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5. 1 Apresentação das entrevistadas e alguns elementos da realidade social no momento de suas falas

Com o objetivo de facilitar análise dos sentidos que emergem do material colhido nas entrevistas, relatos e demais fontes de coleta, busco aqui situar a realidade vivida pelas trabalhadoras e trazer alguns aspectos do lugar e da condição a partir da qual elas continuavam sua luta para conquista e construção da cidadania. Tais mulheres provieram de diferentes municípios onde o CMTR (PI) funcionava no momento da pesquisa, conforme aponta a tabela abaixo.

TABELA 1: Distribuição das mulheres nos municípios por tipo de participação no movimento

Municípios Mulheres ligadas à coordenação Mulheres ligadas aos grupos de base

Total Amarante 01 01 02 Barras 01 01 02 Batallha 01 01 Esperantina 01 01 Morro do Chapéu 02 01 03 São J. Do Arraial 01 01 02 Piripiri 01 01 02 União 02 02 04 Pio IX 02 01 02 01 Queimada Nova 01 02 03 TOTAL 12 11 23

Como mencionado anteriormente, o universo desta pesquisa consiste das 60 sócias da associação e mais de 400 mulheres que indiretamente estão relacionadas às ações da referida entidade e a sua luta por cidadania. Porém, por causa do processo de desarticulação ou de rearticulação enfrentado pelo CMTR (PI) no momento da pesquisa, conforme narrado no capítulo 2, a amostra usada na tese limitou-se a 23 mulheres pertencentes ao quadro das associadas que estavam desenvolvendo atividades. Foram elas:

Amélia residia na sede do município de Amarante. Ela é aposentada, separada, mãe de dois filhos, católica integrante da CEB, sindicalizada, filiada ao PT, trabalhadora rural desde os 7 anos de idade e sócia-fundadora do CMTR(PI);

Betina residia em um assentamento rural do município de Morro do Chapéu. Casada, mãe de dois filhos, católica integrante da CEB, filiada ao PT e sindicalizada, entrou na luta desde a juventude.Trabalhava na agricultura e quebrava coco.Era presidente da associação de produtores rurais de sua comunidade e sócia fundadora CMTR (PI);

Celina, morava na sede do município de Pio IX. Separada, mãe de três filhas, católica integrante da CEB, filiada ao PT e sindicalizada, por desentendimento, havia passado para o PMDB. Um expediente trabalhava como zeladora de colégio e outro, na agricultura. Sócia- fundadora CMTR (PI);

Diva, aposentada, viúva, mãe de seis filhos, católica integrante da CEB, filiada ao PT e sindicalizada, morava numa comunidade rural no município de Esperantina, onde lutava por desapropriação há 25 anos. Praticava a agricultura e quebrava coco. Sócia-fundadora do CMTR(PI);

Enertina, viúva, mãe de seis filhos, aposentada, católica integrante da CEB, filiada ao PT e sindicalizada, residia na sede do município de União. Não mais trabalhava na agricultura; dedicava todo seu tempo às lutas sociais, inclusive estava fundando novo sindicato no seu município. Sócia-fundadora do CMTR (PI);

Francione, solteira, um filho, católica integrante da CEB, filiada ao PT e participante da CPT, morava na sede do município de Pio Nono com a família e trabalhava na agricultura. Sócia efetiva do CMTR (PI);

Guilhermina, casada, mãe de quatro filhos, católica integrante da CEB, filiada ao PT, sindicalizada, residia e trabalhava em terra arrendada no município de Piripiri. Teve participação direta no primeiro governo do PT no estado do Piauí (2002-2004), na Secretaria Especial de Gênero. Socia-fundadora do CMTR (PI);

Hilda, solteira, mãe de dois filhos, católica integrante da CEB, filiada ao PT, curso superior incompleto, sindicalizada, é assentada no município de Barras, porém, no momento morava com os pais velhinhos na sede do município. Entrou na luta sindical aos 15 anos. É sócia-fundadora do CMRT (PI);

Iara, separada, mãe de cinco filhos, católica integrante da CEB, filiada ao PT, sindicalizada, residia na sede do município no Morro do Chapéu. Trabalhadora rural e quebradeira de coco. Secretariava o sindicato. Sócia-efetiva do CMTR (PI).

Joana, casada, mãe de quatro filhos, católica integrante da CEB, sindicalizada e filiada ao PT, trabalhava na agricultura, mas não tinha terra. Sócia-efetiva do CMTR (PI);

Lídia, solteira, sem filho, católica integrante da CEB, estava presidindo o sindicato dos trabalhadores em seu município, residia e trabalhava em terra de quilombo, no município de Queimada Nova, fazia parte da Associação Estadual das Comunidades Quilombolas integrava o conselho do programa de erradicação da pobreza do Estado e era candidata a vereadora pelo PT depois conseguiu eleger-se. Sócia-fundadora do CMTR (PI);

Mariana, casada, mãe de oito filhos, aposentada, católica integrante da CEB, sindicalizada, filiada ao PT, iniciou a luta pela terra ainda em 1983 e integrou a CUT. Trabalhava, no momento da pesquisa, como agricultora e quebrava coco; morava no assentamento rural no município de São João do Arraial. Sócia-fundadora do CMTR (PI). Essas as integrantes da coordenação no período da pesquisa.

E ainda:

Rosa, casada, mãe de cinco filhos, católica, sindicalizada, coordenava a secretaria de mulheres do sindicato do município. Integrante do grupo de mulheres do município, trabalhava na agricultura familiar, terra arrendada, e residia na sede do município de São João do Arraial. Sócia-efetiva do CMTR (PI);

Jasmim, casada, mãe de cinco filhos, católica integrante da CEB, da CPT, Associação de Mulheres, sindicalizada, filiada ao PT, residia no assentamento no município de Barras. Socia- fundadora do CMTR (PI);

Violeta, casada, mãe de um filho, sindicalizada, membro da Assembleia de Deus, fazia parte do CEDH, participava do fórum de assentamentos e presidia a Associação de Mulheres. Residia no assentamento das mulheres organizadas na zona rural de Piripiri. Sócia-efetiva do CMTR (PI);

Sempre-Viva, casada, mãe de dois filhos, católica integrante da CEB, participava da pastoral da criança. Filiada ao PT, sindicalizada, quilombola, trabalhava na agricultura familiar e coordenava também o grupo de produção de remédio caseiro de sua comunidade. Residia na zona rural de Queimada Nova. Sócia-efetiva do CMTR (PI);

Cravo, casada, mãe de três filhos, católica integrante da CEB, sindicalizada, era tesoureira do sindicato e trabalhava na agricultura em terra de herança, além de fazer parte do grupo de artesanato de sua comunidade, município de Pio IX. Sócia efetiva do CMTR (PI);

Buganvília, mãe de um filho, católica, sindicalizada, agricultora e agente de saúde, fazia parte do grupo de produção e trabalhava em terras arrendadas. Residia na sede do município, Amarante. Sócia-efetiva do CMTR(PI);

Lírio, casada, mãe de dois filhos, católica integrante da CEB, sindicalizada, militante do PT, estava candidata à vereadora, assentada urbana, fazia parte da Associação de Mulheres. Trabalhava na agricultura grupo de produção da roça comunitária, mas residia na zona urbana de União. Sócia-efetiva do CMTR (PI);

Crisântemo, casada, cinco filhos, católica integrante da CEB, sindicalizada, militante do PT e integrante da Associação de Mulheres da CPT e assentada, trabalhava na agricultura, quebrava coco e participava do grupo de produção Morro do Chapéu. Sócia-efetiva do CMTR (PI).

Orquídea, casada, seis filhos, católica integrante da CEB, sindicalizada, fazia parte da Associação de Moradores e da Associação de Mulheres. Trabalhava na agricultura, em terra de herança, e fazia parte do grupo de produção na criação de galinha caipira. Morava na comunidade rural do município de União. Sócia- fundadora do CMTR(PI);

Tulipa, solteira, sem filho, católica integrante da CEB, Pastoral da Criança, sindicalizada, filiada ao PT, quilombola, participava do movimento de consciência negra, grupo de capoeira. Trabalhava na agricultura e no grupo de produção. Residia com os pais na comunidade quilombola, no município de Queimada Nova. Sócia-efetiva do CMTR(PI);

Vitória Régia, casada, mãe de dois filhos, católica integrante da CEB, funcionária pública municipal (professora), sócia do Cepes, fazia parte do conselho pastoral comunitário da paróquia de Batalha onde residia, e atuava na assessoria para as bases e para a coordenação Sócia-colaboradora do CMTR (PI).

Essas, de acordo com os critérios estabelecidos no capítulo 4, estavam engajadas ou desenvolviam atividades ligadas à base em seus municípios. Dentre elas, oito encontravam-se engajadas nos grupos de produção coordenados pelo CMTR (PI) e três (Buganvlía, Jasmim e Violeta) atuavam na articulação das mulheres de diferentes engajamento – CPT, MIQCB e sindicato – nos quais elas estavam engajadas com o CMTR (PI), principalmente em atividades de formação oferecida àqueles municípios.

Morro do Chapéu, União, Pio IX e Queimada Nova aparecem com maior número de mulheres, porque nos três primeiros, moravam duas mulheres da coordenação no mesmo município. Já em União e Queimada Nova no momento da pesquisa, dois grupos de produção funcionavam em cada um deles. O fato de estarem nos grupos de base não significa que todas fossem sócias efetivas, assim como nem todas engajadas na coordenação sejam sócias- fundadoras, ou seja, havia sócias-fundadoras e sócias-efetivas tanto na coordenação do CMTR (PI) quanto nos grupos de base. As mulheres que hoje atuam na coordenação continuam, na medida do possível, vinculadas às atividades nas bases. No momento da pesquisa, a associação se voltava sobretudo para três atividades: a formação das trabalhadoras rurais nos municípios pesquisados, o acompanhamento aos grupos de produção e a tentativa de rearticular as atividades do CMTR(PI) em maior número de municípios. Para o ano de 2010, previa-se a rearticulação em mais dois municípios. Desse modo, as informações oferecidas pelas mulheres entrevistadas e alguns dados de sua realidade constituíram o núcleo principal dos dados aqui apresentados.

Moravam na sede de seus municípios oito delas: Amélia, Celina, Ernestina, Francione, Hilda, Iara, Rosa e Lírio. As demais, nas comunidades rurais dos municípios já mencionados. Ali, suas casas eram construídas próximas umas das outras – geralmente o vizinho mais próximo era um parente. Exceto uma delas que não possuía casa própria, todas as outras moravam em casas que ofereciam, segundo elas, um padrão mínimo de segurança, ou seja, paredes seguras de tijolos, porta e chave.

Porém nem todas as casas das trabalhadoras tinham esse padrão, pois algumas ainda eram de barro cru ou, como chamavam, de adobe em condições precárias. Isso vem confirmar,

em parte, os dados sobre o deficit habitacional do Piauí apresentados no Seminário da Região Nordeste sobre Habitação, realizado em Recife, em novembro de 2007. Naquele evento, apontou-se um deficit habitacional rural no Piauí de 0,06 milhões, o qual corresponde a 21,7% de habitações dignas, que satisfazem à necessidade da população rural.

De acordo com as entrevistadas, quase todas as trabalhadoras dividiam o seu tempo entre as atividades da roça, trabalhos alternativos para complementação de renda e atividades de cunho social, político e religioso. A maioria eram mulheres casadas e mães, umas com filhos pequenos e outras já aposentadas. Mas havia também aquelas não casadas, e com filhos; algumas não casadas e sem filhos e duas viúvas.

A maioria das entrevistadas no momento da pesquisa trabalhava nas comunidades rurais, com exceção de duas da coordenação: estavam aposentadas, moravam na cidade e não mais trabalhavam na roça. Pude constatar que, em geral, conviviam ainda com inúmeras dificuldades em suas comunidades, a começar pelas necessidades básicas, como saúde, educação, estradas, água, transporte, inclusive as condições para um trabalho digno no cultivo do solo. Dentre as muitas dificuldades, destaca-se a pobreza – um dos elementos mais presentes na vida das famílias das trabalhadoras rurais e da população em geral no Piauí. Apesar de se tratar de um estado onde cresce a olhos vistos a implantação do agronegócio (principalmente na produção de carne e grão), os municípios padecem da realidade da exclusão social. No mapa subseqüente, apresento a localização das ações diretas e indiretas do CMTR (PI) de acordo com a divisão territorial do Estado.

Segundo dados Secretaria de Planejamento do Estado do Piauí, 2004, a divisão do Estado por regiões, reconhecidas pelos órgãos governamentais, se dá baseada em outros critérios, e não os usados pelas trabalhadoras rurais, como visto no capitulo 2. Hoje, por exemplo, a organização se dá da seguinte forma: o estado está organizado em quatro macrorregiões e onze territórios de desenvolvimento. As macrorregiões são: a) litoral, b) meio-norte, c) semiárido, d) cerrado (ver tabela anexo). Os territórios de desenvolvimento são: I e II, (as planícies litorânea e cocais); territórios III e IV, (carnaubais e entre os rios); territórios V, VI, VII e VIII, (Vale do Sambito, Vale do Rio Canindé e Serra da Capivara); território de desenvolvimento IX, X, XI, (vale dos rios Piauí e Itaueiras, tabuleiro do Alto Parnaíba e Chapada das Mangabeiras).

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