ENTRE A GRAÇA E A NATUREZA: REINTERPRETANDO A TRADIÇÃO
E, ainda, uma última advertência: “Sin ello, todo cuanto se haga en contra, no tendrá validez
11. Ordenar su gobierno al bien de la multitud y regirla para el bien de ella
Em uma carta, escrita em 1559, Las Casas descreve-se a si mesmo como alguém colocado por Deus (neste mundo) para “siempre llorar duelos ajenos” (Vol. 13, 329). Na linguagem cristã, esta atitude é designada como compaixão. Diferente do sentir dó ou pena, a compaixão indica alguém que, por amor, “padece com” o outro. Poderia não fazê-lo, mas, por simples gratuidade (porque o outro nada lhe pode dar), o faz. Lembra a atitude dos profetas que assumiam, diante de Deus e dos homens, o fardo de Israel. Lembra Cristo que, por muito amar, aniquilou-se a si mesmo e
assumiu a condição de servo: “aniquilou-se a si mesmo e assumindo a condição de servo” (Fil 2, 7). Enquanto, para Sepúlveda, a condição de servo era vergonhosa e justificava a submissão aos espanhóis, para Las Casas, assumir a condição de servo era imitar Cristo e condição para “salvar” o índio. Estamos diante de duas perspectivas diferentes, mas possíveis. Suas palavras e gestos são inteligíveis somente se tomamos a sério o fato de que, enquanto cristão e bispo, ao pedir tolerância para os índios (sua grei), tenta fazê-lo, à imitação de Cristo, ou seja, como alguém que, pela via do amor, assumia para si os sentimentos deles; como alguém que os conhecia e por eles nutria sincera estima. Para muitos, isto pode indicar uma falta de realismo (ilusão) fatal. De fato, este tipo de atitude deixa aberta a porta para uma série de interpretações. Por exemplo: Ramón Menéndez Pidal, em seu El padre Las Casas. Su doble personalidad (1963), não viu, nas obras e nas ações de Las Casas, um gesto edificante, uma imitação de Cristo. Para este autor, é, simplesmente, expressão de uma dupla personalidade. Nada a dizer sobre seu pensamento. Considerou que tal leitura fosse possível.
Nós, no entanto, vemos as coisas de outra forma. Ao dizer que sua missão era a de “llorar duelos ajenos”, Las Casas não faz outra coisa que explicitar, por meio de palavras, as motivações que animavam sua luta. O fato de dizer isto de si mesmo não diminui seu valor e não nos autoriza a concluir que tenha pretensões de colocar-se em primeiro plano, ofuscando, assim, os outros defensores da causa indígena. Simplesmente, repete o gesto de Paulo apóstolo que não temeu dizer: “deveis imitar-nos” (2 Ts 3,7). Afinal, o que Las Casas buscava era, na realidade, convencer os outros sobre o valor e importância de suas causas. Seu estilo literário está em plena sintonia com as exortações que encontramos nos escritos de Paulo, por exemplo, e conjugam-se, perfeitamente, com o estilo apologético de suas obras. Ao mesmo tempo que vê no rosto do índio a face desfigurada de Cristo, pretendeu mostrar-se, a si mesmo, em sua obra, como alguém que busca esta face. Na realidade, salvo engano, era isto mesmo que fazia.
Na imitação de Cristo, encontra os elementos necessários para mostrar que nada do que existia de bom e virtuoso, inclusive entre os pagãos, deveria ser rejeitado. Cristo não destruiu o servo, mas tornou-se servo, seu companheiro de caminhada e de luta. A nossa interpretação, portanto, vai nesta linha. Parece-nos bem mais coerente com a proposta de Las Casas e com suas pretensões teológicas, filosóficas e jurídicas. No final de sua Apologia, após lembrar, com insistência, que os índios eram homens e que, como tais, mereciam ser respeitados, conclui: “Los indios son
nuestros hermanos y Cristo ha dado su vida por ellos” (Vol. 9, 667). É claro que não escreveu tendo presente somente argumentos teológicos. Avançou também no campo da filosofia e do direito, embora o objetivo primeiro permanecesse sempre o mesmo: mostrar, a todo custo, que os índios mereciam ser respeitados e considerados. Cristo ocupa, em suas obras, o lugar de primeiro e último paradigma. Contudo, isto também é certo, a argumentação teológica (os dados da revelação) confirmava o que, do ponto de vista da razão natural, para ele, já era uma evidência. Como diz em sua Historia de las Indias, a natureza também mostra “como todos los hombres del mundo sean unidos y ligados entre si con una cierta hermandad y parentesco de naturaleza, y, por consiguiente, se reducen como si todos juntos estuviesen mirándose” (Vol. I, Pról. 8).
Do nosso ponto de vista, tanto Sepúlveda como Las Casas tentaram convencer o maior número possível de leitores e ouvintes de suas razões. Porém, no que diz respeito ao discurso, têm pontos de partida e conclusões diferentes. Colocam-se a serviço de um problema teológico (como evangelizar os índios). Sepúlveda parte de Aristóteles (da idéia de que existem servos por natureza) para chegar à conclusão de que os índios, somente e melhor, seriam evangelizados se, primeiro, fossem submetidos aos espanhóis que, por cultura e conhecimento, apresentavam-se (é assim que ele os vê) como superiores. Las Casas parte de Cristo, elevado a paradigma do comportamento humano, e procura mostrar que a razão concorda com ele para, enfim, chegar à conclusão de que, em sua humanidade, os índios são iguais aos espanhóis e devem ser tratados como irmãos. O discurso de ambos é dependente da idéia de que existe uma natureza humana (jusnaturalismo); contudo, chegam a conclusões diferentes a este respeito. Em Sepúlveda, lemos que a natureza é desigual e que alguns homens são superiores a outros. Em Las Casas, temos a afirmação de que Deus não poderia criar uma natureza desigual, pois isto equivaleria a dizer que sua obra é imperfeita.
A razão desta diferença, pensamos, encontra-se no paradigma escolhido por eles. Em Sepúlveda, prevalece o modelo aristotélico, e, se considerado nesta perspectiva, seu discurso é, inegavelmente, lógico e coerente. Em Las Casas, predomina a imagem do Cristo, ou seja, o modelo teológico. Há que considerar que, neste último, a questão teológica ocupa uma primazia que não encontramos no seu adversário. Além do mais, é, como no caso de seu adversário, coerente. Consideramos que souberam se manter fiéis aos seus princípios e paradigmas. Para Las Casas, por serem homens (assim foram criados por Deus) e em tudo iguais aos espanhóis, os
índios deveriam receber o evangelho pacificamente, segundo a forma determinada por Cristo, “humilde e servo”. Do ponto de vista político, os índios, para Sepúlveda, deveriam servir aos espanhóis. Para Las Casas, o espanhol deveria “servir” (à imitação de Cristo servo) aos índios.
Nem A política de Aristóteles, nem os Evangelhos foram escritos por causa dos problemas do Novo Mundo. Contudo, são textos abertos que permitem uma contínua atualização. Podem, se não erramos, ser aplicados a diferentes situações. Devemos pensar que ambos os raciocínios, tanto de Sepúlveda como de Las Casas, obtiveram apoios e rejeições. É claro que o ponto de vista de Sepúlveda ia ao encontro dos interesses dos colonos e sustentava, teoricamente, suas práticas. Já as de Las Casas serviam de contraponto e amenizavam os efeitos negativos das propostas de Sepúlveda. Parece-nos que, do ponto de vista prático, ambas as teorias tiveram seus efeitos, por vezes mais visíveis, por vezes menos. Ambas as teorias podiam ser usadas para justificar ou recriminar um determinado comportamento. Aparentemente, as teses de Sepúlveda (mais realistas), visto as conseqüências da conquista, poderiam ser consideradas vencedoras. Consideramos que, se considerado à luz de sua inspiração cristã, o pensamento de Las Casas é coerente e, do ponto de vista objetivo, enquanto pensamento teológico, quase impecável.
Las Casas teve plena consciência do peso e da importância que tinham as teses de seu adversário para os defensores da conquista. Ainda que não fosse esta a intenção (às vezes deixa entender que sim) de Sepúlveda, para Las Casas, no final, com sua argumentação, ele sustentava uma realidade de morte e tentava justificá-la. Como lemos em sua Apologia: “esto no autoriza a Sepúlveda a echarnos en cara a tiranía de los romanos como justificación de nuestra tiranía contra los indios, que ha sido llamada “conquista” (Vol. 9, 599). Isto era inadmissível para Las Casas que, do ponto de vista de sua razão teológica, tendia a afirmar que “todos sois uno en Cristo Jesús” (idem., 197).
Outra questão deve ser tomada em consideração: se, para Sepúlveda, Aristóteles confirmava a inferioridade dos índios, para Las Casas, demonstrava sua igualdade com todos os homens. Escreve a sua Apologética historia (segunda parte da Apologia) para demonstrar que, assim como dizia Aristóteles, os índios eram “prudentes y dotados naturalmente de las tres especies de prudencia que pone el Philósopho: monástica, econômica y política” (Vol. 6, 286). As razões de Las Casas, porém, são, prevalentemente, teológicas. Mais do que um filósofo, ele se apresenta
como um pastor preocupado com a sorte de suas ovelhas (expressão que não encontramos em Sepúlveda). A utilidade de Aristóteles tem a medida de seus interesses pastorais.
Las Casas objetivou fazer frente às teses de Sepúlveda e ao apoio que estas davam aos colonos. Neste sentido, tinha uma finalidade, eminentemente, prática: Acabar com “el oprobio que pesa sobre el nombre cristiano, aparte los impedimentos y obstáculos que se oponen a la propagación de la fe evangélica” (idem., 71 Grifo nosso).
Ao tentar mostrar a “verdade” da “fé evangélica”, Las Casas tece algumas considerações que vêm ao encontro dos objetivos deste trabalho. A intolerância se manifestava no modo violento de propor o evangelho aos pagãos, submetendo-os, por meio da guerra, a um domínio estrangeiro. Este modo “intolerável” de anúncio da “verdade evangélica” tinha origem, diz ele, na ignorância, pois, apesar de desconhecerem as realidades indígenas e de nunca terem pisado no Novo Mundo, não poucos se aventuravam a escrever sobre estes temas, generalizando fatos e comportamentos, geralmente negativos, específicos de algumas comunidades: “Además, su error e ignorancia se ponen muy manifiesto, ya que sientan definiciones sobre asuntos que atañen a una infinita multitud de hombres y a muy vastas regiones de extensísimas provincias. Al no conocer bien
tales cosas incurren en suma desvergüenza y temeridad cuando afirman que aquellas gentes tienen gravísimos defectos, ya naturales ya morales, y al condenar en mas a tantos miles de
hombres, cuando la realidad es que la mayoría de ellos se ven libres de tales defectos” (idem., 77 Grifo nosso).
Também a concepção política de Las Casas é marcada pelo seu cristianismo católico e, do nosso ponto de vista, não seria compreensível sem ela. Não só interpreta a política como “serviço”, como busca, a partir desta visão, mostrar a face “oculta” (para ele) da conquista e das idéias que a sustentavam: “he detectado en ella venenos embadurnados de miel” (idem., 67). Segundo lemos em sua Brevísima relación de la destrucción de las Indias, a razão pela qual as Índias haviam sido concedidas aos reis de Castilla era para que (seus habitantes) se “convertiesen e prosperasen temporal y espiritualmente”. Todavia, o que ocorria era, precisamente, o contrário: “con esta color” (com o pretexto de ensinar-lhes “las cosas de la fe católica”, o único cuidado que tinham os espanhóis, era o de enviar os índios “a las minas, a sacar oro, que es trabajo intolerable” (10,
32.40 Grifo nosso). Por fim, a irônica conclusão: “Estas son las obras y ejemplos que hacen, y honra que procuran a Dios en Las Indias los malaventurados españoles” (idem., 58).
Em sua Apologia, volta a repetir:
“Todas esta cosas arrastran a innumerables almas a la perdición y constituyen un impedimento al servicio de la propagación de la Religión Cristiana” (Vol. 9, 79 Grifo nosso).