2. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
2.1. RELIGIÃO, RELIGIOSIDADE E ESPIRITUALIDADE
2.1.2. Espiritualidade
Nas últimas décadas tem se observado que muitas pessoas se identificam como “spiritual, but not religious” (espiritual, mas não religioso). Essa frase é título do livro de Robert C. Fuller (2001), o qual discute a religiosidade metafísica contemporânea, e a espiritualidade “sem igreja” (unchurched), eclética e psicológica. Segundo o dicionário etimológico da língua portuguesa, “espiritualidade” seria a qualidade do que é espiritual, ou seja, relativo ao espírito, ao incorpóreo e ao místico; e “espírito” é definido como “princípio animador ou vital que dá vida aos organismos físicos; sopro vital, alma.”.
Historicamente, não havia uma distinção específica entre espiritualidade e religião. Segundo Zinnbauer et.al. (1997), essa separação começou a surgir juntamente com o avanço do secularismo, quando houve uma “desilusão popular” em relação às instituições religiosas, que pareciam impedir o sujeito de experimentar um contato pessoal com o sagrado.
Assim sendo, embora a religião e a religiosidade incluíssem tanto uma esfera individual, quanto institucional, popularmente o termo “espiritualidade” emergiu como um fenômeno individual, ligado à transcendência pessoal, sensitividade e busca de sentido. Ao passo que, gradativamente, religiosidade tornou-se um conceito mais restrito a uma estrutura formal, institucional, à teologia e aos rituais (ZINNBAUER et.al., 1997).
O estudo desenvolvido por Zinnbauer et.al. (1997) é um dos poucos que compararam empiricamente religião e espiritualidade a partir de auto-relatos. Os autores investigaram uma amostra de 346 participantes, divididos em 11 grupos de diversos contextos religiosos (igrejas rurais Presbiterianas e Luteranas, igreja católica conservadora, episcopais não-tradicionais; grupos New Age, profissionais da saúde mental, estudantes etc).
No estudo, os participantes foram perguntados sobre como eles definiam os termos religiosidade e espiritualidade; em que grau eles definiriam a si mesmos como “religiosos” ou “espirituais”; quais suas crenças em relação a Deus; qual sua visão sobre a relação conceitual entre religiosidade e espiritualidade e quais conotações positivas e negativas eles atribuiriam a cada um dos termos (ZINNBAUER et.al., 1997). Em seguida, os autores observaram o quanto os resultados estavam associados a variáveis demográficas, de religiosidade e espiritualidade e psicossociais.
Os resultados do estudo mostraram que os termos religiosidade e espiritualidade parecem constituir, em parte, diferentes conceitos. Como esperado, “espiritualidade” foi descrita com mais frequência em termos pessoais ou experienciais, como acreditar ou ter um relacionamento com Deus ou com um “Poder maior”. Por outro lado, as definições de “religiosidade” incluíram tanto as crenças pessoais (Deus, Poder maior)
como também as crenças e práticas ligadas à organização ou à instituição, como ser membro de igreja ou estar comprometido com um sistema de crenças ligado a uma religião organizada (ZINNBAUER et.al., 1997).
No entanto, o estudo também observou que, embora religiosidade e espiritualidade pareçam descrever conceitos diferentes, eles não são completamente independentes. Houve uma correlação modesta, mas significativa entre religiosidade e espiritualidade, sendo que 74% dos participantes se consideraram ao mesmo tempo religiosos e espirituais (ZINNBAUER et.al., 1997). Apenas 19% dos participantes descreveram a si mesmos como “espirituais, mas não religiosos”. Entretanto, esse grupo de indivíduos se diferenciou dos demais de muitas maneiras, tais como:
Apresentar menor tendência a avaliar a religiosidade de forma positiva;
Menor chance de se comprometer com formas tradicionais de “adoração” ou devoção ou de apresentar crenças tradicionais e ortodoxas;
Mais propensão a se engajar em experiências grupais de desenvolvimento espiritual;
Ser mais agnósticos;
Maior tendência a ver religiosidade e espiritualidade como conceitos separados;
Maior chance de apresentar crenças não-tradicionais e “New Age”;
Mais propensão a ter experiências místicas.
Apesar do estudo não ter sido replicado no Brasil, o que pode apresentar um viés cultural na compreensão dos termos, esses dados são importantes para entender as características de um movimento que surge como uma forma de relacionar-se com o sagrado e o transcendente sem estar necessariamente atrelado a uma organização religiosa. Porém, a pesquisa de Zinnbauer et.al. (1997) traz à tona o ponto central da
dificuldade de conceituar religiosidade e espiritualidade: a correlação entre os conceitos ou o fato de que, muitas vezes, estão presentes ao mesmo tempo nas crenças e nos comportamentos das pessoas.
2.1.2.1. O conceito de espiritualidade na saúde
Harold Koenig (2008) afirma que o termo “espiritualidade” tem sido cada vez mais utilizado em estudos que examinam suas correlações com saúde mental e física. Por esse motivo, a necessidade de especificar o termo e diferenciá-lo de “saúde mental” ou de “bem-estar” é premente. Nesse sentido, Hufford (2012), ao analisar o campo da espiritualidade, religiosidade e saúde, aponta para a enorme dificuldade em definir e distinguir “religião” de “espiritualidade”. No entanto, sendo esses os termos centrais dessa área de pesquisa, quanto mais eles são utilizados de forma inapropriada e inconsistente, maiores se tornam os problemas de validade e coerência apresentados nos estudos (HUFFORD, 2012). Segundo o autor, tais dificuldades são comuns quando um campo da ciência se apropria de termos que são parte da linguagem popular.
Assim sendo, a indefinição ou as múltiplas definições de espiritualidade, acabam comprometendo a construção de instrumentos e escalas confiáveis para mensurar e apontar correlações com saúde. Koenig (2008) demonstra o quanto algumas versões altamente inclusivistas de “espiritualidade” acabam englobando religiosidade, espiritualidade, saúde mental (ou seja, bem-estar, paz interior, sentido de vida) e até mesmo secularismo e agnosticismo. Em tais modelos, todos são “espirituais”, logo, não resta ninguém com quem comparar, tornando impossível qualquer pesquisa ou estudo das relações entre espiritualidade e saúde.
A exemplo disso, Koenig (2008) apresenta o número crescente de escalas desenvolvidas para avaliar espiritualidade na saúde, mas que incluem indicadores
psicológicos positivos, como contentamento, capacidade de perdoar, conexão entre as pessoas etc. No entanto, como se sabe, pessoas com pouca saúde mental costumam experienciar essas sensações de bem-estar, bem menos do que pessoas com saúde mental. Logo, definir espiritualidade dessa forma acaba assegurando que indivíduos “espirituais” serão mentalmente saudáveis, excluindo pessoas com menos saúde mental dessa categoria (KOENIG, 2008). Além disso, os estudos acabam relacionando saúde mental com saúde mental (ou seja, com ela mesma, e não com espiritualidade) e os resultados só mostram que pessoas deprimidas, por exemplo, possuem menos bem- estar, sentido de vida ou contentamento (o que é altamente redundante) (KOENIG, 2008).
2.1.3. Religião e Espiritualidade na pesquisa em saúde: operacionalizando os