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[...] tecer o presente com o passado e assim o presente parecia outros dias, quando eu vi o que era tecer em pedaços, aprendi um pouco também. É por isso que eu conto esta história aos pedacinhos [...]

Gláucia de Souza. Adentrando no fascinante mundo das lembranças, emerge o passado, que se faz presente. Nesse processo de busca, passado e presente se confundem, se entrelaçam e produzem sentidos diversos às vezes difusos, ou confusos, entretanto carregados de historicidade. Nesse processo de imersão no passado, desvendando as trilhas por onde andei, reconstruindo as construções/desconstruções de minhas certezas/incertezas, analisando meus erros/acertos quando a teimosia da dúvida insistia em mostrar tantos caminhos possíveis, vou fazendo/refazendo minha história. Dialogando com as lembranças e construindo um caminhar diferenciado, observo mais um pedaço da minha vida. Foi nesse percurso que cheguei à sala de aula depois do Curso de Pedagogia UFBA/Irecê. Esse caminhar diferenciado, partindo do entendimento de que o ato educativo nunca é neutro, a concepção de homem, de mundo ou de sociedade encontra coerência com minha prática. A reflexão crítica sobre a prática foi sendo construída. Busco um pensar e um fazer pedagógico transformador, autônomo e reflexivo, ciente de que:

[...] os caminhos são múltiplos se pensarmos nos percursos profissionais, humanos de cada um. No atelier de cada docente, na sua disciplina, na sala de aula, há muita criatividade individual. Mas há, sobretudo, muita criatividade coletiva. Estamos saindo dos nossos ateliers individuais. (ARROYO, 2004, p. 171).

Falar da minha itinerância de estudante deixou-me muito feliz. Nasci numa cidadezinha pobre e pequena no interior do Rio Grande do Norte.

É justamente a compreensão e definição das “condições históricas” que norteiam as conjunções e disjunções desses extremos da memória. Isto é, o que se lembra e o que se esquece dependem da maneira como a memória é tratada em determinadas circunstâncias – sociais, culturais etc. –, assim como a forma com que a história é pensada e exercida. Para Ricoeur, a fundamentação dessas condições passa pelo entendimento do tempo, quer dizer, do modo como os sujeitos compreendem a si como históricos de acordo com suas posturas diante do passado e do futuro (IVANO, 2015).

A narração é resultado de uma seleção de memória e esquecimento, numa sociedade em que é incumbida ao sujeito a tarefa de fazer sociedade para si e para o outros, o indivíduo é remetido aos seus próprios meios subjetivos e reflexivos para se constituir, ele próprio, como mediador e agente de ligação. Os registros fortes da memória. A fala de si, especialmente sob a forma de narração, é um instrumento privilegiado dessa tentativa de mediação, na medida em que narra subjetividades e coletividades. Assim, “Se habitássemos ainda nossa memória, não teríamos necessidade de lhe consagrar lugares” (NORA, 1993, p. 08).

A história de Irineu Funes é simples, porém desconcertante. Personagem da ficção de Borges, Funes teria tido uma vida comum, sem mais nem menos, como qualquer cristão. Um acidente, um tombo para ser mais preciso, mudou definitivamente o rumo da vida desse peão de uma estância no sul do Uruguai. A capacidade de tudo lembrar ou, em outras palavras, a incapacidade de esquecer tornou-se a “doença” de Funes, apelidado de “o memorioso”. Nada, nenhum minucioso detalhe, escapava da implacável memória de Funes. Sabia as formas das nuvens austrais do amanhecer do trinta de abril de mil oitocentos e oitenta e dois e podia compará-las na lembrança aos veios de um livro encadernando em couro que vira somente uma vez e às linhas da espuma que um remo levantou no rio Negro às vésperas da batalha do Quebracho. A memória de Funes não tinha limites!

Haveria, portanto, uma medida no uso da memória humana? Segundo uma fórmula da sabedoria antiga, o esquecimento não seria, portanto, sobre todos os aspectos, o inimigo da memória? Acreditamos que a memória, que se relaciona ao desejo de perenidade, não deve ser vista como órgão do tempo passado, mas a faculdade do eterno e do presente, que conserva o passado no presente e o faz aderir a nós. O esquecimento é o outro lugar da memória, uma faculdade que permite apagar o tempo, ou, na impossibilidade de apagá-lo de todo, esvaziá-lo ou empalidecê- lo, ensejar aos homens suportá-lo como uma dimensão da existência, sem interiorizá-lo e transformá-lo em consciência histórica.

Tanto a memória quanto o esquecimento constituem-se como forças operantes da vontade de poder que constitui o todo humano.

A linguagem e a consciência, na sua aparição simultânea, surgem para facilitar a memorização dos signos que permitem a comunicação gregária. É preciso, então, a geração de uma memória, pois os instintos, no seu agir automático e inconsciente, no seu desenrolar espontâneo, agem e esquecem as experiências vividas. O esquecimento, por sua vez, longe de ser interpretado por Nietzsche como uma falha, ou como a incapacidade temporária da consciência para reter o já vivido, trata-se de um mecanismo de proteção, de preservação orgânica; o esquecimento é uma forma de digestão psíquica que permite relaxar diante das experiências vividas, se distender diante do passado. (BARRENECHEA, 2009, p. 103).

A experiência-chave, como acabamos de dizer, é a do reconhecimento. Falo dele como de um pequeno milagre. De fato, é no momento do reconhecimento que se considera a imagem presente como fiel à afecção primeira, ao choque do acontecimento. Onde as neurociências falam simplesmente de reativação dos rastros, o fenomenólogo, deixando-se instruir pela experiência viva, falará de uma persistência da impressão originária (RICOEUR, 2010). “De fato, o esquecimento continua a ser a inquietante ameaça que se delineia no plano de fundo da fenomenologia da memória e da epistemologia da história” (RICOEUR, 2010, p. 423).

As neurociências focadas na memória podem instruir, uma primeira vez, a conduta da vida no nível desse saber refletido em que consiste uma hermenêutica da vida. Além da utilidade direta, há a curiosidade pelas coisas da natureza, entre as quais o cérebro é, provavelmente, a mais maravilhosa produção (RICOEUR, 2010).

Freud (1898) já havia instituído o esquecimento como parte do recalque, necessário ao humano, e capaz de trazer o inconsciente à tona (MOTTA, 2008). Devemos, inicialmente, lembrar que parte pequena do passado ficou registrada em objetos de cultura. Grande parte da memória

histórica corresponde a ausências, perdas, ao que foi excluído, ao que deixou de ser registrado, por não fazer parte dos “grandes acontecimentos” responsáveis por mudanças profundas na vida econômica e política.

Quantas vezes nos surpreende evocar, de repente, algo que nos aconteceu há muitos anos: uma cena de nossa infância, uma velha canção que não ouvíamos há décadas, algo que ouvimos ou aprendemos muito tempo atrás. Segundo o psicólogo Ivan Izquierdo (2005), os velhos são famosos por recordar melhor os fatos ou eventos antigos do que aquilo que lhe aconteceu há uma semana ou há duas horas. Ainda segundo o autor, “As memórias carregadas de emoção mantêm-se no cérebro durante décadas” (IZQUIERDO, 2005, p. 56). Não poderíamos deixar de citar, mesmo não sendo nesse momento nosso aprofundamento de reflexões, as pesquisas e estudos da neurociência, para as descobertas e avanços das patologias da memória. Para os neurobiólogos, sabe-se que a memória é o meio pelo qual uma pessoa recorre às suas experiências passadas a fim de usar essas experiências no presente. A memória refere-se aos mecanismos dinâmicos associados à retenção e à recuperação da informação sobre a experiência passada.

Os psicólogos cognitivos revelam que nesse processo mnemônico são identificados, segundo Sternberg (2000), três operações comuns: codificação, armazenamento e recuperação. Assim, na codificação, dados sensoriais são transformados numa forma de representação mental; já no armazenamento, a pessoa conserva a informação codificada na memória; e na recuperação o indivíduo extrai ou usa a informação armazenada na memória (Revista Época, 2004).

Além disso, é sabido também, com os avanços das pesquisas da neurociência, que o armazenamento de informação na memória acontece a curto e a longo prazo. O armazenamento a curto prazo refere-se à manutenção ou retenção da informação por alguns segundos, como quando se olha um número de telefone no catálogo e imediatamente após a discagem ele é apagado da memória. Já no armazenamento a longo prazo, conteúdos que são guardados na memória permanecem durante longos períodos de tempo ou mesmo indefinidamente.

Na obra Esquecimento e Fantasma, Freud conceitua a memória “como um arquivo aberto a todos aqueles que são ávidos do saber, está assim sujeita a ser deteriorada por uma tendência de vontade, tal como acontece como qualquer parte da nossa actividade dirigida para o exterior” (FREUD, 1991, p. 18).

Quanto ao seu esquecimento ou, mais precisamente, ao seu conceito psicanalítico, o recalcamento, ou pensamento recalcado, o tema do texto de Freud de 1898 é o fenômeno da falha de memória (Phänomen von Vergesslichkeit) relativamente aos nomes próprios (nomina propria). Na Psicopatologia (1901), Freud diz que "tentou então a análise psicológica de um caso vulgar de esquecimento temporário de nomes próprios". O método utilizado é designado por Freud de "análise psíquica" (FREUD, 1991).

Figura 05 – Operação do esquecimento cortical.

Fonte: Acervo da autora

Antes de mais, o esquecimento do nome Signorelli não é um fenômeno de esquecimento corrente, isto é, perda gradual da capacidade de relembrar, recordar ou reproduzir o que foi previamente apreendido. Uma vez que o nome Signorelli não caiu no esquecimento – pois, segundo o relato de Freud, tratava-se de um nome que lhe era familiar –, segue-se então que o acesso a esse conteúdo de memória, foi perturbado, sofreu a interferência de algo, e essa perturbação explicará a ocorrência do lapso. Freud procura assim mostrar que o esquecimento do nome Signorelli não é explicável sem a interferência de determinadas influências (Einflüsse). Na Psicopatologia, Freud afirma que

O esquecimento do nome só foi esclarecido quando me lembrei do assunto que estávamos a discutir imediatamente antes desta conversa (sobre os frescos do pintor Signorelli). O esquecimento revelou-se então como uma perturbação do novo tema, provocada pelo tema precedente. (FREUD, 1991).

Compreende a memória como mecanismos que constituem a lembrança. O esquecimento para Ricoeur é compreendido sob o olhar da hermenêutica das condições históricas, todas as abordagens realizadas num “colóquio ininterrupto”. De quem é a memória daquele que lembra

“representação presente de uma coisa ausente”, “representação de uma coisa anteriormente percebida” (RICOUER, 2007, p. 27), imaginação da memória do que é lembrado.

Encontramos, na obra de Foucault (2004), uma reflexão bastante interessante sobre o papel da escrita na constituição da subjetividade, especificamente aqui a escrita memorialística narrativa. Nesse sentido, ele destaca que a escrita, como uma atividade pessoal, revela uma verdade dita, no entanto com a singularidade do que nela se afirma e a particularidade da circunstância do que determinou seu uso. De acordo com o autor:

O papel da escrita é constituir, com tudo o que a leitura constituiu, um “corpo” [...]. E é preciso compreender esse corpo não como um corpo de doutrina, mas sim [...] como o próprio corpo daquele que, transcrevendo suas leituras, delas se apropriou e fez sua a verdade delas: a escrita transforma a coisa vista ou ouvida “em forças e em sangue”. (FOUCAULT, 2004, p. 152).

O imperativo da escrita de memórias é uma acusação contra o esquecimento e silêncios. A ideologia da comunicação assimila o silêncio ao vazio, a um abismo no seio do discurso, não compreende que, às vezes, é a palavra que forma a lacuna do silêncio. Pensar o mundo é torná-lo inteligível, graças a uma atividade simbólica que tem o seu terreno de eleição no uso apropriado da língua. As palavras desenham o significado do mundo. Se linguagem e silêncio se misturam na expressão da palavra, “podemos dizer também que todo enunciado nasce do silêncio interior do indivíduo em permanente diálogo consigo mesmo” (BRETON, 1997, p. 17-18).

Rastro 6: Memorial: Fragmento de corpo do texto.