Mapa territorial do estado do Piauí – 2004
5.1.4 Escolaridade das mulheres entrevistadas
Ainda em relação ao perfil das mulheres entrevistadas, busquei apreender seu grau de escolaridade, pois a educação, segundo Marshall (1967), é um dos critérios indispensáveis para o exercício da cidadania. Assim, quanto à escolaridade, a tabela 7 aponta que mais da metade das
entrevistadas completaram o ensino fundamental. De acordo com conversas informais, percebi que a maioria terminou o fundamental após sua inserção no CMTR (PI). No estado do Piauí – vale ressaltar –, onde a educação ainda é muito aquém da expectativa, completar o ensino fundamental produz nessas mulheres um sentimento de conquista. Lembro aqui que, em algumas comunidades daqueles municípios, só a partir dos últimos oito anos, vem sendo dada maior atenção às escolas públicas. No censo de 2000, realizado pelo IBGE35, por exemplo, o índice de alfabetização no estado do Piauí (0,135) era superior apenas ao estado de Alagoas (0,016) – muito distante do índice nacional (0,696). Quanto à escolaridade, a situação é ainda pior, pois o Piauí conseguiu ser o último no ranking brasileiro, com o índice de 0,124 – também longe do índice nacional (0,455).36
Mais recentemente, percebe-se, com base em alguns indicadores sociais, que houve aumento significativo das pessoas que começaram a estudar, a exemplo da diminuição da taxa de analfabetos, sobretudo, em quatro dos seis anos aqui usados, conforme se vê na tabela abaixo.
Tabela 6: Taxa de analfabetismo no Piauí – 2002-2007
Taxa de analfabetismo no Piauí – 2002-2007
Ano 2002 2003 2004 2005 2006 2007
% 25,59 28,40 27,31 27,37 26,25 23,41
Fonte: PNAD/Fundação Cepro.
No entanto, os dados do IBGE para 2008 mostram que 29% da população do estado é ainda de analfabetos. No caso das entrevistadas, apesar das conquistas recentes, um percentual menor, porém significativo, ainda não completou o ensino fundamental, como demonstra a tabela 7. Dentre as que não haviam concluído o ensino fundamental, algumas estavam retornando à sala de aula por meio do programa Educação de Jovens e Adultos (EJA). Três entrevistadas completaram o ensino médio e duas tinham o curso superior incompleto. O fato de apenas uma das mulheres dos grupos de base não ter o ensino fundamental completo pode indicar que estão mais assíduas à escola. Porém, os dados revelam que, apesar de toda a luta e dos avanços das trabalhadoras rurais, o nível de escolaridade das mulheres é ainda baixo, mas de certo modo, nos limites com os dados referentes à escolaridade da população do estado do Piauí.
35 Atlas de exclusão social no Piauí (LIMA, 2003). 36 Idem.
Tabela 7: Escolaridade das mulheres entrevistadas, segundo participação no movimento
Escolaridade Mulheres ligadas à coordenação
Mulheres ligadas aos grupos de base Total Fundamental incompleto 05 01 6 Fundamental completo 06 06 12 Médio completo 01 02 03 Superior incompleto 01 01 02 TOTAL 12 11 23
Talvez em virtude das suas condições em relação à escolaridade, as trabalhadoras rurais – mesmo antes de criarem oficialmente o CMTR (PI) (como está evidente no capítulo 2) –, já se preocupavam com a formação das mulheres, sobretudo, nos aspectos de gênero, sexualidade, política e dos direitos de modo geral. A prova disso é o material elaborado por elas próprias auxiliadas pela CPT, o qual resultou numa espécie de cartilha com nove temas para serem trabalhados com as mulheres, antes da realização do primeiro grande encontro das trabalhadoras rurais em 1988 (assunto já desenvolvido no capítulo 2). Os temas de cada encontro diziam respeito a:
Mulher e organização; a mulher e o sindicato; a mulher e a política; a mulher e os direitos; a mulher e as relações de gênero; a mulher e a sexualidade; por que a cozinha e a Igreja?; as diferentes formas de participação da mulher na sociedade. O nono encontro seria uma espécie de avaliação e tinha como proposta discutir os resultados práticos e a repercussão da cartilha na comunidade (RELATÓRIO DA CPT, 1987).
Da mesma forma, em dezembro de 1989, publicou-se a cartilha Nos olhos de Irene. Esse material foi elaborado já pela coordenação do CMTR (PI) com ajuda de uma voluntária italiana, que, por meio da Igreja Católica, prestava serviço nas comunidades de base, em algumas paróquias e à CPT na diocese de Teresina, no período do nascimento da mencionada associação das trabalhadoras rurais.
Com a cartilha pretendia-se oferecer a possibilidade de as mulheres refletirem sobre vida delas próprias a qual era de extrema pobreza e opressão de gênero, conforme se vê no início
do capítulo 2, e, assim, alimentar o sonho de acabar com as desigualdades, construir nova sociedade sem discriminação de classe e sem discriminação de sexo.
A tentativa de reconstituição histórica do CMTR(PI) mostrou que tais temas foram tornando-se parte do cotidiano das mulheres nas comunidades, nos grupos de base, nos encontros municipais, regionais e nas assembleias estaduais. A história mostrou, ainda, que, com o passar dos anos e o surgimento de novos desafios (por exemplo, a participação direta nos conselhos, na coordenação dos sindicatos e em outras organizações sociais, como mostrarei mais adiante), foram sendo incorporados outros temas: políticas públicas, violência, meio ambiente, geração de renda, economia solidária, política partidária, saúde da mulher, sexualidade. Contudo as temáticas gênero, política e direitos sempre estiveram presentes na formação, desde antes do nascimento da entidade até os dias atuais. Isso parece confirmar-se no fato de que a luta das mulheres por reconhecimento político, de gênero e pelos demais direitos não poderia ser enfrentada sem elevado grau de consciência por parte das associadas.
Diante do exposto, percebi que a formação aparece como uma das preocupações centrais do CMTR (PI), segundo se pode ver no capítulo 2, nas prioridades eleitas para cada triênio. Chamou a minha atenção o fato de o CMTR(PI) ter usado a realidade de miséria e opressão como conteúdo para o que elas chamavam de “formação para a luta”37, aspecto primordial no combate aos entraves para sua visibilidade como sujeito coletivo.
O modo de conduzir o processo de formação, conscientização e mobilização das “companheiras” (como assim se denominam) apresenta indícios de certa relação do movimento das mulheres com a pedagogia e, especificamente, com o método educacional de Paulo Freire: a realidade do oprimido passa a ser o conteúdo de formação para sua libertação. Segundo argumenta o autor mencionado, “A prática da liberdade só encontrará adequada expressão numa pedagogia em que o oprimido tenha condições de reflexivamente, descobrir-se e conquistar-se como sujeito de sua própria destinação histórica” (FREIRE, 1987, p. 05). Embora não esteja clara a relação desse movimento com a pedagogia freiriana, os fundamentos e seu método têm servido de inspiração aos movimentos sociais.
Nas conversas informais com as mulheres, facilmente se identificam trechos que revelam princípio metodológico de educação popular, por exemplo: “formação dentro do movimento”,
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Expressão comum no movimento das trabalhadoras rurais para expressar o saber que elas constroem fora da educação sistemática. Formação construída coletivamente, no movimento e parceiros.
“formação dentro do grupo”, “formação nas lutas”. Portanto, a prática cotidiana é, para a formação delas, o ponto onde tudo começa e para onde tudo converge. Nesse processo, ganharam relevância os aspectos político, de gênero e a formação no campo dos direitos. Conforme já disse, tais aspectos trabalhados conjuntamente proporcionam o envolvimento direto das trabalhadoras rurais com os movimentos sociais e a sociedade civil organizada, o que vai possibilitar-lhes a ampliação da capacidade de leitura sociopolítica e a formação prática para a participação na conquista dos seus direitos. Quanto mais elas conseguem engajar-se, mais crescem politicamente. O CMTR (PI) sempre esteve preocupado em ampliar a capacidade crítica das trabalhadoras como condição para a conquista da cidadania. A relação direta com o PT, a CUT, o MST, a parceria feita com a CPT, o Cepes, EPT, como demonstrado no capítulo 2, dentre outros, favoreceram, em grande parte, a formação política, inclusive político partidária.
Mesmo sem a leitura prévia de Marshall (1967), que colocou a educação como critério fundamental para a cidadania, as trabalhadoras apostaram e investiram na formação alternativa. Depois disso, entendi por que elas, principalmente algumas remanescentes do início da associação, evidenciavam discurso bem elaborado e eram corajosas para falar em qualquer lugar. Inclusive, conheci uma das trabalhadoras rurais do Piauí a ministrar palestra em um auditório cheio de alunos, na Universidade Federal do Piauí. A fala dela chamou-me a atenção pelo grau de consciência política e de gênero. No entanto, esse nível de formação e de politização não contemplava todas as mulheres da entidade: as mais antigas ligadas à associação (20 anos ou mais) manifestavam nível de formação privilegiado em relação às associadas há pouco tempo.
Além do exposto acima, verifiquei o aspecto ocupacional das mulheres entrevistadas. Esse tornou-se relevante para a pesquisa, porque elas se colocavam o tempo todo como combatentes não só pelo reconhecimento de gênero e político na construção da cidadania (direitos, de certa forma, ligados aos direitos mais subjetivos) mas também pelos direitos que implicassem mudança da qualidade de vida. Tal mudança levaria as mulheres e suas famílias a saírem da condição de extrema pobreza, onde reinavam fome, falta de água, falta de terra para trabalhar, de saúde, de estrada, dentre outros serviços públicos.