• Nenhum resultado encontrado

Segundo a UNESCO (2011), os centros históricos são conjuntos históricos urbanos, que foram construídos ao longo de gerações e estão entre as manifestações mais abundantes e diversas do patrimônio cultural comum, constituindo um testemunho crucial do trabalho e das aspirações da humanidade através do tempo e do espaço.

Na Carta de Petrópolis, apresentada no 1º Seminário Brasileiro para Preservação e Revitalização de Centros Históricos em 1987, centro histórico é definido como espaço que concentra testemunhos culturais de uma cidade. Não pode ser considerado um espaço estático, porque está em constante formação, e engloba também as atividades de seus habitantes e os valores produzidos no passado e no presente (IPHAN, 1987). Acreditamos que essa definição está incompleta, pois como visto inicialmente, toda a cidade vive constantes transformações. Entretanto, Costa (2015) e Neves (2010), complementam dizendo que o centro histórico é um núcleo central, berço da urbanização, também compreendido como um espaço vivo, simbólico que diferencia e dá identidade à cidade. Também afirmam que é resultante de constantes transformações, nas quais as marcas do tempo se fazem presentes em construções e em elementos que expressam valores estéticos e históricos.

Os espaços abertos públicos, mais comumente encontrados nos centros históricos são os da cidade tradicional: as ruas, os largos e as praças. As ruas são os elementos essenciais no centro porque é através delas que se tem acesso a comércios, a outros espaços abertos públicos e aos espaços privados. Os largos são trechos das ruas que se alargam e são resultado das construções orgânicas das cidades, intencionalmente ou não. As praças com suas funções de mercado ou religioso são, por excelência, locais de encontros sociais (Lamas, 2000). Estes espaços abertos públicos são onde a vida da sociedade acontece e onde a diversidade cultural se expressa.

79

Ao longo das últimas décadas tem sido verificada grande transformação nos centros de muitas cidades. São observados comumente: o esvaziamento dos centros urbanos e o consequente envelhecimento da população residente; a alteração do uso do solo, que passou de habitacional misto para comércio e serviços; o custo da manutenção das casas antigas e a oferta de habitação mais estruturada e com preços reduzidos nas periferias. Existem inúmeros fatores que contribuíram para o declínio e para a degradação dos centros históricos. No entanto, Costa (2015) defende que um dos maiores aspectos que se verificou foi a priorização do veículo em detrimento do transporte público e dos deslocamentos pedonais. O automóvel ocupou as ruas, tornando-as perigosas para os pedestres havendo prioridade no planejamento urbano para esse modo de locomoção, marginalizando os demais.

Outro aspecto que tem contribuído para a desvalorização dos espaços públicos no centro histórico é o do atual modelo social. A sociedade moderna estabeleceu excessiva valorização do novo e do utilizável, desdenhando assim de lugares relacionados com a ideia de “velho” ou antigo. Porém, estes elementos históricos e culturais têm atraído algumas pessoas e turistas que valorizam a história e a identidade. Sem dúvida, as causas descritas colaboraram para a desertificação humana dos centros; mas existem outras tais como, o alto valor do solo que atrai usos mais compatíveis com o mercado imobiliário, como serviços e comércios (Simplício, 2017 a). Ainda a restrição de espaço nos centros faz com que as pessoas se mudem para áreas mais espaçosas, tanto para residirem como para instalarem empresas e comércios.

Em contrapartida, Costa (2015) afirma que a singularidade dos centros históricos é a base para atração das mais diversas atividades destacando-se o turismo como um fator de dinamismo da economia local e do seu desenvolvimento que, se bem planejado, pode voltar a atrair as pessoas para o centro das cidades.

Em relação às infraestruturas viárias, Costa (2025) considera que os centros históricos são pouco adequados para o uso do automóvel, visto que a maioria das ruas são estreitas, sinuosas, sem muito espaço para circulação e estacionamento de veículos; afinal, a maioria desses centros foram pensados num contexto de cidade pedonal.

80

Todos estes fatores, nomeadamente o excesso de automóveis, o atual modelo social, o mercado imobiliário e a falta de espaço, constituem problemas para a conservação da qualidade do centro histórico, de modo a interferir em sua identidade e singularidade. Ao analisá-los, percebe-se que o pedestre é essencial para a revitalização destes espaços urbanos. No contexto de sustentabilidade urbana, a existência de uma rede de percursos pedonais contínua, acessível e bem definida é importante para garantir a segurança e a vitalidade socioeconômica de uma cidade.

As intervenções em centros históricos não devem colocar em risco os valores arqueológicos, históricos, arquitetônicos e ambientais que caracterizam esses lugares. Devem, portanto, seguir um conjunto de aspectos, de forma a potenciar a atratividade que valoriza a especificidade cultural e patrimonial, conforme descrito na Carta de Washington (IPHAN, 1987). Estes valores que devem ser preservados são os que conferem caráter histórico à cidade e o conjunto dos elementos materiais e espirituais que determinam a sua imagem urbana, nomeadamente:

a) a forma urbana definida pelo traçado das ruas e pelo parcelamento dos terrenos;

b) as relações entre os diferentes espaços urbanos: espaços construídos, espaços livres, espaços verdes;

c) a forma e o aspecto dos edifícios (interiores e exteriores) definidos através da sua estrutura, volume, estilo, escala, materiais, cor e decoração;

d) as relações entre a cidade e o ambiente envolvente natural ou criado pelo Homem;

e) as diferentes funções da cidade, adquiridas ao longo da sua história. Qualquer agressão a estes valores comprometeria a autenticidade da cidade histórica.15

Magalhães (1997) defende que a preservação dos elementos históricos de uma cidade é muitas vezes entendida como um obstáculo à revitalização das estruturas urbanas apresentando-se como uma forte condicionante às futuras intervenções. A autora ainda

15 Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN. Cartas Patrimoniais. Site: portal.iphan.gov.br/pagina/detalhes/226. Visitado em janeiro de 2018. Carta de Washington.

81

considera, ao citar Lynch, que as alterações que se realizam nestes lugares não devem copiar os elementos do passado, mas devem considerar aquilo que é indispensável conservar; deve-se intervir com sensibilidade num ambiente que já existe, preservar a sua imagem forte, resolver as consequências das dificuldades de percepção e fazer sobressair as estruturas e a individualidade desses lugares.

Para além disso, a UNESCO (2011) considera que, para proteger o patrimônio natural e cultural, deve ser enfatizada a necessidade de integrar as estratégias de conservação, gestão e planejamento urbano nos processos de desenvolvimento local e que a implementação de uma abordagem baseada na paisagem ajudará a manter a identidade urbana.