4 MÉTODO E PROCEDIMENTOS DA PESQUISA
5.3 Entrevista com a mãe
O contato inicial com Carla, mãe do estudante, foi realizado por meio de ligação telefônica, para definirmos as datas dos nossos encontros. Foram dois encontros para entrevista inicial e um encontro para conversarmos sobre suas percepções durante os meses de desenvolvimento da pesquisa com seu filho. Tanto o pai quanto a mãe foram convidados para as entrevistas, mas ele não pode comparecer, conforme declarou Carla: “Dificilmente ele comparece nas reuniões prô. Sempre sou eu que resolvo tudo e venho na escola. Meu marido passa o dia todo trabalhando, como fico em casa para cuidar deles, acabo fazendo tudo”.
A entrevista teve como objetivo dialogar sobre a frequência do filho nas aulas, questões 1-3; atendimentos em outras instituições, questão 4; expectativas da família, questão 5-6 e trajetória escolar, questões 7-18, do Anexo 1.
Carla tem trinta e um anos, estudou até a sétima série e tem dois filhos. A renda familiar varia entre dois até três salários mínimos. Exerceu atividade laborativa até o ano de 2014 como ajudante geral em uma gráfica, deixou o emprego quando teve o diagnóstico do filho mais novo. No ano de 2018, conseguiu na justiça o Benefício Assistencial Continuada ou Benefício de Prestação Continuada (BPC). É um benefício pago pela previdência social que visa garantir o salário mínimo mensal para pessoas que não possuam meios de prover a própria subsistência. A mãe relata que preferiu deixar de trabalhar para cuidar do filho devido às dificuldades de encontrar cuidadoras que o levasse para as terapias ou até mesmo cuidar dele em casa. A renda da família vem do benefício do filho e do salário do esposo, que trabalha como segurança.
Atendimentos em outras instituições: Carlos não frequentou a creche e está matriculado na unidade escolar faz três anos. Frequenta a SRM duas vezes na semana, totalizando quatro aulas semanais, e vai ao Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) uma vez por semana.
As expectativas dos pais é que o filho aprenda a ler e escrever, pois consideram que será positivo para sua vida social. “Eu quero que ele aprenda algo que ele possa usar na vida adulta. Como esporte ou algo relacionado a arte”. Na adolescência espera que seja profissional em alguma coisa, um jogador por exemplo. Quando questionada sobre a vida adulta, a mãe diz: “é difícil pensar”. Algumas famílias desejam que seus filhos leiam e escrevam porque essas características são típicas de qualquer estudante. Sendo assim, elas esperam que seus filhos sejam leitores e escritores porque assim as diferenças com relação ao colega da sala ficam menores. Com o tempo, as famílias das pessoas com deficiência vão percebendo que seus filhos poderão aprender outras habilidades além de ler e escrever.
Trajetória escolar: na escola, a frequência de Carlos é regular, e quando ele falta é porque algo está acontecendo. “No primeiro bimestre ele teve essas faltas porque ele não quis
vir, alguém chamou ele de burro e ele chegou em casa repetindo diversas vezes “eu não sou burro, eu não sou burro”. (CARLA). A mãe não descobriu quem insultou o filho, mas observou que, desse dia para frente, o filho relutava em ir à escola e ficou completamente “calado” desde então. O pai teve medo de que o filho parasse de falar definitivamente.
Carla relatou que é comum os professores nas reuniões dizerem que o filho dorme nas aulas, não olha no rosto, poucas vezes participa de jogos com os colegas de classe e que só levanta se alguém mandar. “Dizem que meu filho é muito quieto e calado”. Normalmente quem o ajuda a realizar as lições de casa é a irmã de treze anos, já que ele não entende as lições e diz que são difíceis.
A mãe entende que Carlos gosta da escola, mas demonstra insegurança quanto à aprendizagem dele na sala comum: “ele pega a mochila sozinho no horário de vir para escola, e eu confio nos professores e na organização da escola”. Sobre a contribuição da escola para a escolarização, a mãe demonstra dúvidas e sente maior confiança no trabalho desenvolvido na SRM. “Eu como mãe não consigo ensinar tudo. Este ano teve momentos que ele não quis pegar o caderno. Eu acho que ele aprende mais na sala de recurso. Na sala de aula ele não aprende. A lição no caderno é uma bagunça, eu não entendo o que está escrito”.
Ao pontuar uma possibilidade de melhoria quanto ao processo de escolarização, a mãe acredita que ter um apoio individualizado na sala de aula ajudaria o filho aprender a ler e escrever. “Se tivesse outro professor ou um estagiário para ficar na sala de aula, meu filho já teria aprendido a ler. Ele gosta de números e letras, ele tem interesse, mas tem muitos alunos na sala e a professora não consegue dar atenção para o meu filho”. Perguntei se o filho tinha atividades diferenciadas, e a mãe demonstrou descontentamento: “Ah prô, meu filho dificilmente faz atividades que ele entende. Ele registra alguma coisa da lousa, mas não dá para entender o que está escrito. Ele não sabe copiar toda a lição da lousa. Quando ele tem alguma atividade diferente no caderno é porque a professora da sala de recurso ajudou”. Entendemos que, antes desta pesquisa acontecer, o estudante não tinha acesso às adequações curriculares, pois não encontramos nenhuma adequação no caderno.
De modo geral, Carla considera que a escola atende às necessidades do filho e que, de alguma forma, está sendo beneficiado por estar convivendo com outras crianças que não têm deficiência. Afirma que a escola contribuiu com os avanços de algumas habilidades, como o interesse pela leitura e a interação com crianças da mesma idade, mas acredita que a estimulação do talento e criatividade acontecem apenas na sala de recurso, pois na sala comum não tem atividades adaptadas, as quais só foram acontecer após apoio ofertado pela professora da sala
de recurso. O estudante passa cinco horas diárias na escola, um período suficiente para que ele tenha boa interação com seus pares, de acordo com relato da mãe.
As habilidades comunicativas de Carlos são uma das maiores preocupações da família e dos professores. Eu conheci o estudante Carlos quando foi matriculado no primeiro ano do ensino fundamental I (2017), momento em que ele não falava, só saia do lugar quando solicitado, sua expressão corporal era curvada para frente e passava boa parte do tempo da aula abraçado com a bolsa de cabeça baixa. No ano de 2017, o foco do trabalho, na sala de recurso, era praticamente voltado para comunicação verbal do estudante, interação com os colegas, com os profissionais da escola e com a família. Ao final do ano, já estava falando palavras. No ano seguinte (2018), seguimos com muitas atividades focadas na comunicação e, no segundo semestre, estava conversando com colegas, profissionais da escola e com a família. Ficava calado apenas quando não conhecia a pessoa. Brincava com os colegas e tinha iniciativa comunicativa.
Carla conta que na maioria das vezes a comunicação acontecia na presença do pai e um pouco com a irmã. “Ele conversava quando o pai estava por perto, comigo ele fica bem calado. Ele chama a irmã para brincar e comigo ele aponta o dedo quando quer algo que não está ao seu alcance”. Os casos de alteração na comunicação acontecem com pessoas que têm TEA:
O comprometimento da comunicação, nos quadros de TEA, afeta tantos as habilidades verbais quanto não verbais, em graus variados. Algumas crianças não desenvolvem habilidades de comunicação, com ausência total da linguagem falada. Outras apresentam linguagem imatura, que pode ser caracterizada por jargões, ecolalias, reversões de pronome, prosódia anormal e entonação monótona. Aqueles que adquirem habilidades verbais podem demonstrar déficits persistentes em estabelecer conversação, tais como falta de reciprocidade social. A compreensão da linguagem encontra-se atrasada e o uso funcional da linguagem apresenta perturbações, com relação a humor e sentido figurado, dificuldades em compreender sutilezas de linguagem, piadas ou sacarmos, bem como problemas para interpretar linguagem corporal, gestos e expressões faciais. (CAMPOS, FERNANDES, 2016, p. 235)
Essas crianças apresentam alterações pragmáticas (o uso funcional da comunicação), nas interpretações literais (rigidez de significados), no contato visual, já que as expressões gestuais são quase que inexistentes, porque a criança não atribui valor simbólico a eles.
A falta de habilidades comunicativas do estudante com TEA fará com que ele tenha dificuldade para se manter engajado em uma conversa com colegas ou professor, pedir ajuda, adaptar-se em diferentes contextos, entender piadas, sarcasmos e duplo sentido, compreender as regras sócias e a linguagem não-verbal, como expressões faciais, dificuldade em se comunicar efetivamente com a família, amigos na escola ou em outros ambientes.
Nos relatos da professora e da mãe, observei que o estudante tem boa compreensão do que acontece no seu entorno, mas que o fator comunicação preocupa, oscilando períodos de mais prontidão entre uma possível recusa para falar. Como Carlos tem dificuldades em expressar seus desejos e necessidades, a consequência é um comportamento autolesivo, que é quando a pessoa machuca a si próprio. Carla me contou que um dia seu filho chegou em casa arrancando o próprio cabelo, deixando-o com algumas falhas no couro cabeludo. Ao perguntar o que tinha acontecido, ele não respondia e continuava a puxar o cabelo. A mãe, então, decidiu buscar a agenda na bolsa, para verificar se havia algum bilhete da professora e, ao perceber que a cola não estava no estojo, retornou a conversar com o filho dizendo que iria comprar outra. Após colocar outra cola no estojo, a criança parou de puxar o próprio cabelo. Relatos parecidos com estes são comuns na rotina da mãe e do filho, devido à dificuldade na comunicação.
Durante o ano, aconteceram conversas informais com a mãe, no momento de saída ou entrada na escola, ou até mesmo via telefone. No nosso terceiro e último encontro formal, que aconteceu no final do ano (2019), a mãe estava muito satisfeita e elogiou o quanto o caderno do filho estava bonito e organizado, que agora conseguia entender as lições e que a filha mais velha podia ajudá-lo nas tarefas de casa. A mãe perguntou, por algumas vezes, se este mesmo trabalho seria realizado no ano seguinte (2020), pois percebia o avanço do filho e o quanto ele cuidava do caderno. Finalizou dizendo que o maior ganho para ela foi perceber que o filho estava mais feliz e animado para frequentar a escola.
A entrevista com a mãe teve boas contribuições para análise dos dados, já que, a partir dela, realizamos conversas no início, durante e ao término da pesquisa.