2. A INTERFACE TEÓRICA
2.2. Esquemas imagéticos
Um dos princípios centrais à semântica cognitiva é o de que a estrutura conceitual é corporificada, ou seja, nossa constituição física, corpórea atua para a emergência do nosso sistema conceitual. Nessa perspectiva, a representação do conhecimento emerge através de abstrações construídas a partir de nossas experiências físicas no mundo. Uma estrutura conceitual corporificada, fundamental ao sistema cognitivo, e que emerge a partir da interação do nosso corpo no mundo, é o esquema imagético. Os esquemas imagéticos estão intimamente relacionados ao princípio da cognição corporificada (embodiment), ou seja, dessa proposta teórica de que os conceitos emergem através das nossas experiências corpóreas. (EVANS; GREEN, 2006).
Oakley (2007) define um esquema imagético como “uma redescrição condensada da experiência perceptual com o propósito de mapear estrutura espacial na estrutura conceitual.”11 São estruturas que fundamentam o pensamento e a linguagem humana. Nossas
experiências com objetos, com o espaço e com movimentos motivam a abstração de estruturas mentais básicas que servirão de suporte à estrutura conceitual.
Os esquemas imagéticos são estruturas pre-conceituais, ou seja, originam-se antes dos conceitos já no período da infância. Embora o termo “imagem” evoque o sentido da visão, os esquemas imagéticos não se restringem a esse sentido, mas emergem a partir das nossas interações no mundo que envolvem todos os aspectos das nossas capacidades sensório- perceptivas: experiências visuais, auditivas, táteis, gustativas, olfativas. Cabe, igualmente, uma observação sobre o termo “esquema”. No caso dos esquemas imagéticos, não se trata de esquemas fixos que serviriam apenas para receber um conteúdo; os esquemas imagéticos são representações analógicas dinâmicas. Fundamentam conceitos não metafóricos e metafóricos, e na estruturação do conhecimento podem se combinar a outros esquemas imagéticos ou submeterem-se a transformações (GIBBS; COLSTON, 2006; LAKOFF, 1987).
11An image schema is a condensed redescription of perceptual experience for the purpose of mapping spatial
Os esquemas imagéticos não são estruturas ricas em detalhes como, por exemplo, o conceito CASA. Podemos atribuir uma imagem precisa ao conceito CASA, mas os esquemas imagéticos são diferentes nesse aspecto, pois não possibilitam a formulação de uma imagem específica: são apenas esquemas ou padrões conceituais. Conforme exposição de Johnson (1987, p. 23):
“os esquemas imagéticos não são imagens ricas, concretas nem figuras mentais. São estruturas que organizam nossas representações mentais num nível mais geral e abstrato do que aquelas a partir das quais formulamos imagens mentais particulares”12
Consideremos como exemplo o esquema imagético RECIPIENTE. É um esquema simples, constituído de uma parte interior, de uma parte exterior, e de uma borda que separa o interior do exterior. O esquema imagético do RECIPIENTE – de natureza geral, desprovido de uma imagem mental – estrutura qualquer conceito específico de RECIPIENTE como, por exemplo: um copo, uma taça, uma bacia, uma embalagem de creme dental e até recipientes menos óbvios – muitas vezes metafóricos – como cama, rio, depressão, problema etc. (EVANS, GREEN, 2006).
Johnson (1987) considera os esquemas imagéticos como estruturas gestálticas, ou seja, segundo o autor, esses esquemas são um todo coerente e de significado. Johnson (1987, p. 44) afirma que:
Qualquer esquema pode, obviamente, ser analisado e esmiuçado simplesmente porque possui partes. Mas qualquer redução desse tipo destruirá a integridade da gestalt, ou seja, destruirá a unidade significativa que o torna uma gestalt particular... estou considerando que todos os esquemas imagéticos são caracterizáveis como gestalts irredutíveis.13
É difícil precisar quantos esquemas imagéticos existem. Dentre muitos tratados ao longo da obra de Johnson (1987), podemos citar como alguns exemplos os esquemas de CONTENÇÃO, TRAJETO, ORIGEM-CAMINHO-DESTINO, BLOQUEIO, CENTRO-PERIFERIA, FORÇA, EQUILÍBRIO, CONTATO, PERTO-LONGE. Estes esquemas subjazem a uma ampla variedade de estruturas experienciais e podem ser elaborados metaforicamente na construção de nossa compreensão de domínios abstratos. Na linguística cognitiva, pesquisas têm investigado o papel dos esquemas imagéticos na criação de construções linguísticas. (GIBBS; COLSTON, 2006; LANGACKER 2008; CIENKI, 2007, LAKOFF, 1987).
12image schemata are not rich, concrete images or mental pictures, either. They are structures that organize our
mental representation at a level more general and abstract than that at which we form particular mental images.
13Any given schema can, of course, be analyzed and broken down simply because it has parts. But any such
reduction will destroy the integrity of the gestalt, that is, will destroy the meaningful unity that makes it the particular gestalt that it is… I am assuming that all image schemata are characterizable as irreducible gestalts.
Apesar da ênfase comumente aplicada à definição de esquema imagético como uma estrutura conceitual corporificada básica, relacionada a experiências perceptuais, os teóricos têm apresentado compreensões divergentes sobre esses esquemas. Grady (2005) destaca que a variedade das estruturas classificadas como esquemas imagéticos se apresenta já nos trabalhos de Johnson (1987) e de Lakoff (1987), obras em que o conceito de esquemas imagéticos é proposto pela primeira vez, no âmbito da semântica cognitiva. Conforme Grady (2005, p. 38), “mesmo estas primeiras discussões na literatura propuseram candidatos a esquemas que não são ligados a qualquer aspecto particular de experiência sensória.14” E
aponta, da obra de Johnson (1987), esquemas como CICLO, PROCESSO e ESCALA. Seriam, segundo Grady (2005), esquemas referentes a uma dimensão que atravessa muitos tipos diferentes de experiências perceptuais e não perceptuais.
Turner (1991), igualmente, considera esquemas imagéticos estruturas com níveis de complexidade e corporeidade bastante variados. Infere-se das discussões do autor a ideia de que os esquemas imagéticos envolveriam estruturas esquemáticas mesmo de elaborações conceituais complexas (e de corporeidade remota) como, por exemplo, a da evolução da noção de justiça do mundo ocidental (GRADY, 2004).
Neste trabalho, adotaremos a noção de esquema imagético em sua versão prototípica. Ou seja, consideraremos, como esse tipo de esquema, conceitos básicos corporificados, fácil e diretamente identificáveis a nossas experiências perceptuais. Especificamente, as análises envolverão o esquema OBJETO e esquemas relacionados a experiência de movimento, que atuam metaforicamente no frame de APRENDIZAGEM.