1 Religião, Educação e Ensino Religioso
1.4 História do Ensino Religioso no Brasil e algumas considerações
1.4.3 Ensino Religioso Brasil República Velha (1890-1930)
Nesse sentido, a educação brasileira, no século XIX, acompanhou os principais fatos econômicos e sociais que agoniavam o mundo nesse momento.
O surgimento das máquinas modificou, de maneira radical, as relações de produção, com o crescimento e desenvolvimento da atividade fabril. No meio rural, o advento de novas técnicas fez aumentar a produtividade e o emprego de novas fontes de energia, como a eletricidade e o petróleo em substituição do carvão, e intensificou a produção. A grande entrada de pessoas, que saíam do campo em direção às cidades, modificou e transformou as pequenas e restritas cidades que já existiam. Eram os primeiros reflexos da revolução industrial brasileira.
A urbanização acelerou por conta do capitalismo industrial e destaca-se, portanto, que houve maior necessidade de expansão das fronteiras econômicas, exigindo-se maior conhecimento das diferentes áreas do globo, em especial das potencialmente econômicas (PEREIRA, 2005). Tornava-se cada vez mais preciso a difusão de conhecimentos que possibilitassem maior gama de informação das diferentes partes do mundo. Cresce a necessidade de qualificação da mão-de-obra, incentivada pela indústria, e consequentemente essa urgência impulsionou a criação de escolas para atender às necessidades do capital. Inclusive, é no fnal século XIX que as tentativas de universalização do ensino se concretizam e o Estado passa a intervir cada vez mais na educação para constituir uma escola leiga, gratuita e obrigatória. A educação pública foi concebida como um mecanismo eficaz de formar o cidadão para o trabalho.
Notamos aqui que a mudança não surge impulsionada por um desejo dos explorados e excluídos da sociedade brasileira de alcançarem os mesmos direitos sociais, não que essas lutas não existissem, mas o que percebemos que as grandes mudanças se dão a partir da participação e aceitação pela classe dominante.
Importante precursor para as mudanças educacionais no início da Republica foi Rui Barbosa. Influente intelectual na política educacional brasileira, pautado em um pensamento positivista, reivindicou uma Igreja livre e um Estado livre, defendia a liberdade de culto religioso, mas em local próprio e desvinculado das escolas. Nesse contexto político, o Estado assume uma postura laica, isto é, passa a não professar nenhuma crença em particular e desvincula a religião de qualquer interferência na educação. Isso resultou na eliminação da aula de religião nas escolas públicas.
Nesse contexto, houve a dissolução do regime do Padroado e a separação entre Estado e Igreja no Brasil, fato oficializado pelo Decreto n. 119-A de 07 de janeiro de 1890 (BRASIL,
1890).
A Constituição de 1891, “se laiciza, repondo a liberdade plena de culto e a separação da Igreja e do Estado (...) e põe o reconhecimento exclusivo pelo Estado do casamento civil, a secularização dos cemitérios e finalmente determina a laicidade nos estabelecimentos de ensino mantidos pelos poderes públicos.” (CURY, 2001 , p.76)
Foi iniciado, portanto, um novo momento na história do país, que repercutiria fortemente no campo educacional, e, em particular, no Ensino Religioso.
Rui Barbosa, lança um projeto de lei que ressalta que as aulas de religião deveriam ocorrer fora do cotidiano da escola porque o prédio escolar pertencia à comunidade, e não a determinado grupo religioso. O projeto se efetiva na primeira Constituição republicana, sancionada em 1891, que particularmente, reafirmou sua posição contrária a esse ensino, ao resguardar no artigo 72, parágrafo 6°, que “será leigo o ensino ministrado nos estabelecimentos públicos” (BRASIL, 1891).
Essa prescrição consolidou a exclusão oficial do Ensino Religioso do currículo das escolas públicas. Dentre os ataques sofridos, “a exclusão do Ensino Religioso das escolas foi algo que a Igreja jamais aceitou, o que a levou a mobilizar todas as suas forças para reverter esse estado de coisas” (SAVIANI, 2008 p. 179).
Nesse contexto em que o Ensino Religioso foi retirado do sistema educacional público a Igreja assume papel fundamental em sua defesa. A Igreja Católica lutará, a todo o momento, para garantir a inserção da disciplina no currículo e defender sua importância e legitimidade junto ao Estado laico. De forma a conferir-lhe um caráter essencial na formação do indivíduo e instrumento essencial para o ordenamento da vida social, formando “bons” cidadãos, ou seja, o ensino de religião contribuiria para a formação de valores éticos e morais. Ou melhor, da ética e da moral cristã.
Nessa ótica, a Igreja buscou mobilizar-se em defesa do Ensino Religioso nas escolas públicas. Segundo Saviani:
A mobilização da Igreja expressou-se na forma de resistência ativa articulando dois aspectos: a pressão para o restabelecimento do Ensino Religioso nas escolas públicas e a difusão de seu ideário pedagógico mediante a publicação de livros e artigos em revistas e jornais e, em especial na forma de livro didáticos para uso nas próprias escolas públicas assim como na formação de professores, para o que ela dispunha de suas próprias Escolas Normais (SAVIANI, 2008 p. 179).
Apesar disso, a Igreja não conseguiu sustentar a oferta do ensino de religião. Para Junqueira (2002), essa linha de pensamento que defendia uma postura laica também da educação pública foi influenciada pelos ideais da liberdade religiosa regida pelo princípio da laicidade do Estado, segundo a concepção francesa que buscava liberdade e igualdade, princípios esses que deveriam contemplar o universo educacional, já que o Estado deveria garantir o direito também à liberdade religiosa. Portanto, entre os anos de 1891 a 1934 o Ensino Religioso será afastado do sistema público de educação, mas não esquecido, pelo contrario, será defendido fortemente pela Igreja Católica.
Vale ressaltar, que ao longo da história educacional da Primeira República (1889 - 1930), a oportunidade de acesso e a qualidade do ensino brasileiro permaneceu como privilégio de uma pequena classe dominante em detrimento de grande parcela da população, formada apenas para trabalhar. A escola brasileira deste período contribuía para formação de uma casta intelectualizada.