A entrevista semidirigida ocorreu de acordo com as recomendações para aplicação da TALP, a partir do termo indutor “Ser mãe na prisão”, intrinsecamente, ligados ao objeto de estudo para gestantes, lactantes ou mulheres que vivenciaram a gestação no sistema prisional feminino, no intuito de encontrar os elementos para compor os quadrantes do quadro de quatro casas. Após cada termo mencionado, solicitou-se que a participante descresse cada palavra, para encontrar as representações, no campo semântico. Assim, apresenta-se o resultado em dois momentos, caracterizando-os em matrizes, quais sejam: a TALP diante da normalidade (matriz 1) e o da TALP – ZM, na perspectiva da substituição e
descontextualização (matriz 2). Para além, a análise de similitude se mostra como confirmação e reforço da estrutura da TNC, diante das representações sociais (TAVARES et al., 2014).
5.2.1 Processamento prototípico - Técnica de Associação Livre de Palavras – matriz 1
Na análise prototípica da matriz 1, verificou-se que o termo indutor: “Ser mãe na prisão” resultou em 210 evocações e 94 palavras distintas. Após lematização e categorização, o número de palavras diferentes evocadas pelas mulheres foram 61, na matriz 1. Excluindo-se as evocações com frequência inferior a três, resultou-se em aproveitamento de 31,1% (n=19).
5.2.2 Quadro de quatro casas
Quadro 5 - Quadro de quatro casas da análise prototípica (matriz 1).
f ≥8.37 OME ≤ 3.08 OME >3.08 f OME f OME Separação 27 2.9 Sofrimento 19 3.5 Tristeza 18 2.3 Medo 12 3.8 Horrível 16 2.1 Dor 12 2.8 f <8.37 f OME f OME Saudade 6 2.7 Adoção 6 4 Difícil 5 2.4 Forte 5 4.6 Distante 5 2.8 Desassistência 5 3.6 Violência 4 3 Aprisionamento_filho 4 4.8 Abandonada 3 3 Arrependimento 3 3.7 Aprendizado 3 3.3 Angústia 3 3.3 Procedimento 3 4
Legenda: f: frequência; OME: ordem média de evocações. Fonte: Dados da pesquisa.
Assim, a partir da frequência e Ordem Média de Evocação (OME), no quadrante superior esquerdo, a possível representação do ser mãe na prisão, cristalizou-se, principal e semanticamente, pelo elemento “separação”, o qual atribui o estado de “tristeza” e “dor” ao termo indutor “ser mãe na prisão”, como momento “horrível”. Deste modo, o núcleo central das representações é caracterizado pela dicotomia da díade
materna mãe-filho aos seis meses de idade, uma vez que as participantes apresentavam os termos citados acima direcionados à “separação”.
Medo da minha separação com o meu filho. (Mulher 1) Saber que meu filho vai ficar longe de mim. (Mulher 14) Separação com seis meses. (Mulher 18) Perder meu filho com seis meses, a dor aumentou. (Mulher 23)
Os desenhos, os quais representam as evocações e os segmentos textuais compostos no núcleo central, retratam, na Figura 1, a separação da díade materna, representada pela flecha que corta/separa a mãe do filho. Na Figura 2, demonstra-se o percurso de sofrimento do filho, com a mãe visualizando a saída do filho do presídio.
Figura 1 - Desenho: separação da díade materna.
Figura da díade materna e saída do filho do presídio com seis meses.
Os prováveis elementos secundários se encontram na primeira periferia do quadro de quatro casas, sendo as palavras emitidas: “sofrimento” e “medo” que se mostraram com altas evocações e frequências. Desta forma, os termos encontrados podem se ligar ao núcleo central, uma vez que a fala das participantes denotam significados voltados para o fortalecimento dos referidos elementos centrais, sendo atribuído valor à ruptura do vínculo mãe-filho, associado também ao “sofrimento” e “medo” vivenciado no sistema prisional, os quais surgem a partir da “separação”, bem como do aprisionamento.
Tento não olhar para a grade para não sofrer e lembrar que estou presa. (Mulher 6) Sofrimento junto com meu filho. (Mulher 13) Sofrimento pela criança. (Mulher 42) Medo de perder o bebê. (Mulher 6)
A seguir, apresenta-se o desenho-estória relacionado ao sofrimento vivenciado pelo filho dentro do sistema prisional feminino, o qual é apresentado na Figura 3, a partir da separação da mãe com o filho, sendo sequenciado pelo sofrimento que a ruptura os leva. A Figura 4 reafirma o sofrimento sentido pela mulher-mãe gestante na prisão, diante do sofrimento que a mesma projeta, diante do que é vivenciado dentro do sistema prisional.
Figura 4 - Desenho: sofrimento da mãe
No quadrante inferior direito, encontra-se a segunda periferia da representação social, que são os elementos mais fracos na organização representacional, apresentando menor interferência nos demais quadrantes, uma vez que o número de evocações nessa periferia é pequeno e citados nos últimos lugares. Todavia, o quadrante se mostra inclinado para “adoção” do filho para instituições governamentais, tornando a mulher “forte”, diante da “desassistência” encontrada e do “aprisionamento_filho”, levando-a ao “arrependimento”, sobretudo, ao “aprendizado” diante do cotidiano no sistema prisional. Salienta-se, ainda, o sentimento de “angústia” apresentado na segunda periferia, justapondo a presença do elemento “procedimento”.
Entende-se por “procedimento”, nesse contexto aqui citado, o momento no qual as mulheres em privação de liberdade, no sistema prisional, são algemadas e/ou postas com as mãos para frente (se outra mulher estiver presente), colocar as mãos no ombro à frente e/ou colocar as mãos na cabeça, ficar de frente para parede e afastar os pés (UFSC, s/a).
É ter medo de perder minha filha para o conselho tutelar, justiça, adoção. (Mulher 10) É saber que o filho está tirando cadeia comigo. (Mulher 9) Tenho arrependimento de tudo. (Mulher 25) Horrível, grávida em procedimento é horrível. (Mulher 37)
Em sequência, mostram-se os desenhos direcionados ao que é vivenciado no sistema prisional, no que diz respeito ao medo atribuído à perda do filho, bem como do que ele vivencia ao também estar preso juntamente com a mãe. Logo, a Figura 5 mostra o filho no encarceramento com a mãe, diante do aprendizado e arrependimento demonstrado, tal como encontra-se reforçado na Figura 6.
Figura 5 - Desenho: arrependimento da mãe.
.
A zona de contraste da representação se configura dos elementos com OME de frequência baixa. Todavia, emergidas logo nas primeiras posições. São elementos possíveis de constituir o núcleo central de indivíduos, inferindo, assim, a presença de subgrupos, com significados iniciais da representação, sem modificar a centralidade do quadro de quatro casas. Observou-se, nesse quadrante, a presença da palavra “saudade”, a qual, provavelmente, está direcionada aos vínculos rompidos, seja com o (a) filho (a) e o/ou familiares, tornando a vivência no sistema prisional como condição “difícil” e, ao mesmo tempo, “distante” da base familiar. Aponta-se, também, a “violência” encontrada e referida pelas participantes, indo ao encontro do “medo”, apresentado na primeira periferia, e do estar no sistema prisional “abandonada”, pelo estado, familiares e, sobretudo, pelo companheiro.
É ter saudades da família, minha mãe e filha. (Mulher 17) Viver distante dos filhos, marido, família. (Mulher 6) Medo de apanhar na cara, gestante só apanha na cara. (Mulher 23) Medo das brigas nos presídios, enquanto gestante. (Mulher 11)
A seguir, encontram-se, através dos desenhos, os significados construídos sobre a saudade de casa, da família, dos filhos. Na Figura 7, é apresentada a mãe com o filho diante das grandes, as quais impedem o acesso à casa. Na Figura 8, o desenho-estória encapsula o medo das mulheres gestantes dentro do sistema prisional, a qual reflete a maternidade por trás das grades, a partir do medo, da violência, sobretudo, das fragilidades de uma gestante no sistema prisional.
Figura 8 - Desenho: Gestante no presídio.
5.2.3 Processamento prototípico - Técnica de Associação Livre de Palavras – Modelo de substituição e de descontextualização – matriz 2
O processamento prototípico referente à matriz 2 identificou, após o termo indutor, “Ser mãe na prisão”, 210 evocações e 95 palavras diferentes. Logo em seguida, realizou-se a lematização e categorização, apresentando 61 palavras díspares, as quais foram mencionadas pelas mulheres. Por conseguinte, excluíram- se as evocações com frequência inferior a três, resultando em aproveitamento de 32,8% (n=20).
5.2.4 Quadro de quatro casas
Quadro 6 - Quadro de quatro casas da análise prototípica (matriz 2).
f ≥ 8.1 OME ≤ 3.01 OME >3.01 f OME f OME Separação 18 3 Sofrimento 26 3.4 Tristeza 13 2.5 Dor 14 3.1 Medo 11 2.2 Desassistência 11 3.7 Horrível 10 1.5 f < 8.1 f OME f OME Saudade 7 3 Violência 7 3.4 Adoção 7 3 Aprisionamento_filho 6 3.8 Distante 5 2.4 Angústia 4 4 Solidão 4 2.8 Procedimento 4 4.5 Ruim 3 1.7 Forte 3 3.7 Difícil 3 1.3 Chorar 3 4 Arrependimento 3 3.7
Fonte: Dados da pesquisa.
O quadro de quatro casas, pertencente à matriz 2, refere-se à zona de substituição e de descontextualização (zona muda), as quais as representações do quadrante superior foram objetivadas pelos elementos que formaram o núcleo central. Desta forma, atribuiu-se maior valor à “separação”, indo ao encontro dos elementos centrais do quadro de quatro casas da normalidade (matriz 1), com a cristalização representacional, uma vez que as falas proferidas pelas participantes se encontram associadas com os termos acima. Logo, “separação” reafirma o rompimento do vínculo materno (díade mãe-filho), e é reforçado com sentimentos negativos ao “ser mãe na prisão”, como “tristeza”, “medo” e “horrível”, sendo estes direcionados ao “sofrimento” da mãe com o filho.
Ficar longe do filho. (Mulher 41) Medo do bebê ir para casa e elas ficarem. (Mulher 19) Saber que com seis meses o filho vai ficar longe dela. (Mulher 9) “Medo de acontecer algo com meu filho. (Mulher 42)
A composição da primeira periferia ocorreu pelas evocações voltadas para significação da ruptura da díade materna, enaltecendo o “sofrimento” vivenciado dentro do sistema prisional antes, durante e após a presença do (a) filho (a) no cenário. A “dor” e “desassistência” se inclinam também para o “sofrimento”. Todavia, esses significados são atribuídos ao medo da ausência de cuidados com o filho, bem como a “desassistência” sentida no sistema prisional. Assim, visualiza-se forte presença de prováveis elementos periféricos com influências nas evocações dos termos centrais diante da semelhança apresentada no significado elaborado pela mulher, ao citar as palavras acima e presentes no quadro superior esquerdo.
Medo do sofrimento do filho sem a mãe. (Mulher 27) É sofrer duas vezes. (Mulher 36) Medo de não ter ninguém para cuidar do filho. (Mulher 13) Falta de cuidados dos agentes com os filhos. (Mulher 5)
Observa-se, no quadrante inferior direito, forte significação da palavra “violência”, relacionada ao que é vivenciado no sistema prisional, quanto às brigas e rebeliões, do mesmo modo que o valor simbólico sobre os elementos “aprisionamento”
e “aprisionamento_filho” são refletidos, diretamente, ao sofrimento do filho. Sobre a “angústia” referida na evocação, encontra-se voltada para idealização frustrada e com delimitação temporal da mãe em cuidar do (a) filho (a), bem como do medo durante a realização de “procedimento “enquanto grávida, transformando-a diante da realidade em mulher mais “forte”. Todavia, as palavras “chorar” e “arrependimento” enfatizam mais ainda o cotidiano da mulher gestante e/ou lactante no sistema prisional, referentes aos significados acerca do (a) filho (a).
Ter medo de brigas, rebelião. (Mulher 24) Filho preso sem culpa. (Mulher 4) Ver seu filho sem conseguir olhar para a rua. (Mulher 8) Angústia de não cuidar dele. (Mulher 29)
Os elementos de contraste traduzem, neste resultado, sentimentos, informações e, sobretudo, os significados que se encontram atribuídos ao cotidiano das participantes dentro do sistema prisional diante da “saudade” do (a) filho (a), da família, da vida extramuros. Pode-se considerar, também, a “adoção”, “distante” e “solidão” como expressões que reafirmam a “saudade”, na dimensão do distanciamento do (a) filho (a), principalmente, quando se trata de “adoção”. Para este último elemento, somam-se, ainda, as palavras: “ruim” e “difícil”, as quais potencializam tal ruptura. Assim, esse quadrante mostra a singularidade dos subgrupos, formados sem modificar os elementos centrais da representação social.
O filho com seis meses vai para a rua para adoção. (Mulher 11) Perder para justiça ou para o conselho. (Mulher 32) Ficar distante da família. (Mulher 10) Solidão da família, filho. (Mulher 17)
Dessa forma, os termos divergentes e que apresentaram diferença representacional foram: Núcleo central (“medo” e “dor); Primeira periferia (“dor”, “desassistência” e “medo”); Zona de contraste (“adoção”, “solidão’, “ruim”, “violência” e “abandonada”); Segunda periferia (“violência”, “chorar”, “adoção”, “desassistência” e “aprendizado”). De tal modo, mantendo a cristalização entre os dois quadros de quatro casas com a forte presença de palavras que representam e atribuem
significados a “separação”, sobretudo, da díade materna, potencializada por sentimentos negativos.
5.2.5 Análise de Similitude
A análise de similitude (Figura 9) processou a estrutura textual dos termos evocados, a partir dos termos indutores, lematização, categorização e processamento pelo IRAMUTEQ, em que se destacam as interconexões: as arestas representam a força da conexão entre os valores da associação das palavras e os vértices (círculos), a formação de núcleos semânticos de significados, sendo proporcional à frequência das palavras evocadas, utilizando-se da associação das frequências de coocorrências. Essa análise evidencia que as representações sociais das mulheres gestantes, lactantes e que vivenciaram a gestação em privação de liberdade, no sistema prisional, estiveram estruturadas, principalmente, em dois eixos, os quais conectam às matrizes 1 e 2 (X1 = matriz 1; X2 = matriz 2), são eles: “separação” e “sofrimento” que dividem a mesma vértice e apresentam forte ligação (Figura 9).
O termo “separação” mantém sua centralidade com os elementos distante (6) e abandonada (3), apresentando forte coocorrência com as palavras tristeza (17), horrível (16), medo (11), saudade (9), forte (5), difícil (4), fome e forte (3).
O “sofrimento” apresenta as arestas mais densas com as palavras dor (13), desassistência (10), aprisionamento_filho (6), adoção (6), procedimento, solidão e angústia (4), chorar, arrependimento, ruim e péssimo (3).
Na análise de similitude, a composição do núcleo central foi composta pela palavra “sofrimento”, o qual teve forte coocorrência com as palavras: desassistência (5), aprisionamento do filho (4), solidão (4), medo (7). Assim como o termo “separação” se mostra forte com as palavras: medo (5), violência (3), horrível (5). Do mesmo modo, “tristeza” se apresenta fortemente ligada às palavras: horrível (5) e dor (5) que se ligam-se à saudade (4).
A referida análise foi também utilizada no estudo para demonstrar claramente o que foi falado nas evocações das palavras, diferenciando as variáveis com identificação representacional das estruturas. Desta forma, indica-se a cristalização do núcleo central diante de evocações estáveis e resistentes. Infere-se, também, que a presença da análise de similitude surge para reforçar a TNC com o quadro de quatro casas, reafirmando a presença do núcleo central de ambas as matrizes com as
palavras centrais “separação” e “sofrimento”, as quais atribuem o mesmo significado e representação diante do contexto apresentado.
Figura 9 - Análise de similitude das evocações
6 DISCUSSÃO
A representação social das mulheres gestantes, lactantes e que vivenciaram a gestação em privação de liberdade, no sistema prisional, assume o caráter formativo, com conjunto de elementos, após cristalização do núcleo central, uma vez que esteve direcionada à experienciação da maternidade no aprisionamento de forma delicada, sugerindo, assim, que a vivência dessas mulheres siga o caminho do sofrimento pela separação da díade materna, diante do contexto prisional, das normatizações, das leis e dos regimentos jurídicos.
Trata-se de questionário com roteiro semiestruturado, composto por perguntas fechadas acerca do perfil sociodemográfico e obstétrico das mulheres do estudo, sobre a idade, estado civil, escolaridade, naturalidade, quantidade de gestações, abortos, tipo de pena e tempo a ser cumprido no presídio.
O perfil das mulheres privadas de liberdade do sistema prisional do RN, assemelha-se ao do estudo de Safranoff e Tiravassi (2018), onde é apresentado mulheres jovens, em sua maioria, com nível de escolaridade ínfimo e alto número de filhos, além da inexistência do acesso aos serviços dignos para o ser humano.
Os termos evocados e encontrados nas matrizes 1 e 2, mesmo que diferentes em algum quadrante, objetiva a mesma representação social, por se tratar de significados compostos com os mesmos elementos, perante as falas das participantes, atribuindo valores semelhantes na construção da normalidade e na substituição e descontextualização dos quadrantes do quadro de quatro casas.
O núcleo central do quadro de quatro casas (quadrante superior esquerdo) contemplou os termos evocados mais rapidamente, visto que também foram identificados nas primeiras posições, tornando-os estáveis e resistentes a modificações (BEZERRA et al., 2018). Enfatiza-se que os dados encontrados demonstram divergências singulares, embora, estas estejam organizadas e fortalecidas quanto à representação social no mesmo núcleo, fundamentando o que Abric (2002) mostra como as funcionalidades do núcleo central, quais sejam: função geradora, componente para criação e transformação de significados de outros elementos, tornando-os com sentidos e valores na representação; função organizadora, a qual se constitui como núcleo central, unindo os elementos representacionais.
Separação foi o termo apresentado no núcleo central com maior representatividade, encontrando-se agrupado com os demais elementos no mesmo quadro, que são: tristeza, horrível, dor e medo, os quais direcionam a separação institucionalizada no sistema prisional brasileiro, que define a permanência do filho no presídio, no período de amamentação exclusiva, compreendido até o sexto mês de vida, a partir da Lei nº 11.942 de 2009 (BRASIL, 2009), resultando na ruptura do vínculo mãe-filho, gerando sentimentos e consequências negativas para díade.
O cenário do aprisionamento feminino, quando associado à gestação ou lactação, define-se, primeiramente, como leque de representações particulares para mulher-mãe, as quais favorecem complicações para díade mãe-filho. Em outras palavras, é a projeção do futuro diante de interrogações construídas, a partir do que é vivenciado no sistema prisional. Mães com data marcada para se distanciar do filho – Mães ficam no intramuros e filhos(as) vão para o extramuros (AMARAL; BISPO, 2016).
Durante a permanência no sistema prisional, essas mulheres sofrem, antecipadamente, pela separação com o filho. Assim, além do aprisionamento, somam-se a este a carga de responsabilidade, preocupações, pensamentos, culpabilizações, anseios e, consequentemente, adoecimento durante a gestação e puerpério, sobre os próximos dias a serem vivenciados no sistema prisional. Certamente, esses desdobramentos que as levam ao adoecimento mental e físico, são elencados a partir da tristeza, do medo e da dor, referidos nas evocações (LIMA et al., 2013; FLORES; SMEH, 2018).
Aponta-se o quão é difícil para essa mulher, conhecendo o sistema prisional, bem como suas especificidades, ser mãe dentro desse contexto e conseguir exercer o papel materno sem interferências. Assim, ao saber do dia a dia no cárcere e visualizar o futuro com data e hora marcada para estar com o filho, surge o adoecimento da mulher no aprisionamento, a partir da retórica oportunizada pela separação da díade e diante da vivência prisional. São condições de ambiência precárias e deterioradas, com superpopulação nas celas e inexistência de suporte de saúde digno, tornando o sistema prisional sem as principais funções, que é restringir, ressocializar e reintegrar a mulher privada de liberdade para sociedade (LIMA et al., 2013; FLORES; SMEH, 2018).
Na perspectiva do adoecimento da mulher-mãe aprisionada no sistema prisional com o(a) “filho(a) preso”, sabe-se que essas apresentam níveis mais altos
de adoecimentos, especificamente, os transtornos mentais, com evoluções mais graves (KING et al., 2018). Estudo demonstra que 75% das mulheres no cárcere sofrem com algum distúrbio mental (GUIDEI et al., 2018), dado agravante e preocupante para saúde pública, uma vez que parte desse grupo de mulheres é composta por mães, lactantes e responsáveis pelas crianças que estão também aprisionadas no cárcere. As situações do aprisionamento são determinantes e condicionantes para os agravos de saúde da mãe e do(a) filho(a), visto que o ambiente é precário, insalubre e hostil (SANTOS et al., 2017).
Ademais, o impacto dessa separação da díade materna, associada à tristeza, ao dor e medo, não penaliza apenas um sujeito (mãe), mas todo o ciclo familiar, especialmente o(a) filho(a), o qual de forma injusta passa os primeiros seis meses de vida dentro do presídio, diante de normas, regimentos e leis. Agrega-se, ainda, a falta de ambiência, estrutura, comodidades para esse “filho(a) preso(a)”. Além disso, o “filho(a) preso(a)” é posto à estigmatização da sociedade e do medo da própria mãe ao ter o(a) filho(a) na rua, sobre continuidade, de no futuro praticar condutas ilícitas, as quais foram realizadas pela genitora, uma vez que para muitos sujeitos sociais, o filho sabendo do histórico prisional e criminal da mãe, associado ao período vivenciado no presídio, podem ser considerados disparos para entrada no mundo do crime (STELLA, 2009).
Quanto ao acompanhamento e aos desfechos futuros (infância, adolescência e fase adulta) de filhos de mulheres que vivenciaram a gestação e lactação no sistema prisional brasileiro, inexistem estudos com esses dados. Assim, torna-se palpável também essa verificação por parte da academia. Onde estão os filhos vitimizados/aprisionados de mães do sistema prisional? Quem são as crianças presas ao nascer? Quais as consequências para crescimento e desenvolvimento de filhos de mulheres aprisionadas que viveram no presídio?
No que concernem à vivência e ambiência para o recém-nascido na prisão, a existência de berçários nas instituições prisionais femininas brasileiras é respalda pela Lei Nº 11.942 de 28 de maio de 2009. No entanto, não é praticável na totalidade dos estados (BRAGA; ANGOTTI, 2015). Ademais, alguns cenários no Brasil detêm de unidades materno-infantil para abrigar a mãe e o filho. Todavia, esses têm características de extensão do presídio, apenas. Em Ezeiza, na Argentina, a proposta utilizada é apresentada como creche, uma vez que a criança fica com a mãe e na creche, ao mesmo tempo, no sistema prisional; à noite, aos cuidados dos familiares.
Nesse cenário, a mulher realiza atividades de casa e recreativas, bem como trabalho dentro do presídio, juntamente com o(a) filho(a) para assemelhar-se à “normalidade” da vida social (BRAGA; ANGOTTI, 2015).
Dessa forma, parte-se da conjuntura de que o encarceramento da díade mãe-