Ao chegar em Cambridge, instituição que é o reduto das classes dominantes da Inglaterra e por isso se impõe com certa superioridade, Williams encontrou dificuldades para se integrar. As relações sociais de classe dominam Cambridge de uma tal forma que chegam mesmo a estar formalizadas: para adentrar no grêmio estudantil da universidade, por exemplo, era necessário ser indicado por uma outra
pessoa. Mesmo que seja um calouro, esse teria de recorrer a um amigo de escola (WILLIAMS, 2013, p. 23).
Isso por si só revela que, em Cambridge, presume-se tacitamente que os estudantes são oriundos de um mesmo segmento social, quase uma continuação do ensino médio – os alunos da elite esperam encontrar, na universidade, as pessoas que estudaram consigo anteriormente. Na prática, o mecanismo de indicação para participação do grêmio funciona como meio de controle social e de manutenção de privilégios.
Raymond Williams só foi encontrar um espaço de aderência na universidade quando descobriu o Clube Socialista. Mais do que simplesmente uma organização política, o clube representava um lugar onde era possível encontrar uma alternativa política aliada a uma cultura social, pois se constituía em um espaço de sociabilidade e de redes de amizade. Importa assinalar que o Clube Socialista, do ponto de vista do recorte social dos seus membros, não era diverso do resto de Cambridge: era raro encontrar nele uma pessoa oriunda da classe trabalhadora (WILLIAMS, 2013, p. 24).
Portanto, a estrutura social da universidade não foi um mecanismo de sociabilização para Williams, ao contrário: funcionou com uma barreira à integração, que só foi furada graças à inclinação política que autor galês herdou da família. Essa situação específica vivida em Cambridge se sobrepõe e reforça a cultura familiar herdada, de modo que sedimenta em Williams a centralidade da dimensão política – as suas atividades docentes, teóricas e criativas terão sempre essa questão em primeiro plano.
Por meio do Clube Socialista, Raymond Williams conheceu alguns textos marxistas e livros sobre a história do Partido Comunista Bolchevique. Filiou-se ao Partido Comunista britânico rapidamente (um mês após entrar no Clube Socialista). Não enxergou nisso grande contradição, porque não sentia uma oposição real entre a perspectiva trabalhista e a comunista naquele momento (WILLIAMS, 2013, p. 25- 26).
Dentro do Partido Comunista, Williams e alguns colegas, por estarem na Faculdade de Inglês, eram chamados de Grupo dos Escritores e eram requisitados para trabalhos de propaganda do partido e para redação de textos (WILLIAMS, 2013, p. 27). O termo Grupo dos Escritores, embora até certo ponto jocoso, dava o
tom do que viria a ser o trabalho intelectual de Williams: um marxista aplicado às Letras e à esfera da cultura.
O ponto mais importante a se notar sobre esse primeiro período em Cambridge é a presença de uma cultura socialista muito forte. Embora a universidade fosse majoritariamente de direita, a esquerda, nesse período, representada pela URSS, era um ponto de atração e convergência das atividades acadêmicas e intelectuais, sendo muito eficiente na ocupação de espaços institucionais. Essa cultura se manteve até pelo menos o início dos anos 1940.
Nesta altura, ocorre uma abrupta interrupção na trajetória de Raymond Williams: a ida para Segunda Guerra Mundial. O pensador galês serviu durante nove meses na Divisão Blindada da Guarda do Exército Britânico. Seus relatos dão conta da experiência brutal e desumanizado que é a guerra. Politicamente, tinha a percepção de estar em um esforço conjunto com o Exército Vermelho, contribuindo para a derrota do fascismo (WILLIAMS, 2013, p. 42-46).
O retorno à Cambridge, em 1944, é marcado por uma mudança sensível no contexto histórico. Williams nota que a cultura dos anos 1930 havia se esfacelado e dado lugar a uma cultura conservadora e religiosa. No plano literário, F. R. Leavis3 havia sido alçado à posição de figura central, influenciando fortemente estudantes e colegas de profissão (WILLIAMS, 2013, p. 47).
Interessante notar que em 1945 o Partido Trabalhista venceu as eleições, sendo esse período visto, por isso, como um momento de radicalização na Inglaterra. Mas não era sobre a política que Williams falava, e sim do espírito dos intelectuais da época, que havia caminhado em direção à direita – situação diversa de quando ele deixou a universidade pouco tempo antes. Foi nesse clima que o autor galês finalizou seu curso, produzindo trabalhos sobre Ibsen e Eliot (WILLIAMS, 2013, p. 47-50).
Que cultura era essa? Durante o período entreguerras ocorreu a consolidação dos estudos ingleses dentro do currículo das universidades. A corrente que venceu o debate no interior da academia foi a de Leavis que, longe de propor o fim do isolamento da literatura inglesa, preocupou-se em estabelecer uma pedagogia exclusivamente centrada leitura de textos canônicos. O livro Culture and Enviroment 3 Frank Raymond Leavis (1895 – 1978): crítico literário britânico com forte atuação
no primeiro quartel do século XX. Tinha uma visão negativa da industrialização e da urbanização, opondo a esses fenômenos o que considerava ser os valores principais do homem.
tornou-se o documento principal dessa nova disciplina, recomendando a leitura metódica de textos ingleses contra a degenerescência da língua provocada pela sociedade mercantil (MATTELART; NEVEU; 2004, p. 35-36).
A revista Scrutiny, veículo pelo qual Leavis propagava suas ideias, era um libelo moral e cultural contra a suposta decadência trazida pela mídia e pela publicidade. Era basicamente uma saída, não política, mas “idealista” para o novo contexto histórico e social que vivia a Inglaterra. Deve-se recordar que o choque da Primeira Guerra Mundial traz à tona a necessidade de reanimar a nação inglesa, abrindo espaço para soluções do tipo messiânicas. Some-se a isso a crise causada pelo advento de uma cultura de massa industrializada no segundo pós-guerra em uma Inglaterra na iminência de ceder seu lugar de primeira potência aos EUA (MATTELART; NEVEU, p. 37).
Diante desse quadro, o expediente utilizado por Leavis foi propor um retorno a uma sociedade pré-industrializada, no qual o ensino deveria ser submetido ao regime da Grande Tradição da ficção inglesa. Essa tradição, não é demais enfatizar, representava nada mais do que uma escolha arbitrária de autores e obras, que viessem a legitimar e justificar a visão cultural por Leavis propagada (MATTELART; NEVEU, p. 38).
A aproximação, do ponto de vista intelectual, de Raymond Williams com a nova cultura estabelecida no pós-guerra se deu por meio da realização da revista Politics and Lettres. O projeto do periódico era unir uma perspectiva radical de esquerda à crítica literária leavisiana. O radicalismo cultural de Leavis, o fascínio da crítica praticada por ele e a ênfase dada à educação foram os pontos que atraíram Williams e seus colegas de universidade (WILLIAMS, 2013, p. 53-54).
Esse é um momento muito importante, pois representa uma apropriação mais profunda e sistemática do pensamento de Leavis e da tradição na qual ele se inscreve. A partir disso, Williams pôde reconhecer as limitações e contradições dessa escola de pensamento – especialmente a noção de cultura – canônica na Inglaterra. Esse arcabouço foi colocado em diálogo com o marxismo e está na base da sua proposta teórica e metodológica para análise da cultura.