Capítulo 4. Delinear estratégias
4.2 Pesquisa longitudinal
4.2.2 Entrevista semiestruturada
Iremos a partir daqui ver o que é a entrevista e o que são os grupos de foco no âmbito dos estudos qualitativos nas ciências sociais. Iremos realçar a entre- vista, pois acabou por ser a técnica usada com maior destaque na investigação. As entrevistas foram pensadas com o cuidado de as desprover ao máximo de subjetividades, mantendo uma preocupação na relação a estabelecer entre o entrevistado e o entrevistador. Não é fácil esta relação que deve ser suficiente- mente distante e suficientemente próxima. Neste caso particular, não estamos a encarar a entrevista enquanto fornecedora de informação em estudos de pro- dução (como seria apenas com entrevistas a jornalistas ou editores da área da política), mas sim fornecedora de sentidos da receção.
Fazer perguntas e conseguir respostas é uma tarefa bem mais complicada do que pode parecer. Uma das maiores dificuldades prende-se com o facto de
fazer despir ao máximo as perguntas de ambiguidades. É difícil, se não mesmo impossível, fazê-lo, mas esta é uma das técnicas de pesquisa mais usadas em disciplinas como a sociologia e a psicologia, como meio para compreender melhor o ser humano e as suas interações (Fontana & Frey, 1994: 361). “A entrevista torna-se a ferramenta e o objeto, a arte da sociabilidade socioló- gica” (Fontana & Frey, 1994: 361) e um encontro no qual as duas partes se comportam como semelhantes. Na entrevista, o outro já não é visto como uma pessoa distante ali presente apenas para ser entrevistada, categorizada, medida e catalogada. Ao estudarmos os outros, estudamos o self (Fontana & Frey, 1994: 373).
Depois desta abordagem inicial aos contextos de observação direta, pas- samos à descrição das opções e justificações relacionadas com as entrevistas realizadas em 201060e 201161. As primeiras 35 entrevistas62foram realizadas de março de 2010 a outubro de 201063. Quando escolhemos os entrevistados, tínhamos a ideia de que as formas de participação pelas quais os selecioná- mos eram apenas alguns elementos no contexto mais vasto das suas vidas, onde haveria sobreposições/camadas participação.
Essas 3564 entrevistas foram subordinadas a temas como a participação, o consumo noticioso e mediático e a produção de notícias. Foram requeri- dos consentimentos aos encarregados de educação dos menores de 18 anos; os que tinham 18 anos ou mais assinaram eles mesmos. Em ambos os casos, antes das entrevistas perguntou-se se tinham compreendido o consentimento, seguindo Ana Nunes de Almeida (2009: 73), que chama a atenção para que o participante deve fornecer um consentimento informado sobre a sua vontade de participar na investigação, independentemente da necessidade de consen- timento dos encarregados de educação ou das instituições em que decorre o trabalho. As entrevistas foram feitas num ambiente informal. Começámos por
60E1=Entrevista1. 61
E2=Entrevista2.
62
Como anotámos, em 2010, dois dos rapazes da escola 1 tinham 21 anos. Uma das rapa- rigas do bairro tinha 14 anos quando foi entrevistada pela primeira vez. Depois de o processo de entrevistas já estar a decorrer há algum tempo, não estava a ser possível entrevistar a 4.ª rapariga no bairro, pelo que a solução encontrada e com empenho por parte do Centro foi falar com uma de 14 anos, com participação nas atividades do centro e nas assembleias.
63O período foi bastante alargado, pois de julho a outubro foram sendo marcadas as entre-
vistas no bairro.
colocar os entrevistados à vontade, explicando o contexto da investigação, in- clusive com a indicação dos seus momentos seguintes. Em cada uma das fases de entrevista, foram explicitados em termos gerais os objetivos para cada uma das entrevistas e os temas a abordar. Além disso, foi dito aos participantes que poderiam abandonar a colaboração quando quisessem, mesmo que fosse a meio da entrevista, e que também poderiam interpelar quando quisessem e fazer sugestões. Os jovens que prosseguiram foram colocados ao corrente do que se ia passando nas fases de pesquisa anteriores, sobre algumas conclusões, sucessos e insucessos do trabalho. Esta abordagem pareceu ser fundamental para o sucesso da própria investigação mostrando – em especial aos que ti- nham ligação a escolas – que não havia a intenção de os obrigar a participar ou a julgar; o que se pretendia, como lhes foi dito, era que dessem opinião.
Conforme foi explicado a todos os entrevistados, antes de a entrevista co- meçar, foram criados três grandes grupos de questões: 1) Opiniões e atitudes para com a política e os media (em particular o jornalismo); 2) Comporta- mento político; 3) Sensibilidades em relação aos media e ao jornalismo (o que consideram ser jornalismo e o que consomem)65. Quando estávamos a realizar as primeiras entrevistas percebemos que, apesar de não termos ques- tões focalizadas nos ambientes familiares mediatizados, o tema relação fami- liar e notícias ia aparecendo, pelo que reforçámos as entrevistas nesse sentido. Aliás, nas segundas entrevistas acabámos por criar um grupo dedicado aos ambientes familiares, pela relevância que tiveram na primeira fase.
Apesar de o bairro ter sido um dos primeiros espaços onde começámos a fazer a investigação, foi uma opção nossa e do Centro iniciar as entrevistas cerca de três meses depois de termos começado a estar presente nas assem- bleias, o que aconteceu em abril de 2010. Os contactos iniciais foram feitos em finais de 2009, altura em que iniciámos visitas esporádicas ao Centro, mesmo sem ser em datas de assembleias. A observação direta foi realizada no espaço dos jovens, em convivência com os jovens e os monitores e técnicos envolvidos nessa valência. Como se pode deduzir das observações feitas até aqui, a intenção foi sempre ser vista como uma pessoa de fora, mas de certa forma “adaptada” ao espaço, estando lá com a função de realizar um traba- lho de pesquisa. Consideramos ainda que a relação profissional para além da
65Nesta fase inicial da entrevista, foi chamada a atenção para o facto de haver a expectativa
cordialidade estabelecida com os técnicos foi importante para que a nossa pre- sença no Centro fosse melhor aceite e para que não fôssemos encarados como estranhos.
No início de 2011, de 24 de janeiro a 17 de fevereiro, 30 dos 35 jovens foram de novo entrevistados: 27 entre 15-18 anos; 1 de 14; 2 de 21; 15 de cada sexo. As entrevistas centraram-se nas motivações para participar e consumir notícias (inclusive pensar as notícias para jovens), na cobertura das eleições e na envolvência familiar, dando seguimento a temas levantados previamente pelos informantes. A escolha da data (após as presidenciais) já estava decidida desde fevereiro de 2010. A proximidade do ato eleitoral para a Presidência da República (23 de janeiro de 2011) permitiu que os informantes falassem das eleições com maior proximidade temporal e que pudessem corresponder ao desafio pedido na altura da marcação das entrevistas.
Antes das eleições, estabelecemos contactos com os jovens no sentido de procederem à recolha de material no período oficial de campanha (conversas, notícias, ou outros suportes que os tivessem interpelado; no caso do bairro e de uma das escolas aderentes do Parlamento dos Jovens recorremos às técnicas e à professora), mas ainda sem marcar as entrevistas, agendadas na totalidade depois das eleições.
A reflexão sobre esses dados fez parte das perguntas quebra-gelo da se- gunda entrevista. Outra pergunta tinha que ver com a descrição das implica- ções que a primeira entrevista poderia ter tido nas suas atividades ligadas à participação e ao consumo de notícias. O ponto de partida foi não impor ou condicionar a continuação da participação no projeto. Era pretendido que as entrevistas fossem feitas até um mês depois das eleições, o que aconteceu. A quase totalidade das entrevistas foi efetuada até ao final da primeira semana de fevereiro, ou seja, nos 15 dias que se sucederam às eleições presidenciais. Esta fasquia foi fundamental para a evolução da investigação, pois significou um ponto final naquilo que poderia ser uma incerteza de pesquisa.
No início da segunda entrevista, começámos por fazer um resumo da anterior, tanto na forma como no número de entrevistas, receção e temas que se destacaram e que seriam aí abordados. Explicámos também que as questões incidiam em perguntas sobre as eleições, as motivações para con- sumo/participação noticiosa, os ambientes de casa e entre amigos com os me- dia. As perguntas quebra-gelo tinham que ver com uma reflexão sobre a in- vestigação e de que forma a primeira entrevista os interpelara, aproveitando
ainda, como já referimos, para pedir que indicassem se tinham recolhido ma- terial durante a campanha. Explicámos ainda que o desenho da segunda en- trevista fora condicionado pelos resultados da primeira, no que concerne à ênfase evidenciada dos contextos familiares. Isso constituíra um facto inespe- rado, pois tínhamos considerado que os contextos de sociabilidade entre pares seriam mais relevantes, o que nem sempre se verificara.