2. A INTERFACE TEÓRICA
2.6. Frames, Metáforas e(m) Estruturas Simbólicas
Concluímos esta seção da interface teórica sintetizando o diálogo entre os três conceitos. Os frames e as metáforas são estruturas da representação do pensamento. Os frames são estruturas mais gerais, por representarem todos os tipos de conceitos, dentre eles, as metáforas. Ora, se as metáforas se fazem elementos constituintes de frames e estes são recursivos (como exaustivamente enfatizado na seção 2.1.2), a dedução lógica é que uma estrutura metafórica é, em si, um frame nos termos de Barsalou (1992b). Consideremos o exemplo da metáfora AMOR COMO VIAGEM (LAKOFF 2006). A noção de viagem pode ser representada por um frame constituído de atributos e valores em vários níveis de especificidade. E em cada um desses níveis, podemos ter elementos capazes de instanciar a metáfora (AMOR COMO VIAGEM) de modo mais específico, o que se evidencia nos próprios exemplos linguísticos dados por Lakoff (2006) (“sair dos trilhos”, “estrada esburacada”, “ir longe”, etc.). Ou seja, a noção de VIAGEM da metáfora pode ser representada por um frame, com atributos-valores e estruturas invariantes. Mas a identidade entre frames e metáforas não se limita a essa conclusão lógica; ela se reforça nas formulações das respectivas teorias, de Barsalou (1992b) e de Lakoff (2006).
São as convergências nas formulações teóricas que fundamentam a nossa defesa da viabilidade da interface. A interface é possível porque os componentes estruturantes dos frames se identificam com os componentes estruturantes das metáforas. Nos frames os atributos são categorizados pelos valores (num nível hierárquico superior, os frames são categorizados por seus atributos). De modo semelhante, na metáfora o alvo é conceitualizado pela fonte. Ou seja, o valor está para o atributo, no frame, assim como o conceito fonte está para o conceito alvo, na metáfora. O valor estrutura o atributo categorizando-o; o conceito fonte estrutura a metáfora conceitualizando o domínio alvo.
Para fins de ilustração, consideremos nosso conhecimento de relações amorosas sob a perspectiva de frames. A escolha pelo frame de relações amorosas é motivada pelo fato de Lakoff (2006) ter estruturado uma discussão sobre metáfora a partir desse domínio do conhecimento. Afinal, estamos propondo uma interface entre as duas teorias. Num frame de relações amorosas, podemos identificar vários atributos: as pessoas do relacionamento, o momento em que o relacionamento se inicia, o momento em que termina, o período de duração, as dificuldades do relacionamento, emoções agradáveis, emoções desagradáveis, dentre outros. Para cada um desses atributos, poderíamos assinalar diversos valores, de modo que os domínios da metáfora de Lakoff (2006) podem perfeitamente se fazer representados pelo modelo de frames de Barsalou (1992b). Os valores estruturam a conceitualização dos atributos, literal ou metaforicamente. Como demonstrado na figura abaixo27.
Figura 4 – Metáforas representadas em frame
Fonte: elaborada pelo autor.
A figura demonstra que o modelo de frame adotado acomoda adequadamente conceitos metafóricos, ou seja, conceitos provenientes de outros frames; no caso, conceitos oriundos de nossas experiências de viagem, destacadas em elipses de contorno vermelho na figura 4. Como ilustrado na figura 4, são conceitos que fazem parte de nossas experiências sobre o frame, no caso o de relacionamento amoroso. São conceitos que no frame assumem a função de valores de seus atributos, do mesmo modo que os valores não metafóricos.
Outro ponto de confluência entre as metáforas e os frames reside na forma como, em ambos, os componentes conceituais se relacionam entre si. Neste sentido, quanto aos frames, podemos nos referir ao modo como os atributos se relacionam entre si e com os valores; quanto às metáforas podemos fazer referência ao princípio da invariância. Vimos (na seção 2.1.2) que os valores são conceitos subordinados aos atributos, consequentemente, os valores herdam informação do atributo; em tampa de garrafa e tampa de panela, por exemplo, tampa herda informação de garrafa no primeiro caso, e herda informação de panela – são informações dos atributos (garrafa e panela) que torna diferente cada um dos dois tipos de tampa. Na mesma seção (2.1.2) afirmamos, com base em Barsalou (1992b), que os atributos se relacionam tanto correlacionalmente como conceitualmente. As relações entre atributos se submetem a estruturas invariantes que captam uma variedade de relações conceituais como relações espaciais, temporais, causais, dentre outras. São as estruturas invariantes que impõem restrições às formas como os atributos de um frame se relacionam – um papel extremamente alinhado com o princípio da invariância da metáfora conceitual.
Pelo princípio da invariância o mapeamento metafórico se torna possível por haver compatibilidade entre as estruturas do alvo e da fonte da metáfora. Conforme Lakoff (2006), o mapeamento não poderá causar ruptura entre os esquemas imagéticos subjacentes aos conceitos mapeados. Conforme o autor, o mapeamento preserva a topologia cognitiva do domínio fonte de forma consistente com a estrutura inerente ao domínio alvo (LAKOFF, 2006, p. 199).
Sintetizamos aqui as convergências entre frames e metáforas. Contudo, no subtítulo desta seção, registra-se “Frames, metáforas e(m) estruturas simbólicas”. As estruturas simbólicas foram detalhadas na seção anterior (2.5). Para evitar repetição do que discutimos logo acima, cabe aqui justificar o “e(m) estruturas simbólicas”. Tanto os frames como as metáforas são fenômenos da cognição humana e se manifestam por diversas modalidades semióticas. Neste estudo, os dados são linguísticos, portanto, é na linguagem que vamos investigar os frames e as metáforas. As unidades linguísticas de análise adotadas neste estudo são as estruturas simbólicas; logo, investigamos os frames e as (suas) metáforas a partir das estruturas simbólicas. Conforme discutido na seção 2.5, a constituição dos agrupamentos simbólicos coaduna com a constituição dos frames, de tal forma que advogamos serem os agrupamentos simbólicos a forma de realização dos frames pela semiose linguística. Na seção a seguir, tratamos da operacionalização da interface teórica proposta para a análise das conceitualizações de aprendizagem de língua inglesa.