6 A ARTE DE ESQUECER E LEMBRAR NO/DO PROJETO IRECÊ
6.3 ESQUECIMENTO DE REGISTRO
A nós restituído: raro o campo Visitas e os pastores; na cidade, Contino observas os funestos procos”. “Velho irmão, diz Telêmaco, obedeço; Ver-te e ouvir-te aqui venho; tu me informes Se inda está minha mãe no seu palácio, Ou se casou: talvez aranhas torpes Jazam de Ulisses no vazio leito”. “Ela, o informa o pastor, no teu palácio Constante sofre; a suspirar consome A noite aflita e o lagrimoso dia”. A lança então recebe, e o amo salva A lapídea soleira. O assento Ulisses Quer ceder, mas Telêmaco o proíbe: “Não te incomodes, hóspede; um assento Me ajeitarão”. Seu posto Ulisses toma; Ele abanca-se em ramos que de peles Eumeu forra. O pastor pães em cestinhos, De assados põe de véspera escudelas, Num canjirão mistura o doce vinho, Do grã Laércio em frente se coloca; Os comensais atiram-se às viandas. Fartos enfim, Telêmaco interroga:
“Velho irmão, como este hóspede aqui veio? Que nautas o trouxeram? de que terra? A Ítaca não creio a pé viesse”.
Assim falaste, Eumeu: “Digo a verdade. Ser de Creta blasona, e haver corrido Muitas cidades por divino influxo. De nau Tesprócia escapo, aqui chegou-se. Dispõe dele a prazer, eu to encomendo; Súplice teu se ufane”. — “Amigo, o jovem Lhe bradou precavido, que proferes? Comigo ter um hóspede! Não posso, Tão moço, defendê-lo de uma afronta: Minha mãe ora no ânimo cogita Se, dedicada ao filho, a seu marido E ao público respeite, ou se dos Gregos Se una ao melhor que à larga a presenteia. Já que nesta choupana o recolheste, Capa e túnica, ancípite uma espada E sandálias terá, terá passagem
Para onde se lhe antoje. Hei de mandar-lhe, Se o cá deténs, a roupa e o mantimento, Para não te comer e aos sócios tudo. (LIVRO XVI, ODISSEIA)
Não perca a... Figura 10 – Instalação artística UFBA Irecê ...FEIRA LITERÁRIA!!
(apresentação e inscrição nos livros dos Saraus) DIA: 27/04/2011 (QUARTA-FEIRA)
HORÁRIO: 19:00
LOCAL: Auditório – Espaço UFBA
Leitura, imaginação,
viagens, poesias,
Interpretação,
invenção...
Fonte: Acervo da autora.
À medida que passamos da ideografia ao alfabeto, o tempo torna-se cada vez mais linear e histórico. “Os calendários, as datas, os anais, os arquivos, ao instaurarem referências fixas, permitem o nascimento da História, se não como disciplina, ao menos como gênero literário. “A história é um efeito da escrita” (LÉVY, 1993, p. 94-95). E a memória? São possíveis ainda algumas considerações sobre a memória; nesse momento classificamos em dois tipos fundamentais: a memória proposicional (ou semântica), que diz respeito às informações conceituais acerca do nosso conhecimento de mundo e de realidade; e a memória de recordação (também denominada de episódica, pessoal ou experiencial), voltada para os eventos da experiência cotidiana. Esta última particularmente nos interessa nesta pesquisa em virtude de ela nos fazer reviver eventos particulares ocorridos no passado e evocados no momento presente através dos registros (CAMPBELL, 1997; HOERL, 1999 apud CONNERTON, 2008).
A chamada memória autobiográfica, e inspiração para nosso trabalho no Projeto Irecê, é a memória episódica que envolve nossa própria experiência de mundo, ainda que nem todas as memórias autobiográficas sejam episódicas (isto é, posso não recordar fatos da minha infância, como a data exata de meu nascimento). De outro modo, é preciso estar ciente de que existe um limite de confiabilidade da memória autobiográfica, e que depende da capacidade de cada
indivíduo de reter informações significativas no seu intelecto. Neste contexto, a memória autobiográfica constitui uma ponte entre as minhas ações no tempo presente e as minhas experiências pessoais passadas. E o que irá emergir nesse acionamento da memória depende de alguns fatores complexos, sejam biológicos, culturais, políticos, epistemológicos ou didáticos.
Conforme Connerton (2008), pode-se afirmar que a memória possui uma conexão direta com a identidade pessoal, visto que a forma como o passado é lembrado ao mesmo tempo depende da autoimagem que cada indivíduo faz de si, servindo ainda de base para mudanças na mesma. Desta forma, a memória influencia na tomada de decisões, nas escolhas pessoais e no modo com que significados dos fatos são atribuídos no contexto atual do indivíduo, no nosso caso, os professores-cursistas do Projeto Irecê.
As reflexões aqui esboçadas nesse memorial resultam de um estudo desenvolvido ao longo de três anos, nas atividades oferecidas por esse curso. O processo de coletas de dados efetivou-se através da utilização de diários de ciclo, potencializados como instrumentos formativos e sistematizadores da reflexão na e sobre a prática docente. (SENA, 2012, p. 21)
Figura 11 – O caderno de orientação. Por Solange Maciel
Fonte: Acervo da autora.
Os suportes de inscrição dos fatos (a argila, as tábuas de cera, o pergaminho, o papiro ou o papel), representaram uma extensão da memória biológica humana. Assim, a escrita estendeu a memória biológica transformando-a em grande rede semântica de memória em longo prazo. “O corpus do passado encontra-se definitivamente preservado” (LÉVY, 1993, p. 98).
Percebo que a construção de um novo conceito é um processo difícil, que demora e demanda esforço para ser trabalhado com mais profundidade, porque o que acontece hoje em dia é o acúmulo de informações, e uma aceleração por conta de ter de se cumprir os conteúdos que compõem a grade curricular. (ANTUNES, 2007, p. 21)
Para minha prática quanto para minha vida pessoal, as informações além de estarem na nossa memória, devem também estar registradas posteriormente para que possamos rever relembrar e até modificar. (SENA, 2012, p. 20)
Para Platão (428-348 a.C.), a invenção da escrita seria responsável pela obliteração da memória biológica, provocando o esquecimento. Isso porque, ao se externalizar o que se desejava guardar, já não era preciso reter na memória, e assim os fatos seriam esquecidos.
Por outro lado, nem tudo que está registrado é lembrado, o que na análise do discurso é considerado como esquecimento. Para os linguistas, em especial para Ducrot (1977), o discurso é explorado como lócus de memória, e, nesse contexto, o esquecimento é uma categoria contemplada; assim, para Orlandi (2000): saber como os discursos funcionam é colocar-se na encruzilhada de um duplo jogo da memória: o da memória institucional que estabiliza, cristaliza, e, ao mesmo tempo, o da memória constituída pelo esquecimento que é o que toma possível o diferente, a ruptura, o outro. Continuando o raciocínio de Orlandi (2000), a paráfrase, o sempre retomado e lembrado, é, portanto, a memória que se estabiliza pela repetição. Já o esquecimento é a ruptura, a possibilidade do novo e da criação, o que implica dizer que o esquecimento na análise do discurso tem efeito, ao que parece, positivo, assim como para a memória biológica, sendo considerado como processo natural de regulação do cérebro no uso das faculdades mentais normais.
“A cada ciclo, íamos aperfeiçoando e buscando novas formas de registro e novas formas de pensar, agir e refletir” (ANTUNES, 2007, p. 35).
Retomamos nossa mesa do banquete com o diálogo sobre o lugar do esquecimento nos cursos de Pedagogia do Projeto Irecê; Emanuela Dourado foi integrante da equipe de orientação e
coordenação do Projeto Irecê e um dos primeiros membros da equipe local na cidade de Irecê- Ba.
EMANUELA DOURADO
Na perspectiva apresentada, o diálogo sobre o esquecimento no período do curso foi incipiente. Consensualmente, acredito que considerávamos que o trabalho memorialístico promove um exercício de lembranças e esquecimentos, como lapsos de memórias que não ocorrem linearmente e atualizam o passado a partir de evocações do presente. A memória como diversa e difusa, podendo fazer combinações infinitas, ressignificando esse lembrar e esquecer ao articular tempos, espaços, pessoas e significados singulares.
Contudo, penso, a partir dessa provocação, que as proposições, especialmente dos Memoriais de Formação, abriram espaços para lembranças e, consequentemente, esquecimentos, ao eleger uma certa linearidade cronológica com os tempos escolares: entrada na escola, formação até tornar-se professor(a), o magistério, a formação no curso. (Qualquer outra lógica memorialística, também promoveria "lembrares e esqueceres"... E, certamente, seriam processos formativas passíveis de questionamentos acerca dessa questão...).
Nesse caso, considerando que nos ciclos pares do curso (re)mexíamos, intencionalmente, nas memórias de formação dos professores-cursistas via escrita processual, de modo a produzir rupturas dessa linearidade inicial, também, criamos espaços para outras emergências, produzindo lembranças, ao tempo em que tantas outras coisas "continuavam" esquecidas...
No entanto, são lembranças presentes do passado, o que por si só já é suficiente para que os atos memorialísticos tragam diferentes dimensões do vivido e de nós mesmos, nas quais o lembrar e esquecer estejam "condenados" ao devir.
Figura 12 – Fragmento de memorial.
Fonte: Acervo da autora.
E essas dimensões do vivido, e diria aqui do esquecido, foram sendo construídas com a memória trabalhada no Curso de Pedagogia. A nossa memória sempre fará da nossa autobiografia, uma biografia não autorizada.
Figura 13 – Tirinha.
Fonte: <www.oslevadosdabreca.com>
Partindo deste chamado pensei muito antes de escrever o diário do Ciclo dois, mas cometi o mesmo erro, e escrevi novamente enumerando por datas e descrevendo as atividades participadas. Entretanto, iniciei algumas reflexões nas atividades participadas, e comecei a falar um pouco da minha prática em sala de aula, um tanto que disfarçada, e neste eu finalizo com um trecho da música Prelúdio de Raul Seixas. (ANTUNES, 2007, p. 31, grifo nosso).
Depois da cozinha, o quintal. E nele, a liberdade. O quintal é um mundo! Um mundo de brincadeiras, de sonhos, de invenções, de peraltice s. Naquele quintal conviviam o trabalho da mãe, estampados nas roupas lavadas na pedra e estendidas no varal, e as brincadeiras das crianças, retratadas na casinha arrumada sob a sombra de um arbusto, na fazendinha com bois de pedra. Em cada um daqueles jeitos de brincar eu via histórias de um jeito de ser criança no sertão da Bahia.
Figura 14 – Instalações artísticas
Fonte: Acervo da autora.
Depois de dois milênios e meio depois de Cícero, ousamos convidar Umberto Eco para umas pequenas palavras nessa prosa; para ele a arte do esquecer consiste em inventar disciplinas científicas que não apenas não existem, surge aí o método semiótico, através da teoria de signos. Eco tenta provar que não pode haver uma arte do esquecer como contraparte de uma arte do lembrar, “porque todos os sinais de presença não são ausências” (WEINRICH, 2001, p. 34, grifo nosso).
Eco concede a essa arte do esquecimento um modesto lugar na margem da semiótica. Podemos até iniciar um posterior debate com a história, dizendo que “o esquecimento é a função máxima da vida, do levar adiante”, e que a memória nada mais seria que uma representação enevoada
de um passado que nunca existiu – já que ele só pode existir como interpretação de uma representação, ou como “ponto de vista” – e que existe como amarras aos seres, a passados que lhes são impostos (por outros, ou por si mesmo).
Estou certa de que o que está escrito permanece na história, como registro de uma vida que aconteceu ontem, mas que se encontra vivo no hoje, e que permanecerá sendo. Foi com essa certeza que escrevi neste memorial parte de minha trajetória de vida para que eu possa continuar refletindo sobre o que está escrito. (ANTUNES, 2007, p. 28)
Tenho a convicção de que a escrita é essencial para registrar e marcar o nosso tempo e que seu domínio é indispensável não apenas no aspecto social ou profissional, mas principalmente quanto ao aspecto existencial. Um professor saber escrever, não somente para ser um bom profissional, mas, sobretudo, marcar a sua existência, a existência do seu ser no tempo e no espaço. (SENA, 2012, p. 25)
E essa existência é configurada com o imbricamento das memórias e esquecimentos. O esquecimento de registro se configura pelo apagamento de registros históricos e o esmaecimento de memórias e histórias de vida. Baseamos nas ideias de Connerton (2008), para associar essa dimensão do esquecimento com o volume de informação produzido pela sociedade de massa, e tão difundida pela internet. Assim, inviabiliza o registro na memória de número tão elevado de informações. Enquanto a memória biológica define-se como faculdade mental de registro e na armazenagem de informações no cérebro para posterior reevocação (lembrança), a memória registrada seria todo o legado preservado de um povo ao longo dos tempos. Nessa perspectiva, o esquecimento é inerente a essas memórias. Poderíamos ousar pensar uma dimensão de virtualização do esquecimento:
A palavra virtual vem do latim medieval virtualis, derivado por sua vez, de virtulis, força, potência. Na filosofia escolástica, é virtual o que existe me potência e não em ato. O virtual tende a atualizar-se, sem ter passado no entanto à concretização efetiva ou formal. A árvore está virtualmente na semente. Em termos rigorosamente filosóficos, o virtual não se opõe ao real mas ao atual: virtualidade e são apenas duas maneiras de ser diferente. (LÉVI, 1998, p. 6)
E o ciberespaço? A memória não estaria ali? Termo que foi idealizado por William Gibson, em 1984, no livro Neuromancer, referindo-se a um espaço virtual composto por cada computador e usuário conectados em uma rede mundial. Trata-se, pois, de um espaço que não existe fisicamente, mas virtualmente. No ciberespaço a questão da preservação da informação e do conhecimento é questionada, pois, estando no ambiente virtual, não há garantias de que uma informação esteja disponível após certo tempo. O ciberespaço, devido as suas características intrínsecas, torna
evidente o esquecimento, isso porque a preservação nesse meio e neste momento não é um fator essencial. De acordo com Lévy (1998), as redes de comunicação e as memórias digitais incorporarão a maioria das representações e mensagens produzidas no planeta, graças ao que teríamos boas novidades no mundo virtual, mas também apagamentos de memórias. "As possibilidades materiais de armazenamento nunca foram tão grandes, mas não é a preocupação com o estoque ou a conservação que impulsiona a informatização” (1993, p. 115).
As oficinas de computação, as atividades operando o TWIKI I e II e os Grupos de Estudos Acadêmicos (Geacs) de Tecnologia realizados pela Professora Maria Helena Bonilla, foram atividades significativas dada a importância de conhecer e ampliar meus conhecimentos acerca do uso da Internet, visto que a humanidade jamais teve acesso de modo tão rápido a tantas informações como atualmente. Estas oficinas e Geacs possibilitaram uma ampliação dos conhecimentos. (ANTUNES, 2007, p. 23)
“Nossas vidas como em um filme” é a chamada que está na parede (e foram tantos filmes em nossa vida no curso...). Em cada fotograma daquele filme naquelas paredes, cenas de uma história, cenas de muitas histórias. As vidas dos professores-cursistas em um filme, e os filmes nas vidas dos professores-cursistas. O projetor, emprestado pelo dono de um cinema que funcionou na cidade tempos atrás, me remetia às histórias contadas pelos cursistas sobre as idas ao Cine Barbosa e Cine Nunes.
Figura 15 – Instalações artísticas UFBA Irecê
Fonte: Acervo da autora.
Não me lembro se durante a minha vida estudantil, desde o início até a 8ª
série, consegui usar uma farda comprada no mesmo ano. Usei durante um bom tempo, um tênis velho (Kichute), que todos os dias ao chegar em casa, pensava em jogá-lo no lixo, porém, pensando na sua utilidade para ir a escola no outro dia, procurava um meio de lhe fazer mais um conserto. (ROCHA, 2007, p. 20, grifo nosso)
Poderíamos nos perguntar como falar da presença do próprio esquecimento se esquecêssemos do mesmo? Seria uma incongruência, mas me lembro do esquecimento. E não teria na memória aquilo de que me lembro? Ou talvez tenha o esquecimento na memória para que eu não esqueça? Ou seria a imagem do esquecimento que minha memória retém e não o próprio esquecimento? A dimensão do esquecimento de registro é complexa, e muitas vezes inexplicável, mas poderíamos ousar apoiados nas ideias de Ricoeur, que o “esquecimento sepulta nossas lembranças” (RICOEUR, 2007, p. 110).
[...] Ó ilustre Simônides Pois tanto em teu engenho te confias Que mostras à memória nova via, Se me desses uma arte que em meus dias Me não lembrasse do passado, Oh, quanto melhor obra me farias