ENTRE A TOLERÂNCIA E A VERDADEIRA RELIGIÃO
3. Cristianismo x paganismo
3.1 Entre exclusivismo, inclusivismo e pluralismo
A leitura exclusivista contempla duas diferentes tendências: uma protestante (mais cristológica) e outra católica (mais eclesiológica). Do ponto de vista protestante, recentemente, quem melhor a formulou foi Karl Barth. Segundo Faustino Teixeira, em Teologia das religiões. Uma visão panorâmica, comentando a Carta aos Romanos (1922), Barth deixa claro os limites das religiões. É, todavia, em sua Dogmática Eclesial (1938), que seu pensamento se apresenta de forma mais madura. Barth faz uma distinção entre religião e revelação (que seria o caso do cristianismo). Na
revelação, temos que a iniciativa é de Deus; a revelação é eminentemente graça. No caso da religião, nos deparamos com o esforço do homem para atingir a Deus. Contudo, neste esforço, os homens, ao contrário de falar a Deus, terminam por falar de si mesmos. Assim sendo, a religião, enquanto esforço humano, se opõe à graça divina e não passa de uma tentativa de auto- justificação: “A religião conduz à “auto-justificação” e “auto-santificação” do homem usurpando o chamado gratuito revelador e salvífico de Deus” (1985: 41-43).
Assim entendida, a religião se opõe ao cristianismo já que este último é revelação. A religião é esforço e criação humana. A revelação é dom e auto-comunicação divina que santifica e salva.
Do ponto de vista católico, a tese exclusivista aparece, claramente, na insistência sobre os aspectos visíveis da igreja; isto é, na necessidade de a ela pertencer, na necessidade de receber seus sacramentos e, enfim, na necessidade, para o cristão, de submeter-se aos seus legítimos pastores. A tese pode ser, claramente, percebida pela relevância dada ao dogma: “fora da Igreja não há salvação”. Esta questão será aprofundada no quarto capítulo. Contudo, é necessário lembrar que esta interpretação rígida foi condenada pela mesma igreja (Pio IX), numa carta escrita ao arcebispo de Boston na qual se explica, entre outras coisas, o seguinte: a salvação pode, em caso de ignorância invencível, visto suas disposições, ser obtida pelos gentios. No entanto, esta é uma afirmação tardia (1949); contudo, não podemos ignorar que Las Casas, em seus escritos, a antecipa.
“Na mencionada carta vem retomada a consideração de Pio IX sobre a “ignorância invencível”, em que se acolhe a consideração da boa fé para a dinâmica salvívica: “Para que alguém obtenha a salvação eterna não se exige sempre que seja de fato membro da Igreja, mas que esteja ao menos incorporado a ela por desejo (voto et desiderio); nem é necessário que este desejo seja explícito como no caso dos catecúmenos, mas quando alguém se encontra numa ignorância invencível, Deus aceita também o desejo implícito, assim chamado por estar incluído na boa disposição da alma, pela qual alguém deseja conformar sua vontade a Deus” (idem., 39-40).
Em parte, é, precisamente, este o argumento de Las Casas: os índios se encontram num estado de ignorância invencível em relação ao cristianismo. Contudo, com seus cultos, manifestam a boa disposição que têm para alcançar a verdade e servirem àquele que consideram como verdadeiro Deus. Ora, Deus não poderia não tomar em consideração este fato condenando quem, na realidade, era isento de culpa. É claro que, para Las Casas, o cristianismo é, antes de mais nada,
uma revelação, uma fé e dom gracioso de Deus. Apesar disto, se reveste, por estar na história, de sinais visíveis. Disto resulta a necessidade de mediação dos sacramentos e da igreja. Em síntese, da parte católica, o cristianismo tem também uma versão visível (segundo o modelo da encarnação do Verbo) e, assim, manifesta-se com formas religiosas e visíveis.
Apesar disto, a tese inclusivista é a que, do nosso ponto de vista, mais se aproxima da reflexão lascasiana. O inclusivismo “tem como traço de sua singularidade a atribuição de um valor positivo para as outras religiões e o seu reconhecimento como mediações salvíficas para seus membros” (idem., 44). Todavia, no que toca à segunda parte (e nisto se manifesta claramente o catolicismo lascasiano), é preciso dizer que as religiões podem ser caminhos de salvação (desde que os seus membros, por ignorância ou por outros motivos, não tenham conhecimento do real significado de Cristo e de sua igreja para a salvação), mas “Enquanto implicam a salvação de Jesus Cristo. Mediante o seu Espírito, Cristo se faz presente e ativo no crente não-cristão, operando para além dos limites visíveis da Igreja, tanto na vida individual como nas diversas tradições religiosas” (idem., 44).
Interpretando o pensamento lascasiano, pensamos que, para ele, os pagãos, movidos por sincera vontade de servir a Deus (ou ao que do ponto de vista deles parece ser o verdadeiro Deus) e seguindo os ditames de sua consciência, podem alcançar a salvação, quando o cristianismo, de modo apropriado (é o caso dos índios), não lhes é comunicado. Contudo (aqui vemos que a tolerância se dá dentro dos “limites do cristianismo católico” lascasiano) a salvação, de alguma forma, é sempre possível; porém, em Cristo, e não sem uma participação (pelo menos a nível de oração) da igreja.
O ideal seria que os índios se convertessem ao cristianismo (fé verdadeira e definitiva), enquanto via ordinária de salvação. Contudo, se isto não ocorre, não estão, por este motivo, condenados. Ou, como diz Las Casas, este é um juízo que não nos compete emitir. O fato, porém, de considerar a fé cristã como verdadeira fé não autoriza (aqui se manifesta mais uma vez a tolerância lascasiana) os cristãos a submeter e forçar os índios. A fé é ato da inteligência e da vontade, movida pela graça. Ora, o uso da força impede, necessariamente, que a inteligência analise os dados da revelação e que a vontade se mova na direção deles. Além do mais, como vimos, a graça não destrói a natureza e suas potencialidades. O termo inclusivismo não indica, de
forma alguma, um processo de anulação do outro e de seus referenciais culturais por outra cultura. Pelo contrário, considera que há valores que podem ser conservados e assimilados. Assim sendo, não abona nenhuma forma de intolerância. Tomamos emprestadas as palavras de Giuseppe de Rosa, em seu Fatica e gioia de credere:
“A afirmação de que a religião de Jesus é a religião que Deus deseja para todos os homens (basta pensar na insistência de Las Casas para com a questão da
evangelização), não deseja encorajar ou justificar nem o fundamentalismo nem o
fanatismo religioso; isto é, não pretende afirmar que as outras religiões não têm direito de existir nem que é necessário coagir os seus seguidores para que se tornem cristãos; o que se busca é afirmar o princípio de que a vontade de Deus é que os homens creiam e Jesus Cristo e encontrem nele a plenitude da verdade e da graça; porém, é evidente, tal princípio deve realizar-se na concreta situação histórica da humanidade e segundo a resposta livre do homem ao chamado de Deus (é este o método persuasivo do
entendimento e excitante da vontade proposto por Las Casas) dirigido à consciência
e à liberdade humana, que deseja se impor não por meio da força ou do engano, mas por meio da convicção e da sinceridade; portanto, a proposta (divina) não é propaganda desleal destinada a fazer prosélitos, mas anúncio de alegria e de esperança, destinada a fazer crentes em Cristo, livres e convictos” (2002, 96.127).
Segundo Faustino Teixeira, em teologia das religiões. Uma visão panorâmica, a posição pluralista (que consideramos não só inexistente, mas também impensável para os tempos de Las Casas) propõe “uma mudança de paradigma, para além do exclusivismo e do inclusivismo” (1985: 58). Mas o que significa tal reação ou mudança? Quais são suas implicações? Em suma, qual é sua proposta? A resposta é, assim, formulada por Faustino:
“Renunciar à visão ptolomaica tradicional, segundo a qual todas as religiões giram em torno do Cristo e do cristianismo como seu centro, para adotar uma visão segundo a qual todas as religiões, inclusive o cristianismo, giram em torno do sol, que é o mistério de Deus como Realidade suprema” (idem.).
A mudança de paradigma é clara: abandona-se a cristologia tradicional que apresenta Cristo como o ápice e o centro da revelação, isto é, como aquele fora do qual não pode haver salvação, para voltar-se para um teocentrismo em que Deus, e não Cristo, é o centro.
A fraqueza desta proposta consiste no fato de desconsiderar um dado fundamental do cristianismo, isto é, que Cristo não é apenas mediação “manifestativa” ou “normativa”, mas, sobretudo, constitutiva da salvação (cf. idem., 59). Como afirma Giuseppe de Rosa (Fática e gioia de credere): Deus, em sua vontade de salvar todos os homens (cfr. 1 Tm 2,4), fez de Jesus Cristo o único e universal salvador de todos os homens. Tudo isto em conformidade com as
afirmações da Escritura (At 4, 12) que dizem explicitamente: “não há debaixo do céu outro nome dado aos homens pelo qual devamos ser salvos” (cf. 2002: 103). Pois bem, na qualidade de clérigo, religioso e bispo da igreja católica, desejoso de comunicar ao maior número possível de pessoas o evangelho de Cristo, Las Casas não poderia reinterpretar de forma pluralista um dado fundamental como este. Ademais, seja pelo fato de ter eleito Cristo como paradigma de seus juízos, seja pelo contexto religioso do século XVI, esta proposta seria impensável para ele (cfr. também: Wagner Lopes Sanches. Pluralismo religioso. As religiões no mundo atual. Paulinas. São Paulo, 67-75).
Em sua Apologia, embora não de forma sistemática, Las Casas coloca, em evidência, alguns dados do seu pensamento que, do nosso ponto de vista, autoriza-nos a dizer que sua leitura das escrituras, dos padres e da Tradição da igreja levou-o diretamente à tese inclusivista. Devemos nos lembrar de que a proposta contrária à sua era, claramente, exclusivista (excludente). Portanto, ao invés de excluir, Las Casas optou por incluir.
Primeiro, afirma que os índios, embora não cristãos, não estão isentos dos benefícios provindos da vida e obra de Cristo: “Los indios son nuestros hermanos y Cristo ha dado su vida por ellos” (Vol. 9, 667).
Segundo, afirma a necessidade de evangelizar e sua convicção de que, por meio de uma adequada evangelização, os índios aceitariam, prontamente, os mistérios de Cristo: “Sean enviados a los indios heraldos íntegros, cuya conducta dé testimonio de Jesucristo y transmita el espíritu de San Pedro y San Pablo. Estoy convencido de que los indios abrazarán la doctrina del evangelio, pues no son necios ni bárbaros” (idem.).
Terceiro, em seus costumes e modo de vida , os índios, em tudo, se manifestam dispostos para com o evangelho; suas qualidades pessoais somente poderiam facilitar a aceitação do cristianismo (constituíam uma preparação para o cristianismo): “yo no sé que exista otro pueblo más dispuesto que ellos para recibir el evangelio... pues son dóciles e ingeniosos y en habilidad y dotes naturales superan a la mayor parte de las gentes del mundo conocido” (idem.).
Quarto, os defeitos que, por acaso, se encontram nas culturas indígenas, podem facilmente ser superados pela graça divina e pelo influxo da pregação do evangelho. Além do mais, por serem homens, são parte integrante da obra criadora de Deus que os criou à sua imagem e semelhança:
“Dios, pues, autor de toda criatura, no despreció a estos pueblos del Nuevo Mundo de tal manera que quisiera que estuvieran faltos de razón y los hiciera semejantes a los brutos animales, hasta el punto de que deban ser llamados bárbaros, inhumanos, salvajes y brutos… Por lo contrario, los indios son de tal mansedumbre y modestia que, más aún que las demás gentes de todo el mundo, están sumamente dispuestos y preparados a abandonar la idolatría y a recibir, provincia por provincia y poblado por poblado, la palabra de Dios y la predicación de la verdad” (idem., 81-83).
Quinto, por fim, em seu De unico, fala, explicitamente, dos preâmbulos da fé que se manifestam no desejo sincero de encontrar a Deus e no modo virtuoso de viver. Tudo isto contribui para o sucesso da pregação e livre adesão ao evangelho de Cristo. Dito de outra forma, não são impedimentos, mas uma preparação ao dom sobrenatural da fé que pode salvar. Embora dom que vem do alto, a fé não despreza as qualidades humanas nem os esforços da natureza humana no que diz respeito à verdade sobre si mesma e sobre Deus, mas, pelo contrário, pressupõe tudo isto. No esforço natural do homem, inclusive na sua capacidade de fomentar as mais diferentes formas de religiosidade, está contida a abertura ao transcendente que o cristianismo pressupõe, ainda que de forma imperfeita (não esqueçamos que o cristianismo é, para Las Casas, a verdadeira religião. Contudo, não deixa de reconhecer que, nos cultos pagãos, encontram-se verdadeiros sinais de Deus e que eles podem conduzir ao cristianismo e não impedir ou obstaculizar a sua aceitação), os “vestígios de Deus”: “Hay en los hombres otro germen o principio natural, que es
verdadero preámbulo da la fe, a saber, el deseo natural de conocer la verdad – sobre todo, acerca de Dios – para obrar y vivir según virtud, y también el deseo de alcanzar el sumo bien, aunque estos deseos sean confusos y se queden en los vestigios de Dios. En virtud de estas
aspiraciones, desean naturalmente unirse a su principio, porque en esto consiste la perfección de cada criatura…” (Vol. 2, 65.69 Grifo nosso).
Enfim, em sua reflexão inclusivista, Las Casas, além de não condenar (por entender ter elementos positivos) a religiosidade indígena e, apesar de considerar como necessária a mediação de Cristo e da igreja, não desanima quanto à real possibilidade de salvação dos índios, mesmo quando, de forma explícita, por causa da violência sofrida, não aderissem ao evangelho.
Temos que considerar que, por maior que fosse a dificuldade, Las Casas não cede à tentação do recurso à força ou à guerra para obrigar os índios a aceitarem a religião e a cultura espanhola; como lemos em sua Apologia: “Por lo tanto, si los indios, después de amonestados, rehúsan obedecer a este legítimo imperio, por su propio interés, pueden ser obligados a ello recurriendo al terror bélico” (Vol. 9, 57-59). Ou seja, nem a urgência da salvação, nem a presumida inferioridade dos índios justificava, do ponto de vista de sua moral religiosa, o uso da força. Citando São Tomás, Las Casas revela sua convicção de que os índios, por vias que ele mesmo desconhecia, acabariam sendo convencidos pelo Espírito Santo (por inspiração) a respeito do necessário para a salvação: “hay que tener por muy cierto que Dios, por inspiración interna, le revelará las cosas que se deben por necessidad o le enviará algun predicador de la fe como envió a Pedro hacia Cornélio” (idem., 275). Faustino Teixeira (Teologia das religiões. Uma visão panorâmica) considerou como inovadora, para o século XVI, a postura lascasiana.
“Uma experiência missionária inovadora também será encontrada na América latina do século XVI, com Bartolomeu de Las Casas, defensor dos índios e dos negros. O projeto evangelizador de frei Bartolomeu de las Casas tencionava (entendemos esta palavra no sentido de tensão e contraposição) com o projeto colonial das coroas da Espanha e de Portugal, ligadas ao sistema do Real Padroado Régio. Neste último projeto, vinham legitimados tanto o imperialismo como a guerra contra os índios, considerados inferiores. Inversamente, o método de Las Casas propugnava “uma disposição de liberdade como condição indispensável para que se possibilitassem a pregação e o crescimento espiritual. Este método missionário de Las Casas estará descrito em seu livro de 1536, Do único modo de atrair a todos os povos à verdadeira religião” (1995: 28-29).