GENERALIDADES DA APOSENTADORIA ESPECIAL
3.6 EQUIPAMENTO DE PROTEÇÃO INDIVIDUAL E COLETIVO
Um dos principais fundamentos para o indeferimento do benefício de aposentadoria especial se dá pela utilização de EPIS – equipamentos de proteção individual, ou EPCs – equipamentos de utilização coletiva pelo segurado, os quais eliminariam os danos ao organismo.
O emprego desse tipo de equipamento visa diminuir os danos ao organismo, conseguindo ou não, em cada caso esse desiderato.
103 BRASIL. Turma Recursal de Santa Catarina. Previdenciário. Recurso de Sentença Cível 2007.72.95.004073-4, de 04 de novembro de 2008.
Segundo Wladimir Novaes Martinez104,
O direito ao benefício dispensa, por parte do interessado, a prova de ter havido tal prejuízo físico, bastando, consoante filosofia da lei, a mera possibilidade de sua ocorrência (probabilidade de risco).
A definição de equipamentos de proteção individual – EPIs pode ser encontrada na Norma Regulamentadora 06, item 6.1, da Portaria nº. 3.214/78 do Ministério do Trabalho:
Considera-se equipamento de proteção individual todo dispositivo de uso individual destinado a proteger a integridade física do trabalhador105.
Equipamentos de proteção coletiva – EPCs, conforme defini Wladimir Novaes Martinez106,
São construções erigidas pela empresa visando a defender o trabalhador de acidentes do trabalho, doenças profissionais ou do trabalho e, sobretudo, em razão da exposição aos riscos.
Em outra obra de sua autoria, expõe o mesmo que107,
Medidas coletivas de controle são políticas gerais, visando a proteção agrupada do trabalhador. A NR-9 coloca-as em primeiro lugar; antes de medidas administrativas e equipamentos individuais. Com elas, a empresa diminui o impacto principal dos agentes agressivos, e normalmente,
104 MARTINEZ, Waldimir Novaes. Questões atuais envolvendo aposentadoria especial, Revista da Previdência Social nº. 217, p. 1049.
105 BRASIL. Portaria do Ministério do Trabalho e do Emprego nº. 3.214, de 08 de junho de 1978, Aprova as Normas Regulamentadoras - NR - do Capítulo V, Título II, da Consolidação das Leis do Trabalho, relativas à Segurança e Medicina do Trabalho.
106 MARTINEZ, Waldimir Novaes. Aposentadoria especial em 420 perguntas e respostas, p. 44.
por sua extensão, acaba protegendo também os exercentes de atividade comum.
A simples informação no laudo pericial citando o fornecimento de EPIs ou EPCS não faz presumir que o equipamento tenha neutralizado totalmente o agente agressivo.
Simone Fortes e Leandro Paulsen108 ensinam que
É preciso provas concretas da qualidade técnica do equipamento, descrição do seu funcionamento e efetiva medição do quantum que o equipamento pode elidir ou se realmente pode neutralizar e, principalmente, desde quando a empresa passou a adotar tal medida. Entender de forma diversa seria indeferir sempre a aposentadoria especial, pois a legislação exige apenas informações sobre a existência de tecnologia de proteção coletiva ou individual que diminua a intensidade do agente agressivo a limites de tolerância e recomendação sobre a sua adoção pelo estabelecimento respectivo.
A jurisprudência tem adotado o posicionamento de que o fornecimento desses equipamentos não elide o enquadramento da atividade como especial, principalmente quando não afasta o risco da atividade. De acordo com a Súmula nº. 289 do Tribunal Superior do Trabalho109,
O simples fornecimento de aparelho de proteção pelo empregador não exime o pagamento de adicional de
insalubridade, cabendo-lhe tomar as medidas que
conduzam à diminuição ou eliminação da nocividade, dentre as quais as relativas ao uso efetivo do equipamento pelo empregado.
108 FORTES, Simone Pereira e PAULSEN, Leandro. Direito da seguridade social: prestações e custeio da previdência, assistência e saúde. 1. ed. Porto Alegra: Livraria do Advogado, 2005, p. 202.
109 BRASIL. Tribunal Superior do Trabalho. Súmula nº. 289, aprovada na sessão de julgamento de 24 de março de 1988.
Marina Vasques Duarte110 destaca que
De fato, o mero fornecimento de EPI (equipamento de proteção individual) e EPC (equipamento de proteção coletiva) não elide o enquadramento da atividade especial. Mas, se ficar comprovado no caso concreto que o trabalhador de fato utilizava este equipamento e o perito atestar que ele afastava toda e qualquer possibilidade de prejuízo a saúde do trabalhador, não há motivo para enquadrar esta atividade como especial.
O Tribunal Regional Federal da 4ª. Região coaduna com o citado posicionamento111
PREVIDENCIÁRIO. BENEFÍCIO DE APOSENTADORIA ESPECIAL. ATIVIDADES INSALUBRES COMPROVADAS. CONCESSÃO. TUTELA ESPECÍFICA. 1. A exposição a ruído, com previsão nos códigos 1.1.6 do Quadro Anexo do Decreto nº. 53.831/64 e 1.1.5 do Anexo I do Decreto nº. 83.080/79, exigem tempo de trabalho mínimo de 25 anos para obtenção da aposentadoria especial. 2. O uso de EPI ou EPC só descaracteriza a especialidade da atividade quando efetivamente comprovado que o uso atenua, reduz ou neutraliza a nocividade do agente a limites legais de tolerância, e desde que se trate de atividade exercida após 02 de junho de 1998, pois até tal data vigia a Ordem de Serviço INSS/DSS nº. 564, de 9 de maio de 1997, a qual estatuía em seu item 12.2.5 que "o uso de Equipamento de
Proteção Individual - EPI não descaracteriza o
enquadramento da atividade sujeita a agentes agressivos à saúde ou à integridade física". 3. Comprovado o exercício das atividades especiais pela parte autora, por período superior a 25 anos, é devida a concessão da aposentadoria especial, com RMI equivalente a 100% do salário-de-benefício, nos termos do art. 57 e § 1º da Lei nº. 8.213/91, observado, ainda, o disposto no art. 18, I, "d" c/c 29, II, da Lei
110 DUARTE, Marina Vasques. Direito previdenciário, p. 245.
111 BRASIL. Turma Regional de Uniformização da 4ª Região. Previdenciário. Incidente de Uniformização no Juizado Especial 2007.72.51.004753-2, de 08 de maio de 2009.
de Benefícios. (TRF4, APELREEX 2008.71.00.007467-9, Turma Suplementar, Relator Ricardo Teixeira do Valle Pereira, D.E. 21/09/2009).
A atual instrução normativa INSS/PRESS 2007 prevê no parágrafo único do artigo 180, como citado na decisão acima, que a utilização do EPI será apenas considerada para os períodos após 11 de dezembro de 1998, não descaracterizando a especialidade nos períodos anteriores a tal data.
O §2º do artigo 58 da Lei nº. 8.213/91 passou a determinar que o laudo contivesse informação sobre a existência de tecnologia de proteção individual que diminuísse a intensidade do agente agressivo pelo estabelecimento respectivo a partir da Lei nº. 9.732, e 11/12/1998112.
A jurisprudência tem manifestado o sentido de que o simples uso de EPI, no caso de exposição ao ruído, por si só não descaracteriza o tempo de serviço especial.
A Súmula 09 da Turma Nacional de Uniformização prescreve que o uso de Equipamento de Proteção Individual (EPI), ainda que elimine a insalubridade, no caso de exposição ao ruído, não descaracteriza o tempo de serviço especial prestado113.
Maria Helena Carreira Alvim Ribeiro114 defini que
112 BRASIL. Lei nº. 8.213, de 24 de julho de 1991.
113 BRASIL. Turma Nacional de Uniformização dos Juizados Especiais. Sumula nº. 09, aprovada na sessão de julgamento de 13 de outubro de 2003.
114 RIBEIRO, Maria Helena Carreira Alvim. Aposentadoria especial: regime geral de previdência social, p. 295.
A conclusão coerente com a correta interpretação dos textos legais, é que o fato da empresa fornecer o EPI – Equipamento de proteção individual, ao empregado, e ainda que sejam utilizados tais equipamentos, não elide, por si só, o direito ao benefício de aposentadoria, com a contagem de tempo especial, cabendo analisar cada situação em particular.
Como o simples fornecimento do equipamento de proteção ao empregado não elimina a caracterização da especialidade da atividade desempenhada, pode ser determinada à realização da perícia para a comprovação da real exposição.