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Erros matem´aticos

No documento A Matemática na Imprensa Portuguesa (páginas 164-169)

4.2 Objetivos e quest˜oes de investigac¸˜ao

4.3.4 Erros matem´aticos

Causas Gravidade Diminuição Incompetência Negligência Má fé

Falta de espírito crítico

Mais graves Menos graves

Formação

Comunicação com leitores Curso Superior

Workshops Interpretação do que constitui o nível adequado de rigor

Lapso ou distração Fatores que condicionam incidência de erros Tempo Nº jornalistas na redação Tipo de trabalho Complexidade Tipo de autor

Figura 4.7: Modelo do processo de codificac¸˜ao da macrocategoria Erros matem´aticos

Observando a proporc¸˜ao de erros identificados nos artigos noticiosos — decorrente da an´alise conduzida no ˆambito do primeiro estudo desta investigac¸˜ao — ambos os entrevistados se manifestaram negativamente surpreendidos com os resultados do P´ublico (com erros em cerca de 35% dos artigos que cont´em informac¸˜ao matem´atica).

Comparando os resultados dos v´arios jornais, Manuel Carvalho sugeriu que a diferenc¸a na frequˆencia de erros entre o P´ublico e os outros dois jornais di´arios, em especial em relac¸˜ao ao Jornal de Not´ıcias (com erros em 17,89% dos artigos do jornal analisados), se justifica pela diferenc¸a de complexidade da informac¸˜ao matem´atica utilizada em cada um dos jornais:

Aquilo que eu acho que justifica estes valores, na minha opini˜ao — dando de barato que a competˆencia matem´atica dos nossos jornalistas ´e igual `a de todos os nossos colegas que trabalham nos outros jornais, partindo deste pressuposto — o que justifica que haja esta diferenc¸a ´e que n´os trabalhamos com conceitos matem´aticos e operac¸˜oes matem´aticas muito mais complexas do que o Jornal de Not´ıcias ou o Correio da Manh˜a, porque o n´umero [referindo-se `a proporc¸˜ao de erros] ´e muito parecido com o do Expresso, tendo em conta que a malta do Expresso tem mais

tempo para fazer contas do que n´os.

Na transcric¸˜ao anterior, Manuel Carvalho deixa antever ainda que o fator tempo poder´a justificar variac¸˜oes na frequˆencia com que ocorrem erros. Todavia, e n˜ao descartando a influˆencia deste fator, Andreia Azevedo Soares considera que o tempo pode ser uma ideia falaciosa, tendo em conta o impacto da conjuntura econ´omica atual nas redac¸˜oes:

Eu acho que essa ideia do tempo pode ser falaciosa porque, em tempos de crise, tamb´em ´e verdade que as redac¸˜oes s˜ao proporcionais ao trabalho que se faz... eu nunca calculei isso, mas acho que a redac¸˜ao do Expresso n˜ao deve ser t˜ao grande como a do P´ublico (...).

A editora acrescenta ainda que o tipo de trabalho tamb´em pode condicionar a existˆencia de erros:

Outra coisa a ter em conta ´e o facto de que, se vais fazer mais trabalho de fundo, em teoria s˜ao trabalhos mais pensados.

Para al´em do tempo e do tipo de trabalho, Andreia Azevedo Soares considera que o tipo de autor tamb´em ´e relevante. Em particular, ela refere que os artigos provenientes de agˆencias tˆem potencialmente mais erros que os outros:

Com maior frequˆencia eu tenho de corrigir erros da Lusa. N˜ao quer dizer que a Lusa esteja errada, o que eu quero dizer ´e que n´os n˜ao temos controlo da produc¸˜ao, est´as a usar um material como teu mas que n˜ao ´e teu. Isto influencia muito, n˜ao porque eles sejam piores, mas porque eu acho que eles s˜ao menos especialistas, na Lusa. Quando ´es jornalista de uma agˆencia vais fazer tudo. At´e podes ter malta que ´e mais de economia, mas fazes muitas coisas ao mesmo tempo e depois a press˜ao ´e muito maior, as coisas est˜ao sempre a sair.

Em acr´escimo aos fatores que condicionam a frequˆencia com que ocorrem erros, os en- trevistados abordam raz˜oes que justificam a existˆencia dos mesmos e que n˜ao se devem a constrangimentos do trabalho em redac¸˜ao mas sim a algo que ´e relativo aos jornalistas. Manuel Carvalho salienta, em particular, a falta de competˆencia matem´atica dos jornalistas que produzem e que fazem a revis˜ao e controlo dos artigos:

H´a colegas que tˆem dificuldade em entender a l´ogica de uma regra de 3 simples. Escrevem textos absolutamente sofisticados que requerem n´ıveis de compreens˜ao dos factos e de an´alise, de racioc´ınio e de inteligˆencia extraordin´arios. P˜oem-lhe uma operac¸˜ao matem´atica `a frente, uma divis˜ao com trˆes algarismos no divisor, estraga tudo.

Segundo o editor, este ´e um problema decorrente da formac¸˜ao dos jornalistas:

Nalguns cursos de jornalismo existe uma cadeira do tipo Introduc¸˜ao `a Economia, n˜ao existe em todos e, portanto, durante toda a formac¸˜ao superior os jornalistas podem pegar uma vez ou duas em n´umeros e chegam `a profiss˜ao completamente afastados daquilo que ´e a necessidade da matem´atica.

e da grande variedade e quantidade de temas que um jornalista deve dominar:

N´os temos de saber montes de coisas: temos de saber de pol´ıtica, de economia, de hist´oria, de ciˆencia pol´ıtica, de ideias, de hist´oria das ideias, h´a uma vastid˜ao enorme de ferramentas que temos de ter para entender aquilo que ´e o mundo e a matem´atica ´e mais uma.

No que diz respeito a erros que ocorrem na construc¸˜ao de gr´aficos, Manuel Carvalho aponta como causas a distrac¸˜ao e, principalmente, a incompetˆencia matem´atica do jornalista. J´a no que se refere a erros de omiss˜ao de informac¸˜ao matem´atica, o editor afirma que estes ocorrem porque o pr´oprio objetivo em jornalismo n˜ao ´e que as not´ıcias tenham “rigor” acad´emico:

Os [erros] mais not´orios s˜ao as omiss˜oes, mas por uma raz˜ao simples. Isto para n´os n˜ao ´e um problema, ´e um dado adquirido porque, repare, n˜ao temos a pretens˜ao de fazer trabalhos de rigor cient´ıfico e acad´emico. O jornal ´e uma coisa que se imprime num papel e que no dia seguinte serve para embrulhar peixe, como n´os dizemos muitas vezes.

No entanto, ele refere tamb´em que, pelo facto da informac¸˜ao estar omissa, n˜ao quer dizer que n˜ao tenha sido levada em conta como crit´erio para decidir se uma informac¸˜ao que chega `a redac¸˜ao ´e utilizada para produzir uma not´ıcia ou n˜ao.

N˜ao vamos fazer nada sobre isto, n˜ao vamos escrever uma linha sobre este estudo, sobre esta coisa que aqui temos nas m˜aos porque a amostra ´e muito pequena, irrelevante (...). Portanto, quando chegamos `a decis˜ao da publicac¸˜ao este tipo de crit´erios j´a foi analisado.

Por sua vez, Andreia Azevedo Soares considera que a omiss˜ao de informac¸˜ao, nomeadamente do m´etodo de amostragem usado num estudo, pode dever-se a ignorˆancia, negligˆencia ou a m´a f´e do jornalista, dependendo do que se pretende comunicar. No caso particular dos erros em operac¸˜oes aritm´eticas, a editora considera que estes constituem distrac¸˜oes que podem escapar `a atenc¸˜ao das entidades de controlo.

No que se refere `a percec¸˜ao da gravidade dos tipos de erros mais frequentes em not´ıcias de jornais portugueses, verifica-se que n˜ao existe concordˆancia entre os dois editores. Manuel Carvalho considera que os erros em operac¸˜oes matem´aticas s˜ao os mais graves.

Erros em operac¸˜oes aritm´eticas ´e claramente o mais grave por uma raz˜ao muito simples, porque subverte completamente a not´ıcia. Se no resultado de uma operac¸˜ao me diz que s˜ao 24 quando de facto a operac¸˜ao, se fosse bem feita eram 33, a not´ıcia est´a errada (...) subverte completamente tudo.

Por sua vez, Andreia Azevedo Soares considera que este tipo de erro, muitas das vezes ´e ´obvio, constituindo um lapso que facilmente o leitor percebe e corrige:

Esses erros em operac¸˜oes aritm´eticas muitas vezes s˜ao ´obvios. ´E da mesma forma como se estiver a faltar uma letra numa palavra, o meu c´erebro completa a letra e eu leio a not´ıcia na mesma. Vejo que existe um erro, mas se s˜ao coisas b´asicas, tipo um 4 em vez de 14 eu digo que n˜ao, n˜ao acho que seja [grave].

Note-se que estas posic¸˜oes n˜ao s˜ao claramente contradit´orias. De facto, enquanto Manuel Carvalho se refere efetivamente a erros em operac¸˜oes, Andreia Azevedo Soares parece referir- se mais a um erro tipogr´afico do que verdadeiramente a um erro numa operac¸˜ao matem´atica. Observa-se ainda que, apesar de n˜ao concordarem quanto ao tipo de erro matem´atico que consideram mais grave, ambos os jornalistas consideram que o erro mais grave ´e aquele que presumivelmente subverte ou modifica a not´ıcia. Segundo Andreia Azevedo Soares os erros que mais subvertem a not´ıcia s˜ao os de omiss˜ao sobre o m´etodo de amostragem e o uso de n´umeros sem significado. Em particular, a editora ilustra o impacto que este segundo tipo de erro pode ter:

H´a uma Cˆamara que acha que tem de combater aquele problema e ent˜ao cria, a n´ıvel municipal, um programa de combate `a droga (...) umas pessoas acham que n˜ao se deve dar metadona, que deve ser a “frio”, outras acham que estamos a usar dinheiro p´ublico para tratar pessoas que n˜ao merecem nada. Enfim, h´a um conjunto de opini˜oes que passam pelo lado pol´ıtico que acabam por condicionar a opini˜ao que eu tenho sobre esse tipo de programas. Agora imagina que eu fac¸o uma not´ıcia a dizer que o programa desta Cˆamara s´o conseguiu recuperar 23% dos toxicodependentes. Esse n´umero pode estar correto, (...) s´o que ´e fundamental dizer qual ´e a taxa, na literatura m´edica, a taxa de reincidˆencia de pessoas deste tipo de grupo, que ´e alt´ıssima (...) se eu for fazer uma not´ıcia, e tentar focar esse dado factual mas n˜ao puser em contexto (...) isso vai ter um peso pol´ıtico muito grande, porque somos n´os, contribuintes, que estamos a pagar a recuperac¸˜ao dessas pessoas (...). ´E fundamental que venha um novo par´agrafo a dizer: “este n´umero

n˜ao destoa muito dos n´umeros mundiais, em que os programas de reabilitac¸˜ao com metadona tˆem taxas de reincidˆencia altas”.

No que se refere ao erro menos grave, Manuel Carvalho defende que ´e a omiss˜ao de informac¸˜ao sobre parˆametros necess´arios `a definic¸˜ao do m´etodo de amostragem ou da populac¸˜ao que serve de base a um estudo. Isto porque, segundo o jornalista, essa informac¸˜ao ´e utilizada a priori como crit´erio de produc¸˜ao de not´ıcias e, portanto, o facto de estar omissa na not´ıcia n˜ao quer dizer que essa informac¸˜ao n˜ao tenha sido ponderada, mas apenas que n˜ao se colocou vis´ıvel no produto final. J´a Andreia Azevedo Soares considera que o erro menos grave ´e a omiss˜ao de grau de confianc¸a ou margem de erro em sondagens, uma vez que, de acordo com ela, “h´a um senso comum de que, numa sondagem, s´o a express˜ao “sondagem” e “intenc¸˜ao de voto” sugerem que n˜ao s˜ao concretas, n˜ao s˜ao factos consumados, s˜ao intenc¸˜oes, tudo aquilo pode mudar”.

Andreia Azevedo Soares destaca ainda que a gravidade de um erro n˜ao depende exclusi- vamente do tipo de incorrec¸˜ao ou omiss˜ao em causa, mas tamb´em da sua localizac¸˜ao na estrutura da not´ıcia:

Por exemplo o uso de n´umeros sem associar o verdadeiro significado que tem no contexto da not´ıcia: se este n´umero em causa for um n´umero que me d´a o t´ıtulo ou o lead, tem uma gravidade que ´e maior do que se for um detalhe na not´ıcia. Dentro dos pr´oprios erros ´e vari´avel.

Para al´em de se pronunciarem sobre os erros matem´aticos que se identificam nas not´ıcias e as suas causas, os entrevistados apontaram ainda sugest˜oes que julgam promover a diminuic¸˜ao da incidˆencia de erros. Neste ˆambito, Manuel Carvalho expressa a necessidade de um maior investimento dos cursos de comunicac¸˜ao na formac¸˜ao matem´atica dos seus alunos:

Eu comec¸o a achar que nos cursos de comunicac¸˜ao social ´e necess´ario que as pessoas saibam mais de economia, mais de estat´ıstica e que saibam necessari- amente mais de matem´atica.(...) Eu acho que na estrutura curricular dos cursos tem que haver disciplinas de introduc¸˜ao `a economia e de introduc¸˜ao `a estat´ıstica, ou colocar a estat´ıstica no meio da economia, porque ´e uma forma das pessoas se familiarizarem com operac¸˜oes b´asicas. Porque de facto, em quest˜oes mais relacionadas com economia, com estudos, com sondagens, estat´ısticas, ´e isso que

´e [importante].

Tamb´em Andreia Azevedo Soares salienta a importˆancia de um maior investimento na formac¸˜ao matem´atica, e cient´ıfica em geral, dos futuros profissionais de comunicac¸˜ao, a par da contribuic¸˜ao de leitores e pessoas com bom n´ıvel de numeracia que, por meio do contacto com os jornalistas, podem expor os erros identificados. A editora considera ainda que se poderia estimular a

diminuic¸˜ao de erros se se estabelecessem parcerias entre os jornais e entidades como a Sociedade Portuguesa de Matem´atica para que se organizassem formac¸˜oes gratuitas de curta durac¸˜ao, tais como workshops, com o prop´osito de abordar alguns dos problemas identificados na utilizac¸˜ao da matem´atica nas not´ıcias.

No documento A Matemática na Imprensa Portuguesa (páginas 164-169)