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Entre o esquecer e o lembrar: o lugar do esquecimento na formação docente.

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Academic year: 2021

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UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA – UFBA

FACULDADE DE EDUCAÇÃO – FACED

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO LINHA DE PESQUISA – CURRÍCULO E (IN)FORMAÇÃO

FABRÍZIA PIRES DE OLIVEIRA

ENTRE O ESQUECER E O LEMBRAR:

O LUGAR DO

ESQUECIMENTO NA FORMAÇÃO DOCENTE

Salvador

2016

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FABRÍZIA PIRES DE OLIVEIRA

ENTRE O ESQUECER E O LEMBRAR:

O LUGAR DO

ESQUECIMENTO NA FORMAÇÃO DOCENTE

Tese submetida ao Colegiado do Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia, em cumprimento parcial aos requisitos para obtenção do grau de Doutor em Educação.

Orientadora: Prof. Dra. Maria Inez da Silva de Souza Carvalho.

Salvador

2016

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OLIVEIRA, Fabrízia Pires de

OL48e Entre o Esquecer e o Lembrar: o lugar do esquecimento na formação docente. / Fabrízia Pires de Oliveira. – Salvador, BA: UFBA, 2016.

198 fls.: il.

Orientadora: Prof. Dra. Maria Inez da Silva de Souza Carvalho.

Tese (Doutorado) – Universidade Federal da Bahia. Faculdade de Educação. Programa de Pós-Graduação em Educação, Salvador, BA, 2016.

1. Esquecimento. 2. Formação Docente. 3. Memórias. 4. Taxionomia.

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FABRÍZIA PIRES DE OLIVEIRA

ENTRE O ESQUECER E O LEMBRAR:

O LUGAR DO

ESQUECIMENTO NA FORMAÇÃO DOCENTE

Defendida em 13 de dezembro de 2016.

Orientadora: Prof. Dra. Maria Inez da Silva de Souza Carvalho. (FACED/UFBA)

BANCA EXAMINADORA

Cláudio Orlando Costa do Nascimento

Doutor em Educação pela Universidade Federal da Bahia Universidade Federal do Recôncavo Baiano

Maria Roseli Gomes Brito de Sá

Doutora em Educação pela Universidade Federal da Bahia Universidade Federal da Bahia

Giovana Cristina Zen

Doutora em Educação pela Universidade Federal da Bahia Universidade Federal da Bahia

Márcea Andrade Sales

Doutora em Educação pela Universidade Federal da Bahia Universidade do Estado da Bahia

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DEDICATÓRIA

A meu filho Rodrigo Oliveira Queiroz, razão maior do meu viver, estímulo que me impulsiona a viver a cada dia na busca dos meus sonhos e realizações, meu pedido de perdão pelas ausências, e agradecimentos por conceder a mim a oportunidade de me realizar ainda mais.

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AGRADECIMENTOS

Memórias, Esquecimentos... Agradecimentos a pessoas que me ajudaram a me constituir no que sou hoje e na ajuda com este trabalho. São referências que marcaram e marcarão para sempre meu estar-no-mundo.

Inicio com a maior referência que tenho: Minha Família, a minha MÃE Agnalva Oliveira Pires (Ná), professora primária, católica fervorosa – me ensinou as primeiras letras e as primeiras rezas. Muito obrigada, minha mãe, por me incentivar a prosseguir nos estudos, e especialmente neste, na ajuda com Rodrigo e nos cafés e orações nas madrugadas de estudos, te amo incondicionalmente.

Ao meu PAI Gilson Pires Dantas (mamona preta), ex-taxista, hoje agricultor e que adora um“se diverte”, com sua simplicidade e mesmo sem entender direito o que significa um apesquisa de doutorado, se orgulha que eu terei mais uma “formatura”. O que seria de mim, meu pai, sem o senhor para administrar minhas coisas do dia a dia?

Meus irmãos: Hernandes – companheiro de todas as horas, o tio amigo de Rodrigo e Giovanni Stephann –, obrigada pelo carinho e incentivo de sempre para concluir esse trabalho, minha cunhada Carol, pelo respeito e admiração que tens por mim.

A minha querida avó Juscelina, e AIÁ Ana ou simplesmente Dona (in memorian) – Saudades eternas.

Meus Tios e Tias de Ibititá, Maria (Ia), Ana, Dide, Iêda, Nicinha, Iracema, Ceiça, Lene, Miguel, Lando, Valtinho e Tom pelos incentivos constantes em tudo que proponho fazer, jamais esquecerei da ajuda financeira do meu tempo de cursinho em Salvador, e especialmente ao meu exemplo de ser gente, de viver, Artur José de Oliveira Filho, tio Artuzinho.

As minhas tias e tios de Tapiramutá: Lia, Neci, Evani, Daí, Gilda, Joel, Jorge, Som, João. Primos e Primas, especialmente a Fredson, Kívia e Fátima, pelos saberes trocados e partilhados constantemente. A Olandes José, nosso Claúdio, por ter me substituído com toda dignidade e profissionalismo na secretaria de educação de Ibititá.

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A meu ex-marido João Neto, ajudou-me e incentivou-me muito a lutar pelos meus objetivos, e esteve sempre ao meu lado na seleção e nos anos iniciais do doutorado.

A Luís Felipe Dourdado Colpo, ou simplesmente Nino; simplicidade, companheirismo e a leveza no amor que precisava.

Não poderia deixar de agradecer a Ronayde, companheira incansável em Itacimirim, mesmo com nossas “brigas” (rs), o que seria de mim sem seu zelo, amizade e as deliciosas comidas e cafés trocados? Obrigada, minha amiga, por ter me suportado.

Roseli de Sá – Minha eterna professora, amiga e conselheira. Rose, querida, obrigada por me sentir tão acolhida no mundo da academia. As nossas coisas em comum nos aproximaram ainda mais: o cafezinho com biscoito, as rezas... A admiração profissional é desde a docência na graduação, seu ingresso no projeto Irecê, sua confiança e respeito com meu trabalho e com meu tempo foram fundamentais para o percurso da minha formação.

Maria Helena Bonilla – Coordenadora de pós-graduação em Educação, muito obrigada por compreender meu tempo de estudo e ter me proporcionado a realização deste trabalho. Sem seu cuidado e acolhimento, não seria possível chegar até aqui.

Isis Celta – Nossa boneca Emília, muito obrigada pelas trocas nas viagens (auto)biográficas. Ana Paula Moreira – “Pops” – Obrigada pela cama partilhada do seu AP.

Edilene Maioli – Amiga de longas, e que sempre me incentivou a não disistir. Marcea Sales (Xú) – Obrigada pelo zelo, inspiração e afeto.

Verônica Domingues – Com seu vozeirão, Faaaá, cadê você? Conte com meu apoio. Clívio – Pelas caronas até o Costa Azul e as trocas de conhecimentos taxionômicos.

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Nesses anos de convivência no Projeto Irecê, muitas pessoas que por aqui passaram e outras que passam deixaram ou deixam marcas significativas em meu processo formativo: Rita Dias, Gideon, Luiza Seixas, Celinha, Ivana, Maiza.

Josevania da Conceição – “Boca” – Obrigada pela atenção, carinho e ajudas mil, com você eu aprendi a “cortar papel”.

Andreia Vieira, quanta solidariedade...

Deise e Joaquim, muito obrigada pela compreensão, serei eternamente grata a vocês. Aos professores da FACED, especialmente: Roberto Sidinei, Cleverton, Maria Couto, Lícia Beltrão, Tuca Tourinho, Nelson Pretto.

Aos funcionários da Pós, especialmente Kátia, Ricardo e Gal. Aos Colegas do doutorado, especialmente a Eliene.

A equipe do projeto Irecê: Local – Gil, dona Val e Tereza.

A Emanuela Dourado, Solange Maciel, pela contribuição, incentivo e amizade com essa pesquisa e todo processo formativo.

Aos professores-cursistas da 1ª e 2ª turma que proporcionaram a realização deste trabalho: Everaldo Pereira, Jussara Sena, Rita de Cássia, Gervásio, Claudia. A minha comadre e companheira Rita Chagas e Afonso, que me incentivaram a ingressar no mundo da pesquisa.

A Elisio Silva, pela sua “arte do esquecimento, obrigada pela sua amizade, zelo e dedicação. Ao meu povo de Ibititá:

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meu trabalho; obrigada por entender as minhas “ausências” e me ajudar durante esses quatro anos de estudo.

As amigas do FALAME – Meire, Elita, Mônica e Letícia, quantos choros, desabafos, medos... Obrigada pelo companheirismo e amizade de irmãs que somos; sem esquecer da companheira e amiga irmã, Danila Torres.

Eleusa Coronel, pela amizade e incentivo constante de viver... “O que ocorre”

Aos colegas e amigos da secretaria de educação: Ricardo (meu filho do coração), Rosivane, Rose, Tadeu, Morato, Regi, Viviane, Cinthia, João Batista, Val, Tá, Lucélio, Relmo.

Enfim, a todos que a memória agora não selecionou, mas que certamente... Estarão em alguma das dimensões do esquecimento.

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A arte de esquecer

A chave mestra que concede ao ser A imprevisibilidade,

É a mesma que o condena À irreversibilidade. A autonomia e o intento Capazes de gerar uma ação, Podem trazer fortuna ou danação.

A vontade do nada da história Aliada aos martírios da memória, Tendem a nos envenenar com o ressentimento.

Porém, para o bem de nós mesmos, Fomos agraciados pela arte do esquecimento.

Felizes de nós, esquecidos, Pois sabemos tirar proveito

De nossos equívocos, E nos alegremos por sabermos

Que a culpa e a moral É o que temos de menos natural.

Para viver é preciso esquecer E somente assim

O novo sempre poderá vir a ser. (Simy)

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RESUMO

Esta tese se move na seara da temática Esquecimento e Memória; analisa as implicações do esquecimento nos currículos de formação de professores. Investiga as relações entre memória e esquecimento a partir do Programa de Formação de Professores da Universidade Federal da Bahia/Faculdade de Educação, em parceria com as Prefeituras Municipais de Irecê e Tapiramutá/BA, conhecido como Projeto Irecê. A pesquisa busca apresentar tanto questões conceituais e teóricas ligados ao esquecimento, como a discussão do lugar do esquecimento no Curso de Pedagogia do Projeto Irecê. Destacaremos o conceito de esquecimento na filosofia nietzschiana. O esquecimento é entendido como atividade, força possibilitadora do novo, simbolizando uma forma de saúde forte, uma força plástica. Esse conceito se relacionará com outros conceitos essenciais para a compreensão do sentido de atividade, apoiados em autores como Ricoeur e Freud. A pesquisa bibliográfica pautou-se em referências sobre memórias, autobiografias e esquecimento. A investigação foi inscrita na abordagem qualitativa de base fenomenológica e existencial, para a análise interpretativa das fontes (memoriais, diários de ciclos, e-mails, pareceres avaliativos etc.), é apresentada à taxionomia do esquecimento com oito dimensões. A formação do educador diante dessa perspectiva envolve as múltiplas referências que compuseram o seu saber ser e seu saber fazer ao longo da existência de cada ser-no-mundo, como um processo de criação, para inaugurar novas possibilidades de vida e formação de uma cultura autêntica, num constante devir singular da arte de esquecer e lembrar.

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ABSTRACT

This thesis moves on the theme of Forgetting and Memory and analyzes the implications of forgetting in teachers training curricula. It investigates the relations between memory and forgetfulness from the Teachers Training Program of Universidade Federal da Bahia-UFBA (Federal University of Bahia/College of Education) in partnership with municipal government of Irecê and Tapiramutá/BA, known as Irecê Project. The research seeks to present conceptual and theoretical issues related to forgetfulness, as well as the discussion of the place of forgetfulness in Irecê Pedagogy Course Project. We will highlight the concept of forgetfulness in Nietzsche´s Philosophy. Forgetfulness is understood as activity, an enabling force of the new, symbolizing a strong health form and seen like a plastic force. This concept will be related to other one that is essential to understanding the sense of activity, based on authors as Ricoeur and Freud. The bibliographic research was based on references about memories, autobiographies, and forgetfulness. It was inscribed in a qualitative approach of phenomenological and existential basis, for the interpretative analysis of the sources (memorials, diaries of cycles, e-mails, evaluative opinions, etc.) and it is presented to the taxonomy of oblivion with eight dimensions. Educator´s formation in this perspective involves multiple references that made up her/his knowledge and his/her know-how throughout the existence of each being-in-the-world, as a process of creation that inaugurates new possibilities of life and formation in a authentic culture that is in a constant and singular becoming in the forgetting and remembering art.

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SIGLAS

ABPC - Associação Brasileira de Psicanálise Contemporânea

ANPED - Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação ANDE - Associação Nacional de Educação

ANFOPE - Associação Nacional pela Formação dos Profissionais da Educação

APLB - Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Estado da Bahia (Associação dos Professores Licenciados da Bahia)

CEAP - Centro de Estudos e Assessoria Pedagógica

CEFAMS - Centro Específico de Formação e Acompanhamento para o Magistério CEG - Câmara de Ensino de Graduação

CEII - Centro de Educação Integrado de Irecê

CIPA - Congresso Internacional de Pesquisa (Auto)Biográfica CNE - Conselho Nacional de Educação

DIREC - Diretoria Regional Educação e Cultura (RNE - Núcleo Regional de Educação) DOU - Diário Oficial da União

EAD - Educação à Distância

ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino FACED - Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia FACI - Faculdade de Ibititá

FAI - Faculdade Irecê

FEP - Grupo de Estudos sobre Formação em Exercício de Professores FORMACCE - Currículo, Complexidade e Formação

GEAC - Grupo de Estudos Acadêmicos GEC - Grupo de Educação e Comunicação GELIT - Grupo de Estudos Literários

GRAFHO - Grupo de Pesquisa (Auto)biografia, Formação e História Oral IAT - Instituto Anísio Teixeira

ICS - Instituto de Ciências e Saúde IES - Instituições de Ensino Superior LDB - Lei de Diretrizes e Bases MEC - Ministério da Educação

PARFOR - Plano Nacional de Formação de Professores da Educação Básica PIBIC - Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica

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PME - Plano Municipal de Educação

PPGEduC/UNEB - Programa de Pós-Graduação em Educação e Contemporaneidade/Universidade do Estado da Bahia

PRÓ-LICENCIATURA - Programa de Formação Inicial para Professores em Exercício no Ensino Fundamental e no Ensino Médio

PROFORMAÇÃO - Programa de Formação de Professores em Exercício PROGESTÃO - Programa de Capacitação à Distância para Gestores Escolares PROINFANTIL - Curso de Formação para o Magistério

PROLETRAMENTO - Programa de Formação Continuada de Professores das Séries Iniciais do Ensino Fundamental

SBPC - Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência

SEMOC - Semana de Mobilização Científica da Universidade Católica de Salvador SUPAC - Superintendência de Administração Acadêmica

TCC - Trabalho de Conclusão de Curso TOPA - Programa Todos pela Alfabetização UEFS - Universidade Estadual de feira de Santana UFBA - Universidade Federal da Bahia

UFMG - Universidade Federal de Minas Gerais

UFRN - Universidade Federal do Rio Grande do Norte UNEB - Universidade do Estado da Bahia

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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO 16

CAPÍTULO I

2, MEMORIAL, MEMÓRIA E ESQUECIMENTO NA TRAMA DA MINHA

FORMAÇÃO 21

2.1 O ESQUECIMENTO SENTIDO NA PELE DA MEMÓRIA 23

2.2 AS MINHAS HISTÓRIAS 29

2.3 EXPERIÊNCIAS FORMATIVAS: UFBA, REDE UNEB 2000, UNOPAR, PARFOR,

IAT 51

2.4 ATUAÇÃO NA REGIÃO – A LIDA 53

2.5 O CAMINHO PARA O MESTRADO 54

2.5.1 Divulgando a pesquisa: CIPA, ENDIPE, SEMOC, SIMPÓSIO UNEB, SBPC 55

2.6 O DOUTORADO: O ESQUECIMENTO DO ESQUECIMENTO 56

2.7 GESTORA DA EDUCAÇÃO – MUNICÍPIO DE IBITITÁ 57

CAPÍTULO II

3 AS MEMÓRIAS COMO DISPOSITIVO DOS CURRÍCULOS DE FORMAÇÃO DE

PROFESSORES 59

3.1 AS POLÍTICAS DE FORMAÇÃO DE PROFESSORES PÓS-LDB 9.394/1996 62

3.2 O PROJETO IRECÊ: MEMÓRIA E FORMAÇÃO DOCENTE 72

3.2.1. O diário de ciclo 73

3.2.2. O memorial-formação 77

CAPÍTULO III

4 O LUGAR DO ESQUECIMENTO NA MEMÓRIA 85

CAPÍTULO IV

5 OS “RASTROS”DA MEMÓRIA – ESQUECIMENTO: OS CAMINHOS DA

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5.1 UMA FENOMENOLOGIA DA MEMÓRIA E DO ESQUECIMENTO 115

5.2 A TAXIONOMIA DO ESQUECIMENTO 122

CAPÍTULO V

6 A ARTE DE ESQUECER E LEMBRAR NO/DO PROJETO IRECÊ 132

6.1 ESQUECIMENTO DE USO DE ABUSO 135

6.2 ESQUECIMENTO COMANDADO 142 6.3 ESQUECIMENTO DE REGISTRO 150 6.4 ESQUECIMENTO RECALCADO 159 6.5 ESQUECIMENTO DE LUTO 164 6.6 ESQUECIMENTO DE RUPTURAS 167 6.7 ESQUECIMENTO SILENCIOSO 176 6.8 ESQUECIMENTO FELIZ 178 7 CONCLUSÃO 186 REFERÊNCIAS 192

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1 INTRODUÇÃO

A PARTIDA...

[...] E ao me lembrar de tudo quanto esqueço (o voo de ave é uma existência à-toa?)

Escrevo a minha vida que se esfuma Na distância... – Ah, bem sei que habito numa Bola que rola e piso um chão que voa... (MILANO, 1973, p.123)

Figura 01 – Praia da Espera – Itacimirim/BA

Fonte: Acervo da autora.

Ponto de partida, ponto de chegada, ponto de espera... Não sou mulher de pescador, mas foi nos ares de Itacimirim o quanto lembrei e esqueci, para a trama que desencadeia o contexto desta investigação-formação. Precisava do uso e abuso, do silêncio, da ruptura, da fuga e luto, do registro, de comando, de recalque, de felicidade... Entre caminhadas na praia, lembranças do sertão, esquecimentos dos prazos, revolta pelo golpe sofrido no Brasil, saudade de casa... Perda da vozinha querida. Ali estava Itacimirim, vinda Pedra Pequena do Tupi-Guarani, antiga vila de pescadores. Hoje refúgio de quem busca, na calmaria de suas águas, o aconchego que aquece e rememora.

E entre o supermercado de Pojuca e os quitutes de Ronayde, do beijo em Maria e Pedro... Sob minha íris a tese se compunha. A casa dos Carvalhos com sua presença formativa forte,

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Singularidades, Emergências, Centros Instáveis, Simultaneidade, Caos, Sincronicidade, Cooperação...

Do mar aberto e calmo, dos pescadores e suas redes, da ansiedade quase que palpável da esposa ribeirinha a aguardar seu pescador... Praia da Espera.

A escolha pelo trecho estreito, pela calmaria aparente, pela ruptura com a efervescência da secretária de educação de um município pequeno em plena campanha eleitoral. Mas as discussões estavam postas... Experiências vividas, reminiscência da memória leitora, das disciplinas cursadas no doutorado, no nascimento da professora pesquisadora, da bolsista de Inez Carvalho, da autora, da mãe de Rodrigo. Sou memória. Sou esquecimento. Sou mar. Sou sertão. Fui Águia Branca. Hoje Cidade Sol.

O presente trabalho nasce da finitude de acontecimentos e reverbera-se nas significações das memórias lembradas e esquecidas da minha trajetória no Programa de Formação de Professores da Universidade Federal da Bahia – Faculdade de Educação, com os municípios de Irecê e Tapiramutá na Bahia, mais conhecido por Projeto Irecê. A reminiscência implica dizer sobre o “lugar do esquecimento” no campo de formação de professores e na contribuição formativa e autoformativa nas experiências da formação docente.

A pesquisa ora apresentada vincula-se ao Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal da Bahia, objetivando apresentar as discussões e os percursos concernentes à construção da Tese: Entre o Esquecer e o Lembrar: o lugar do esquecimento na formação de professores, com vistas a situar o leitor das possibilidades de um novo “olhar” para os currículos que utilizam como formação, o trabalho com memórias.

A origem da presente pesquisa vincula-se às experiências que tive como pesquisadora e formadora no Projeto Irecê, desde a iniciação científica em 2001 até os dias atuais, como orientadora da turma de especialização em currículo escolar e também como gestora municipal de educação do município de Ibititá, um dos novos municípios contemplados com a ampliação formativa do Projeto Irecê, Mestrado Profissional.

A pesquisa objetiva analisar e compreender quais são os “espaços” (formais, informais, emergentes) disponibilizados (intencionalmente ou não) para o esquecimento, pelos currículos

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que utilizam como dispositivo de formação o trabalho com memória(s). Para tal, compreendo ser pertinente discutir aspectos teóricos relacionados ao esquecimento, a partir de autores como Nietzsche, Ricoeur e Freud.

O esquecimento é entendido como atividade, força possibilitadora do novo, simbolizando uma forma de saúde forte, uma força plástica. Nietzsche mostra como o esquecimento pode ser um fator permissivo da felicidade do homem. Para ele, o esquecimento seria uma força ativa capaz de absorver animicamente as impressões acumuladas na memória, acúmulo este responsável pela prisão do homem ao seu passado, como se este passado tivesse um peso e fosse arrastado pelos seus próprios calcanhares, como se arrastasse correntes. Dessa maneira, Nietzsche fala sobre a felicidade dos animais que de nada sabem porque de nada se lembram.

Para esta investigação, é senhor compreender que é como dano à confiabilidade da memória que o esquecimento é sentido. Dano, fraqueza, lacuna. Sob esse aspecto, “a própria memória se define, pelo menos numa primeira instância, como luta contra o esquecimento” (RICOEU, 2010, p. 424).

O trabalho estrutura-se em cinco sessões, as quais buscam apresentar questões teóricas sobre a “arte” de lembrar e esquecer no processo formativo. Baseamo-nos em Ricoeur, no sentido de que o esquecimento está associado à memória e pode ser considerado como uma de suas condições.

Na primeira sessão, “Memorial, Memória e Esquecimento na trama da minha formação”, apresento meu memorial, escrito inicialmente no meu TCC do curso de Pedagogia FACED/UFBA. Atualizado em outros momentos, já como aluna do Programa de Pós-graduação. Para a tese, acrescento a gestora da educação e a questão do esquecimento que não está presente nas outras versões. O memorial está estruturado da seguinte forma: Memória, As minhas histórias, A itinerância no projeto Irecê, O caminho na pós-graduação, gestora da Educação – município de Ibititá/BA, O esquecimento do esquecimento.

Contudo, rever meu próprio memorial trouxe-me a inquietação que gerou esta tese: o esquecimento do esquecimento nos currículos que utilizam como diapositivo de formação o trabalho com memórias.

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Concluo a seção com as intenções da pesquisa, ou seja, compreender a temática Esquecimento nos currículos de formação de professores, tendo como campo o curso de Pedagogia do Programa de Formação de Professores da Universidade Federal da Bahia/Faculdade de Educação, em parceria com os municípios de Irecê (duas turmas) e Tapiramutá/BA (uma turma).

A segunda sessão, “As Memórias como dos dispositivos dos Currículos de Formação de Professores”, é apresentada na direção do trabalho com histórias de vida nos currículos de formação de professores, bem como do espaço conquistado no cenário da formação docente. Diante do contexto, o currículo do Projeto Irecê utilizou as narrativas como dispositivo formativo, memorial, diário de ciclo..., configurando-se atividade autobiográfica para formação docente. O Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) manifestou-se na perspectiva do texto memorialístico como uma proposta articulada à produção textual, desenvolvida no processo, ao longo dos seis semestres de duração do curso de Pedagogia. A proposta pautou-se na reconstituição da história dos/das docentes, sendo a condição de narradores tecida continuadamente, num texto em que passado e futuro se transformam na ação reflexiva através da memória.

A terceira sessão, ‘O Lugar do Esquecimento na Memória’, se desenvolve em apresentar o sentido do esquecimento ao qual nos baseamos para a compreensão do trabalho, apoiados em autores como Nietzsche, Ricoeur e Freud. O esquecimento é entendido como atividade, força possibilitadora do novo, simbolizando uma forma de saúde forte, uma força plástica. Ainda nessa seção, discutiremos o lugar do esquecimento na memória, na perspectiva da fábula de Borges, com Funes, o memorioso.

Na quarta sessão, “Os Rastros da Memória-Esquecimento: os caminhos da pesquisa”, busco apresentar princípios epistemológicos e metodológicos que sustentam a opção pela pesquisa fenomenológica e existencial (DUTRA, 2002). Para a análise interpretativa das fontes, apresento a fenomenologia da memória-esquecimento com a ideia de “Rastros do Esquecimento”, baseada em Paul Ricoeur, e as dimensões da taxionomia do esquecimento: esquecimento de uso e abuso, esquecimento de registro, esquecimento de comando, esquecimento de ruptura, esquecimento de luto ou fuga, esquecimento recalcado, esquecimento silencioso, esquecimento feliz. Entendo que os oito tipos apresentados na

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taxionomia do esquecimento mantêm entre si reciprocidade e dialogicidade constante com a memória.

“A arte de Esquecer e Lembrar no/do Projeto Irecê” caracteriza-se como quinta sessão, tendo em vista a apresentação das dimensões da taxionomia do esquecimento iniciadas por trechos da fabulosa narrativa da Odisseia, o “banquete” do esquecimento, a partir da caracterização dos cenários memorialísticos do Projeto Irecê. Apresentarei algumas histórias, com a intenção da interação leitora e construção de significações do/no Esquecimento.

Convido o leitor a partilhar comigo das aprendizagens construídas até o presente momento, no sentido de ampliar novos “olhares” sob o campo dos currículos de formação de professores que trabalham como dispositivo formativo com memórias. Mas antes que me esqueça, mesmo que por um breve momento, vamos às memórias, aos esquecimentos.

(23)
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CAPÍTULO I

2 MEMORIAL, MEMÓRIA E ESQUECIMENTO NA TRAMA DA

MINHA FORMAÇÃO

Ah quanta vez na hora suave Em que me esqueço... Não ignoro o que esqueço. Canto por esquecê-lo. Procuro despir-me do que aprendi. Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram. Fernando Pessoa Figura 02 – Noite estrelada (The Starry Night), 1889, Vincent Van Gogh.

Óleo sobre tela, 921 x 737 mm. MoMA.

Fonte: Google Art & Culture.

Inicio esta tese com a tela Noite estrelada, de Vincent Van Gogh, feita em 1889, a qual foi pintada com elementos de sua memória, através de observações de paisagens. Dentro do asilo, o holandês recordava as paisagens que viu em Provence e traduzia-as em pinturas, eternizando sua memória.

E as memórias são eternas? Como eternizá-las? Será preciso eternizá-las? Registros, linguagem, narração...

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Inspirada nas nossas vivências nos cursos de Licenciatura em Pedagogia nos municípios de Irecê e Tapiramutá pela Faced/Ufba e na narrativa de Jorge Luís Borges em seu conto “Funes, o memorioso”, nesse trabalho questiono sobre quais são os “espaços” disponibilizados para o esquecimento pelos currículos que utilizam como dispositivo de formação o trabalho com memória(s). O intuito do presente texto é apresentar o sentido do esquecimento ao qual nos baseamos para a compreensão do trabalho, apoiados em autores como Nietzsche, Ricoeur, Freud e Weinich.

Não pretendo apresentar todos os acontecimentos oportunizados pelo esquecimento nos cursos, até porque muitos deles foram esquecidos por mim e pela equipe, mas os que as nossas memórias preservaram têm um lugar importante para a análise que busco fazer.

O esquecimento é entendido como atividade, força possibilitadora do novo, simbolizando uma forma de saúde forte, uma força plástica. Diferente do protagonista da história de Borges, Irineu Funes que sofreu um acidente que lhe fez perder a capacidade de esquecer. A incapacidade de esquecer se transformou na doença de Funes que acabou sendo apelidado de o memorioso. Nada escapava à arrebatadora memória de Funes. Cada folha caída no chão, cada acontecimento, por mais insignificante que pudesse parecer, não escapava às garras de sua memória excessiva. Duas ou três vezes havia reconstruído um dia inteiro; nunca havia duvidado; cada reconstrução, porém, já tinha requerido um dia inteiro (BORGES, 2005).

Na fábula de Luís Borges, haveria, portanto, uma medida no uso da memória humana? Segundo uma fórmula da sabedoria antiga, o esquecimento não seria, portanto, sobre todos os aspectos, o inimigo da memória?

Partindo da fábula “borgeana” e guiados por esses questionamentos, inicio o presente texto como meu memorial, escrito inicialmente no meu TCC do curso de pedagogia Faced/Ufba. Atualizado em outros momentos, já como aluna do Programa de Pós-graduação, compreendo esse escrito como a continuidade do meu processo de reflexão. Para a tese acrescento a gestora da educação e a questão do esquecimento, que não está presente nas outras versões.

Ingressei em 2008 no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal da Bahia, com o tema de pesquisa Memória na Formação Docente: um Estudo do/no Projeto Irecê. A pesquisa buscou a interpretação do movimento formativo dos professores da rede municipal

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de Irecê em processo de formação superior no Curso de Pedagogia da Universidade Federal da Bahia1.

Rever meu próprio memorial trouxe-me a inquietação que gerou esta tese: o esquecimento do esquecimento nos currículos que utilizam como dispositivo de formação o trabalho com memórias.

2.1 O ESQUECIMENTO SENTIDO NA PELE DA MEMÓRIA

No trabalho com a formação de professores da Rede Municipal de Tapiramutá, o esquecimento permeou quase todo o curso. Um lugar chamado de “entroncamento de Porto Feliz/BA” hoje compõe o “lugar outro da memória” de muitos da equipe que viajaram até lá para suas aulas, pelo fato de ter sido o lugar onde o esquecimento teve um lugar privilegiado, ou por ter tornado traumas e desesperos. Nas memórias do curso, pude notar que esses esquecimentos não passavam despercebidos, oportunizando discussões densas dentro do grupo, também via e-mails, como os que resgato aqui.

De: cliviopimentel<[email protected]>

Para: Tapira Orientadores <[email protected]> Enviadas: Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2012 11:29

Assunto: [tapiramutaorientadores] Minha vez de ser esquecido.

Olha pessoal,

É com muita tristeza que venho comunicar meu esquecimento em Porto Feliz.

Esquecer as pessoas em plena madrugada naquele lugar é um absurdo, é um desrespeito à existência do outro.

Eu sempre fiquei muito tocado quando as pessoas relatavam aqui na lista que foram esquecidas, já que, como muitos sabem, sou um pouco medroso. Passar por isso foi terrível.

Desci do ônibus ainda meio tonto de sono, não percebi que não havia carro para me pegar e não sinalizei para o motorista do ônibus me esperar, já que tinha em mente, se caso isso um dia acontecesse comigo, iria para Irecê e faria contato de lá. Acabei aguardando sozinho

1O campo empírico da investigação que alimenta o presente estudo é o Curso de Pedagogia Ensino

Fundamental/séries iniciais, realizado pela Ufba nas cidades de Irecê/BA e Tapiramutá/BA, com vistas à formação de professores da Rede, aqui denominados de professores-cursistas. O memorial começa a ser elaborado desde a seleção para ingresso no curso, é alimentado no percurso curricular dos cursistas e apresentado como trabalho de conclusão do curso.

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naquele lugar horrível, sem contato algum e com celular descarregado. No final, consegui carona de um carro que, por sorte, passava por lá naquele momento. O medo de não saber a quem estava pedindo carona foi menor do que o de ficar ali até de manhã... Cheguei lá às 03:00 e sai de lá praticamente 04:00.

Rose, Inez e Prof. Aureo, sinceramente, eu vou pensar duas vezes se volto aqui pra terminar esse GEAC. Por enquanto, não tenho mais vontade alguma de fazer isso.

Arrasado, Inez Carvalho <[email protected]> Para [email protected] 12/12/12 às 4:27 PM Prof. e equipe,

Reconheço que a nossa comunicação, daqui de Salvador, não foi eficiente. É uma pena, independente das responsabilidades, que mais uma vez alguém tenha ficado na madrugada de Porto Feliz. Temos que nos esforçar mais ainda para que não volte a acontecer.

Um abraço INEZ

De: Janete Modesto de aquino<[email protected]> Para: "[email protected]"

<[email protected]> Enviadas: Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2012 16:57

Assunto: Re: [tapiramutaorientadores] Minha vez de ser esquecido..

Lamentamos que Clívio tenha ficado em Porto Feliz às 02:40 da manhã do dia 12/12, sem ter um motorista sequer esperando por ele. Não há nenhuma informação no moodle nem comunicação via telefone ou email sobre a vinda de Clivio. A equipe de Tapiramutá estranha que haja uma crítica contundente de que somos responsáveis por uma falta que na realidade não o somos. Vale salientar que o cronograma de viagens do mês de dezembro foi solicitado, por email e tel. Todavia, não foi enviado. Para esta semana foi informado por Maiza via telefone somente a vinda dos professores Flavio, Elica e Isis.

Atenciosamente, Aureo Bispo e equipe

De: cliviopimentel<[email protected]>

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Enviadas: Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2012 11:29

Assunto: [tapiramutaorientadores] Minha vez de ser esquecido.

Rsrss... Vcs são ótimas..

Porto feliz ta mais pra entre-lugar né!?Rsrss.. Clivio Pimentel Jr.

Enviado via iPhone

Em 13/12/2012, às 11:22, Fabrizia Pires de Oliveira <[email protected]> escreveu:

Clívio, uma analogia com meu tema de pesquisa....só para brincarmos um pouco, lamento o ocorrido....

"Entre o Esquecer e o Traumatizar: O lugar do esquecimento em um Curso de Formação de Professores - Porto Feliz/BA.

De: Rosane Vieira <[email protected]>

Para: cliviopimentel<[email protected]>; Inez Carvalho

<[email protected]>; Fabrizia<[email protected]> Enviadas: Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2012 0:31

Assunto: esquecimento

Precisamos discutir esquecimento em Tapira... Acho que memória tem ficado na BR... Desculpe a piada infame!

Figura 03 – Esquecido na estrada

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Entre tantos esquecimentos, como este narrado por Clívio via e-mail, alguns tiveram maior ou menor importância, porém não deixaram de ter, seja para bem ou para o mal, para a reflexão ou para o trauma, para alimentar a memória ou apenas para dar lugar ao esquecimento. Nessa trajetória, a minha memória me permite destacar com mais pertencimento o esquecimento de alguns integrantes da equipe Ufba/Irecê no hotel Quatro Rodas, quando os alunos já estavam à espera da aula no Espaço Ufba. Recordo-me que os motivos circundavam entre o esquecimento da equipe administrativa em colocar na escala de transporte para pegar um/a professor/a no hotel ou até mesmo o próprio motorista (já com a escala em mãos) de esquecer de buscar. Os cursistas ficavam furiosos, questionando, relatando que o tempo da aula ficava prejudicado, porém, ainda que houvesse muitas explicações nossas ou do motorista, geralmente a razão se dava pelo esquecimento. E hoje, como uma memória aqui trazida, essa “experiência formativa” se tornava constantemente num “movimento contemplativo e de reflexão”.

Dou uma pausa somente por um instante nesse e-mail, discutiremos com mais afinco o esquecimento ali sentido... nas próximas seções, salientamos que Porto Feliz é um entroncamento que leva à cidade de Tapiramutá, onde o ônibus de linha semileito faz sua parada e segue o destino até Irecê. Os fios que tecem a narrativa sobre as memórias apresentadas no meu memorial nos remetem a compreender o “esquecimento como o outro lugar da memória” (MOTTA, 2008, p. 85).

Falar de memória(s) em um memorial é algo que me aproxima daquilo que vivencio no dia a dia no tecer das minhas vivências e experiências no continuum formativo que me tornaram e me torna professora, pois para Souza:

O sentido da recordação é pertinente e particular ao sujeito, o qual implica-se com o significado atribuído às experiências e ao conhecimento de si, narrando aprendizagens experienciais e formativas daquilo que ficou na sua memória. (SOUZA, 2004, p. 215)

Por experiência entendemos como Larossa, que a coloca como elemento de transformação do sujeito, ou seja, só pode ser considerada experiência a vivência/ação que nos transforma. Para ele, experiência é aquilo que 'nos passa', ou que nos toca, ou que nos acontece, e ao passar-nos, nos forma e nos transforma. Assim, para que a vivência se configure em experiência formativa, é preciso que haja um movimento contemplativo e de reflexão.

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Memória e experiência imbricam-se na constituição da identidade histórica, em uma perspectiva heideggeriana, de cada ser-no-mundo, e a narrativa é um elemento propulsor de compreensão desses percursos. Para escrever essas histórias envolvo as múltiplas referências que me compuseram, o meu saber e fazer ao longo de sua existência.

Falar de memória é remeter a um mundo de realidade, fantasias e sonhos; abordarei aspectos já discutidos em meu memorial, que foi apresentado à Faculdade de Educação da Ufba como requisito para conclusão do curso de Pedagogia.

Toda memória transmite experiência, combina, comprime, exagera e destila o passado, em vez de simplesmente refleti-lo. Conforme Delgado (2003, p. 21):

As narrativas são caracterizadas pela arte de contar, de traduzir em palavras as reminiscências da memória. Como fontes para construção do conhecimento histórico, seu potencial é inesgotável”. Uma História é uma narração, com base na “realidade histórica” ou puramente imaginária (Le Goff, 1996), pode ser também uma narração histórica, uma fábula, uma narrativa épica; ou ainda uma história linear. (FEITOSA, 2005, p. 27).

Dessa forma, a história contempla, em sua dimensão temporal, pelo menos dois aspectos: “o da sucessão linear e o da simultaneidade social” (DELGADO, 2003). Se a percepção do passado implica mais que o movimento linear, e sabemos que a natureza linear da narrativa restringe a compreensão histórica, pode-se deduzir daí que circunstâncias sociais, culturais, políticas foram ou ainda são usadas atualmente para legitimar a linearidade (FEITOSA, 2005).

Dessa maneira, a memória se constitui de si mesma e de seu avesso. Não se trata apenas da lembrança, uma faculdade psíquica. Ela se institui, simultaneamente, da lembrança e do seu relato. A Memória é, em suma, a narrativa do que é memorado (FERREIRA, 2003 apud FEITOSA, 2005).

Assim narrarei as lembranças dos fatos que selecionei, trazendo para o presente acontecimentos já vividos. Por acreditar que memória é, segundo Ferreira (2003, p. 111 apud FEITOSA, 2005, p. 28), “construção do passado pautado por emoções e vivências importantes, por acreditar que” é através, sobretudo, das nossas narrativas que “construímos uma versão de nós mesmos no mundo” (BRUNER,1996, p. 14 apud MACEDO, 2005).

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“Um jogo” entre o que esquecer, o que lembrar e o que falar que, embasado em vestígios concretos, resulta em uma história. “Um jogo que estarei usando para inventar a história” (CARVALHO, 2001 p. 10).

Fatos que selecionei, lembrar para o presente, acontecimentos já vividos dentro do Projeto Irecê. Toda memória transmite experiência, combina, comprime, exagera e destila o passado, em vez de simplesmente refleti-lo. Conforme Delgado (2003, p. 21), “as narrativas são caracterizadas pela arte de contar, de traduzir em palavras as reminiscências da memória. Como fontes para construção do conhecimento histórico, seu potencial é inesgotável”. Uma História é uma narração, com base na “realidade histórica” ou puramente imaginária (LE GOFF, 1996), pode ser também uma narração histórica, uma fábula, uma narrativa épica; ou ainda uma história linear (FEITOSA, 2005).

Dessa forma, a história contempla, em sua dimensão temporal, pelo menos dois aspectos: “o da sucessão linear e o da simultaneidade social” (DELGADO, 2003). Se a percepção do passado implica mais que o movimento linear, e sabemos que a natureza linear da narrativa restringe a compreensão histórica, pode-se deduzir daí que “circunstâncias sociais, culturais, políticas foram ou ainda são usadas atualmente, para legitimar a linearidade” (FEITOSA, 2005 p. 27). Por acreditar que memória é, segundo Ferreira (2003, p.111 apud FEITOSA, 2005 p. 28), “construção do passado pautado por emoções e vivências importantes”, ao longo do Curso os professores envolvidos alimentam o memorial de cada um, por acreditar que é através, sobretudo, das nossas narrativas que “construímos uma versão de nós mesmos no mundo” (BRUNER, 1996, p. 14). Dessa maneira a memória se constitui de si mesma e de seu avesso. Não se trata apenas da lembrança, uma faculdade psíquica. Ela se institui, simultaneamente, da lembrança e do seu relato. A Memória é, em suma, a narrativa do que é memorado (FERREIRA, 2003 apud FEITOSA, 2005).

Cientes de que pesquisar é antes de tudo inquietar-se, é questionar a realidade procurando respostas sempre temporárias, pois, no contato com as mesmas, novas inquietações engendram-se levando-nos à busca incessante de novas respostas e explicações, vou inventando minha história, respeitando ou pelo menos tentando respeitar os conhecimentos trazidos e compartilhados entre todos envolvidos na pesquisa. Inventar: palavra que etimologicamente

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vem de invenire: fazer vir à luz do dia o que já existe, vivido amplamente na experiência cotidiana (CARVALHO, 2001).

Assim outras vozes aparecerão além da minha. Um aspecto a ser levantado é que a história de micronarrativas provoca a valorização da memória, principalmente a social e popular. Reacendendo a polêmica questão se memória é história. Roger Chartier, baseando-se em enormes reconhecidos como Eric Hobsbawn e Français Bédarida, argumenta que, embora as relações entre memória e história sejam fortes, não são conceitos (história e memória) similares, pois apenas a história “está inscrita na ordem de um saber universalmente aceitável, ‘científico’” (CHARTIER, 2000, p. 19 apud CARVALHO, 2001, p. 8).

A ideia foi vivenciar o cotidiano do Projeto Irecê com o entendimento de não “permitir que nossos métodos determinem a nossa visão em relação ao cotidiano, mas permitir que nossa visão determine os nossos métodos” (DOUGLAS, 1971, p. 11 apud CARVALHO, 2004, p. 56).

“Os seres humanos são ao mesmo tempo sujeitos e objetos de investigação nas ciências sociais e o estudo do mundo social é, em essência, o estudo de nós mesmos” (J. K. SMITH apud SANTOS FILHO, 1995).

Em uma pesquisa do cotidiano, tem papel importante o conhecimento e a aceitação da indexibilidade, essa linguagem própria de cada grupo, que as ciências absolutistas procuram contornar sem nunca conseguirem. Então, os grupos podem e devem ser olhados sob vários ângulos: diferentes, complementares ou mesmo contraditórios.

“Abandona-se, assim, a ideia de uma teoria única e se descobrirão perspectivas ao invés de categorias” (CARVALHO, 2004, p. 54). É nessa direção que convidamos o leitor para percorrer as nossas memórias e a itinerância no Projeto Irecê.

2.2 AS MINHAS HISTÓRIAS

MINHA ESCOLA (PARA O “BEM” E PARA O “MAL”) INESQUECÍVEL A INFÂNCIA

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Lembro-me com saudades da minha infância, nasci numa cidadezinha do interior da Bahia, chamada Ibititá, na conhecida rua da mata. Minha mãe costumava relatar a história do meu nascimento, foram três dias em trabalho de parto, muito sofrimento até eu vir ao mundo, nasci de parteira, mãe Du, muito conhecida na cidade. Viver na mata era realmente encantador, o lugar das fantasias, das brincadeiras, dos sonhos. As árvores, os “pés de manga”, as brincadeiras de lama, de casinha, de boneca, de “bila”, o corre–corre após a chuva atrás da “tanajuras” com minhas primas me faz recordar de uma época de extrema felicidade. A rua da Mata era afastada do centro da cidade, na verdade era uma chácara do me avô, nessa época só morava mesmo minha família, que posteriormente transformou em uma rua. Minha mãe vem de uma família muito pobre e negra, que, graças a sua determinação, conseguiu concluir o ensino médio, naquela época poucos conseguiam. Ela começou a lecionar com 15 anos para a rede municipal e logo depois foi efetivada como professora do estado, isso era uma conquista enorme para uma família sem tradição em uma cidade cheia de preconceitos. Sendo filha de professora municipal e estadual eu era a privilegiada entre minhas primas; eu tinha a bicicleta, a bota da Xuxa e o bambolê rosa com laços de fitas amarelas. Chegava a época da escola, minha primeira experiência escolar foi aos 5 anos na escola estadual Hermano Marques Dourado, gostava muito da escola, as cantigas, as brincadeiras e a professora Mirtes me traz saudades, e a hora da merenda então... as lancheiras da Xuxa (moda na época, anos 80), adorava cantar a música: “Chegou a hora de merendar, vamos comer bem devagar, agora preste bem atenção papel e casca não se pões no chão”. Na alfabetização já fui para outra escola estadual onde minha mãe trabalhava, com a justificativa que lá havia uma excelente professora que alfabetizava muito bem, a professora Verbênia. Não gostei muito, achava a escola feia e sem graça, bem diferente da outra em que havia estudado o pré-escolar, chorei muito pedindo para voltar para a antiga escola, mas acabei me acostumando. Essa responsabilidade pela aprendizagem da língua, da leitura e da escrita que foi atribuída pela sociedade à escola, surgiu em especial após o iluminismo, período em que nasce a escola burguesa que herdamos.

No ano seguinte surge a primeira escola particular em Ibititá, Caminho Feliz, existe até hoje, fui para lá na primeira série, cheguei parecendo um “bichinho do mato”, das meninas era a única que não morava no centro, ao responder onde morava, a resposta era sempre assim: Ah, aquela rua de casinhas depois da rua Silveira (rua proveniente de quilombos) que só mora negros! Mas não “me achavam negra”, por meu pai ser branco, pareço mais uma índia, e era assim que os professores me chamavam; Tia Ivana foi uma professora que marcou muito minha vida, ela mantinha uma relação de carinho e atenção com todos os alunos, minha primeira

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paixão aconteceu na 4ª série com um menino chamado Fabrício, ela sempre me colocava para dançar quadrilha com ele, parecia que sabia dos meus sentimentos... A Caminho Feliz promovia muitos eventos, como funcionava em uma casa alugada, as donas estavam construindo a nova sede da escola. Participava de todos os eventos, mas o maior e melhor que me lembro foi a festa de inauguração da escola nova, que pena que já estava na 4ª série, participei do desfile de abertura, desfilamos à beira da piscina, além de uma quadra nova e um parque até então nunca visto pelas crianças de Ibititá, contávamos os minutos para o recreio, as brincadeiras, o vôlei na quadra nova, vem como uma câmara lenta na minha memória. A forte presença de ludicidade podia ser vista naquele espaço escolar. Ludicidade, é bom que se frise, entendida não exclusivamente ligada à existência de jogos e brincadeiras (RAMOS, 2000), mas tomando a conceituação de ludicidade proposta por Luckesi, como um “fazer” humano mais amplo, que se relaciona não apenas à presença das brincadeiras e jogos, mas também a um sentimento, atitude do sujeito envolvido na ação, que se refere a um prazer de celebração em função do envolvimento genuíno com a atividade, a sensação de plenitude que acompanha as coisas significativas... (apud RAMOS, 2000).

Não poderia deixar de falar dos meus melhores amigos; Bruno, Lidiane, Lívia e Vanessa, que formam meus companheiros de vida escolar. Posso dizer que minha infância na escola foi muito feliz.

A ADOLESCÊNCIA

Chegado o momento do “colégio”, e agora? A única opção da cidade era o colégio estadual Democrático de Ibititá, meus melhores amigos também foram para essa mesma escola, tudo era novo, vários professores com disciplinas específicas. Lotada na 5ª B com Lidiane, já Bruno e Vanessa já foram para a 5ª C, achei tudo muito estranho e quanta novidade..., as paqueras, o recreio já podia ser na rua, não existia um porteiro, assistíamos às aulas quem quisesse, não havia inspetor. E eu sempre voltava, não havia imposição, era uma das melhores alunas da sala, nem precisava estudar muito para passar nas provas, a média era 5,0. Ao chegar o final do ano os próprios professores, colegas da minha mãe, conversaram para dizer que era um “desperdício” eu estudar em Ibititá, argumentavam que o ensino público era fraco e as várias aulas vagas prejudicavam os bons alunos. Esse rótulo de boa aluna me acompanhou até na faculdade, colocando sempre um peso em minhas costas, ao mesmo tempo em que gostava, me incomodava também. Nesse momento, nem passava por minha cabeça a possibilidade de ir

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estudar em outro município, ainda mais em Irecê, a cidade maior da região, mais desenvolvida e que minha mãe todo final de mês iria fazer compras de produtos que não encontrava em Ibititá, eu contava os dias para poder comer “Chambinho” (iogurte).

A Possibilidade de poder ir estudar em Irecê foi algo bastante significativo naquele momento, como ganhar uma boneca que você almeja muito, mas que nem comenta com os pais, já para não ouvir, um não posso. Muitas novidades em minha cabeça, quando soube que Bruno, Lidiane e Vanessa já estavam matriculados para estudar no CEII (Centro de Educação Integrado de Irecê), o colégio mais famoso da região, que atendia em sua maioria uma classe social privilegiada, comecei a me articular com minha mãe para convencer meu pai.

Meu pai não gostou nem um pouco da ideia, sendo filha única, ele era muito ciumento, acabamos convencendo-o. No dia seguinte, o mesmo foi na escola, para saber se realmente eu poderia estudar e se teria condições de pagar. Ao chegar de Irecê, com todos os livros e a farda do CEII nas mãos, pulei junto com minha mãe de alegria, parecia um sonho, fui correndo contar para todos os vizinhos, que nessa época já não era mais na mata, morávamos já em outra rua. O diretor e dono do colégio era filho de Ibititá que, ao fazer faculdade em Brasília, resolveu montar um colégio com professores capacitados e também com nível superior. Como no filme efeito borboleta, vou quebrar a linearidade da história, muitos dos meus professores do CEII hoje são colegas de trabalho em Irecê, no curso de Pedagogia Ufba/Irecê. Foi uma época de marco na educação no município de Irecê, um colégio com o quadro docente de professores licenciados nas áreas específicas e ainda preparatório para o vestibular, a maioria dos profissionais atuais da região foram estudantes de lá.

Fui para o CEII no outro dia, as aulas já haviam começado há uma semana, a maratona de acordar às 6:00 da manhã para pegar o ônibus escolar estava só iniciando, o colégio disponibilizava um ônibus exclusivo para transportar os alunos de Ibititá x Irecê. Nem dormi direito na noite anterior, às 5:00 da manhã já estava de pé, foi um encanto chegar em outra cidade, entrar no colégio e ver as coisas novas e diferentes. Coelho (2000, p. 78-79) nos diz, em seu rico ensaio sobre cultura: [...] Quando viajo, não apenas saio de meu lugar: saio de mim mesmo, mudo meu ponto de vista, sou forçado a ver outras coisas de outro modo e a ver as mesmas coisas de outro modo. Essa relação entre o deslocamento e a existência [...] não pode ser menosprezada. E não sendo o conhecimento monopólio do espaço escolar é indispensável

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estabelecer, com o estudante, relações entre conteúdos adquiridos na escola e fora dela, valorizar e aproveitar qualquer experiência vivida por ele.

Fui apresentada à turma como aluna nova, sentei perto dos meus amigos de Ibititá e aos poucos fui me entrosando com o restante da turma, que a maioria era filhos de empresários e políticos da região. A cobrança para manter a turma atenta nas aulas, era sempre que não podíamos brincar, pois quem quisesse passar no vestibular tinha que aprender e memorizar todos os conteúdos, e para passar no vestibular não havia possibilidade de “bagunça”. Isso nos remete a analisar a própria hierarquia nas/das relações inerentes à estrutura escolar reproduzida exemplarmente na sala de aula, de que para o estudante realizar alguma ação pedagógica é necessário que haja o comando do professor, que haja um líder ordenando, determinando, fora desse modelo reina a “bagunça”! E se o “líder” não for o professor, isso representa o caos? O autor de Teoria da Emergência (JOHNSON, 2003, p. 29) nos chama a atenção: “Quando vemos formatos recorrentes e estruturas emergindo de nosso caos aparente, nossa reação imediata é procurar líderes”. E mais adiante conclui: “Nossas mentes podem estar ligadas para procurar líderes, mas sem dúvida estamos aprendendo a pensar bottom-up” (JOHNSON, 2003, p. 49). Em casa fui muito cobrada por meus pais, alegando-me que não era fácil para eles me manter em um colégio caro. Roupas e supérfluos só o necessário, pois o salário da minha mãe era aplicado praticamente com meus estudos, os gastos de casa por conta do meu pai.

Consegui passar direto na 6ª série, recebi parabéns de toda a família, a maioria dos alunos provenientes de outros municípios e em escola pública eram quase sempre reprovados no final do ano.

A escola promovia muitos eventos, gostava muito de me envolver na organização; a feira de artes, a feira de ciências, a copa escolar então... evento esportivo muito disputada, o Cláudio Abílio era o colégio rival na época, eram eventos muito bons!! A coordenadora da escola, Rúbia Margareth, era muito animada e conseguia mobilizar os alunos a se envolverem completamente. Mas realmente a minha maior recordação era a disputa de notas, a partir da nota 8,0 o aluno recebia adesivos e destaque no mural da escola, a cada unidade eram selecionados do 1º ao 3º lugar por sala e exposto no mural, eu queria e conseguia sempre estar no mural, além do concurso de redação que acontecia todos os anos, o aluno que vencesse não era de imediato

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anunciado, era enviada para os pais uma carta em segredo, só na hora da premiação os alunos ficavam sabendo. A angústia no dia da entrega do prêmio me sufocava, “meu coração até doía”. No dia da entrega do certificado, havia aula normal e no intervalo os pais iam chegando para a entrega do certificado. No ano que minha mãe ou meu pai aparecia era só felicidade, no ano em que perdia ficava triste.

O ensino médio se aproximava e cada vez mais o vestibular na cabeça. Montamos um grupo de estudo na casa de Bruno e todos os dias estudávamos sem parar, encontrava dificuldades em Física e Matemática, com História e Geografia tinha facilidade, então um ajudava o outro para as avaliações assistemática e sistemática, estávamos lá nós todos os sábados pela manhã fazendo prova, perdíamos a feira livre de Ibititá. Na semana de prova, que eu até gostava, não havia aula, quando terminava a prova cedo íamos para a praça de Irecê, comer sonho e paquerar. Não gostava muito de perder a metade do sábado e, o pior, não tive muitas sextas-feiras à noite para namorar e ir para festa, parecia um castigo, as festas na boate recém-inaugurada em Ibititá eram quase sempre às sextas-feiras.

No final do ano quem não conseguisse passar direto tinha as opções da prova final e a recuperação, o aluno que não precisasse realizar essas avaliações recebia um certificado que parecia mais um troféu: “primeiro vinha uma mensagem de Paulo Freire: “Ninguém educa ninguém, os homens se educam em comunhão”; logo em seguida a frase: PARABÉNS, VOCÊ CONSEGUIU APROVAÇÃO DIRETA EM TODAS AS DISCIPLINAS, ESPERMOS QUE ESSA PRÁTICA SEJA CONSTANTE EM SUA VIDA”. Eu estudava muito durante o ano inteiro para ganhar aquele certificado, muitas vezes minha tia que morava em Salvador bancava minhas férias por lá em retribuição pelo ano de estudo. Hoje analiso que carrega o peso das cobranças que recebia dos meus pais, mas entendo perfeitamente meus pais, principalmente minha mãe, que queria que eu chegasse mais longe do que ela pôde chegar.

Posso dizer que tive momentos bons e ruins no CEII, e as amizades construídas nesse período foi meu maior troféu. Bruno é como se fosse um irmão para mim.

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No ano de 1999, fui morar em Salvador com Vanessa, dividíamos apartamento com uma moça mais velha de Ibititá que já morava há mais tempo, o sonho de morar na capital e a vontade de entrar em uma universidade era grande demais.

No começo foi muito difícil, longe da família não era nada fácil, mas aos poucos fui conhecendo as belezas naturais de uma cidade tão encantadora. Fui fazer cursinho no Sartre, no relógio de São Pedro, famoso por abranger um número alto de estudantes do interior. No começo eu nem sabia que profissão queria seguir, pensava em odontologia, mas sem nenhuma certeza.

Ao visitar minha tia, irmã do meu pai, ela me convidou para irmos à escola em que trabalhava, ela era a vice-diretora de uma creche-escola na Graça, bairro nobre de Salvador; me encantei, resolvi naquele dia que queria ser professora, no fundo acho que já era isso que me fascinava, pelas brincadeiras com as amigas e com o exemplo de casa com minha mãe. A beleza e a infraestrutura que a escola apresentava estava muito longe dos padrões da escola pública que conhecia. Minha família não gostou muito da ideia, dissera que eu tinha condições de ser uma médica ou advogada e que ser “pedagoga” era para quem não tinha “opção”, mas que a decisão seria minha. Chegando o final do ano, passei nas três universidades públicas em que tinha me inscrito, Ufba, Uneb e Uefs. Optei pela Ufba, pelo nome que a Universidade Federal carregava.

A GRADUAÇÃO –A FORMAÇÃO DE PROFESSORES NA MENTE: “O PROJETO IRECÊ”

Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.

João Guimarães Rosa O ingresso na Universidade Federal da Bahia, em 2000, no Curso de Licenciatura em Pedagogia, deu-se em um misto de euforia, comprometimento político e a curiosidade natural de quem adentra o espaço acadêmico. A opção pelo curso de Pedagogia foi uma inspiração que surgiu desde a época de criança ao acompanhar minha mãe, professora e diretora em escolas públicas do município de Ibititá/BA, minha terra natal, e tomou corpo à medida que realizei os testes vocacionais oferecidos pelo cursinho pré-vestibular que cursei no ano de 1999, já residindo em Salvador/BA.

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O Projeto Irecê: uma utopia possível – uma proposta que emerge a partir de discussões e aprofundamentos teóricos sobre currículo realizados, ao longo de alguns anos, pelo grupo que idealizou o projeto. Foi este caminho que o curso de Pedagogia/Ensino Fundamental/séries inicias Ufba/Irecê escolheu para percorrer. Um percurso difícil, com muitas idas e vindas, mas com a alegria e as dores de perceber que é possível a interlocução entre teoria e prática ou, ainda, a possibilidade do objeto de estudo dos professores no curso, ser o processo educativo, a educação em seu acontecer cotidiano, nos diversos espaços da prática social, dialogando com o arcabouço que foi construído ao longo dos anos por vários teóricos no campo do currículo e pelas práticas pedagógicas cotidianas.

O curso surgiu da demanda por formação em nível superior para professores em exercício da Rede Municipal de Irecê, oportunizando o cumprimento do disposto no Art. 62 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei 9394/96), que visa conferir, ao conjunto de professores da educação básica do País, como patamar mínimo de escolaridade, o nível superior.

ALGUMAS HISTÓRIAS DA GRADUAÇÃO

Esta minha história começa em julho de 2001. Através do mural de avisos da Faced, fiquei interessada por uma vaga para bolsista Pibic (Programa Institucional de Bolsa de Iniciação Científica) com o professor Nelson Pretto. Durante a entrevista da seleção, fiquei sabendo sobre a existência do Projeto de Formação de Professores da Faculdade de Educação em parceria com a Prefeitura Municipal de Irecê.

A cidade de Irecê fica a 470km de Salvador, no semiárido baiano, com uma população de mais de 57.000 habitantes, com uma agricultura de subsistência baseada na produção de feijão, milho e mamona. A microrregião comporta 19 cidades: Lapão, João Dourado, América Dourada, São Gabriel, Cafarnaum, Mulungu do Morro, Souto Soares, Iraquara, Canarana, Barro Alto, Barra do Mendes, Ibipeba, Ibititá, Uibaí, Presidente Dutra, Central, Itaguaçu da Bahia, Gentio do Ouro e Jussara.

Irecê comercializa tudo que é produzido nas cidades vizinhas, o que o torna o comércio local forte. Nasci em Ibititá, uma cidade da microrregião de Irecê. Tanto minha mãe quanto eu

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tínhamos o interesse que estudasse num bom colégio. Como as melhores escolas particulares encontram-se em Irecê, fui estudar da 6ª série do ensino fundamental até terminar o ensino médio no colégio CEII, era uma verdadeira maratona, íamos de transporte escolar e voltávamos todos os dias para Ibititá, essa prática ainda é muito comum por estudantes de cidades vizinhas. Esta familiaridade com os costumes e com a cultura local seria um ponto positivo naquela seleção.

Seriam escolhidas três bolsistas Pibic, o tema de pesquisa do professor Nelson Pretto era relacionado com as novas tecnologias. O conhecimento em informática era um fator decisório naquela seleção. Nelson Pretto já foi logo perguntando: “Quem entende mesmo de computação aqui”? Percebi ali que já teria dançado...por saber apenas noções básica de informática. Das treze alunas que concorriam as três vagas, só uma levantou a mão, uma carioca que tivera feito curso técnico em informática no Rio de Janeiro, ficou como primeira bolsista, a segunda bolsa ficou com uma voluntária que já trabalhava no grupo de pesquisa do professor Nelson há um ano; a terceira bolsista ficaria para o Projeto Irecê, durante a entrevista, após contar minha origem fui selecionada por unanimidade, até mesmo pelas colegas que estavam disputando comigo.

Escolhida, conheci a professora Maria Inez Carvalho, coordenadora do Projeto Irecê, cheguei num momento em que o projeto já estava elaborado e começando a montar a equipe.

Nunca poderia imaginar que fosse ouvir, na capital, falar com tanta frequência o nome Irecê. Justo Irecê que me fazia lembrar de tudo que vivi durante a minha vida, meu colégio, meus professores, meus amigos... me empolguei bastante. Mandamos o projeto para a seleção do Pibic e ficamos na torcida pela aprovação.

Em agosto de 2001 o resultado do Pibic com a contemplação de uma bolsa que no caso seria a minha.

Encantei-me pela proposta do projeto. E procurei logo saber: por que Irecê? Com tantas outras cidades mais perto de Salvador, por que ir para tão distante? Surgiu da demanda por formações em professores existentes no município, e formalmente encaminhada em novembro de 2001, pelo então prefeito de Irecê Beto Lélis, na Faculdade de Educação e também na possibilidade que a Faced criasse um curso específico de formação de professores em nível superior para

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Irecê. Estava nascendo aí o grande desafio de colocar em prática os anos e anos de estudo no campo do currículo que a Faced desempenhara.

Pode-se, então, aqui analisar-se o papel de um mural. Percebi a importância do mural como espaço de informação importante para os estudantes. Todos os dias ao chegar na Faced era como um ritual ler os murais espalhados pelos andares, não que tenha deixado de fazer isso nos dias atuais, mas a interatividade com a troca de e-mail e as listas de discussões faz o mural ficar em segundo plano, naquele ano de 2001 ainda não tínhamos os tabuleiros digitais (computadores espalhados pelos andares da Faced, com acesso fácil e rápido à internet). “O escrever passa a ser a interlocução, comunicação, portanto pleno de significação de vida, de emoção” (BONILLA, 2004).

Naquele momento, não poderia imaginar que, depois de quase três anos de caminhada, estaria fazendo este link entre a informação do mural da Faced e o Projeto Irecê. “Ao estabelecer-se a comunicação entre o que estava distinguido, procura-se obter uma visão poliocular dos fenômenos, deixando emergir sua complexidade” (MORIN, 1998, p. 30 apud BONILLA, 2004).

Como disse Drummond, encontramos uma pedra, para não dizer várias no caminho. Neste caminho tortuoso nos deparamos com os entraves burocráticos, com os embates ideológicos, com o compromisso descompromissado do poder público, com o imaginário social da figura do “chefe”, com a discordância teórica, com o não entendimento da proposta por muitos. Assim, entre “o mar e o sertão” fomos tecendo os fios que ligam os saberes do espaço acadêmico aos saberes dos professores-cursistas. Em uma simbiose cheia de sutilezas.

Fui aos poucos me envolvendo e de tal forma que já fazia parte da equipe. Sofri nos momentos difíceis, comemorei cada passo à frente que conquistávamos, e segurei os momentos de aprendizado para o meu crescimento pessoal dentro do processo de Piaget de desequilíbrio, equilíbrio e acomodação. Passei a ser vista pelos alunos e professores da graduação da Faced como referência do projeto, acreditei no compromisso social de divulgá-lo em todos os espaços de aprendizagem.

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Nas disciplinas que estudara durante o semestre na Faced, era sempre solicitada pelos professores e colegas que explicasse como era o projeto, como funcionava. Alguns professores na intenção de conhecê-lo e outros por já conhecerem e não acreditarem na proposta. Então servia de exemplo nas aulas como comparativo de um projeto escrito “por um ‘bando de loucos’ que saía escrevendo maluquices pela Faced”. Assim expressou uma professora da Faced/Ufba. Aquilo me deixava revoltada, mas aos poucos fui entendendo que faz parte de qualquer processo de construção do conhecimento, as linhas de pesquisa dentro da Faculdade de Educação da Ufba são divergentes e é nessas discussões que trocamos ideias e (re)formulamos ou não nossa maneira de pensar e encarar o mundo.

O CURSO

Não poderia faltar nesse memorial como funciona o Programa de Formação de Professores do município de Irecê, pois abrange um conjunto de projetos que são implementados, desenvolvidos e avaliados de forma interdepedente. Dentro desses sete projetos citados abaixo, o P7 já foi desenvolvido com as 19 cidades da microrregião: Lapão, João Dourado, América Dourada, São Gabriel, Cafarnaum, Mulungu do Morro, Souto Soares, Iraquara, Canarana, Barro Alto, Barra do Mendes, Ibipeba, Ibititá, Uibaí, Presidente Dutra, Central, Itaguaçu da Bahia, Gentio do Ouro e Jussara. O P4 está em fase de implantação e o P1 está em andamento. São eles:

P1 – Projeto de Formação em nível superior dos professores de Irecê/Bahia P2 – Projeto de bibliotecas virtuais

P3 – Projetos Ciberparques

P4 – Projeto Centro de Cultura comunicação P5 – Projeto de capacitação em Gestão Escolar

P6 – Projeto de reestruturação arquitetônica e urbanista das edificações escolares. P7 – Projeto de capacitação para os professores da microrregião.

Analisaremos o P1 por ter sido a primeira demanda do município. Ficou assim denominado: Curso de Pedagogia/Ensino Fundamental/Séries Iniciais Ufba/Irecê.

O Curso é uma parceria da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia com o município de Irecê. O projeto é uma iniciativa experimental e apresenta um currículo além da

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