Capítulo I Percurso da pesquisa, descrição inicial do caso empírico e dos contornos
1.2. O primeiro campo
1.2.2. Estadia nos lagos do Rio Paraná do Mamori
Imagem 6: Turistas durante passeio de observação de animais Fotografia: Maria Teresa Manfredo, fevereiro de 2014.
Nos quatro dias de estadia na área, realizei observação participante, registro de entrevistas abertas e de impressões no diário de campo e entrevistas exploratórias com turistas42 e funcionários do hotel43, explicando que eu possuía interesse em desenvolver uma futura pesquisa no local.
A partir de Manaus, o acesso a essa área se dá por via fluvial-terrestre-fluvial (levando cerca de três horas de viagem).
Em campo, vim saber que a energia elétrica só havia chegado a algumas comunidades do município há dois anos, devido ao programa Luz para Todos, do Governo Federal. Antes disso, era comum o uso de geradores de energia, à base de gasolina ou diesel, para a iluminação noturna das pousadas e hotéis ou de algumas casas de moradores que se encontravam numa situação econômica mais confortável.
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O roteiro dessas entrevistas semiestruturadas se encontra no Apêndice 2.
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Verifiquei também que na região havia, na época, pelo menos mais 10 pousadas e hotéis44 espalhados ao longo do Rio Paraná do Mamori, com estrutura muito parecida entre si, funcionando num sistema similar aos dos albergues da juventude ou holstels. Os preços das diárias giravam em torno de 150 reais para se dormir em rede, em quarto coletivo; 200 reais para se dormir em cama, em quarto coletivo; e 300 reais para se dormir em suíte privativa45.
As instalações dos lodges eram, na ocasião da visita, bem simples, com paredes em madeira, tetos de palha. Havia água encanada, banhos de chuveiro em água fria, ventiladores (não havia, por exemplo, aparelhos de ar condicionado ou televisores). Nos refeitório, mesas e bancos eram coletivos. Eram servidas três refeições diárias (café da manhã, almoço e jantar) e água mineral era disponibilizada aos hóspedes, à vontade. Cozinheiras, copeiras, arrumadeiras, barqueiros eram moradores do município; alguns guias turísticos eram moradores da região, outros moravam em Manaus. Comumente, as pousadas ou lodges abrigavam também um pequeno bar onde se vendiam refrigerantes, cervejas e caipirinha.
Os turistas, clientes da pousada onde me hospedara, eram majoritariamente estrangeiros, com grau de instrução universitário ou pós-graduação, faixa etária entre 20 e 40 anos. Em quatro dias de observação no local, além de mim e Michele, estiveram por lá um total 26 turistas, de 14 diferentes nacionalidades: 5 da Índia; 3 da Alemanha; 3 do Japão; 2 da Austrália; 2 do Brasil; 2 do Chile; 2 da França; 1 da Áustria; 1 do Azerbaijão; 1 dos Estados Unidos; 1 da Inglaterra; 1 da Irlanda; 1 de Israel; 1 da Rússia.
Também me chamou à atenção o fato de que todos os trabalhadores do lodge ficavam admirados ao perceberem que eu e minha companheira de campo éramos turistas brasileiras. Muitos comentários como “A gente fica feliz quando recebe turista brasileiro por aqui também”46
ou “é mais difícil ver turista brasileiro por aqui”47 foram ouvidos constantemente. Da mesma forma, chamou à atenção o fato de que todas as trilhas e passeios eram guiados e explicados na língua inglesa. Todos os avisos do hotel também eram feitos em
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Em visita ao site do sistema Cadastur - sistema que cadastra os empreendimentos, equipamentos e profissionais na área de turismo, executado pelo Ministério do Turismo -, verifiquei a existência 8 pousadas cadastradas na região do Rio Paraná do Mamori ao Rio Juma. Disponível em <http://www.cadastur.turismo.gov.br/cadastur/PesquisarEmpresas.action>, acesso 20 de junho de 2014.
45 Preços informados em fevereiro de 2014. 46
Caderno de Campo, 04/02/2014.
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placas simples, caseiras, escritas manualmente e em língua inglesa – e não em língua portuguesa48.
Imagem 7: Avisos em língua inglesa em um dos lodges Fotografia: Maria Teresa Manfredo, fevereiro de 2014.
É interessante destacar que, para um turista estrangeiro que não fale fluentemente a língua portuguesa, ou mesmo para um turista brasileiro que não conheça a região, devido à carência de informações sobre a dinâmica de transportes, horários, percursos durante a mudança do fluxo das águas, dentre outras, dificilmente o trajeto a partir de Manaus poderia ser feito sem o intermédio de agentes de turismo. Essa dificuldade se torna ainda maior, se pensarmos que quando os agentes e guias de turismo se referem ao local no qual o turista ficará hospedado, eles simplesmente o designam por “selva”, sem especificar exatamente a localidade.
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Interessante destacar aqui, o resultado de uma busca posterior que realizei pela internet. Num blog de um turista paulista que viaja pelo Brasil, há uma postagem de 23/09/2014 na qual o autor relata sobre sua experiência na região de Manaus. O turista descreve o jungle tour que participou, oferecido pela Agência de Turismo D. Sobre isso, destaco a seguinte passagem: “Uma coisa me chamou a atenção de imediato: eu era o
único brasileiro do grupo! Tratava-se de um grupo com as mais diversas nacionalidades (americanos, franceses, canadenses, iraquianos, australianos, russos, taiwaneses, japoneses, etc…). Fiquei bem surpreso (e um tanto triste), pois esperava que em um passeio para conhecer uma floresta brasileira houvessem vários brasileiros. Para preservar o que é nosso precisamos conhecer… Os funcionários da [...] [agência do Boto Jungle] perceberam aquela situação e me informaram que era muito difícil mesmo um brasileiro fazer esse passeio. Além disso, disseram que poderia haver um problema: os guias eram todos da Guiana, logo só falavam inglês, assim como quase todo mundo envolvido no tour. Por sorte eu consigo falar bem inglês, então não tive problemas. Mas já fica a dica: se você não tem noção de inglês talvez não consiga entender muita coisa das explicações e não consiga se enturmar com seu grupo."
Também vale elucidar que não havia sinal de celular ou acesso à internet nessa região de lagos. A comunicação telefônica só ocorria em algumas raras moradias que possuíam sinal de telefonia celular via satélite (ou, o chamado celular rural).
Desse modo, durante os quatro dias que passei na região, nessa primeira pesquisa de campo, permaneci lá e voltei à Manaus sem ter certeza da localidade exata onde me encontrava. Quando questionava para os guias ou moradores da região onde é que estávamos, esses muitas vezes me respondiam o nome do rio “Paraná do Mamori”, ou, o nome da comunidade ribeirinha ou lago em questão. Quando eu insistia e dizia: “mas, em termos de município, qual o nome do município?” Alguns me respondiam Careiro, outros me respondiam Castanho e outros, ainda, Careiro Castanho. Tentei ainda outro tipo de confirmação, perguntando onde as pessoas votavam, ou qual era o nome do prefeito (ocorreu- me que, de posse dessa última informação, depois poderia procurar, por exemplo, no web site do Tribunal Superior Eleitoral, e localizar de que município se tratava). Mas muitas vezes as respostas eram vagas. Posteriormente, em busca pela internet via site da Cadastur e do IBGE, assim como em conversas que estabeleci com funcionários de alguns hotéis de Manaus (hotéis com algum tipo de parceria com as agências de turismo que oferecem esses passeios de selva) ou com agentes de turismo de Manaus, vim saber que se trata de uma região de lagos e rios que dividem o município de Careiro. Dentre esses há o Rio Castanho e, talvez por isso, os moradores do município e da região comumente se referiam à municipalidade como Careiro Castanho49. A Figura 2 fornece mais detalhes sobre a localização desse município:
49 Creio que parte dessa confusão sobre a delimitação da localidade pode ser explicada através do que destaca
Neves (2005), quando trata do uso do termo “comunidade” entre ribeirinhos. A antropóloga explica que o termo adquire múltiplos significados, sendo, por vezes amplamente inclusivo e se definindo pela mínima unidade territorial ou localidade. Em outras situações ele é utilizado como sinônimo de unidade político-administrativa, base para a formulação de demandas e espaço público legitimado para os investimentos do poder municipal, responsável pela prestação de serviços públicos e comunais (escola, capela, campo de futebol, sede da associação de moradores etc.). Segundo a autora, o termo comunidade pode ainda ser designado para corresponder ao que chama de grupo de lealdades primordiais, equivalente à unidade associativa, base de ações políticas - preferentemente com reconhecimento oficial, pelo registro da fundação da associação em cartório. Comunidade, ainda, poderia ser utilizado como termo que ressalta o modelo idealizado de pertencimentos, de adesões participativas nas práticas da vida construída em comum. Na leitura de Neves (2005), todos esses fatores seriam de algum modo resistentes à inserção em campos de forças sociais organizados para constituição de “um
sistema de produção e extração de excedentes, bem como de um sistema de poder correspondente aos ideários que justifiquem as interferências civilizadoras sobre os habitantes de uma das socialmente construídas e desejadas amazônias. Essas representações ora acentuam o irretorquível, ora o indomável, ora o infinito, mas, contraditoriamente, também um espaço de intervenção para correção de rotas, sinalizadoras da aproximação de idealizações sobre uma natureza sacralizável; ou sobre uma natureza propícia à realização de sonhos de acumulação de rapina. Todas essas intenções econômicas e políticas, nesse mesmo campo, são produzidas e diferencialmente reproduzidas.” (NEVES, 2005, p. 104).
Figura 2: Localização de Careiro-AM em relação a Manaus-AM Imagem: Nokia Here Maps, 2016.
Desse modo, após essa vivência, voltei a Manaus com posse de algumas informações. Além das já citadas nas linhas anteriores, cabe destacar que percebi que os moradores também relataram que antes da atividade turística se instalar na área, os meios de sobrevivência eram a pesca ou o roçado. Muitos relataram o período anterior à chegada do turismo como um período em que não havia empregos na região. Também chamou à atenção o fato de que muitos trabalhadores do lodge me disseram que não tinham contrato de trabalho ou carteira de trabalho assinada, recebendo pelo que chamavam de comissão. Percebi também uma relação de dependência ou apadrinhamento entre o proprietário da pousada instalada na comunidade (que também é dono da agência de turismo que leva os turistas ao local) e os funcionários e moradores da região50.
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Essas questões descritas aqui serão retomadas no decorrer da tese. Sobretudo a questão que envolve as relações de trabalho na área será tratada no Capítulo IV.