela Providência Divina. Assim sendo, ela não pode ser modificada em nenhuma circunstância e por nenhum motivo. Com estas afirmações, Las Casas busca fechar as portas ao discurso da guerra ou da sujeição dos índios como meio de evangelização. Por outro lado, busca salvaguardar a liberdade em matéria de fé e culto. Ninguém, para ele, pode ser forçado nesta matéria.
“El modo o forma que Cristo estableció y mandó observar al enseñar y anunciar el evangelio y su fe a las naciones esparcidas por todo el mundo, y durante todos los tiempos… es un modo o forma establecida por la sabiduría y providencia divinas. Pero ese modo o forma es persuasivo del entendimiento con razones, y suavemente // motivo y atractivo de la voluntad. Luego el modo de enseñar a los hombres la verdadera religión, establecido por la providencia y sabiduría divina, es por lo que toca al al entendimiento etc… La consecuencia primera, junto con la proposición mayor, son patentes, porque Cristo, Hijo de Dios, es la sabiduría divina del Padre, verdadero y único dios con el Padre y el Espíritu Santo. Y como la esencia de esas tres divinas personas es única y la misma, así, sin duda, es única la sabiduría y providencia. Por aquello de que lo que obra el Hijo, es obra del Padre y del Espíritu Santo; y la obra del Hijo es obra de Dios… La fe ortodoxa nos atestigua que las obras ad extra de la
Trinidad son indivisibles e inseparables. Luego todo lo que Cristo, viviendo en carne mortal, estableció y ordenó, fue establecido y ordenado por la Providencia divina” (idem., 161 Grifo nosso).
Cristo não desejou reinar temporalmente sobre os homens (hierocracia): “había de reinar sobre el pueblo cristiano espiritualmente y no temporalmente” (idem., 457). Sendo Senhor e Criador, poderia, se tivesse desejado, assumir o poder político, mas não o fez: “siendo Señor y Criador de todos los señores y criaturas, podía si hubiese querido, engrandecerse fomentando la práctica del rigor y del poder político; sin embargo llevó una vida humilde, mansa, pobre, e incluso, muy común” (idem.). O acento deve ser colocado, no nosso modo de entender, no estilo de vida próprio de Cristo que, na leitura de Las Casas, se opunha, radicalmente, ao espírito aventureiro dos colonos. Cristo foi humilde (contra a arrogância e pretensão de superioridade); foi manso
(contra o recurso à violência); foi pobre (contra a idolatria do dinheiro e a sede desenfreada de riquezas); foi, enfim, comum (contra a vontade de subir na vida o mais rápido possível). Ao apresentar Cristo como paradigma da tolerância, Las Casas, na realidade, o transforma em contra- ponto, através do qual o comportamento, moralmente, intolerável dos colonos podia ser criticado e, mais, desmascarado.
“Pues claramente dice Cristo que de él han de aprender estas virtudes, la mansedumbre y la humildad, porque en él sólo desde él, estas virtudes refluyeron con mayor amor, por encima de las demás. Por razón de que él solo es excepcional maestro y doctor de estas virtudes, porque no las enseño tanto de palabra como de obra. Por este motivo nos exhorta particularmente a estas virtudes, porque por ellas el hombre se dispone de manera especial a la unión con Dios y por ellas se le abren las puertas del reino celestial” (idem., 459).
Não é necessário lembrar, aqui, todas as citações bíblicas e patrísticas presentes no texto lascasiano. Basta que consideremos como ele entendeu e interpretou a atividade pastoral de Cristo e como considerou que sua imitação fosse obrigatória para seus discípulos. Cristo foi visto como o protótipo do pregador e segui-lo é um imperativo para o cristão. Em sua Apologia, ao explicar como os pagãos devem ser afastados de suas idolatrias, deixa claro que a regra a ser seguida pela igreja é aquela deixada por Cristo, ou seja, aquela que contempla a livre aceitação por parte deles. É, diz ele, um erro gravíssimo pensar diversamente e levar outros a pensarem da mesma forma:
“La propria santa Iglesia sabe muy bien que de ninguna manera le compete desarraigar violentamente los ídolos y la idolatría entre los infieles a que nos estamos refiriendo, sino sólo por medio de la palabra divina y la suave instancia de la razón, como es sabido que acostumbró hacer la Iglesia desde su primera infancia y continuará haciendo (yo lo espero) hasta la venida de justo juez y esposo suyo, Jesucristo.” (Vol., 151- 153.155).
Citando São Gregório e São Tomás, rebate a idéia de que, nestes casos, bem mais proveitosa e válida é a tolerância:
“Muy bien dice San Gregorio I Magno: en vano suprimimos totalmente todas las ceremonias de los infieles… Por esto, Santo Tomás enseña que los ritos de los
paganos deben ser tolerados por la Iglesia para que, oyendo éstos la predicación del
evangelio, se conviertan a la fe… Evidentemente este santo quiere que los paganos sean tolerados y atraídos a la fe y no sean violentamente obligados. Enseñar es proprio de cristianos; forzar es proprio de tiranos” (idem., 153).
Tudo indica que Las Casas desejou, da parte da igreja, um retorno às suas origens (“yo lo espero”). Nestas fontes, pretendeu encontrar motivações e indicações para enfrentar os desafios da evangelização da América. Escrevendo a Pio V (1566), e, como que apelando para sua experiência de pastor, Las Casas insiste sobre a necessidade de uma renovação nas estruturas e na prática missionária da igreja de seu tempo. Dentre as questões urgentes a serem tomadas em consideração, enumera, primeiro, a necessidade de renovar o episcopado: o bispo, enquanto pastor, deveria estar atento não só ao bem espiritual, mas também ao bem material de sua grei (os índios); deveria conhecer a língua e os costumes de seus súditos. Por fim, deveria ser pobre. De fato, existia um grande fosso entre a riqueza dos bispos e a pobreza dos súditos (índios). Interessante notar que os temas relativos ao ministério dos bispos, tomados em consideração por Las Casas, estiveram na pauta do dia do concílio de Trento. Porém , pelo que conhecemos, nenhuma influência teve sobre ele. Na visão de Las Casas, esta necessária renovação era, ao mesmo tempo, uma exigência do direito divino e natural. O futuro da evangelização dependia, tudo indica, no seu modo de entender, da capacidade do papa de enfrentar estas questões.
“Porque la experiencia, maestra de todas las cosas, enseña ser necesario en estos tiempos renovar todos los cánones en que se manda que los obispos tengan cuidado de los pobres cautivos, hombres afligidos y viudas… hasta derramar su sangre por ellos, según son obligados por ley natural y divina, a V. B. humildemente suplico que renovando estos sacros cánones, mande a los obispos de Indias por sancta obediencia que tenga todo cuidado de aquellos naturales… defiendan esta causa, poniéndose por muro de ellos… y que en ninguna manera acepten las tales dignidades, si el Rey y su consejo no les dieren favor y desarraigan tantas tiranías y opresiones… les mande aprender la lengua de sus ovejas, declarando que son a ello obligados por ley divina y natural… Grandísimo escándalo y no menos detrimento de nuestra santísima religión es que en aquella nueva planta obispos y frayles y clérigos se enriquezcan y… y magníficamente, permaneciendo su súbditos recién convertidos en tan suma e increíble pobreza, que muchos por tiranía, hambre, sed y excesivo trabajo cada día miserabilísimamente mueren. Por lo cual a V. Sd. humildemente suplico que están obligados, a restituir todo oro, plata y piedras preciosas que han adquirido, porque lo han llevado y tomado de hombres que padecían extrema necesidad y hoy viven en ella, a los cuales, por ley divina y natural, también son obligados a distribuir de sus bienes proprios” (Vol. 13, 370-371).
Também, em sua Apologia, a proposta de uma renovação pastoral salta aos olhos. Sem ela, o processo de evangelização, no caso, da América, estaria destinado ao insucesso. Neste ponto preciso, movido por grande sensibilidade para com o mundo indígena, Las Casas foi porta-voz, como muitos de seus contemporâneos, dos anseios de renovação e mudança dentro da igreja. O Novo Mundo interpelou sua fé e revelou as contradições do modelo cristão vigente até então. O texto é de uma riqueza ímpar. Las Casas inicia, lembrando os exemplos que Cristo deixou aos
seus discípulos. Passa, em seguida, a considerar o fato de que os infiéis não só não podiam ser obrigados a crer, mas também não podiam ser obrigados a ouvir, pela força, a pregação do evangelho. Chega mesmo a considerar a hipótese de que, caso os infiéis não quisessem ouvir os pregadores, eles deveriam se retirar. Para concluir, lembra, ainda, que os “turcos e sarracenos” não se converteram, porque estiveram sob o peso das armas e das guerras; o divórcio entre a palavra pregada e o comportamento dos cristãos, estava na origem da incredulidade do infiéis. Finalmente, para concluir, revela o que, do seu ponto de vista, se escondia por detrás das guerras feitas sob pretexto de evangelizar: roubo de propriedades e submissão das províncias dos infiéis.
“Debiendo, pues, ser ejemplares para nosotros las palabras y los actos de Cristo, yo no sé qué cosa más cierta y expresa puede encontrarse que el hecho de que, al instruir a sus discípulos, el Señor les enseño mediante palabra y obras que los infieles no deben ser forzados a oír el evangelio. Si ellos se niegan a oírlo, debemos marchar a otro lugar hasta que encontremos benévolos oyentes (e, lembrando o caso dos sarracenos e turcos, na Espanha, acrescenta) A mi juicio no hay otro motivo por el cual los sarracenos, turcos y otros infieles rehusan abrazar nuestra fe, sino es el hecho de que les negamos con nuestra conducta lo que les ofrecemos con nuestra palabra. No es, pues, imposible que los infieles abracen la fe por el hecho de que no es lícito forzarlos por las armas a oír el evangelio. El remedio más eficaz para ellos es que vean que en nuestra conducta brilla la vida cristiana. Pero imponer el evangelio por el poder de las armas no es un ejemplo cristiano, sino un pretexto para robar las propiedades de otros y para
subyugar sus provincias” (Vol. 9, 347.349. Grifo nosso.).