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Raymond Williams é um estudioso galês com grande influência para o pensamento social britânico, voltado aos chamados estudos culturais e ao marxismo ocidental. Tal posição foi alcançada por meio de uma contribuição inovadora para análise das questões relativas ao poder e à política no capitalismo, destacando o âmbito cultural como o espaço no qual as relações de dominação também se operam.

Faz-se necessário, aqui, esboçar um quadro geral sobre atuação intelectual e a trajetória de Raymond Williams. Nesse percurso, procura-se destacar o contexto histórico em que se deu o seu advento como pensador e a sua influência para os estudos culturais britânicos, com o objetivo de entender a sua posição intelectual atualmente. Para alcançar tal ponto, no entanto, é indispensável conhecer um pouco da biografia de Raymond Williams. Por meio desse movimento pode-se iluminar os elementos que estavam no centro das preocupações do pensador galês.

Williams cresceu em uma comunidade rural de pequenas fazendas familiares no País de Gales, chamada Pandy. Seu pai começou a trabalhar em uma fazenda ainda muito jovem, e por volta dos 15 anos ingressou como carregador em uma ferrovia – ao voltar da Primeira Guerra foi assistente de sinaleiro e, depois, sinaleiro. O cenário de sua infância foi, por conseguinte, muito peculiar: unia um espaço rural à estrutura social dos ferroviários, ocupação própria do mundo urbano. Existia pouca ou nenhuma barreira social entre fazendeiros e ferroviários, que conviviam de maneira amistosa entre si, apesar das inclinações política distintas – os fazendeiros

estavam para o Partido Liberal e os ferroviários para o Partido Trabalhista (WILLIAMS, 2013, p. 5-8).

Essa organização social específica legou uma formação intelectual muito particular: embora inserido regular e formalmente na escola – Williams, aos 11 anos, ganhou uma bolsa de estudos para uma instituição de ensino secundário em Abergavenny, chamada King Henry VIII Grammar School – o pensador galês teve pouquíssima influência do currículo escolar, marcadamente nacionalista, e só veio a desenvolver o hábito da leitura um pouco mais tarde, aos 16 ou 17 anos, no Left Book Club, anexo cultural do Partido Trabalhista britânico. Desse modo, pode-se dizer que a influência política viria preencher o estudante que estava sendo formado nas instituições regulares.

O primeiro ponto a se notar dentro dessa questão é que a ida para a Grammar School em uma cidade próxima não era fato corriqueiro para as crianças de Pandy. No ano em que Williams conseguiu ingressar, outras seis crianças também conseguiram – e tal feito mereceu registro fotográfico, tamanha era a raridade do evento. Apesar do acesso, a permanência também era difícil – para meninas por questões de gênero, dado que era comum que em um dado momento deixassem os estudos; e para os meninos pelas dificuldades de passar no processo de admissão (WILLIAMS, 2013, p. 13).

Desse modo, no sexto período da Grammar School, Williams era a única criança do vilarejo de Pandy a continuar frequentando a King Henri VIII. Apesar disso, a atividade estudantil não era considerada, pela comunidade local, como algo anormal. Isso se deve ao fato de que, historicamente, no País de Gales, muitos intelectuais vêm das classes menos favorecidas. Mesmo assim, a percepção de que a educação era o meio mais fácil de mobilidade social, algo que levaria a uma ocupação simples, porém mais bem remunerada e não necessariamente a uma atividade puramente intelectual, ainda persistia (WILLIAMS, 2013, p. 13-14).

A visão de educação como saída de um emprego degradante persistia de tal modo que a própria possibilidade de ida para Cambridge foi tratada em sigilo pelo pai de Williams e pelo diretor da escola até que fosse concretizada, com o objetivo de não criar expectativas no garoto a respeito de seu futuro. Paralelamente a isso, Williams relata que, já naquela altura, tinha cristalizado interiormente o que queria ser – algo próximo do que fato de fato se tornou, mas que seria mais bem acertado se falasse de um escritor ou dramaturgo (WILLIAMS, 2013, p.14).

Ora, essas aparentes contradições – escassez de oportunidades de acesso à educação versus a visão de que a atividade intelectual não era nada extraordinária; visão da educação como fuga de uma condição penosa versus a precoce identificação com a carreira intelectual – só são entendidas no contexto específico em que Williams estava inserido: embora desfavorecido economicamente, e, portanto, com oportunidades sociais raras, as características culturais do vilarejo de Pandy no País de Gales faziam que cada conquista fosse realizada com o mínimo de atritos.

Vejamos: da infância até o ingresso na universidade, a trajetória de Raymond Williams passou por uma série de pequenos privilégios que se caracterizam pela ausência. Em primeiro lugar, a ausência de uma cisão profunda entre campo e cidade, entendida como uma alienação em relação ao mundo natural, que certamente ele teria sentido se pertencesse a uma região mais urbanizada.

Em segundo lugar, também não houve um sentimento de exploração, dado que seu pai era um ferroviário em uma comunidade rural, e, desse modo, não havia quem encarnasse o poder de mando localmente. Em terceiro lugar, também não houve qualquer relação conflituosa entre trabalho manual e intelectual, dado que as oportunidades de educação formal não vieram acompanhadas de um desconforto quanto ao exercício da atividade intelectual (WILLIAMS, 2013, p. 19-20).

De acordo com o próprio Williams, as oportunidades que teve fizeram com que ele chegasse à universidade com plenas energias, um sinal da ausência dos conflitos acima relatados. Contudo, as clivagens de classe não foram apagadas e deixaram marcas. Segundo o próprio Williams, seu objetivo era “golpear e não ter medo” de Cambridge (WILLIAMS, 2013, p. 21), evidenciando que, apesar de tudo, o movimento de um membro da classe trabalhadora até o ensino superior não é feito sem um sentimento de hierarquia.

Em nossa visão, toda essa segurança experimentada quase que por acaso na sua trajetória pessoal forma um feixe de pequenas condições objetivas, sem as quais não seria possível que um pensador como Williams se realizasse. O marxista galês viveu um verdadeiro processo de ascensão social, expresso na estabilidade da ocupação do seu pai e facilitado pelas características de Pandy. Em uma expressão, é como se Williams estivesse no lugar e na hora certos dos acontecimentos e, assim, pudesse enxergar de maneira privilegiada determinados eventos e relações sociais (CEVASCO, 2007, p. 10).

A biografia de Raymond Williams também ajuda a iluminar outra faceta da sua vida: a orientação política. O estudioso galês cresceu em uma família socialista e se conectou com movimentos de trabalhadores desde muito cedo. Recorda-se da reviravolta política do seu avô, que após ser demitido e despejado de casa, deixou de ser liberal e aderiu ao trabalhismo. Outros eventos marcantes foram a greve geral de trabalhadores de 1926 e a vitória do Partido Trabalhista nas eleições de 1929, que foi seguida de muita comemoração em Pandy (WILLIAMS, 2013, p. 10-11).

O Left Book Club foi outra fonte de influência para Williams. Lá, tomava livros emprestados dos membros do grupo, todos vinculados ao Partido Trabalhista, e pôde se aprofundar em temas como colonialismo e imperialismo, bem como se informar a respeito de eventos como a guerra da Abissínia, a Revolução Chinesa e a Guerra Civil Espanhola (WILLIAMS, 2013, p. 16).

A relação com o Partido Trabalhista é um capítulo à parte. Muito da ligação que tinha com seu pai passava pelo envolvimento com o Partido Trabalhista. Seu pai lhe para que se filiasse ao partido em 1936. Demonstrou insatisfação, em 1945, quando Williams declinou o pedido para concorrer às eleições locais. Vê-se que Williams tinha uma certa intimidade com o Partido Trabalhista. Entretanto, Williams só foi de fato filiado durante a década de 1960, por considerar a única saída política dentro da conjuntura (WILLIAMS, 2013, p. 16-17).

A presença da política no ambiente familiar legou a Williams uma outra importante transição sem atritos: a militância política. É comum que a opção por ser um indivíduo ativo politicamente venha acompanhada de um estremecimento nas relações familiares. Esse não foi o caso de Williams. É justo considerar que a posição trabalhista de esquerda encontrada na família abriu margem para o engajamento comunista, que viria a caracterizar a figura pública de Williams posteriormente (WILLIAMS, 2013, p. 20).