Data da entrevista: março de 2016 Duração aproximada: 1h 09m 21s
Grupo de Questões
I – Caracterização do entrevistado
Dados biográficos do entrevistado
1.1. Começo por pedir-lhe que indique o seu género.
A3: Feminino.
1.2. Qual é a sua idade?
A3: Tenho dezasseis anos.
1.3. Em que concelho reside?
A3: Ponta do Sol.
1.3.1. Com quem reside?
A3: Com a minha irmã e com os meus dois pais.
Dados académicos do entrevistado
1.4. Quais são as suas habilitações académicas?
A3: Atualmente tenho o nono ano concluído e estou a tirar o curso de Línguas e Humanidades. Atualmente estou no décimo primeiro ano.
1.5. Ficou retida alguma vez ao longo do seu percurso académico?
A3: Não. Passei sempre.
1.6. Este ano encontra-se matriculada no décimo primeiro ano, não é?
A3: É.
1.7. Qual é a disciplina que mais aprecia e por que razão?
A3: Até pode parecer estranho, mas é a Filosofia. Acho que é crucial na educação, não só dos alunos na escola, mas como cidadãos. É a partir do momento que nos é lecionada a Filosofia que começamos a ter uma outra perceção de certas coisas que anteriormente nos passavam completamente ao lado, nomeadamente assuntos relacionados com a ética, a sociedade em que vivemos, a formatação e a forma como agem, os princípios de que partem, tudo o pressuposto, todos os princípios. Acho que é importante.
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A3: Sim e por nos formar como cidadãos. Ao ser lecionada a Filosofia estudamos, também, certos comportamentos. Ao estudar a ética temos a noção de que algumas das ações que praticamos, por vezes, podem não ser as melhores. Ao estudarmos, simultaneamente, os filósofos dão-nos a perceber como devemos de agir e como era a nossa sociedade em anos anteriores, a evolução do pensamento, como a mente das pessoas foi abrindo ao longo dos anos. Isso também tem a ver com os regimes instituídos. A maneira como as pessoas agem, nota-se uma clara evolução.
1.8. Realiza alguma atividade extracurricular?
A3: Sim. Pratico natação.
1.9. Por que razão continua a estudar?
A3: Porque quero acabar o décimo segundo e ter um objetivo de ir mais além, de ser alguém na vida e, mais do que isso, fazer aquilo que eu gosto o resto da minha vida.
a) Que é o quê?
A3: Ser polícia.
b) Pretende seguir os estudos no ensino superior?
A3: Sim, sem dúvida.
c) Em que curso gostaria de ingressar?
A3: É assim, para ser polícia é preciso entrar numa academia. Dado que não tenho a altura que é necessária, ou vou seguir Direito, ou vou seguir Psicologia.
Grupo de Questões
II – Sobre o sistema educativo e a prática educativa em geral.
2.1. Qual é a sua opinião sobre o sistema educativo?
A3: Depende da área que falar em específico. Por exemplo, naquilo que nos prepara, do quinto ao décimo segundo ano, acho que há algumas falhas devido ao excesso de disciplinas que temos. Compreendo na medida em que uma criança com dez anos ainda não sabe aquilo que quer fazer no futuro. Portanto, convém dar a conhecer as mais variadas disciplinas para que possam escolher, para que possam ir conhecendo aquilo que querem.
O secundário está bem. Nos cursos do ensino superior, acho que, na Medicina os resultados de Portugal, dos alunos portugueses falam por si. Temos uma excelente formação.
a) Quando fala em “excelente formação” refere-se ao ensino superior?
A3: Exatamente, ao ensino superior. Ainda assim, temos muitas falhas no que toca do quinto ao décimo segundo ano, por exemplo, não devia de ter uma mistura de alunos de quinto com alunos de décimo segundo. Deviam de ter escolas separadas devido ao ambiente que se vive e, sobretudo, pela carga horária. Temos demasiadas disciplinas.
b) Têm demasiadas disciplinas ou são abordados muitos conteúdos em pouco tempo?
A3: Não. Isso só se verifica a partir do sétimo ano. A carga horária começa a ressentir-se mais no sétimo ano. De resto, no quinto e sexto ano acho que é mesmo a quantidade de disciplinas. Esse é o maior erro. Há muitos alunos, por exemplo, que eu conheço, umas meninas do sexto ano que têm aulas até às seis e vinte e cinco. Isso é disparatado.
Este ano a minha prima teve uma semana em que teve testes todos os dias. Acho isso inadmissível. Estou no secundário e sei o que é passar pela experiência de ter de estudar para um teste num dia e…
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não sei como se estuda de véspera, não sei. Isso acaba por refletir-se nos testes. Muitas vezes, a maioria das vezes, aquilo que se reflete nos testes não é aquilo que o aluno realmente sabe.
c) A agenda educativa é muito pesada?
A3: Exatamente! Exatamente!
2.1.1. O sistema educativo corresponde às suas expetativas, ou não?
A3: Sim. Apesar da carga horária, o facto de ter muitas disciplinas ensina-nos muita coisa, nomeadamente a gerir o nosso tempo e isso prepara-nos não só para o prosseguimento de estudos, mas também como pessoas, como cidadãos. Ajuda-nos imenso. Apesar de, por exemplo, nunca ter tido muito boas notas a Matemática há coisas que ficam, por exemplo, uma regra três simples. Há sempre alguma coisa que fica.
Em relação ao secundário não tenho razão de queixa porque estou mesmo a adorar. Não é que adore História, não é que goste mesmo de História, mas interessa-me, cativa-me. A área em que estou cativa- me. Isso reflete-se, também nos meus colegas. Os meus colegas também gostam daquilo que fazem. O secundário é um período do currículo, do percurso escolar.
a) Corresponde às suas expetativas e sente-se entusiasmada com o que está a aprender.
A3: Mas é só com o secundário, porque do anterior não posso dizer o mesmo.
b) Em relação à experiência que teve até ao final do terceiro ciclo o sentimento não é o mesmo?
A3: Não, devido à carga horária. Cheguei a ter notas que de facto não refletiam aquilo que realmente sabia, as minhas capacidades e o potencial que tenho, devido ao dia anterior ter tido um teste de alguma e de só ter estudado para aquele teste no dia anterior.
c) Tem de selecionar o que deve estudar?
A3: Exatamente. Na altura dos testes é melhor dois por semana. Não pode haver pouca margem de tempo, porque os alunos acabam por entrar em stress, em pressão. Cada coisa a seu tempo. Eles só devem de sentir a verdadeira pressão a partir do secundário, para depois se prepararem para a vida universitária.
d) Como pensa que deveria de ser o sistema educativo?
A3: A maneira como as escolas organizam os horários dos alunos. Por exemplo, eu fico à tarde e a escola rouba-me três horas de tempo para ter uma aula de uma hora e meia. Acho isso um absurdo. É só isso, a carga horária.
e) Portanto, corresponde às suas expetativas no domínio da formação, do que prevê currículo…,
A3: Isso é exemplar em Portugal.
f) … mas considera que a agenda escolar é pesada?
A3: Talvez um pouco a quantidade de conteúdos no ensino secundário. Tive a infelicidade de uma das professoras que tive este ano ter estado envolvida num projeto e acabou por ser selecionada para ir para outro país. Teve de abordar certos temas e o décimo ano tinha tantos temas para lecionar, tantos autores que acabamos por ficar prejudicados, nós alunos. São demasiados conteúdos e os professores não tiveram a possibilidade de os lecionar.
2.2. No que respeita aos programas e respetivas matérias das diversas disciplinas, considera que estão ajustadas às necessidades dos alunos, ou não?
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A3: Isso também depende muito do professor. Depende muito do professor. Em História A tenho três volumes para dar, a professora tem três volumes para dar. A professora dá aquilo de forma exemplar e isso reflete-se nas notas dos alunos. Também, parte do mérito é dos próprios alunos e do estudo que praticam todos os dias. Como nos é lecionado vem muito do professor. Talvez se fosse outra professora a nos dar aquela matéria, talvez o ritmo tivesse sido outro. Depende muito do professor e a maneira como cativam os alunos.
a) Mas os programas e respetivas matérias são ajustadas às necessidades dos alunos, ou não?
A3: Sim, sim.
2.2.1. Os programas e as respetivas matérias das diversas disciplinas são adequados ao desenvolvimento das capacidades e/ou competências necessárias ao mundo fora do contexto escolar, ou não?
A3: Sim. Volto a frisar que essa preparação do aluno como cidadão, para aquilo que vem a seguir, isto é, o estudo universitário que é bastante pesado. Há que preparar os alunos para a pressão, para o stress, para tudo o que é o estudo académico. Isso também parte um pouco dos professores. Aqui entra a Filosofia, que é muito, extremamente importante para a formação do aluno como cidadão, para aprender a lidar com o mundo para além da escola, o mundo de fora, o mundo lá fora, o mundo do trabalho, o mundo daquilo que é a preparação académica. É mesmo importante, crucial na formação dos alunos.
2.3. Na sua opinião, a escola prepara-a para memorizar e reproduzir matérias, ou prepara- a para pensar de forma crítica e autónoma sobre realidade?
A3: Considero que isso vem do aluno. Há o aluno “marrão”, que estuda, estuda, estuda, estuda, decora e reproduz oralmente aquilo que leu e o reflete na escrita, mas simplesmente não sabe nada. E há aquele aluno que de facto se interessa e quer saber, quer perceber aquilo que lê e que lhe é ensinado. Daí, está no aluno.
2.3.1. A cultura educativa estabelecida/instituída nas escolas limita ou promove a adoção de uma atitude crítica e reflexiva face ao real?
A3: No fundo a escola quer o nosso sucesso. Independentemente de sermos alunos marrões ou alunos inteligentes que de facto percebem, vem do aluno. Mas acho que a escola, no fundo, só quer o sucesso dos alunos, de uma maneira ou de outra.
a) Sucesso quantitativo ou sucesso qualitativo?
A3: Quantitativo, eu acho. Quantitativo, sim, sem dúvida.
b) O que é que a escola valoriza mais?
A3: Falo por experiência própria, já por vários anos trago medalhas de natação em prol do Desporto Escolar para a escola e nunca fui abordada, nunca fui congratulada pelos resultados que atingi. Recentemente também fui com o meu grupo ao Parlamento Jovem e conseguimos ir ao continente. Também não fui congratulada pelos objetivos que conseguimos atingir, de forma alguma. No entanto, uma menina que foram destacadas numa peça de teatro e a escola maravilhou-se e achou extremamente fascinante. Ou seja, no fundo o que as escolas querem é terem prestígio, mas aquilo que é prol do aluno, que é mais individual, porque no fundo foi o espírito crítico e o trabalho dos alunos que estiveram naquele parlamento e o meu trabalho físico que tive naquelas provas, isso não foi valorizado. Para as escolas, aquilo que é em prol delas e aquilo que as beneficia e lhes dá prestígio é mais importante. Se tiverem um aluno que atinja a licenciatura, o doutoramento, o mestrado por simplesmente ler uma coisa e marrar naquilo e depois escrever no teste final, acho que é mais valorizado de que um aluno que não saiba reproduzir.
Um aluno que aja eticamente bem, que tenha uma profissão mais humilde e que, quando é lecionado algum assunto do nosso dia-a-dia e que saiba falar, justificar e fundamentar aquilo que diz e outro que de facto tem ótimas qualificações e que quando vamos falar sobre determinados assuntos não sabe nada, as escolas vão para o que ótimas qualificações, por conseguir ir mais longe.
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c) O sistema educativo e, em particular, a escola valoriza mais o parecer que o ser?
A3: Exatamente! Sem dúvida! Eu acho.
2.3.2. O sistema de ensino e as práticas educativas que lhe estão subjacentes devem de vocacionar-se para preparar os jovens para serem reprodutores ou produtores de informação e conhecimento?
A3: Sem dúvida alguma que a escola devia de preparar os alunos para produzirem não só conhecimentos, mas também valores. Os valores são importantes, porque refletem não só aquilo que a pessoa é, mas aquilo que aprendeu na escola, aquilo que acompanhou.
a) Considera que deve de ser valorizada a dimensão humana?
A3: Exatamente. A educação e os valores são a base de qualquer pessoa. Sem dúvida.
b) E da sociedade?
A3: Nem tanto. Temos uma sociedade muito vulnerável a qualquer tipo de influência. Se uma pessoa acredita que os valores são cruciais para um futuro mais feliz e bem-sucedido, amanhã pode pensar que isso não interessa nada e que o que interessa é ter altas qualificações para não ir para o desemprego e para ter trabalho.
c) O que é que torna a sociedade vulnerável?
A3: O facto de não possuir conhecimentos faz com que facilmente seja manipulada por qualquer tipo de ideia, seja pela cor política, seja pela religião, mas principalmente pela religião. As pessoas deixam-se influenciar imenso pela religião e não têm qualquer prova daquilo que lhes é induzido. Isso é uma prova de que a sociedade em que vivemos é formatada por aquilo que é transmitido de boca em boca.
d) É uma sociedade com um fraco espírito crítico?
A3: Exatamente. Muitas das pessoas não sabem, mas a Filosofia, e isto acaba sempre por ir dar à Filosofia, a Filosofia prepara as pessoas para aquilo que é o saber argumentar, o saber defender-se, procurar defender os seus interesses. Ao fim e ao cabo, para se saber defender de uma retórica negra, daquilo que é a retórica negra, não há nada melhor do que saber argumentar. Para controlar a argumentação é preciso saber argumentar. Ter um espírito crítico é ter um cunho pessoal naquilo que se faz e naquilo que se diz.
2.3.3. Durante as aulas, são criadas condições para que reflita criticamente sobre a realidade e se expresse de forma livre, ou não?
A3: Depende da aula. Uma aula em que haja muita coisa para dar e que os professores tenham que dar a matéria muito à risca, como por exemplo em História, é ouvir, tirar apontamentos, acompanhar o ritmo com que a professora está a lecionar. Por exemplo, há disciplinas que permitem aos alunos despertar o seu lado crítico e dar a sua opinião. A Filosofia, por exemplo, a Geografia. A Filosofia estuda um pouco da sociedade. Também parte um bocadinho dos professores. Há aqueles professores que gostam sempre de avaliar mais o espírito crítico e a parte argumentativa, a capacidade argumentativa dos alunos. Isso acaba por fomentar aquela parte mais crítica, mais opinativa.
a) Durante as aulas, são criadas condições para que questione livremente a realidade?
A3: Sim, sim, sim. Por exemplo, o meu professor de Filosofia e a minha professora de Geografia perguntam imenso, procuram imenso despertar a parte oral dos alunos. Querem que façam comparações e que ponham em questão as coisas. Questionar, fazer comparações e dizem que todas as questões são bem-vindas.
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A3: Exatamente. Para que não se limitem a aceitar aquilo que lhes é dito. Pôr em questão aquilo que o professor está a dizer. Questionar, fazer comparações de antes para agora.
2.3.4. Quando os professores a questionam, sente-se pressionada a responder o que eles pretendem, reproduzindo corretamente os conteúdos, ou não?
A3: Não. Normalmente eu é que gosto de dar a minha opinião. Tenho um espírito crítico bastante apurado e sou um tipo de pessoa que põe tudo em questão. Sim, quando peço para falar, para argumentar, para pôr em questão seja o que for, a minha participação é sempre bem-vinda. Os professores procuram sempre responder às minhas questões, às minhas dúvidas.
a) Os seus colegas também sentem essa liberdade para se exprimirem, para questionarem, para responder livremente sem a pressão de não corresponderem ao que é esperado?
A3: Liberdade para pôr em questão e duvidar há. Mas a minha turma tem alunos um bocadinho mais tímidos e mais reservados e há outros que nem se interessam e que acabam por aceitar aquilo que lhes é dito sem contestar. Também depende do assunto que é lecionado. Quando é um assunto que interessa a todos, há sempre algum que faz uma questão, que questiona e isso acaba por dinamizar a aula.
b) Gosta de aulas interativas?
A3: Muito. Acho que isso é uma excelente maneira de cativar os alunos. Não interessa sequer o assunto. A forma como o professor gere a aula e a maneira como é dada tem um poder enorme sobre a dinamização e o progresso da aula.
c) O que é que a escola mais valoriza, a dimensão escrita ou a dimensão oral?
A3: A escrita, sem dúvida. É. Isso é o que é valorizado hoje em dia. Noventa e cinco por cento são dedicados aos conhecimentos, à parte cognitiva.
d) À parte cognitiva, como assim?
A3: Àquilo que é escrito nos testes, àquilo que é escrito nas fichas de trabalho.
e) E o que se passa nas aulas, não é tido em conta nessa dimensão?
A3: Isso conta para o quê? Para aquele valor da autonomia, da participação na aula. Na avaliação isso acaba por ser esquecido. Isso só é decisivo, por exemplo, para um aluno que esteja entre o treze e o catorze, entre o dezassete e o dezoito, mas acaba por ser esquecido. A parte oral é completamente esquecida. Também depende dos professores. Os professores de Filosofia valorizam mais essa parte.
f) Valorizam como? Esses parâmetros não são definidos pela escola, as percentagens a atribuir a cada domínio?
A3: Mas não é em todas as disciplinas. Os próprios professores às vezes manipulam essa parte. Os professores que de facto acham que é importante o aluno dizer o que pensa, contestar, duvidar, dar a sua opinião. Isso acaba por dar a entender aos professores que essa parte também é importante.
g) Esses professores são a exceção ou são a regra?
A3: São a exceção. Sem dúvida.
2.4. De acordo com a sua perspetiva, há, ou não, necessidade de alterar o modelo educativo atual?
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2.4.1. Se pudesse sugerir alterações no sistema educativo e nas práticas educativas que lhe estão subjacentes, quais seriam?
A3: Por exemplo, acho que deviam de adequar a idade dos professores às turmas. Isto é, os professores mais novos deviam de lecionar a turmas de quinto e de sexto ano, porque são professores mais pacientes. Como ainda estão a iniciar a carreira acabam por ter mais paciência para aquilo que são as brincadeiras.
a) Sabe que isso não é exequível?
A3: Eu sei, é verdade. É verdade.
b) Isso é uma proposta. Tem outra?
A3: A carga horária.
c) Rever…
A3: A organização dos horários, também.
d) Essa organização não parte da escola?
A3: Sim. Mas é isso, entende. A Noruega é um excelente exemplo para isto. Tem metade da nossa carga horária e tem excelentes resultados, talvez três vezes melhores que os nossos. Enquanto nós passamos novecentas e tal horas dentro de uma sala por ano e isso acaba por deixar os alunos exaustos.
e) E em termos estruturais, há outras alterações que queira sugerir?
A3: As disciplinas que são lecionadas do quinto ao nono ano. Acho que é demasiado. São muitas disciplinas.
f) Rever o número de disciplinas ou os programas das disciplinas?
A3: O número as disciplinas, sem dúvida. Os alunos de terceiro ciclo estão neste momento com doze disciplinas. É um exagero. É terrível. Se eu com seis já me vejo aflita e sinto pressão quando é para os testes, imagino a aflição daqueles miúdos. Ainda que já tenha passado por aquilo que eles já passaram, olho para trás e, sinceramente, não sei como consegui. Olho para as minhas notas e não me envergonho, mas sinto pena de não ter conseguido dar mais. Aquilo que eu sabia não foi refletido nas fichas de avaliação, por exemplo.
g) A extensão dos programas não permite desenvolver as reais capacidades dos alunos?
A3: A desenvoltura dos programas, o lecionar dos programas está nos professores. Os professores é que gerem, têm de saber gerir, têm de dinamizar as aulas, aula após aula. Mas, o número de disciplinas é exagerado. Totalmente exagerado.
h) Considera que os professores se sentem pressionados pelos Exames Nacionais ou pelas Provas de Final de Ciclo para o cumprimento dos programas, ou não?
A3: Alguns sim, alguns não. Alguns deem a matéria, cumpram o programa ou não, recebem o mesmo ao final do mês. Os resultados estão nos alunos.
Um aluno preocupado, se o professor não for bom, ele vai procurar um explicador, vai procurar estudar mais antes do exame. Agora aqueles professores, que gostam de ter um bom “feedback” daquilo que lecionaram ao longo de três anos, no caso de uma disciplina trienal, vão preparar o melhor possível os alunos para obterem bons resultados. Novamente, isso dá prestígio à escola.
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i) Relativamente aos “rankings” sobre os resultados obtidos nos Exames Nacionais e nas Provas de Final de Ciclo, qual é a sua perceção sobre esta questão?
A3: Acho isso uma completa farsa. Isso acaba por desvalorizar aquelas escolas que têm alunos menos bons. A culpa não é da escola, acaba por ser dos alunos. Há muitas escolas que têm alunos que são rebeldes, que faltam às aulas e a escola, por exemplo, em cursos profissionais, acaba por ser afetada O estado está a gastar dinheiro com esses meninos. Embora não pareça, o estado gasta cerca de cinco mil