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2. F UNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.2. Consumo de bebidas alcoólicas

2.2.1. Epidemiologia

A Promoção da Saúde só pode ser delineada e eficazmente implementada com a ajuda dos avanços da epidemiologia e das ciências estatísticas. Só assim podemos ter uma visão da dimensão deste fenómeno enquanto problema de saúde pública (Matos, 2008). Os grandes avanços nos estudos epidemiologicos nesta área surgiram a partir de 1952 com Jellinnekd, sendo que se tornaram mais intensos a partir da década de 70 (Palha, 2007).

O consumo de álcool e de bebidas alcoólicas é medido, ao nível populacional, em termos de consumo per capita. O cálculo é baseado na totalidade de bebidas alcoólicas consumidas em Portugal, que é estimado com base nas estatísticas de produção e nas vendas das distintas bebidas alcoólicas, tendo em conta as exportações e importações. Este cálculo não inclui a produção doméstica de bebidas alcoólicas que, como se sabemos, é muito alta no nosso país, nem tem em conta os produtores de vinho existentes e não declarados e a produção ilegal de outras bebidas que não o vinho. O consumo per capita fornece-nos então, apenas uma estimativa do consumo e

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não o consumo exato atual. Em Portugal, o consumo per capita é dos mais elevados do mundo, tendo-se situado, em 2000, em 10,8 L de álcool puro, sendo assim o terceiro consumidor mundial.

Em Portugal o elevado consumo relaciona-se claramente com a grande produção, que em 1999 foi de 7,8 milhões de litros de vinho, ocupando deste modo o 9.º lugar como produtor mundial; a produção de cerveja, em cerca de 6,8 milhões de litros. Cada português gasta, em média, 150 euros por ano em bebidas alcoólicas, mais do que na maior parte dos produtos alimentares considerados isoladamente; de frisar que este montante sobe para 1500 euros no caso dos doentes alcoólicos (Mello, Barrias & Breda, 2001).

Desde 1970 registou-se um aumento de 10% no consumo de etanol. O consumo de cerveja tem vindo a aumentar vertiginosamente, com incremento superior a 390% entre 1970 e 2000, sendo que cada português consumiu 65,3 L de cerveja. O consumo de bebidas destiladas situou-se acima de 1 L de etanol, tendo aumentado cerca de 180%. Salienta-se que a capitação de vinho e bebidas destiladas se encontra subestimada em virtude de existir grande produção não declarada destas bebidas e, portanto, sem integração nas estatísticas oficiais. Finalmente, embora o consumo de vinho tenha diminuído nas últimas décadas, de forma apreciável, vem-se registando, um aumento marcado do consumo de cerveja e de bebidas destiladas (Matos, 2008).

Estes dados vão de encontro aos dados publicados pela OMS (2006), que demonstram que o consumo de cerveja e de bebidas espirituosas aumentou desde 1990 até 2005, contrariamente ao vinho que viu o seu consumo ser bastante reduzido, apesar de continuar a ser a bebida mais consumida em Portugal (figura 1).

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Figura 1. Consumo de álcool por tipo de bebidas em adultos em Portugal (2005)

Fonte: OMS, in Socioecomic context, 2006

No entanto, em conformidade com o que tem acontecido em outros países, também em Portugal os hábitos de consumo de bebidas alcoólicas sofreram, nos últimos anos, alterações, destacando- se as seguintes tendências:

 distinto aumento de consumo de cerveja;

 progressivo consumo de bebidas alcoólicas pela mulher;  crescente consumo de bebidas alcoólicas pelos jovens,

 crescente consumo de bebidas destiladas, mais fortemente alcoolizadas  internacionalização e uniformização dos hábitos de beber;

 consumo de novas bebidas (Matos, 2008).

Segundo Mello, Barrias, & Breda (2001), em Portugal mais de 80% dos homens e 50% das mulheres consomem bebidas alcoólicas, sendo que esse consumo é realizado diariamente, ao longo do dia. Os mesmos autores referem ainda que 80% das mulheres mantêm os seus hábitos de ingestão durante a gravidez e a amamentação e que o início dos hábitos de consumo é precoce, sendo que mais de 60% dos jovens com idades compreendidas entre os 12 e os 16 anos, e mais de 70% acima dos 16 anos, consomem regularmente bebidas alcoólicas.

Cerveja 31% Vinho 55% Bebidas espirituosas 10% Outras 4%

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Ainda de acordo com o Inquérito Nacional de Saúde (1999), foi revelado que cerca de 60% da população residente em Portugal Continental, bebeu pelo menos uma bebida alcoólica em 1998 e o número de consumidores masculinos (82,2%) é muito superior ao número de consumidores femininos (45,8%). Nos indivíduos investigados dos 15 aos 17 anos, 35% afirmou ter bebido nesse ano e foi esse o único grupo etário que aumentou os consumos comparativamente aos dados recolhidos no inquérito anterior (como citado em Cunha, 2002). Estes dados vão de encontro a dados mais atuais, como o relatório preliminar do III Inquérito Nacional ao consumo de substancia psicoativas lícitas na população portuguesa realizado em 2012 (figura 2).

Figura 2. Prevalência do Consumo de Substâncias Psicoativas Lícitas no Último Ano, por sexo

Fonte: Balsa, Vital & Urbano, 2012

Face a estes resultados facilmente se compreende que estes têm repercussões na saúde dos indivíduos. É constante referir-se que cerca de 10% da população do país apresenta graves inaptidões ligadas ao álcool, no entanto, sabe-se que apenas 15 a 25% de indivíduos se privam ou consomem esporadicamente bebidas alcoólicas. A parte restante, cerca de 60% da população adulta, corresponde ao grupo dos bebedores regulares de álcool. É precisamente neste grupo maior da população que se encontram os bebedores excessivos, muitas vezes não identificados

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como tal. Por efeito do álcool, neste grupo há uma elevada morbilidade (Mello, Barrias & Breda, 2001).

Segundo os mesmos autores o álcool é a principal causa de morte em acidentes de viação, sendo a causa direta e principal, em 40 a 50% dos acidentes mortais, e uma das causas associada, em 25 a 30% dos outros acidentes, com feridos. A incidência do alcoolismo, na morbilidade que leva a população aos cuidados hospitalares, ronda os 90% nas hepatopatias e cirrose e os 60% nas pancreopatias. É também elevada na doença cardiovascular, nos acidentes vasculares cerebrais e na doença oncológica, entre outras, em que o álcool desempenha papel causal, co-causal ou de

agravamento da doença. Nos últimos anos, tem-se vindo a pôr em relevo a relação dose-resposta

entre consumo de álcool e risco de morbilidade, em especial na cirrose hepática e no cancro da boca, faringe, laringe e esófago, fígado e mama.

Em análise a estes dados apresentados, com facilidade se depreende que o consumo de álcool a nível nacional, e principalmente nos jovens tem proporções enormes, o que se transforma num grave problema de saúde pública, merecendo de todo intervenções com vista à diminuição deste problema.

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