• Nenhum resultado encontrado

Equilíbrio Geral: O modelo de Harberger

No documento ECONOMIA DO SETOR PÚBLICO 1 (páginas 151-160)

6.4 Pobreza

7.1.4 Equilíbrio Geral: O modelo de Harberger

Hipóteses do Modelo Considere uma economia que produz dois bens, X e Y; a partir de 2 insumos, capital, K, e trabalho, L, ambos em oferta …xa. A tecnologia em ambos os setores exibe retornos constantes de escala.

Suporemos ainda que há perfeita mobilidade de fatores e agentes com preferências idênticas e homotéticas.

Equilíbrio competitivo sem impostos A tecnologia é descrita por meio das funções custo das …rmas,CX(X; r; w) e CY (Y; r; w), onde r é o preço do aluguel do capital ew é o salário.

Como a tecnologia exibe retornos constante de escala, temos que CX(X; r; w) = XcX(r; w) e CY (Y; r; w) =Y cY (r; w):

O ótimo das …rmas é a condição de determinação dos preços dos bens como função dos preços dos insumos e (geralmente) da quantidade produzida. Em uma economia competitiva isso ocorre no ponto em que preços são igualados aos respectivos custos marginais,pX =cX(r; w), para o setorX epY =cY (r; w), para o setorY.

Note que como a tecnologia é caracterizada por retornos constantes de escala o preço de equilíbrio independe da quantidade produzida,pi =ci(r; w) i=X; Y:

As demandas por insumos, por sua vez, são determinadas de acordo com o lema de Hotelling pela condição,

Li =iciw(r; w) e Ki=icir(r; w) i=X; Y:

As duas equações seguintes determinam as condições de equilíbrio nos mercados dos fatores trabalho e capital, respectivamente,

cXw(r; w)X+cYw(r; w)Y =L;

e

cXr (r; w)X+cYr (r; w)Y =K:

Dados,X,Y,LeK;as duas equações determinamr ew:Ocorre queXeY são tam-bém endógenas. Portanto, precisamos de mais equações para acharmos o equilíbrio da economia. Precisaremos, portanto, olhar para a demanda da economia.

A demanda marshalliana pelos bensXeY são dadas porX pX; pY; R eY pX; pY; R ; ondeR=pXX+pYY =wL+rK:

O equilíbrio do mercado de bens é, então, dado por

X pX; pY; R =X; e Y pX; pY; R =Y

Como dissemos antes, estaremos supondo que as preferências dos agentes são idênticas e homotéticas. Neste caso, podemos escrever a demanda Marshalliana do indivíduoh como

Xh pX; pY; Rh =x pX=pY Rh e Yi pX; pY; Rh =y pX=pY Rh:

Temos, então, que a razão entre as demandas agregadas dos bensX eY é igual a X

Y = P

hXh pX; pY; Ri P

hYh(pX; pY; Ri) = x pX=pY P

hRh y(pX=pY)P

hRh = x pX=pY y(pX=pY); i.e., uma função da razão de preços simplesmente.

Note que, como pi =ci(w; r) podemos resolver o sistema e achar w e r de equi-líbrio.

O que vamos fazer a seguir é introduzir impostos ad valorem sobre os preços de bens e insumos e analisar seus efeitos sobre preços e quantidades de equilíbrio.

Todos os Impostos Possíveis Agora devemos distinguir o preço ao ofertante de bens (…rmas) e insumos (inidvíduos) e ao demandante de bens (indivíduos) ou insumos (…rmas). A maneira mais conveniente de de…nir é considerar que todos os preços são preços ao ofertante e deixar explícito o imposto pago pelo demandante.

A lógica é simples se o preço do aluguel do capital, r, ou da mão-de-obra, w; é diferente de um setor para outro, então os ofertantes redirecionarão sua oferta (no caso da mão de obra, migrarão) para o setor que pague mais, igualando, em equilíbrio, o preço ao ofertante nos dois setores.

Assim, quando todos os bens e insumos são tributados temos as novas condições de determinação dos preços dos bens,

pX =cX r 1 +tKX ; w 1 +tLX e

pY =cY r 1 +tKY ; w 1 +tLY : Equilíbrio no mercado de fatores,

cXw r 1 +tKX ; w 1 +tLX X+cYw r 1 +tKY ; w 1 +tLY Y =L e

cXr r 1 +tKX ; w 1 +tLX X+cYr r 1 +tKY ; w 1 +tLY Y =K Equilíbrio no mercado de bens,

X pX 1 +tX ; pY 1 +tY ; R =X e

Y pX 1 +tX ; pY 1 +tY ; R =Y onde (supondo que os impostos são retornados lump-sum),

R =pX 1 +tX X+pY 1 +tY Y =wL+rK+T com

T =rtKXKX +rtKYKY +wtLXLX+wtLYLY +pXtXX+pYtYY:

Análise de incidência Há, em um certo sentido, um excesso de impostos neste modelo, já que somente preços relativos importam. O que vamos fazer a seguir é analisar a introdução de dois impostos especí…cos: um impostotKX no uso de capital no setor X e um impostotX no produto do setor X:

Para que possamos usar as ferramentas do cálculo diferencial, suporemos variações in…nitesimais dos impostos em torno da situação inicial em que não existem tributos, i.e., estaremos considerando: um imposto in…nitesimal, dtKX, no uso de capital no setorX e um imposto in…nitesimal, dtX, no produto do setorX:

Neste caso teremos a condição de determinação dos preços dos bens, pX =cX r 1 +tKX ; w e pY =cY (r; w);

as equações de equilíbrio nos mercados de fatores,

cXw r 1 +tKX ; w X+cYw(r; w)Y =L; e cXr r 1 +tKX ; w X+cYr (r; w)Y =K;

e as equações de equilíbrio nos mercados de bens,

X pX 1 +tX ; pY; R =X e Y pX 1 +tX ; pY; R =Y onde

R=pX 1 +tX X+pYY =wL+rK+T com

T =rtKXKX +pXtXX

Como a totalidade do imposto volta de forma lump-sum para o agente, a análise de incidência …ca facilitada e os efeitos são efeitos puros de distorções. Além disso, como já falamos, o exercício consiste de uma avaliação de uma variação in…nitesimal de impostos em torno de tKX =tX = 0: Primeiro note que, da restrição de recursos da economia, e da hipótese de oferta …xa de insumos, vem

dKX+dKY =dLX+dLY = 0:

Assim, de…nimos para cada variável z; z^ dz=z = dlogz como a taxa de vari-ação da variável (o uso do acento circun‡exo nas variáveis para denotar sua varivari-ação percentual levou o procedimento a ser chamado por muitos de álgebra do chapéu).

As duas restições de recursos da economia podem, então, ser reescritas como KXK^X +KYK^Y = 0 e LXL^X +LYL^Y = 0:

Seja KX KX=K;com de…nições análogas para KY; LX e LY:

Esses parâmetros podem ser usados pra medir intensidade relativa do uso de fatores em cada setor. Obviamente, KX + KY = LX + LY = 1: Assim se, por exemplo, KX =:4e LX =:3, então KY =:6 e LY =:7. Dizemos que o setorX é mais capital-intensivo e menos trabalho-intensivo que o setorY ( KX= LX = 4=3>

6=7 = KY= LY). Note que se trata de intensidade relativa.

Como conseqüência temos K^Y =

KX

KY K^X e L^Y =

LX

LY L^X. (7.1)

De…na agora

X @logKX=LX

@logr=w e Y @logKY=LY

@logr=w ,

a elasticidade de substituição na produção nos setores X e Y, respectivamente.

Então,

K^X L^X = X ^r w^+dtKX ; (7.2)

K^Y L^Y = Y (^r w)^ ; (7.3)

ou

K^X L^X = X ^r w^+dtKX ; e

KX KYK^X +

LX

LY L^X = Y (^r w)^ :

Multiplicando a segunda equação por LY= LX e somando temos K^X 1

KX KY

LY

LX = X r^ w^+dtKX

LY LX

Y (^r w)^ ou

K^X LX

KX KY

LY = LX X + LY Y (^r w)^ X LXdtKX

Lembrando que

KY LX KX LY = 1 KX LX KX 1 LX = LX KX

e de…nindo LX KX = KY LY;temos:

K^X = X LX + Y LY KY ( ^w ^r) X KY LXdtKX (7.4)

Note que é exatamente o sinal do parâmetro que determina qual setor trabalho-intensivo e qual setor é capital trabalho-intensivo; > 0 (resp., < 0) implica em que o setorX seja trabalho-intensivo (resp., capital-intensivo) e o setorY capital-intensivo (resp., trabalho-intensivo)

Precisamos agora determinarw^ r:^ Para tanto, começamos com a relação (muito usada na contabilidade do crescimento econômico) entre produto e rendas dos fatores.

De…namos agora as participações relativas das rendas do capital e do trabalho em cada setor como, sKX rKX=pXX com de…nições análogas para sKY; sLX e sLY: Naturalmente,sKX+sLX =sKY +sLY = 1:

Então,2

X^ =sLXL^X +sKXK^X = ^KX+sLX L^X K^X Y^ =sLYL^Y +sKYK^Y = ^KY +sLY L^Y K^Y Usando (7.2) temos

X^ = ^KX +sLX X r^ w^+dtKX Da mesma forma, fazendo uso de (7.3) e das relações (7.1) temos

Y^ = ^KY +sLY Y (^r w)^

=

KX

KY K^X +sLY Y (^r w)^

Subtraindo uma equação da outra, e lembrando que KY + KX = 1, é possível obter,

X^ Y^ = K^X

KY + sLX X sLY Y (^r w) +^ sLX XdtKX:

2Vale lembrar que com uma função de produção com retornos constantes (homogeneidade de grau 1) temos

dF =@F(K; L)

@L dL+@F(K; L)

@K dK:

Po outro lado, competição perfeita garante que

p@F(K; L)

@L =wep@F(K; L)

@K =r;

donde

dF F = wL

|{z}pF

sL

dL L + rK

|{z}pF

sK

dK K .

Usando a equação (7.4) X^ Y^ = K^X

KY + sLX X sLY Y (^r w) +^ sLX XdtKX O lado direito da expressão pode ser reescrito

( ^w r) [^ X LX+ Y LY LX KX sLX X+

Usando agora as funções demanda e, particularmente sua homoteticidade, i.e., usando o fato de que

X

Esta equação introduz uma nova incógnita com a mudança de preços relativos.

Porém, diferenciando as equações pX =cX r 1 +tKX ; w epY =cY (r; w) tem-se

Logo, onde s =sLX sLY é positivo se e somente se a participação do trabalho é maior no setor X do que no Y:

Note que

s = rKwL pXXpYY Substituindo (7.7) em (7.6), tem-se que

X^ Y^ = " s ( ^w ^r) +sKXdtKX+dtX

Multiplicando agora a equação acima por e fazendo uso de (7.5) podemos escrever

Para facilitar a discussão, consideremos alguns casos particulares.

Caso tKX >0; tX = 0 Neste caso a expressão (7.8) torna-se

O termo de substituição é o primeiro que nos vem à cabeça quando pensamos no efeito da tributação do capital no setor X: Diz respeito ao fato de que as …rma do setor X tenderão a usar menos capital e mais trabalho para cada nível de produção de X: Esta não é toda a história, porém. A tributação do capital no setor X eleva o custo marginal de X (basta que o capital seja um ‘insumo normal’) e, portanto, o seu preço. Os consumidores tenderão a substituir X por Y levando a uma mudança na composição da economia, com a ampliação do setor Y e contração do setor X:

O efeito sobre w^ ^r dependerá da intensidade relativa do uso de capital e trabalho nos dois setores. Se o setor X for relativamente mais intensivo em capital w^ r^ tenderá a aumentar, o contrário ocorrendo seX for relativamente mais intensivo em mão-de-obra.

Há vários casos interessantes a serem considerados. Primeiro, se supusermos que as funções de produção são do tipo Leontie¤ (i.e., elasticidade de substituição igual a 0) teremos,

A intensidade relativa do uso dos fatores será crucial para determinar o efeito sobre o preço relativo.

Supondo que ambas a função de produção e as preferências sejam Cobb-Douglas temos, "= X = Y = 1 e a expressão é simpli…cada para E a expressão pode ser simpli…cada para

^

Quando somente o bem …nal é tributado, o único efeito sobre o preço relativo dos fatores dá-se por meio da composição setorial.

Limitações da Análise Negligenciamos efeitos-renda. De fato, como a análise é realizada em torno de t = 0, não há efeitos de primeira ordem na utilidade, que é, desta forma mantida constante.

Adotamos hipótese não realista acerca das preferências. A hipótese de homoteti-cidade nos permite simpli…car sobremaneira o problema. No entanto, é uma hipótese usualmente rejeitada empiricamente.

Negligenciamos a possível existência de outras distorções. Isto é verdade tanto no que concerne às políticas públicas (i.e., ignoramos salário mínimo, outros impostos, etc.) quanto a própria existência de mercados não-concorrenciais.

Supomos que os insumos estão em oferta …xa. No caso do estoque de capital, essa hipótese parece associada com uma análise estática já que o estoque de capital é …xo no curto prazo. Para a oferta de trabalho, porém, a hipótese parece ir de encontro à evidência mesmo no curto prazo (principalmente se considerarmos as respostas na margem extensiva).

Finalmente, cabe lembrar que estamos lidando com uma economia fechada. Se admitirmos que o capital é móvel, a própria noção de oferta …xa no curto prazo deixa de ser válida. Porém, a análise em economia aberta exige a escolha das dimensões em que essa hipótese é feita. Livre comércio? Perfeita mobilidade de capital? Algumas dessas hipóses podem, de fato, tornar toda a análise desinteressante.

No documento ECONOMIA DO SETOR PÚBLICO 1 (páginas 151-160)